quarta-feira, 17 de outubro de 2018

As luzes se apagam sobre o Brasil*

Espetáculo de rara brutalidade: estudantes e oficiais nazistas na
liturgia macabra da queima de livros de autores "malditos" pelo regime
de Hitler: um mitômano que prometeu salvar a Alemanha
A esta altura da disputa eleitoral, depois de divulgados os números da pesquisa feita pelo Ibope sobre o 2o. turno das eleições presidenciais, restam poucas dúvidas sobre o resultado dessa avalanche irrefletida que levará ao governo o capitão Jair Bolsonaro e todas as facções do  extremismo conservador que o cercam. 

Diz o Prof. José Arthur Giannotti que esse movimento quase sísmico não deixa de ser um fato positivo para a política brasileira porque trouxe à tona forças ocultas que vão ter que se civilizar: "Você não governa com ameaças e nem se mostra publicamente como bandido", diz ele. Por isso, essas forças "vão se moderar" (leia aqui). Será mesmo? Para acreditar no otimismo de Giannotti - imaginem radicais neofascistas tolerantes perambulando gentis pelos espaços públicos - é preciso também acreditar que nosso processo de modernização (os últimos 50 anos idealizados miticamente por Bolsonaro) gerou uma sociabilidade compatível com os índices de cordialidade do século XXI, o que não é verdade. Se fosse, não estaríamos diante da ameaça de um obscurantismo que pode nos fazer regredir à condição de um país culturalmente tão atrasado  e ignorante quanto foram aqueles governados por regimes teocráticos ortodoxos que existiram no mundo inteiro e que ainda existem.

As forças que vieram à tona agora no Brasil transpiram a negação radical de processos que não entendem e para os quais nunca foram educadas a entender, o principal deles o da existência da pluralidade identitária: são avessas a qualquer possibilidade alternativa de existência social fora dos rígidos padrões maniqueístas (o reino da luz x o reino das trevas) em que vivem. O efeito disso escapa a qualquer possibilidade de mediação.

É o caso, por exemplo, da área da Educação, onde desde a emergência do estúpido movimento Escola sem Partido os ânimos sempre estão à flor da pele. Segundo declarações de assessores próximos ao capitão, todos eles falando de lugares ideologicamente autorizados, o ensino, as escolas, os alunos, mas principalmente a organização curricular e os professores serão objetos de uma verdadeira fúria inquisitorial que pode devolver o aprendizado e a pesquisa em várias áreas do conhecimento à idade média, como já advertiu a revista Nature. Em artigo publicado na Folha, Bruno Boghossian diz acertadamente que a campanha de Bolsonaro, nesse segmento, substituiu quaisquer projetos escolares pelo viés ideológico aplicado ao ensino. O resultado é uma reflexão odienta feita por gente desqualificada que avança sobre a História, a Biologia, a Física. A própria existência de Darwin chega a ser posta em dúvida pelo General Aléssio Souto, ao que parece forte candidato a alguma pasta influente na área cultural (leia aqui).

Só se espanta com isso quem não conhece a lógica intelectual com que o fascismo opera o mecanismo da prática reflexiva: no lugar da racionalidade cartesiana, o critério da unicidade da verdade, sempre concebida como algo hierárquico que se desdobra não da compreensão dos fenômenos mas da sua negação, de onde o conceito de "mentiras degeneradas", isto é, as afirmações - seja na arte ou na ciência - que escapam ao gênero absoluto. Essa parece ser a lógica cultural empiricamente praticada pela extrema direita no Brasil e que já se traduz em disposição repressora, como lembra a matéria da revista Carta Capital: Mentores culturais de Bolsonaro ensaiam perseguição à arte degenerada. Difícil imaginar que um projeto dessa natureza possa dar certo num mundo marcado pela sistemática reinvenção conceitual...

De qq forma, há um engrenagem em funcionamento que alterna intimidação e terror de forma sincronizada fora do controle de qualquer instância constitucional. Penso até que não estamos mais no terreno legal, como se pode perceber nestas matérias (reveladoras de uma tensão crescente na medida em que se aproxima o 2o. urno): * Generais eleitos querem filho de Bolsonaro na chefia da Câmara e impeachment de ministros do STF (Estadão) * Tem bolsonarista querendo uma noite dos cristais (The Intercept) * Ele está por trás da maior operação antifraude das urnas (The Intercept).


* O título da postagem refere-se à célebre frase de Edward Grey, Secretário das Relações Exteriores da Grã-Bretanha, no momento em que seu país e a Alemanha entraram em guerra em agosto de 1914. A íntegra da dramática reflexão do funcionário britânico é esta: "As luzes se apagam em toda a Europa., não voltaremos a vê-las acender em nosso tempo de vida".
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