quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Jornalismo: a volta do diploma. Nem todo mundo concorda com isso...

O Senado aprovou ontem, dia 30 de novembro, por 65 votos a favor e 7 contrários, a volta da exigência do diploma para o exercício da profissão de jornalista. Entre o final da tarde e a madrugada de hoje, minha caixa postal voltou a ficar congestionada de manifestações sobre o assunto, a maioria delas de contentamento. A decisão ainda não é definitiva, mas o passo fundamental foi dado. Agora é a vez da Câmara dos Deputados se manifestar.

No meio das comemorações, no entanto, há vozes que discordam do que foi decidido, e é bom abrir espaço para a polêmica porque as razões são fortes de lado a lado. Transcrevo a seguir o conteúdo de duas mensagens da Profa. Ivana Bentes, da Escola de Comunicação das Universidade Federal do Rio de Janeiro, entremeadas pela manifestação em sentido contrário do Prof. Marcelo Kischinhevsky, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Vale a pena conhecer os argumentos de ambos. Leia aqui.

Diz a Profa. Ivana Bentes em sua 1a mensagem:

Viúvas de Gutenberg atacam novamente! Propõem no Senado obrigatoriedade diploma Jornalista que caiu em 2009 e não faz falta!

O que  interessa não é obrigatoriedade do  diploma é formação diferencial. Diploma obrigatório acabou em 2009 e formandos da ECO/UFRJ passam bem!

O fim do diploma em 2009 trouxe um grande beneficio: quebrou as universidades ruins que "vendiam diploma obrigatório". 

Na ECO/UFRJ formamos jornalistas, publicitários, editores, profissionais de rádio e TV. Nenhuma dessas áreas precisa de diploma obrigatório!  

A internet explodiu a reserva de mercado para jornalista! Diploma obrigatório só serve para manter sindicatos em crise. 

Contra esses argumentos, responde o Prof. Marcelo, da UERJ:

Querida Ivana, tenho por vc o maior apreço intelectual. Não creio, a despeito do seu discurso de momento, que menospreze a necessidade (e a especificidade) da formação superior em Jornalismo. Até pelo fato de ter aberto as portas da ECO/UFRJ para o maior encontro encontro da história da SBPJor, entidade científica que reúne pesquisadores de altíssimo nível, não só com atuação no campo do Jornalismo mas na grande área de Comunicação.

O que jornalistas diplomados e professores de Jornalismo comemoramos hoje não é a restituição de uma reserva de mercado, que aliás nunca existiu na prática, pois a atividade jornalística sempre foi aberta a profissionais que vêm de outros campos de saber, seja como colaboradores, colunistas, comentaristas ou articulistas. O que anima os colegas é o reconhecimento pelo Senado da institucionalidade do Jornalismo, o que lhe dá estatuto legal e coíbe práticas predatórias que vinham sendo adotadas no mercado, até por grandes empresas de comunicação, como a contratação de estudantes e recém-formados como auxiliares administrativos por salários aviltantes (inclusive os alunos dos principais cursos do país, Rio incluído). No vácuo provocado pela decisão do STF, derrubou-se a exigência do diploma de curso superior e abriu-se a porteira para pessoas desqualificadas pedirem registro profissional, no Ministério do Trabalho. Pedidos em que, em vez de assinatura, continham um autoexplicativo X. É essa desregulamentação que se pleiteava para o exercício do Jornalismo, em nome da defesa da "liberdade de expressão" e do avanço das "mídias livres"?

Claro, o Jornalismo enfrenta hoje diversos desafios que não se esgotam na questão do diploma: faltam desde qualidade de texto e apuração criteriosa até meios de comunicação que ofereçam perspectivas mais plurais, não-unívocas, em seu noticiário. A chamada mídia de referência disputará cada vez mais atenção com as mídias sociais, os blogs. Mas a multiplicidade de vozes na (ainda limitada) esfera pública digital não faz com que a sociedade prescinda da mediação jornalística. Pelo contrário, só a torna mais necessária. E nesse sentido a formação superior (de qualidade) faz uma imensa diferença. Sem saudosismos ou discursos tecnoapologéticos.

Espero que o debate esteja de fato apenas começando. Que formação superior em Jornalismo queremos? Como melhorar os cursos e desenvolver as pesquisas jornalísticas em nível de pós-graduação? Que práticas profissionais devemos fomentar?

