quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Empresas, empresários...

Só de ouvir falar...
Estou aqui às voltas com o texto que Cláudio de Moura Castro publicou no Estadão da 4a feira, 28 de setembro, onde o autor justifica sua crença quase mística nas virtudes da empresa como forma organizacional para as escolas (leia aqui a íntegra do artigo). Como a empresa é um ente que caracteriza sua presença no cenário social e econômico da modernidade pela racionalidade de suas práticas e pela busca do sucesso administrativo e financeiro, Moura Castro entende que seu modelo deva ser adotado em setores que trabalham com lógicas mais tradicionais, em especial as atividades do ensino – historicamente caracterizadas por uma simbologia menos apegada a resultados positivos do desempenho de seus agentes e mais voltada para um perfil carregado de atributos intelectuais e espirituais. Nesse sentido, para proteger essa sua aparente pureza (que muitas vezes oculta relações de poder opressivas e gananciosas), as escolas devem manter sua identidade preservada dos “baixos instintos” empresariais... Para Moura Castro, essa forma de pensar conduz ao atraso porque priva a escola de buscar qualidade, eficiência e todos os demais ensinamentos que o mundo produtivo pode nos oferecer. 

Tendo a concordar pelo menos em parte com o autor do artigo. Não foram poucas as vezes que me deparei com discursos e práticas de dirigentes de escolas – seus proprietários ou seus prepostos – que procuravam resolver da pior forma possível o paradoxo da escola privada que não se assume como empresa: a busca de uma justificativa moral para toda a sorte de arbitrariedades que praticavam contra os sujeitos envolvidos nas suas atividades essenciais. Nem o professor é trabalhador; nem o aluno é consumidor; nem o ensino é produto; nem os pais são clientes. A rigor, um simulacro que oculta o que na realidade ocorre: relações empresariais, ainda que mascaradas por uma simbologia em desuso, até meio folclórica, que tentava (e ainda tenta, em muitos casos) manter a aparência desinteressada que as práticas pedagógicas adquiriram desde a constituição da sociedade patriarcal brasileira.

Portanto, parece que essa transparência advogada por Moura Castro – por mais que possa ferir o brio do bacharel clássico – funciona como uma imposição da nova natureza que a Escola adquiriu nas sociedades que entregaram o setor educacional às mãos da dinâmica do capital, certas de que a fórmula empresarial pode resolver o impasse que o Estado não tem condições de resolver sozinho: atender à expansão da demanda da mão de obra qualificada em todos os níveis do ensino. A transparência reside justamente aí: as relações contratuais são essas, se instituem no âmbito do mercado e dizem respeito a todos os agentes envolvidos no processo de produção e disseminação do conhecimento, do gestor (seja ele administrador de empresas, padre ou freira), ao contratante do serviço (os famigerados pais dos alunos, eventualmente os próprios alunos quando se fala do ensino superior), passando pelos professores (trabalhadores assalariados, como sempre foram, e personagens nucleares de todo o processo).

O problema todo não é a fórmula empresarial que embala a fatia mais lucrativa do sistema (admitir que é lucro o que as empresas buscam no setor faz parte da transparência geral, é bom que se diga); o problema todo são os empresários... Isso pode parecer brincadeira ou um mero jogo de palavras, mas o fato concreto é que nem a mais ortodoxa visão weberiana das camadas que compõem um sistema organizacional ignora a necessidade de uma adequação cultural entre a dinâmica racionalizadora do sistema empresarial e as formulações mentais de seus dirigentes, dos estamentos que o administram e das classes que detém sua propriedade. A análise de Moura Castro deveria descer a esse nível de entendimento para que fosse totalmente pertinente à realidade, porque do contrário cria-se uma outra fantasia – tão perniciosa quanto a primeira: a fantasia que imagina que a escola como empresa, pelo simples fato de que seja essa a fórmula, possui virtudes imanentes à condição da empresa, está condenada ao êxito e ao cumprimento de suas determinações sociais (entendidas essas últimas como condições estruturais que abrigam todo o sistema). Infelizmente, não é assim...

A armação ideológica que se esconde por trás do empresariamento do ensino reproduz, em sentido inverso, a mesma armadilha que resiste a ela, isto é, oculta sob a forma moderna do gerenciamento do setor as práticas modernas da exploração do trabalho e as dissimuladas burlas das expectativas de sua clientela, desautorizando, no entanto, suas reivindicações em nome da eficácia da empresa. No caso dos professores (para ficar no exemplo que me é mais caro) o que antes era abnegação e sacerdócio, agora é desempenho, atingimento de metas, formulação de expectativas em escala, postergação de demandas corporativas e o que mais for possível alegar para que a lucratividade da empresa e sua apropriação privada obedeçam exatamente os mesmos critérios com os quais a velha escola particular trabalhou e se impôs como espaço desinteressado do cultivo do conhecimento. Aí é que está: práticas discursivas diferentes para justicar, em dois momentos distintos, uma mesma prática econômica. 

Vou ficando por aqui com a atenção voltada para a possibilidade de que a escola privada assuma honesta e inteiramente sua condição de “empresa com responsabilidade social”, um conceito que talvez tenha que ser introduzido na argumentação de Moura Castro. Mas não consigo esconder meu ceticismo com isso, em parte pelo perfil predatório do empresariado brasileiro; em parte pelo ethos constitutivo de suas práticas modernas que se espalham como normas de conduta para todo o segmento empresarial (um shopping center que se recusa a fechar suas portas apesar do risco que representa para seus frequentadores diz mais sobre filosofia empresarial brasileira do que todo o arsenal teórico da moderna administração). De qualquer forma, imaginando-se que a racionalidade empresarial possa ser compatível com o compromisso social inerente ao que ela faz ou produz, é possível pensar numa adequação entre os dois polos, fato que fica sempre mais evidente - e necessário - quando o assunto é Educação. Quem sabe assim...
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