sábado, 29 de setembro de 2018

Quem são esses caras?

Tortura nunca mais?

Jair Bolsonaro faz sua declaração de voto pelo impeachment de Dilma Rousseff na
sessão de Camara dos Deputados de 17 de abril de 2016: o Dia da Infâmia

Artigo de André Singer * 
transcrito da Folha de S. Paulo, 19/09/18

Nesta semana, de acordo com a Folha, Carlos Bolsonaro, vereador no Rio de Janeiro e filho do candidato presidencial Jair Bolsonaro (PSL), “compartilhou em suas redes sociais a fotografia de uma cena simulada um rapaz sendo torturado”
A horrível imagem reproduzida pelo jornal mostrava, agonizante, um jovem de barba com um saco plástico que lhe envolvia a cabeça. No peito, levava inscrita a marca “#elenão”, que virou lema dos que se opõem à candidatura do capitão reformado.
Consta da notícia que o vereador carioca, “após a repercussão negativa” da foto, negou que quem escreve a hashtag #elenão “mereceria alguma maldade”. Melhor assim, pois entendeu que propor a tortura a opositores não pega bem. 
No entanto, a suspeita de que o recuo tenha sido apenas tático vai persistir enquanto declarações de seu pai e do general Hamilton Mourão estiverem no ar.
Em 17 de abril de 2016, quando as atenções da imprensa do Brasil e do mundo se encontravam postas na votação do impeachment de Dilma Rousseff, Jair Bolsonaro dedicou seu voto contra a então presidente à “memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra”
O referido militar consta no “Brasil: Nunca Mais”, relatório dos anos 1980 liderado pelo ex-cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, como tendo comandado o Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) em São Paulo entre 1970 e 1974.

No relatório, há cerca de 400 denúncias de tortura a prisioneiros políticos naquele local e época. Mais recentemente, no final de 2014, a Comissão Nacional da Verdade registrou a morte e desaparecimento de 55 deles nas mesmas circunstâncias. 
Passados dois anos do momento em que Bolsonaro optou por se fazer mundialmente conhecido por reivindicar alguém vinculado à tortura e à morte de presos políticos, Hamilton Mourão, seu vice na presente corrida presidencial, afirmou na Globonews (8/9) que Ustra era “um homem de coragem, de determinação, que me ensinou muita coisa”. 
Pressionado pela jornalista Miriam Leitão a se posicionar sobre os mortos e desaparecidos sob a custódia do coronel entre 1970 e 1974, Mourão reconheceu que “excessos foram cometidos”, mas afirmou que “heróis matam”. 
Em outras palavras, recusou-se a condenar a tortura, evitando comprometer-se com a palavra de ordem que selou o fim da ditadura: nunca mais. 
Convém acordar para a realidade. Os elogios públicos de Bolsonaro e Mourão a Ustra não foram postagem digital de mau gosto, como a de Carlos Bolsonaro. Eles estão dizendo que a tortura é aceitável como método de luta política, hipótese banida pela redemocratização. É o que estará em disputa nas urnas dentro de oito dias.

Professor de ciência política da USP, ex-secretário de Imprensa da Presidência (2003-2007).


Nenhum comentário: