sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Exortação pela Democracia

Boaventura de Sousa Santos
Será possível impedir a implosão do Brasil?

Democratas brasileiros, uni-vos!

Boaventura de Sousa Santos
* publicado em Outras Palavras

A democracia brasileira está à beira do abismo. O golpe institucional que se iniciou com o impeachment da presidente Dilma e prosseguiu com a injusta prisão do ex-presidente Lula da Silva está quase consumado. A consumação do golpe significa hoje algo muito diferente do que foi inicialmente pensado por muitas das forças políticas e sociais que o protagonizaram ou dele não discordaram. Algumas dessas forças agiram ou reagiram no convencimento genuíno de que o golpe visava regenerar a democracia brasileira por via da luta contra a corrupção; outros entendiam que era o modo de neutralizar a ascensão das classes populares a um nível de vida que mais tarde ou mais cedo ameaçaria não apenas as elites mas também as classes médias (muitas delas produto das políticas redistributivas contra as quais agora se viravam). Obviamente, nenhum destes grupos falava de golpe e ambos acreditavam que a democracia era estável. Não se deram conta de que havia três bombas-relógio construídas em tempos muito diversos mas podendo explodir simultaneamente. Se tal ocorresse, a democracia revelaria toda a sua fragilidade e possivelmente não sobreviveria.
A primeira bomba-relógio foi construída no tempo colonial e no processo de independência, foi acionada de modo particularmente brutal várias vezes ao longo da historia moderna do Brasil mas nunca foi eficazmente desativada. Trata-se do DNA de uma sociedade dividida entre senhores e servos, elites oligárquicas e povo ignaro, entre a normalidade institucional e a violência extra-institucional, uma sociedade extremamente desigual em que a desigualdade socioeconômica nunca se pôde separar do preconceito racial e sexual (continue a leitura).

Leia também: * A vitória da insatisfação (Diego Viana, Valor) * Assim se desmonta o Estado brasileiro (José Álvaro de Lima Cardoso, Outras Palavras) * Safatle: "Quando você não acerta contas com a história, a história te assombra" (El País) * No que esbarra a frente democrática (Maria Cristina Fernandes, Valor)
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