sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Repúdio ao atentado contra Bolsonaro, mas...

No Acre, Bolsonaro defendeu o fuzilamento da "petralhada"
mas o crime - pois que defender fuzilamentos é crime  - não
foi visto pela PGU como passível sequer de advertência.

Nada de culpar a vítima, mas Bolsonaro, se não está sendo usado como instrumento de uma radicalização ainda maior do cenário político pré-eleitoral - fato que só favoreceria a ultradireita fascista -, está experimentando na própria pele o resultado da conivência que a mídia e o Poder Judiciário mantém com as mensagens que durante toda a campanha ele próprio tem enviado à sociedade. Muito cuidado nesta hora, portanto... 

Mídia e Judiciário endossam signficados que
Bolsonaro criou em torno de si, todos eles avessos à
tolerância e à civilidade de uma campanha eleitoral
O repúdio ao atentado que o militar sofreu em Juiz de Fora tem que ser rigoroso, contundente e claro, mas... deve vir acompanhado de um igual repúdio à irresponsabilidade com que o STF, o TSE e a PGU conduzem seu papel na arbitragem dos conflitos políticos que estamos vivendo: no lugar de funcionarem como força de equilíbrio e de moderação, estimulam a intolerância e a violência.

Acrescento a estes argumentos as reflexões feitas pela professora Esther Solano e pelo professor Gilberto Maringoni no FB: 

Solano: Repúdio total ao atentado. Dito isso parem de falar em "espiral de ódio" como se houvesse dois lados agindo igual. Não há. Quando houve os tiros à caravana de Lula, Bolsonaro comemorou. " Só um lado "brinca" de matar o outro. Só um lado aplaude os linchamentos coletivos contra negros. Só um lado ficou em silêncio na morte de Marielle. Só um lado exalta o assassinato da população LGBT. Só um lado fala em "bandido bom é bandido morto". Não, não há dois lados alimentando esse ódio violento. Há um lado, o lado da barbárie.

MaringoniA SANGUE FRIO: ATENTATO, ELEIÇÕES E TV

Jair Bolsonaro foi o assunto único no primeiro bloco do Jornal Nacional desta quinta (6), com quase 15 minutos de duração. A exposição adentrou parte do segundo, com várias chamadas ao vivo no decorrer do noticiário que, excepcionalmente se prolongou por uma hora e oito minutos. O atentado ao presidenciável é fato jornalístico de repercussões mundiais. Pelo que se informa, ele está fora de perigo.

Era inevitável que o principal informativo da TV brasileira desse ao candidato tudo o que ele não tem: tempo de exposição. Mas Bolsonaro pode ter ganho algo muito mais importante, um lugar oposto ao que vinha ocupando no palco da disputa. E isso é decisivo.

Se havia sinais de exaustão na persona pública encarnada pelo ex-militar, a facada em Juiz de Fora pode ter alterado a fase final de campanha. Pode sair de cena o agressor incondicional e maior incentivador de uma campanha pautada por xingamentos, calúnias, exaltação da ditadura e da eliminação física de adversários. E entra o agredido por esse mesmo ambiente.

Vamos combinar, é uma metamorfose surpreendente pela radicalidade e celeridade da pirueta.

O capitão reformado pode aparecer - ironicamente - em lugar semelhante ao de Lula, o de vítima. Não faltou a grave locução de William Bonner a ressaltar que o atentado foi contra o "líder na corrida presidencial". Constrói-se um anti-Lula com sinal trocado, que pode ampliar sua escala de intenções de votos aparentemente limitada a um teto ao redor de 20% do eleitorado.

Até a criançada sabe que esse não é o primeiro ato de violência na mais atípica campanha eleitoral em décadas. A jornada teve início com o assassinato de Marielle Franco, os tiros nos ônibus da caravana do verdadeiro líder nas sondagens, seguida por sua prisão e um conluio entre judiciário e mídia, que busca normalizar a anormalidade de vivermos sob um golpe.

Embora o atentado seja repulsivo, Bolsonaro agora tem sua campanha bombada a quatro semanas da votação. O posto no segundo turno está consolidado. O que o JN parece indicar é que ele se fortalece diante do indicativo de derrota em todos os cenários da última volta, exibida na pesquisa Ibope.

Ou seja, há uma tática em progresso, na qual a Globo parece ter assento: fazer com que todo o campo conservador conflua para o candidato da extrema-direita. Meirelles já se desidratou. A bola da vez, com possíveis defecções nas chapas regionais, é o tucano Geraldo Alckmin.

A esquerda tem - corretamente - condenado com veemência o atentado. Daqui até 3 de outubro é quase impossível que Boulos, Ciro ou Haddad abram mão de suas candidaturas em favor de uma chapa única. Mas a realização de pelo menos um evento conjunto seria de bom tom, para se mostrar à sociedade a existência de lados nessa batalha.

A partir daqui, a campanha eleitoral entra em um tempo político acelerado e muito mais tenso, em meio a uma crise econômica que não dá sinais de refluir.

P.S. O neandertahl que atende pelo prosaico nome de "General Mourão", vice de Bolsonaro já urrou: "Agora é Guerra". Será que a mudança de papéis ainda não está acertada?

Sugiro estas leituras: * Advogado do agressor de Bolsonaro é pago por alguém que quis ajudar (Band) * Safatle: Ataque a Bolsonaro despolitiza debate e põe esquerda no alvo (Carta Capital) * PGR não vê crime em fala de Bolsonaro (Terra) * PT vive limbo jurídico em consequência das sucessivas proibições de atuação na campanha eleitoral (GGN) * Tribunal nega mandado de Gleise para ser advogada de Lula (Estadão) * É preciso apurar com rigor o ocorrido com Bolsonaro (Jornalistas Livres) * O caos, a farda e a toga na aliança de Bolsonaro (Maria Cristina Fernandes, Valor) * Bolsonaro ameaça oponentes e ataca legitimidade da disputa eleitoral (El País) * Por que tanta gene em Wall Street torce por uma vitória de Bolsonaro (Folha) * Bolsonaro e João Roberto Marinho se reúnem na Globo (MSN).
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