domingo, 4 de julho de 2021

Gato por lebre

TERCEIRA VIA: BOLSONARISMO SEM BOLSONARO

Doria, Huck, Amoêdo, Eduardo Leite: os artífices do desastre bolsonarista correm atrás de algum caminho que dê prosseguimento às reformas anti-sociais: são farinha do mesmo saco, mas com botox, boas maneiras e fatiotas sob medida
Confesso que fiquei (bem) impressionado com a entrevista que Eduardo Leite deu ao Pedro Bial. Há um conjunto de argumentos importantes exibidos pelo governador gaúcho para justificar a exposição pública de sua homossexualidade e penso mesmo que o fato tem um desdobramento político que vai na contramão do reacionarismo bolsonarista e evangélico que polui a inteligência brasileira. Ponto.

Não foi preciso muito para que uma postagem minha no facebook provocasse uma forte e boa ponderação de alguns companheiros para que meu entusiasmo com a entrevista de Leite caísse na real: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Quero dizer: nem toda construção identitária é progressista - porque pode ocultar e disfarçar o preconceito estrutural que nossas elites alimentam em relação ao principal desafio que o Brasil enfrenta: o desastre social em que se transformou entre nós o projeto neolberal. Pois é sob esse aspecto que a coragem de Leite em revelar sua opção sexual confronta as demais escolhas que o identificam como uma opção política perniciosa para os brasileiros. Numa eventual polarização política entre o PT e qualquer outra candidatura no 2o turno das eleições de 2022, o governador gaúcho não teve dúvidas em cravar: votaria contra o Partido dos Trabalhadores.

Aí é que está. A conversa fiada que vai sendo construída pelo empresariado e pela mídia conservadora (com destaque para a Globo e para o Estadão) em torno da necessidade de uma "terceira via" para as eleições do ano que vem esconde, na verdade, a tentativa de manter o desastre social, sanitário e econômico bolsonarista sem Bolsonaro, percepção para a qual não há meio termo: a despolarização da política é um eufemismo que quer consagrar a hegemonia dos grupos e personalidades (como é o caso de Miguel Reale Jr.) que deram ou advogaram o golpe do impeachment em 2016 e que elegeram o canalha do atual presidente da República em 2018. Quero distância dessa gente...

Doria, Huck, Amoêdo, o próprio Eduardo Leite e outros mais - em maior ou em menor medida, como candidatos declarados, como nomes disponíveis nos balcões do delivery das armações das elites ou como influenciadores palpiteiros para toda obra - são eles os representantes da verdadeira polarização que vai confinando o Brasil à condição de campeão da concentração da renda, da economia que cresce para baixo, da perda da soberania nacional, da terra arrasada dos direitos sociais e trabalhistas. 

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