A tréplica da Profa. Ivana:

Não existe justificativa para uma "excepcionalidade" para jornalistas! A não ser uma corporação e reserva de mercado hoje totalmente artificial para "diplomados" . Vejo inclusive comunicadores e jornalistas formados em Escolas Livres com tanto ou maior nivel de formação critica e expertise quanto a de muitos cursos universitários ruins. Os vendedores de diplomas "quebraram", pois a "obrigatoriedade" é apenas isso um "comércio" e um "cartório" de um grupo. 

Politicamente a exigencia de diploma é vergonhosamente anti-democrática. Cria "reserva" e "escassez" artificial num momento de democratização dos meios de comunicação e de suas linguagens, é uma exigência "elitista", conservadora e constrangedora. 

O mercado sempre preferiu e prefere quem passa por uma formação universitária. Mesmo com o fim do diploma em 2009 nossos estudantes da ECO/UFRJ continuaram a serem empregados PREFERENCIALMENTE  em relação aos sem diplomas. O que conta não é a "obrigatoriedade" nem para o mercado nem para ninguém é a qualificação.

Na ECO/UFRJ formamos igualmente publicitários, editores, profissionais de rádio e TV. Nenhuma dessas áreas precisa de diploma obrigatório e isso numa foi um problema! 

Uma pena ver uma visão tão limitada e retrógada chegar, graças a lobbys politicos e interesses corporativos dos sindicatos,  ao Senado. Nenhum jovem com menos de 30 anos defende obrigatoriedade de diploma. 

É uma era que já era! Por isso os sindicatos dos jornalistas estão VAZIOS, pois não conseguem dialogar com nada disso. São esses lugares melancólicos  e despotencializados. A vida não pulsa mais nesses ambientes! 

Felizmente a questão do jornalismo-cidadão, dos fazedores de midia, do movimento da midia livre e da comunicação comunitária. da cultura digital não tem volta. São eles o presente e o futuro do jornalismo.

Os jornalistas corporativos são hoje a  "vanguarda da retaguarda"  e ficarão cada vez mais num "gueto". Bom exilio, para os que ficam!
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São as primeiras manifestações sobre o assunto. Sugiro que os interessados acompanhem os desdobramentos que ele certamente terá nos próximos meses...
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Um comentário:

Novos Ventos disse...

CARAMBA!!!! Eu amo meus professores, mesmo os que discordam de mim sobre certos assuntos. Mas em geral, esses se contrapõem de forma argumentativa justificável a ponto de colocar em choque o que penso. Isso é construtivo e de grande valor.

Mas quando se lê uma defesa insólita, desprovida de argumentos sólidos que a justifique, e que ao contrário do que defende valoriza o mercantilismo que tomou conta da profissão de jornalista e em alguns lugares da própria formação desse profissional, aí é de se revoltar.

Esta semana, o Senado aprovou por mais de 60 votos a favor a PEC - Proposta de Emenda a Constituição, que inclui na Constituição a obrigatoriedade do Diploma de Jornalista, derrubado pelo STF em 2009. Pois eis que vi um comentário condenando a decisão dos parlamentares, dizendo se tratar o diploma de "reservar de mercado". Ora, que reserva de mercado a queda do diploma impediu? A dos empresários é que não foi.

Prosseguindo no breve e desconstituído comentário, a super-mestre, diz que tudo melhorou após a queda da obrigatoriedade do diploma e que "Universidades ruins fecharam as portas". Onde? Quando? Como? E segue dizendo que formandos de uma grande Universidade "passam bem, sem a obrigatoriedade". Será que essa pessoa não teve acesso ao depoimento de Vera Lucas - formada pela UFRJ (Leilão de Jornalista)?

Na sua argumentação a pessoa diz ainda que antes da obrigatoriedade do diploma, deve-se brigar pela boa formação. Não vem com essa. Isso é uma luta anterior a queda do diploma e que ganhou força descomunal, após a decisão do STF, na força daqueles que lutaram pela aprovação dessa PEC. Não conheço ninguém que se coloca a frente dessa luta pela obrigatoriedade do diploma, que já antes não tenha se colocado e brigado pela qualidade da formação.

Sinceramente...

Link para o relato "Leilão de Jornalista" de Vera Lucas, que mostra apenas uma das condições de porque não se é possível aceitar as ponderações dessa pessoa que se colocou contra a aprovação da PEC no Senado.

http://www.portaldapropaganda.com/midia/2011/06/0001