quarta-feira, 30 de junho de 2021

Cabeças, troncos e membros: onde é a saída para a civilização?

Compulsão atávica 

Cabeças de Lampião, Maria Bonita e de outros integrantes do bando que aterrorizou o Nordeste nos anos 30
A captura e a execução de todos eles, com o requinte a um só tempo sádico e mítico da decapitação como simbologia do poder que mata, está longe de ter apenas uma motivação defensiva, mas perto de um atavismo que inspira gerações de brasileiros. A cabeça separada do corpo, o corpo prostrado, impotente e indefeso, o ritual dos vencedores integrado por cânticos e gestos, rezas,  tudo isso sintetiza uma liturgia da qual ninguém deveria se orgulhar.  Só que não: em plena explosão da civilização midiático-cibernética, eis que os brasileiros mantém a essência de seus instintos primários e... festejam. 

Leia ainda: Feira das cabeças (Aurélio Buarque de Holanda, Cariri Cangaço)

O corpo de Lázaro Barbosa na imagem esfumada: 38 tiros

O cerco a Lázaro Barbosa (Objethos)


"O cerco a Lázaro Barbosa acabou com seu corpo crivado por 38 balas. O boletim da ocorrência informa que o foragido resistiu à prisão, não quis se entregar e descarregou sua pistola contra os policiais. Do lado das forças de segurança, foram disparados outros 125 tiros. 


Os números impressionam: mais de 200 homens fortemente armados perseguiram o criminoso por 20 dias. Outro exército acompanhou a operação de perto, o dos jornalistas. A cobertura virou espetáculo, um prato cheio regado a jornalismo declaratório, sensacionalismo, fake news e preconceitos. 


Precisaremos de mais algum tempo para entender essa cobertura, mas algumas perguntas já podem ser feitas: É possível cobrir episódios como este sem criar um circo midiático? Quem está reportando consegue separar curiosidade mórbida de interesse público? Conseguimos evitar as especulações e o instinto de manada? A presença massiva de jornalistas ajuda ou atrapalha na solução do caso?"

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