sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Revisão de literatura

Drummond na praia: melhor ouvir do que falar

A data é 1979 e o título da publicação é Ensaios de Opinião, com a estranha numeração de 2+9, alguma coisa criada para registrar a irregularidade das edições, sempre sujeitas na época ao impoderável do arbítrio ou das próprias dificuldades de sua sustentação material e/ou editorial. Seja como for, foi o número 2+9 que trouxe uma das mais brilhantes (e inquietantes) reflexões sobre os efeitos culturais sensíveis e perversos do prolongado período ditadorial que vivemos entre 1964 e 1985: A geração AI-5. Um ensaio sobre autoritarismo e alienação, de Luciano Martins. O texto depois acabou compondo um livro editado pela Argumento que veio acompanhado de outro ensaio do mesmo autor sobre o Maio de 1968

De tudo quanto está anotado no trabalho de Martins, desses rabiscos que misturam pequenas frases, círculos, grifos e sinais de alerta para trechos importantes, o que me chama a atenção agora não é tanto o esvaziamento ideológico da diversidade de movimentos quase in vitro que se formaram na sociedade brasileira no período em que o ensaio foi produzido, especialmente aqueles que se articulavam em torno da contracultura e da desarticulação anárquica dos discursos institucionalmente organizados - que me parecem ter se transformado na fonte de inúmeras alternativas existenciais dos anos seguintes -, mas os modismos intolerantes e classificatórios que emergiram no interior desses mesmos movimentos. 

O texto de Martins, evidentemente, precisa ser lido com cautela redobrada agora e mais de uma vez, tal é a riqueza conceitual com que o autor procura identificar as várias formas de expressão discursiva e cultural da época. Todavia, me parece que do ponto de vista dos reflexos daquela conjuntura na vida acadêmica, a abordagem mais sensível fica por conta da identificação, no ensaio, do "modismo" como forma de comportamento que mais revelava do que ocultava um certo disfarce de incompetência (ou de impotência) para dar conta da complexidade com que a realidade se apresentava. Deve ter sido na mesma época que entrei em contato com uma outra leitura - infelizmente, com referências absolutamente perdidas agora - que apontava a hegemonia do metodológico sobre as narrativas analíticas e descritivas na abordagem dos problemas políticos e sociais, mais ou menos na mesma linha do que Luciano Martins quer dizer com o foco que põe sobre um desses paradoxos que a ditadura criou para a intelectualidade brasileira.

Martins põe seu foco sobre o que chamou então de "modismo psicanalítico", uma vaga de manifestações aparentemente autorizadas que buscavam (e talvez ainda busquem) resolver a contradição que caracteriza a própria psicanálise nas sociedades capitalistas: o desafio de libertar o indivíduo do disciplinamento que lhe é imposto pela ordem social. É nessa linha de interpretação que Martins recorria então à Escola de Frankfurt para apontar a essência do desajuste - e do "mal-estar": a doença do indivíduo é causada pela doença da civilização mas a terapêutica acaba agindo no sentido de integrá-lo ao hostil, conflito resumido na frase de Adorno, que Martins transcreve: "É ao ser ajustado (pela psicanálise) a um todo enlouquecido que o paciente curado torna-se realmente doente".

Evidentemente, faltam aqui vários outros argumentos que Martins usa para fundamentar a sequência de sua análise, mas esse me parece ser o núcleo que permitiu a ele apontar o déficit radical na explosão da moda psicanalítica nos anos 70: a inconsistência da reflexão teórica e das práticas terapêuticas no movimento psicanalítico brasileiro, fato gerador de um desequilíbrio - ou descompasso - entre a proliferação de seus enunciados e uma certa incompetência de projeto que esvaziava de sentido o seu discurso, embora desse consistência mercadológica à sua expansão. No final das contas, as causas reais de diversas anomalias psíquicas, entre elas os efeitos culturais do autoritarismo, acabavam submersas na incompreensão geral decorrente das fragilidades conceituais com que o tema era tratado.

Recorro aqui aos Ensaios de Opinião e, em especial, ao texto de Luciano Martins principalmente por um impulso quase saudosista de ter lido, na época, uma das melhores interpretações sobre o momento difícil que vivíamos no Brasil; mas não apenas por isso: a releitura do texto - que chamo aqui de "revisão de literatura"- pode oferecer pistas valiosas para que eu próprio entenda o descompasso que observo hoje na área acadêmica de minha atuação - a Comunicação - em parte semelhante a esses paradoxos apontados pelo autor em 1979.

Os indícios são diversos e quero apontar aqui apenas três, aqueles que são mais comuns e evidentes. O primeiro deles parece reproduzir aquela ideia perdida de referência segundo a qual o metodológico se impõe à narrativa dos fenômenos e à sua análise, como se os procedimentos da pesquisa trouxessem consigo uma verdade imanente à sua identificação positiva. Esse cientificismo que deixa pouco espaço, no terreno das Ciências Sociais, para a interpretação pessoal do pesquisador tem se transformado - não dá para evitar o lugar comum - em camisa de força para uma parte significativa de estudantes de pós-graduação que acabam por operacionalizar seus trabalhos de acordo com essa percepção que os programas lhes transmitem: o objeto da pesquisa acaba ocupando um lugar acidental e acessório no conjunto do projeto desenvolvido.

O segundo, que me parece ser consequência do anterior, é a maneira como os procedimentos metodológicos - talvez mais apropriadamente identificados como técnicos e operacionais - se sobrepõem aos fundamentos teórico-metodológicos que devem orientar o pesquisador. Refiro-me aqui ao conjunto de reflexões de natureza filosófica e conceitual que atravessa a narrativa do estudo, situando as afirmações ou conclusões numa perspectiva (num ponto de vista) que revela concepções ontológicas que acabam por classificar os fenômenos estudados. Tenho observado que nem mesmo em extensos e autorizados exercícios de doutoramento essas reflexões deixam de se formalizar em elencos de escolas de pensamento burocraticamente descritos, à semelhança de relatórios de leitura.

O terceiro diz respeito a um certo esoterismo temático muito característico das Ciências da Comunicação. Desprovidas de uma sólida identidade epistemológica e atravessadas por uma variedade muito grande de perspectivas disciplinares, a área acabou se transformando em uma espécie de reservatório de temas cujo hermetismo mais os aproximam da irrelevância científica do que de fenômenos de dimensão social reconhecida no âmbito da produção científica. Embora todos esses temas recebam uma boa justificativa de projeto, é possível perceber que perdem densidade na medida em que se constróem como trabalhos de conclusão.

Quero voltar ao assunto, evidentemente; mas me parece que esses indícios de fragilidade para os quais fui buscar algum tipo de analogia na crítica que Luciano Martins fez sobre o quadro cultural brasileiro no final dos anos 70, respondem por uma série de incógnitas que sistematicamente vêm à discussão entre os próprios programas de pós-graduação, entre elas a baixa inserção internacional da produção acadêmica brasileira da área. Penso que vale a pena aprofundar essa análise.
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