quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

A construção segregada do outro

No Brasil de Bolsonaro, as definições de vagabundo foram atualizadas (The Intercept)
Talvez um dos melhores textos de Rosana Pinheiro-Machado publicados nas redes: um inquérito conceitual sobre a construção do inimigo social que mobiliza o apoio ao fascismo. Já não é mais o invasor externo ou o marginal que nos ameaça a vida; agora é o outro, simplesmente, tenha ele qualquer atributo que possa representar ameaça para o sonho da estabilidade normativa: o negro, a mulher, o homossexual, o socialista, o contestador, todos enfeixados pela autora na categoria do senso comum - os vagabundos.

Como a própria Rosana Pinheiro Machado afirma: “Vagabundo” é um significante vazio que pode abarcar muita gente: ambulantes, desempregados, pessoas em situação de rua, pobres, nordestinos, putas, LGBTs, ativistas, bandidos. O que define o vagabundo não é o trabalho, honestidade ou esforço de um sujeito, mas relações de poder estruturadas no eixo raça, classe e ideologia. Lula é vagabundo, mesmo tendo estado à frente de um dos governos mais bem-sucedidos e respeitados internacionalmente da história do país.

Eis aí, segundo entendo, o espírito da dessolidarização e a legitimação da segregação que dá sentido ao senso comum organizado como articulação ideológica para o qual contribui a naturalização das relações assimétricas de poder. O Brasil do presente não será entendido se esse processo não for suficientemente discutido.
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