sexta-feira, 30 de julho de 2021

Cinemateca

Descaso transforma patrimônio nacional em cinzas

Incêndio na Cinemateca comprova abandono fascista em todas as áreas relevantes da vida nacional
O ataque que a riqueza simbólica brasileira sofre nas mãos de um governo como o de Bolsonaro não é apenas reflexo da desordem administrativa que se instalou em Brasília em 2019; é também a consequência de uma construção ideológica que vê na memória (estética ou política) um patrimônio da resistência que precisa ser subjugado e destruído. A violência com que esse processo se dá é tão cruel e predadora quanto qualquer outra, embora fique disfarçada pela natureza imaterial que os bens afetos ao imaginária e ao ideológico tem.

Penso que essa lógica, portanto, integra um projeto cuja construção nos permite identificar suas peculiaridades, desde o plantio e a disseminação organizada da desinformação, do preconceito, da segregação, até a caracterização das formas estético-expressivas da manifestação como território do niilismo ou da desordem. Literatura, Cinema, Teatro, são exemplos de espaços onde as liberdades narrativas e conceituais na apreensão da realidade social são vistas como locus de ocupação e desmontagem.

Por que então a Cinemateca brasileira e seu acervo deveriam ser preservados pois que se constituem na referência do passado e do presente como o roteiro identitário de uma sociedade? Seu desmantelamento é o resultado de um ataque sistemático que se manifesta pela desordem, pela censura, pela repressão, pelo desprezo, pelo corte de verbas, pela demonização de seus criadores, mas cujo objetivo é, em todos os casos, a sua impotência e esmaecimento.

O incêndio de ontem - ainda que a Cinemateca tenha atravessado períodos de penúria e de escassez resultantes do descaso do Estado das elites com a Cultura - tem o perfil orgânico do fascismo bolsonarista e, como tal, deve ser compreendido, denunciado e enfrentado.

Leituras sugeridas: * Após o fogo, o remendo (Piauí) * Famosos e autoridades lamentam (G1) * Perdemos 60 anos de História, afirma Calil (Estadão) * Cinemateca brasileira em chamas (Eduardo Escorel, Piauí) * MPF alertou governo para riscos de incêndio (G1) * Entenda a crise da Cinemateca (G1) * Tragédia anunciada (Carta Capital) * A tomada da Cinemateca brasileira (Carta Maior).

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