quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Eleições 2022: a rebelião da miséria

Níveis de pobreza põem o Brasil à beira da revolta social e exigem reformas radicais

O crescimento da população de rua anunciado pela Prefeitura de São Paulo é alarmante: 31% em apenas dois anos. A explosão da miséria brasileira tem método e tem na capital paulista um dc seus principais termômetros, além de mostrar que a crise econômica e a pandemia têm pouco a ver com sua ocorrência.
É o capitalismo brasileiro o culpado pela tragédia social em que vivemos.
O colapso institucional que o Brasil vive - representado pela falência de todos os instrumentos de mediação entre a sociedade e o governo - tem na 'gestão' Bolsonaro apenas uma de suas evidências, entre dezenas de outras que demonstram a necessidade de uma alteração radical nas políticas públicas. Penso que a maior de todas elas (a raiz que se desdobra no cotidiano de todas as práticas) é a da desigualdade social, o gigantesco fosso da disparidade de renda que inviabiliza qualquer remendo neoliberal que é proclamado na esfera da representação política como solução para o que está aí.

Essa constatação não é nova; ao contrário: ela está na base da explicação que muitos historiadores, sociólogos e economistas oferecem para demonstrar a natureza da crise de longa duração que o Brasil atravessa desde o fim dos anos 50 do século passado, normalmente associada à incapacidade do populismo em manter em torno de si a mobilização e a emancipação dos trabalhadores sem a contrapartida das reformas estruturais que o golpe de 64 adiou. Trata-se de um gargalo estrutural que se apresenta como um obstáculo intransponível para o desenvolvimento econômico e social, embora esse mesmo gargalo tenha sido atenuado em conjunturas de crescimento e de modernização. 

As eleições deste ano me parecem o momento favorável para a retomada dessa discussão porque ela envolve um modelo econômico sucessivamente demonizado pelas elites e pela tecnocracia civil e militar que lhes dá apoio e sustentação. Tudo indica que o governo Bolsonaro e a evidência de sua inconsistência em todos os níveis mostrou a impossibilidade de que esses mesmos grupos escamoteiem a necessidade incontornável de uma mudança profunda nos rumos da nossas práticas em nome de um acordo nacional que retire das mãos da burguesia brasileira seu controle sobre o aparelho do Estado.

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