segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Semana de 22

Modernidade difícil

17 homens e um segredo ou os Modernistas, de Daniel Lannes
(pintura reproduzida no artigo de José Miguel Wisnik publicado na Folha)

De todas as reflexões que li e assisti até agora sobre o centenário de realização da Semana de Arte Moderna duas me parecem apontar de maneira mais cuidadosa sobre o que aquele evento representou e sobre os desdobramentos que suas 'propostas' tiveram na cultura brasileira: o artigo de José Miguel Wisnik publicado na Folha, e o debate organizado pelo site Tutaméia com o professor da PUC-SP, Fábio Cypriano e reproduzido no Youtube. O motivo dessa preferência é a perspectiva da análise que ambos oferecem para a interpretação dos significados da Semana: visões (cada um deles sob seu enfoque pessoal) que recusam o simplismo de um certo sociologismo que insiste em reduzir o impacto de 22 às origens de classe de seus principais representantes.

Tem resultado dessa visão uma espécie de condicionamento ideológico a que o modernismo estaria submetido em razão do vínculo orgânico que os protagonistas da Semana tinham com as elites das quais eram originários. Essa dinâmica que reduzia o alcance de suas propostas artístico-culturais à reprodução de uma visão aristocrática da sociedade brasileira. Ora, essa interpretação tanto subestima o impacto das mudanças estruturais que o Brasil viveu desde o final do século XIX quanto o grau de autonomia da Cultura sobre as determinações da construção simbólicas que configuram a representação da realidade nacional naquele período. 

O resultado desse equívoco me parece ser a exigência de um revisionismo que acaba por subestimar os processos dialéticos de inserção da sociedade brasileira na modernidade ocidental, fato que se desdobra numa iconoclastia a-histórica que elimina a compreensão das contradições que alimentaram momentos importantes da cultura brasileira.

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