sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Sinais do desastre que vem por aí...

A ultradireita tem dificuldade em lidar com as demandas que
seu rancor alimenta. Pode pagar um preço alto por isso...
Penso que o maior desafio para quem se dispõe entender a natureza e a dimensão do desastre que o Brasil vive é o de encontrar uma linha de análise que o explique, compreender o significado estruturante das iniciativas que vêm sendo tomadas ou apenas anunciadas pelo presidente eleito Jair Bolsonaro. Alguém diria que o sentido caótico e desencontrado do perfil que a nova administração vai tomando é deliberado e proposital e seu objetivo maior é desarmar a oposição que o novo governo vai enfrentar desde o primeiro dia de sua gestão. Minha opinião é mais ou menos essa mas acho que essa desordem também é resultado do despreparo que o ex-capitão sempre demonstrou para ocupar o cargo para qual foi eleito, fato que o coloca sempre atrás da linha da campanha eleitoral, como apontou o jornalista Leandro Colon.

Até agora, o documento que melhor sintetiza o espírito que orienta tudo o que vem sendo feito e prometido é o artigo de Rogério Galindo publicado no jornal Gazeta do Povo e que acabou provocando sua demissão: uma articulação conspiratória da qual participam empresários, grandes veículos de imprensa e destacamentos ideológicos dispostos a um ataque permanente contra tudo o que se construiu no país depois da redemocratização de 1985 e da Constituição de 1988. O que estamos assistindo, portanto, é uma ante-visão do que nos espera.

As evidências disso me parecem claras: o futuro governo Bolsonaro vai adquirindo o perfil de um ponto de convergência das contradições do processo de transição democrática, todas elas agora evidenciando um espírito do ressentimento acumulado pelas elites brasileiras a cada inciativa social-democrata que vingou em todas as áreas nos últimos 30 anos. Na perspectiva dos grupos que voltam agora plenamente ao poder, trata-se de um processo de restauração política, administrativa e ideológica que quer varrer da sociedade brasileira qualquer vestígio reformista ou desenvolvimentista, alguma coisa como uma contra-revolução cultural anti modernidade

De que outra forma se explicaria a indicação de um sujeito como Ernesto Araújo para ocupar o Ministério das Relações Exteriores num governo que promete tornar o Brasil atrativo para os investimentos estrangeiros? Araújo - que tem como padrinho um dos mais atrasados "pensadores" da extrema direita brasileira, Olavo de Carvalho - se apresenta como um ardoroso defensor de Donald Trump, fato que deixa de lado toda a tradição de soberania que a diplomacia brasileira usou na difícil defesa dos interesses nacionais nos fóruns globais. Sob o manto de um ultrapassado anti-comunismo, o que o Brasil vai enfrentar é um clima de desprestígio que tende a marcar nossa atuação externa com o ranço do atraso. 

A mesma disposição desse revanchismo de palanque parece ter inspirado a indicação da "musa do veneno", Tereza Cristina, para a pasta da Agricultura, uma integrante radical do que há de pior na bancada ruralista e defensora de bandeiras que certamente serão implementadas na sua gestão e que colocarão o Brasil na lanterna dos países globalmente preocupados com as questões ambientais, ombro a ombro com o que pensa Ernesto Araújo, seu novo colega, para quem a discussão climática é produto do marxismo. Como é possível interpretar diferente essa vergonha internacional que o Brasil está despertando com o ataque que o programa Mais Médicos sofreu e que jogou 24 milhões de cidadãos brasileiros na carência absoluta de assistência médica, um projeto que contava com amplo apoio da população e cuja condenação bolsonarista só se explica pela postura anti-PT ou anti-Cuba?

Penso que esse acúmulo de contradições tem pelo menos dois resultados. O primeiro é o paradoxo que os desacertos políticos provocados pelo sentido aleatório que as iniciativas do novo governo sinalizam e que têm uma consequência muito concreta: o atraso nos projetos para recuperar a economia. Um Guedes chileno vai na contra-mão da ampliação do mercado interno... O segundo é o que eu chamo de desarvoramento da própria direita em todos os setores, sua desmoralização no terreno da Educação, dos Direitos Humanos, da legislação trabalhista e sindical. Sem um projeto que articule o conservadorismo - ele próprio zonzo pelo zigue-zague do futuro governo - me parece que a tendência é a de que os conservadores pulem do barco... Quem viver, verá.

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