domingo, 30 de setembro de 2018

Demos o troco


Uma enchente amazônica... uma explosão atlântica
A possível reinvenção da Política (Antonio Martins, Outras Palavras)
O povo brasileiro deu ontem, nas ruas de todo o país, outra demonstração de repúdio àquela que eu considero a mais expressiva representação do golpe de 2016 - Jair Bolsonaro. Com os milhões de brasileiros que, sob um arco impressionante de sua rica e colorida representação plural e sob a liderança das mulheres, disseram não à possibilidade de ele seja eleito, fica decomposta a fábula que as elites escreveram para voltar ao governo através de uma manobra jurídico-parlamentar-midiática liderada por gente da pior espécie, verdadeiros bandidos da exploração do trabalho, um pessoal de quem o Brasil se envergonha. O que aconteceu ontem, mostra que essa turma, se não sair depressa dos espaços que ocupou de forma ilegal e ilegítima vai acabar sendo varrida e linchada. 

Por que é que Bolsonaro representa tudo isso? Penso que é porque ele deixou clara publicamente a essência dos motivos e dos fundamentos ideológicos mais profundos dos golpistas. O tristemente célebre momento em que o ex-capitão do Exército justifica seu voto pelo impeachment de Dilma, um registro histórico do instante crucial da perfídia, é uma síntese: no elogio feito à tortura e ao torturador, Bolsomaro foi um porta-voz dos ressentimentos que contaminam parte da cultura política brasileira que quer manter as mãos limpas, mas que se felicita pela prática sistemática de todos os disfarces da tortura e dos torturadores: a exclusão social, a concentração da renda, o preconceito, a discriminação, a segregação, a violência, a  intolerância. Ninguém nunca acreditou que um composto orgânico dessa natureza iria legitimar sua presença no governo, ainda mais chegando ali da forma como chegou: violentando a escolha democrática que elegeu Dilma Rousseff.

Dificuldade dos ultraliberais neofascistas
é entender a complexidade social e cultural e

a sociabilidade tolerante que ela exige
Minha impressão é a de que o conceito de elite não é o mais apropriado para definir os beneficiários daquela que imaginavam ser uma nova ordem definitiva do país, pois que ele (o conceito) carrega consigo o significado de alguma virtude que justifica a presença de indivíduos que a integram, e talvez isso esteja correto,  nas no caso brasileiro não. Bastaria a referência às "reformas" que foram postas em prática para que seja possível perceber o sentido, a diretriz do golpe: a desmontagem institucional do país no campo econômico, no cultural, no trabalhista, no campo da soberania nacional. Pensávamos que Temer encarnava tudo isso. Estávamos enganados. Vistas as coisas de agora, Michel Temer não passou de um palhaço. Quem encarnava tudo isso, no conteúdo e no método, era Jair Bolsonaro, como se pode perceber agora pela natureza imprestável de seu projeto de governo que sorrateiramente foi alimentado por empresários, barões da mídia, pseudo-liberais, Juízes e... militares.

O que se viu ontem nas ruas, de forma ordeira e até bem-humorada, foi uma sonora advertência a esses estamentos do poder nacional, alguns dos quais de difícil ressignificação social no futuro próximo, já que sua imagem está fortemente associada aos desmandos que vêm sendo praticados, como é o caso desse ser indecifrável General Mourão, o vice de Bolsonaro, que leva para sua corporação todos os elementos negativos de suas desastradas aparições públicas. Aliás, o Exército como um todo, pela escolha política reacionária que fez desde sua rejeição à Comissão Nacional da Verdade, vai sair no final da linha bastante afetado na sua identidade com os princípios republicanos da Nação.

Demos o troco, acho eu. Nesta semana que chega vamos testemunhar uma encarniçada e raivosa campanha de difamação contra todas as correntes de extração política progressista e não descarto a possibilidade de alguma tentativa de ruptura baseada em algum factóide de forte impacto midiático. Aliás, o próprio Bolsonaro, na sua infelicidade discursiva de sempre, já disse que não aceita resultado das eleições que não seja o da sua vitória. Se ontem prestou atenção no que estava acontecendo no país, é melhor recuar de sua arrogância. Mas supondo que os golpistas tenham ainda alguma inteligência para perceber que estão derrotados e que aceitem isso, torço para que no dia 7 cheguem ao 2o. turno gente de bem e esclarecida, socialmente comprometida com o que verdadeiramente somos.

* Veja as imagens das manifestações (El País) * Manifestações de mulheres derrotaram Bolsonaro, diz Ciro Gomes (Valor) * Mulheres vão às ruas do Brasl e do exterior (DW) * Au Brasil, les femmes dans la rue pour dire "jamais" au candidat d'extreme droite (Le Monde) * As mulheres em rede deram a linha contra o fascismo (Sul21)  Um protesto histórico, menos pela Tv (Piauí) * A derrota do golpe de 2016 (Folha) * Fux mostra que o golpismo está no STF, não nas forças armadas (GGN) * Juiz afastado pelo CNJ por tentar recolher urnas já apoiou Bolsonaro (GGN).
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