domingo, 25 de novembro de 2018

Evangélicos: mais veneno que remédio

 The Intercept
A esta altura, antes mesmo da posse, já é possível identificar algumas linhas do governo de Jair Bolsonaro, todas elas construídas no período da campanha eleitoral. A principal característica do que temos pela frente é a do loteamento: os nomes dos ministros expressam um jogo de forças que traduzem o mercado de posições, cada uma das quais cobrando agora a contrapartida do capital que investiram na candidatura do ex-capitão. Como o presidente eleito não é exatamente alguém que pode ser definido como um estrategista, o resultado é um amontoado de iniciativas... Empresários da indústria e do agro-negócio, banqueiros, os estamentos do Estado patrimonialista-militar, todos entram  e saem dos gabinetes da famiglia Bolsonaro, diretamente ou através de seus representantes, para fazer valer o seu território, ao que parece com a única exeção do General Mourão, vice de Bolsonaro, que vai aos poucos se transformando no desconforto do afobamento da extrema direita (sobre isso, vale a pena ler Janio de Freitas)

Apesar disso, no entanto, é no plano ideológico e doutrinário que a coisa toda ganha personalidade. Não exatamente porque as várias corporações tenham qualquer afinidade com o credo bolsonarista - seja ele qual for - mas porque uma das bases da sustentação orgânica da campanha eleitoral veio da ação de um ator que me parece fundamental na etapa de agora: as igrejas evangélicas.  Essas armações confessionais já sinalizavam na sua ação dos últimos 10 ou 15 anos sua disposição de ocupar o Estado; com o colapso da representação partidária brasileira que se deu entre o final do governo Lula e as eleições de 2018, foram elas que ocuparam o vazio a partir de duas linhas de força: o seu entranhamento com o aparelho corrupto do congresso e sua capacidade de mobilização dos fieis a partir dos enunciados salvacionistas com os quais marcam sua presença na esfera pública.

Esse me parecer ser o pior dos cenários que nos espera em razão da irracionalidade que está na base dessa ação pois que é manifestamente extra-legal e anti-social, ultraconservador e baseado no senso comum arbitrário, tudo isso no lugar de uma norma republicana da prática política*. No final das contas, não há limite para essa ação e é dela que Bolsonaro e seus seguidores precisam para a consolidação do poder: uma disposição de ação que leva consigo até mesmo a Constituição - cuja legalidade passa ser relativizada pelo código cristão, tal como ele é interpretrado pela facção de pastores que lidera o processo. Não há na história registro de qualquer coisa semelhante a isso: o atraso deliberadamente assumido como projeto de governo.

* Tem toda a lógica, nesse sentido, a interpretação do jornalista Francisco Bicudo ao afirmar que nem mesmo a aprovação do projeto Escola sem Partido tem importância, em vista do clima de constrangimento da liberdade de expressão criado na área da Educação. Esse é um exemplo do que eu aponto acima como "ação extra-legal".

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