segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Corrosão da crença

Somos 99%, repete o cartaz na mão da coreana
Estou quase concluindo a leitura da minha primeira experiência com Richard Sennett (em A corrosão do caráter), autor que me foi recomendado em boa hora pela Nathália Faria Marangoni, minha aluna de História Contemporânea no curso de jornalismo da Metodista. Digo em boa hora porque Sennett produz uma narrativa quase eletrizante sobre questões econômicas e políticas do presente bem ao estilo de algumas obras acadêmicas nas quais a pontificação do conhecimento vem associada ao bom gosto e à consistência na construção do texto (Burke, Darnton, Eagleton, Jacoby, por exemplo), e é sempre bom, para quem usa essas leituras nas próprias aulas, compreender o dinamismo que essas interpretações possibilitam à argumentação. Não sei o que meus alunos pensam disso, mas meu aprendizado com essa experiência tem sido muito positivo.

Esta postagem, no entanto, não é uma resenha da obra de Sennett; é apenas uma associação que ela vem me permitindo fazer com essa explosão de ânimo que tomou conta de várias cidades do mundo no dia de ontem, uma data que vai ficar registrada pelos sintomas de esgotamento que ela foi capaz de demonstrar em relação às bases de legitimação simbólica do capitalismo. Não se trata ainda, até onde sou capaz de perceber, de uma perda de sustentação política ou ideológica - pois que os ritmos do poder nesses dois campos permanecem inalterados -, mas de um indício da corrosão (para usar o conceito do livro referido acima) da crença na sua viabilidade. 

Lá pelas tantas, Sennett estabelece uma distinção interessante entre os dois grandes regimes de gestão dos países do núcleo principal do capitalismo - os modelos do "Reno" e o "anglo-americano", distintos entre si pela maior ou menor regulação que o Estado exerce sobre as atividades econômicas. Para o autor, esses regimes têm "diferentes" defeitos, mas não há como contornar o fato de que, do ponto de vista social, as deficiências do modelo anglo-americano são extraordinariamente maiores. 
Exemplos: "para os 80% de menor renda da população trabalhadora americana a média dos salários semanais (ajustados pela inflação) caiu 18% de 1973 a 1995, enquanto o salário da elite empresarial subiu 19% (...). Paul Krugman afirma que o 1% de maior renda dos assalariados americanos mais que duplicou sua renda real na década de 1979-1989, em comparação com uma taxa muito inferior de riqueza acumulada nas décadas anteriores (...). Na Grã-Bretanha, The Economist calculou recentemente que os 20% de maior renda da população trabalhadora ganham sete vezes mais que os 20% de menor renda, quando há 20 anos a proporção era de apenas quatro vezes". 

Sennett atribui esses números às sucessivas reformas liberais que tiveram como objetivo desregulamentar o Estado do Bem-Estar Social nesta fase virtuosa de expansão do capitalismo financeiro. O resultado é o que se vê: segundo a BBC Brasil, o número de pobres nos EUA chega hoje a 46,2 milhões, cifra que bate todos os recordes. "A taxa de pobreza no país, diz a matéria, aumentou de 14,3% em 2009 para 15,1% no ano passado, a mais alta desde 1993. Segundo o censo, quase um em cada seis americanos vive na pobreza - definida como renda anual individual de até US$ 11,13 mil (aproximadamente R$ 18,8 mil) ou renda de até US$ 22,31 (cerca de 37,68 mil para uma família de quatro pessoas)".

Deve ser essa a situação que levou um alto funcionário do governo norte-americano (referido por Sennett) a afirmar que "estamos a caminho de nos tornar uma sociedade de suas camadas, composta de uns poucos vencedores e um grande grupo deixado para trás, opinião secundada pelo presidente do Federal Reserve Bank [para quem] a renda desigual pode tornar-se 'uma grande ameaça à nossa sociedade". Não é preciso ter muita imaginação para concluir que essa conjuntura, que é capaz de corroer a crença em qualquer tipo de solidariedade pública na sociedade mais opulenta do planeta, faz estragos mais graves na razão direta do aprofundamento da linha da pobreza.

Falta um bom pedaço ainda para que essas manifestações acontecidas ontem (15 de outubro) no mundo todo tenham condições objetivas de se tornarem alternativas para o poder instituído, até mesmo pela ausência de qualquer estruturação política e/ou programática de sua própria dinâmica de mobilização, fato em torno do qual sou muito cético, mas vai ficando sempre mais complicado recompor a lógica dos dias úteis na compreensão de todos os que são sistematicamente atingidos pelos efeitos da crise.

Leia algumas matérias relacionadas ao post:

Marx estava certo... sobre o capitalismo 
(BBC)


Renda dos americanos cai pela 1a vez desde outubro de 2009 (Estadão)

Assalariados pagam mais IR que os bancos (Estadão)

Para Bauman, o 15-M é emocional (El País)

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