terça-feira, 13 de novembro de 2018

Que herança é essa?

O que não faltou na historiografia sobre o golpe de 1964 foram análises que procuraram explicar a reincidência da intervenção militar na vida política e a disposição das Forças Armadas em interditar a democracia como forma de dar um rumo ao país. Não havia debate nos anos 70 que se realizasse sem a farta literatura - estrangeira e brasileira - em torno do assunto e para o qual as conclusões eram invariavelmente as mesmas: a fragilidade orgânica da sociedade civil deixava aberto o espaço para a tutela militar sob o comando de jovens turcos (isto é, para a oficialidade conservadora e positivista a um só tempo) que queriam colocar o país, unido, na trilha do progresso, mais ou menos como diz o dístico da bandeira nacional.

A vitória de Bolsonaro foi entendida por muitos como um salvo conduto para a irracionalidade: 
um Brasil que revela a impotência das elites em dar ao país um projeto 
civilizado, moderno e democrático de sociabilidade

Esse processo era tão recorrente que não escapava a ninguém a conclusão de que a intervenção militar na vida política brasileira era mais a regra do que a exceção (1889, 1922, 1930, 1935, 1937, 1945, 1954, 1961, 1963, 1964...) e, graças a isso, fechava-se a conclusão de que o único jeito de escapar da crônica sempre anunciada de um regime ditatorial era a construção de um projeto constitucional suficientemente esponjoso para absorver as inúmeras e tensas pressões de um país que não conseguia dar conta do seu dualismo. Penso que o resultado disso foi a redemocratização iniciada em 1985 e consolidada na Constituição de 1988.

Não fosse a pusilanimidade das elites - as do PT, inclusive - que insistiram num processo político que evitasse a ruptura com o passado, ou seja, conciliador e leniente com os interesses da burguesia nacional e internacional e isso teria dado certo. Não deu porque não pode mesmo dar certo um regime democrático que acomoda no seu interior a maior concentração de renda e os maiores níveis de desigualdade de toda a história. É possível sempre adiar o desfecho dessa contradição, mas me parece que não é possível evitá-la: sem as reformas que alterem a estrutura da sociedade brasileira, vamos ter um Bolsonaro a cada 10 ou 20 anos, talvez menos. O resultado é o que está aí. 

Olhando as coisas sob a perspectiva da longa duração, as eleições deste ano consagraram o modelo unitário da república castrense alimentado por uma violenta campanha ideológica que associa toda mudança que quer a redução das disparidades à velha ideologia da Guerra Fria, quando é exatamente o oposto o que acontece e só pelo oposto é que podemos sair do círculo vicioso para o qual acabamos de retornar. O garotão aí da foto não faz a menor ideia da sua estúpida ingenuidade, mas os que se aproveitam do seu impulso assassino sabem muito bem pra que ele serve.

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