domingo, 28 de outubro de 2018

A segunda vítima

Cartaz na entrada principal da PUC-SP anuncia o território de resistência em que a instituição se transformou: um oásis no clima de obscurantismo que antecedeu o desfecho das eleições

A cena do repto que o pensador espanhol Miguel de Unamuno ofereceu ao general franquista Millán- Astray em 1936 na Universidade de Salamanca, em plena Guerra Civil espanhola, talvez seja mesmo a melhor representação da insuperável contradição entre o fascismo e a liberdade. Respondendo indignado ao mórbido apelo do militar sintetizado na frase "Morra a intelectualidade traidora, viva a morte" durante uma cerimônia no auditório da instituição, Unamuno produziu aquela que é, na minha opinião, a mais serena defesa da universidade: Este é o templo da inteligência e eu sou seu sumo sacerdote! Vós estais profanando este sagrado recinto (...) Vencereis porque tendes sobrada força bruta. Mas não convencereis porque para convencer há que persuadir. E para persuadir lhes falta algo que não tendes: razão e direito....

O espírito de Millán-Astray parece ter sido o inspirador da decisão da juíza Maria Aparecida da Costa Bastos na semana que encerrou a campanha eleitoral: a invasão policial da Universidade Federal Fluminense a pretexto de que a resistência ao fascismo travada por professores, estudantes e funcionários "ofendia" Jair Bolsonaro, numa interpretação desonesta do movimento e numa antecipação evidente do que nos aguarda (
leia aqui o texto de Sakamoto sobre o assunto). A decisão foi suficiente para desencadear uma onda de invasões às instituições federais de outros estados, o que confirma a peculiaridade exibida pelo Poder Judiciário brasileiro: uma indisfarçável disposição conivente com a violência pregada pela extrema-direita.

Leia também: * Um corpo na universidade (Outras Palavras) * Mesmo a ditadura de 1964 não me soava tão ameaçadora (Celso Amorim, Carta Capital).
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