domingo, 28 de agosto de 2011

Quase uma guerra colonial...

Toda a intransigência com as ex-colônias
A melhor coisa publicada na imprensa brasileira sobre a Líbia neste domingo é a entrevista feita pelo Estadão com Robert Fisk, correspondente do The Independent no Oriente Médio (leia aqui). Dono de um ceticismo revelador de seu profundo conhecimento das contradições políticas da região, Fisk parece não ter a menor dúvida de que os acontecimentos dos últimos dias na Líbia escondem uma farsa diplomática e midiática onde rolam todos os interesses, menos o da libertação efetiva do país de Kadafi. Na verdade, a aposta no caos que parece reunir as mesmas fichas que vêm sendo bancadas em outros países (Iraque, Afeganistão, Egito e, em menor medida, na Síria) há tempos indica mais uma etapa no longo processo de descolonização e de suas consequentes indefinições políticas iniciado na 2a metade do século XX.

De fato, a emergência de ditaduras populistas no Oriente Médio, assim como em outras colonias europeias da África sub-saariana e da Ásia, foi consequência de um complexo leque de variáveis que incluiu desde a modernização econômica permitida pelo boom das matérias-primas industriais até a emergência de segmentos médios da população educados no âmbito da ideologia liberal e nas proximidades com os padrões de consumo das grandes capitais da Europa. O subproduto dessas transformações foi o surgimento de uma liderança tecnocrática que teve nos militares os seus principais porta-vozes. De perfil invariavelmente nacionalista, entusiasmados com a possibilidade de construção de países soberanos na área internacional e, em alguns casos, valendo-se do papel estratégio que a URSS tinha nos anos da Guerra Fria, esses dirigentes políticos foram sistematicamente vistos com desconfiança pelos Estados Unidos e por seus aliados. Os melhores exemplos vêm justamente dessa área mais conflagrada de agora: Egito, Iraque, Líbia, até mesmo a Arábia Saudita.

Tenho a impressão que três fatos parecem sintetizar essa dinâmica. O primeiro deles foi o surgimento do Movimento dos Países Não-Alinhados nos anos 50/60, que reunia nações recém-independentes cujo principal objetivo era a construção de um bloco capaz de usar da autodeterminação não apenas nas suas demandas políticas frente ao monopólio de poder nas mãos das superpotências que emergiram em 1945.

O segundo fato é uma decorrência desse primeiro: a associação da defesa de maiores preços das matérias-primas industriais no mercado internacional ao surgimento de cartéis que dava aos países exportadores um poder de barganha política contra o qual as potências capitalistas pouco puderam fazer, em especial quando se tratou do petróleo e das ações da OPEP. O terceiro foi o desequilíbrio internacional que esses dois movimentos provocaram, um abalo nas relações de força que incluia o sistema de alianças militares regionais, a sobrevivência de Israel, o crescimento da influência soviética no 3o. mundo... Só quando a Guerra Fria terminou nos anos 90 é que esses problemas todos amenizaram seu impacto na articulação do sistema mundial de poder.

Mesmo assim, nenhum dos países que se aventurou pelo caminho da soberania política e econômica, mesmo que depois de tudo vários tenham voltado ao ninho dos principais receptadores dos investimentos internacionais, nem mesmo esses gozaram de confiança dos Estados Unidos e de seus aliados. Os últimos 20 anos constituem-se num período em que se manifestam, como em nenhum outro da História Contemporânea, a sistemática disposição imperial em aniquilar o que havia sobrado de soberania naquelas nações: Egito, Iraque, Argélia, Arábia Saudita, Líbia, Nigéria... todas elas, com fortes efeitos sobre outras regiões do globo, vistas como áreas onde todo e qualquer movimento de autonomia - econômica ou política - deveria ser aniquilada tanto pela via diplomática quanto pelas vias econômica ou militar. É fácil entender o porquê: o eventual êxito (ou a sobrevivência) dos ideais e das práticas da autodeterminação colocaria um ponto final no sistema de monopólio de poder e reconfiguraria o capitalismo e a distribuição mundial da riqueza.

É pouco provável, e eventualmente impensável, que a cobertura que a maior parte da imprensa faz dos acontecimentos recentes na Líbia leve em conta esse amplo painel onde os acontecimentos se desenrolam. Os discursos carregados dos signos da negação do "incivilizado" são hegemônicos no jornalismo internacional e é raro encontrar um repórter com o despreendimento de Fisk para analisar o que se passa. E essa hegemonia cultural que consolida a execração política de governos não liberais e afeitos ao populismo nacionalista vai mesmo acabar com Kadafi, mas vai gerar também, ao que tudo indica, um conjunto de países de lideranças inexpressivas, desideologizadas e desprogramadas para lidar com suas sociedades e com suas riquezas, a exemplo do que já vem fazendo o Egito. 

O que acontece com a Líbia é quase uma guerra colonial.
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