terça-feira, 14 de maio de 2019

Greve não é roda de conversa

Tem razão o blog 247 quando diz na sua manchete que a greve nacional da Educação que vai acontecer no 15 de maio pode restaurar a democracia no Brasil, embora o foco principal de sua motivação seja o repúdio da sociedade ao desmantelamento do ensino e da pesquisa em todos os níveis da escola - do Fundamental e Médio ao Superior, inclusive a pós-graduação. Por que há lógica na interpretação que o 247 faz do movimento? Porque esse estado institucional deplorável em que o país mergulhou com Bolsonaro está alicerçado em 3 pilares: a reforma da Previdência, a disseminação do medo e... a guerra cultural contra a liberdade de pensamento e é na Educação, segundo entendo, que esses três vetores fascistas se articulam.

Se minha interpretação estiver correta - ou próxima de algum acerto - o espalhamento da greve de 15 de maio pelo país e sua natureza massiva podem fraturar a frágil coesão das forças reacionárias que se articulam em torno de Bolsonaro e representar o resgate do pacto jurídico  da Constituição e a proteção dos direitos sociais que estão sob ataque desde o golpe que derrubou Dilma. Penso que o primeiro passo nessa direção foi dado com a manifestação de unidade dos movimentos sociais e de suas organizações no 1o. de maio, na greve da Educação e na proposta da greve geral para 14 de junho, fato também inédito, ainda que os objetivos táticos dos integrantes dessa unidade sejam diversos e até contraditórios. Mas essa é a regra do jogo democrático que permitirá ao país escapar da armadilha desarticuladora que nos imobiliza.

Estivesse vivo e Garrincha perguntaria - numa das célebres lembranças de sua vida de craque: "os russos foram avisados?". Quero dizer: o desenho do projeto, tal como procurei descrever acima, é esse mesmo? Em qualquer caso, é preciso saber se os agentes e protagonistas do movimento entendem a elasticidade com que ele se mexe, desde a compreensão do gesto de ruptura que as greves sempre significaram no seu radicalismo: greves são movimentos que truncam o funcionamento do país, das empresas, dos serviços etc; não são surtos de indignação momentânea e, por isso, aceitáveis e cordiais. No caso do dia 15 de maio a ruptura se dá pela exigência de que todas as medidas tomadas pelo governo Bolsonaro na esfera da Educação sejam revogadas e que o titular da pasta seja um nome de consenso da comunidade da área e comprometido com as diretrizes construídas pelos diversos foruns de discussão em funcionamento até o início deste ano. A Educação nacional construiu um projeto democrático repleto de gargalos, mas ele é o projeto da sociedade. O projeto da Educação fascista não esteve no escrutínio de 2018...

É esse o ponto. Greve não é roda de conversa ou meeting parecido com um happy hour de fim de tarde em alguma praça da Paulista. Greve é confronto em torno de exigências, e as escolas, em nenhum nível ou segmento administrativo, podem voltar a funcionar senão com o atendimento a esse patamar mínimo. Quero voltar a este assunto tão logo a greve de amanhã aconteça...

Sugestões de leitura: * Não é crise, é projeto (Carta Maior) * Governo em pé de guerra contra o saber (José de Souza Martins, Valor) * O trem que passou por cima da educação brasileira (DW) * O que os olavistas querem do MEC (Pública).
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