sexta-feira, 23 de novembro de 2018

O imenso vazio

No sentido horário: Anísio Teixeira, Paulo Brossard,
Janine Ribeiro, Sepúlveda Pertence
O que me deixa espantado (mas não surpreso) nas indicações que Bolsonaro tem feito para o ministério é a sua homogeneidade, uma espécie de delineamento coerente caracterizado principalmente pelo assentamento no espaço ocupado pelo novo governante em termos de articulação orgânica - base partidária, braços abertos para o Judiciário, base parlamentar, bancos, empresas. Eu diria que estamos diante de um governo com os pés assentados (ops!) no terreno do  neoconservadorismo, do ultraliberalismo, dos interesses fundiários. Se fosse possível colocar toda essa gente num mesmo salão e estaríamos diante de alguma coisa parecidas com um coral. Os apoiadores de Bolsonaro - que agora cobram sua fatia no butim - não abrem mão dos pequenos rincões em que vão se instalando, como numa festa acontece nas proximidades das mesas do buffet.

Ao lado disso, no entanto, há uma outra linha de coerência que é simultânea com essa: o assentimento ideológico, isto é, a coerência reacionária que forma um destacamento de guerra contra o progressismo. Não é necessário que os integrantes da nova patota entendam do que falam; é importante que saibam repetir ao pé da letra a nova semântica do poder fundada na rejeição rotular de toda a suspeita de contaminação socialista. Não tem muita importância ao enunciador do novo governo saber exatamente do que ele está falando, importa que esteja soltando impropérios intermitentres contra o PT, contra o MST, o MTST, a Universidade, a Escola, o Professor, o pensamento crítico, Marx, contra Lula, o liberalismo, Cuba, Mais Médicos e por aí vai. 

Quantos Paulo Guedes seriam necessários
para uma única linha de Celso Furtado?
Há nessa dupla dimensão do que promete ser o governo Bolsonaro um desenho: espaços plenamente ocupados sob um vazio impressionantemente trágico de inteligência, um vácuo intelectual grosseiro e pré-moderno, preconceituoso e ignorante, como se pode ver agora com a indicação do novo ministro da Educação. Não é necessário ir muito longe para se perceber isso: uma rápida leitura dos traços biográficos que os jornais de hoje trazem sobre Ricardo Vélez Rodríguez e salta aos olhos o imenso e rude deserto conceitual em que ele navega - o que significa dizer que a indicação não poderia ser mais adequada em vista da sua similitude com seus futuros colegas da Agricultura, da Justiça, da Casa Civil, da Saúde... todos assentados e ruminando interjeições de ódio e de atraso como elementos constitutivos de seus projetos de ação. Pobre Brasil...

E pensar que essa turma vai ocupar gabinetes onde estiveram no passado gente que honrou o pensamento brasileiro... Na Educação, por exemplo, que é a pauta de hoje, Vélez Rodrígez estaria à altura de Anísio Teixeira, de Renato Janine Ribeiro? Quantos Paulo Guedes seriam necessários para um único parágrafo de Celso Furtado? Quantos Sérgio Moro valem um Paulo Brossard ou um Sepúlveda Pertence? Gerações inteiras vão pagar caro pela irresponsabilidade que estamos assistindo... Por baixo, meu cálculo é 20 por 1, quer dizer, 20 anos de retrocesso para cada ministro bolsonariano...

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