segunda-feira, 19 de novembro de 2018

A lógica da razão simples

Vivemos quase um quadro de Magritte
 O ex-ministro da Justiça, Eugenio Aragão, tem uma explicação para a lógica da razão simples que me parece fundamentar os critérios de compreensão do mundo que dão sustentação política à situação que estamos vivendo no Brasil: a glorificação da idiotice como instrumento de dominação de massa. Temo que ele esteja certo...

As evidências disso me parecem bastante sólidas. Para a professora Angela Alonso, é essa lógica que dá credibilidade ao vazio de ideias com as quais Bolsonaro continua consolidando sua popularidade, mesmo depois de eleito. Por trás de seu jeito simples de homem comum triunfante, manifesta-se a rejeição ao complexo: quanto mais ignorante for em relação aos desafios que tem pela frente - condição que expressa em todos os enunciados que produz sobre qualquer coisa - tanto mais assegura seu controle: o despreparo como valor e não o contrário (leia aqui).

No final das contas, o axioma que essa conclusão constrói funciona como projeto que se retroalimenta, pois é justamente a impossibilidade de ter respostas para a profunda crise brasileira que funciona como resposta - uma afirmação pela negação: não sei e é justamente porque não sei que devo estar onde estou - na presidência da República. Marcos Nobre, em entrevista recente publicada no jornal El País, acerta ao afirmar que Bolsonaro foi o candidato do colapso e precisa dele para se manter no poder, o que significa que ao instalar a desordem nas ações que vai delineando na formação do seu governo - não há uma única linha coerente que possa oferecer à sociedade alguma explicação sobre o que será a futura administração - o ex-capitão confunde e brilha por isso.

Esse processo, que não é novo mas que pode estar adquirindo no Brasil uma sistematização ideológica nunca vista, vai se consolidando nos segmentos da intelligentsia nacional, até mesmo na academia, lugar onde a lógica da razão simples sempre teve representantes. A diferença é que agora eles (os representantes) tem amplificadores midiáticos reunidos na imensa conspiração sob a qual o país vive desde 2015. Dou o exemplo do economista Samuel Pessôa, um ardoroso defensor do projeto neoliberal que colocou a economia brasileira de joelhos. Em artigo publicado na Folha, Pessôa não deixa por menos: recomenda a Paul Krugman - Prêmio Nobel de economia - que estude mais antes de escrever sobre... economia, a propósito das críticas que faz a Joaquim Levy, um dos responsáveis pelo"ajuste" fiscal que faliu o país ainda com Dilma. A questão é complexa, mas é curioso que a pretensão risível de recomendar a um Prêmio Nobel que estude mais na área onde recebeu a distinção seja abrigada solitária nas páginas de um veículo como é a Folha: uma convalidação da idiotice proclamada em torno de um assunto que diz respeito à economia brasileira tal como ela deve funcionar nos próximos anos (atualizaçãoleia abaixo os textos de Krugman, Laura Carvalho e Samuel Pessôa sobre o tema)

Os exemplos são inúmeros: as bobagens ditas pelo futuro ministro da Justiça, Ernesto Fraga Araújo, entre elas as de que o nazismo era uma filosofia de esquerda e a questão ambiental é uma invenção comunista, sacramentadas pelo culto radical ao ultraconservadorismo; a forma mentirosa como o colapso do programa Mais Médicos foi noticiado pela imprensa; as suspeitas de enriquecimento ilícito que pesam sobre o futuro superministro Paulo Guedes. A lógica da razão simples impera de tal forma que Bolsonaro não tem o menor pudor em sair na defesa de sua futura ministra da Agricultura - sabidamente envolvida nos escândalos da Lava Jato.

A esquerda está às voltas com a reflexão em torno das causas que nos levou a esse ponto, como é possível ler nos textos indicados abaixo. Não me parece suficiente se isso não chegar à natureza ontológica do universo conceitual da direita e do fascismo, uma investigação que nos toma o tempo desde o fim a II Guerra, mas que comprovadamente não terminou. Autoflagelação não resolve...

* Como superar a herança maldita do golpe (Paulo Kliass, Outras Palavras) * A esquerda foi singularmente incapaz e burra nessas eleições (Jessé Souza, The Intercept) * Ladislau Dowbor vê a pauta econômica de Bolsonaro (Outras Palavras) * O poder econômico flerta com o fascismo (Outras Palavras).

* Duas palestras da Boitempo com Christian Laval: * A racionalidade liberalComum, a revolução do século XXI 

* Na Folha: A economia brasileira, de onde a crise veio e para onde a crise vai: * Por que a economia brasileira deu errado? (Paul Krugman, The New York Times, via Uol) * Samuel Pessôa: Os erros de Kurgman * Krugman acerta mais do que erra em diagnóstico da crise (Laura Carvalho)
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2 comentários:

Paulo Buhler disse...

Bom dia! Começamos bem srsr. É agora José, que fazer? Esperar e empurrar para que ele, pelo absurdo, vá ao suicídio?

Paulo Buhler disse...

Bom dia! Começamos bem srsr. É agora José, que fazer? Esperar e empurrar para que ele, pelo absurdo, vá ao suicídio?