terça-feira, 25 de setembro de 2018

Luta anti-fascista aprofunda identidade de classe e de gênero

Mulher e trabalhadora sabe contra quem é a sua luta
Luciléia Moraes Leite, entrevistada pelo jornal El País, só tem certeza de que não votará em Bolsonaro: a luta anti-fascista é o ponto de convergência da diversidade identitária e do conflito social no Brasil

É claro que ainda vai rolar muita coisa até que a radiografia do voto nas eleições presidenciais de 2018 seja feita, mas há indícios de que a determinação das escolhas políticas  de eleitoras e eleitores  está passando por uma dupla clivagem: a da classe social e a do gênero. Parece ser em torno dessas duas dimensões que está ocorrendo a definição política do voto, mais do que pelos critérios clássicos da polarização direita x esquerda. Ciro Gomes, Alckmin, Marina e até FHC podem bater o pé e insistir no aparente prejuízo que isso traz à democracia brasileira, mas essa dicotomia resulta de uma crise de representação apropriada pela construção simbólica ultraconservadora ou socialista. Se isso for verdade, não há moderação que resista... 

Digo isso em razão de uma polêmica sociológica que antecede as eleições: a possibilidade de que as identidades tenham dissolvido a divisão tradicional a tal ponto que o escrutínio e a deliberação na esfera pública seriam, antes de tudo, o resultado de uma hegemonia da fragmentação  cultural sobre as classes. Ao que parece, o que está havendo é uma hibridação que relativiza os dois modelos. Não há nada de novo nisso e penso mesmo que essa discussão já vem ocorrendo no estabelecimento de formulações teóricas que falam de uma pós-modernidade política, mas no caso das eleições brasileiras forma-se um cenário inédito em razão do grau da desorganização que o neoliberalismo provocou no país depois do golpe de 2016: nossa burguesia paga o pato por sua própria selvageria.

O resultado disso me parece ser a consagração de dois projetos antagônicos que se apresentam como alternativa, sem as mediações clássicas da conciliação (embora essa prática ainda seja usada retoricamente como aceno tanto pela direita quanto pela esquerda). Se as eleições de fato acontecerem e seu resultado for respeitado, ou a gestão do governo será desenvolvimentista e distributivista ou será ortodoxa e concentradora da renda. Para quem acha que das eleições pode emergir um novo pacto nacional, isso será uma decepção: como prevê Francisco Bicudo, no dia seguinte à divulgação dos resultados das eleições, as avenidas estarão novamente repletas de indignação.

De qualquer forma, nesta etapa do conflito já é possível perceber que a frente anti-fascista que se formou no país antecipa o dia seguinte: os ultraconservadores não vão governar o Brasil, mesmo que, por hipótese, saiam vitoriosos nas urnas: parece que o caráter rudimentar de seu projeto econômico e o reducionismo com que veem a gravidade da crise social, são evidências de que não têm nas mãos nem competência nem sensibilidade para desmontar a armadilha que ajudou a criar. 

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