sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Um neandertal solto na política brasileira. Talvez mais do que um...

A psicologia do neandertal: ódio ao que escapa
da sua compreensão e o ressentimento predador 
que a sensação de inferioridade provoca: 
alguém assim ser eleito presidente da república?
Eu me lembro do motivo que me provocou o interesse pelo homo neanderthalensis: a leitura do romance O zero e o infinito, do escritor húngaro Arthur Koestler, publicado em 1941. O interesse não foi tanto arqueológico ou coisa parecida, mas resultou de uma curiosidade cultural que me pareceu ser a chave das reflexões que Rubashov, o herói do livro, faz sobre o policial que o interrogava durante o processo montado contra ele na pior fase do regime estalinista. Lá pelas tantas, o personagem indaga para si mesmo sobre a estranha incongruência que percebia nas atitudes do seu algoz: a dificuldade em lidar com o refinamento dos pressupostos teóricos do marxismo que o policial julgava possuir e as práticas covardes da intimidação, percepção que leva Rubashov a comparar o interrogador com um neandertal, uma espécie de primata contemporânea do homo sapiens, coisa de 400 mil anos atrás.

Por que a comparação feita por Rubashov? Porque para ele (e pra mim também), a característica principal do comportamento do neandertal era o seu desconforto com a evolução intermediária e incompleta que experimentava em si mesmo; um desajuste que decorria da sua condição ambígua meio símio/meio humanoide. Em síntese: o neandertal é um ser híbrido que não consegue se desvencilhar da sua condição de primata, mas já convive simultaneamente com alguns atributos da racionalidade que vai dar origem ao homem moderno. Era assim que Rubashov via o policial que o interrogava: a estupidez ancestral coetânea com os equipamentos da civilização, entre eles os mais elementares: a linguagem, o pensamento crítico, a observação analítica.  

Pois bem: as lembranças que tenho de O zero e o infinito retornam sempre que leio aquilo que alguns candidatos falam por aí, nessa estabanada, desastrada e vergonhosa campanha que fazem na condição de concorrentes às eleições deste ano, alguns na condição de vices, outros como titulares. Em alguns falta algum tipo mínimo de verniz civilizado, o que torna suas manifestações, por isso, primitivas e violentas, puro impulso arcaico em estado bruto, primordial (continue a leitura).
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