terça-feira, 24 de abril de 2012

A soberania argentina

Cristina Kirschner mantém a Argentina na contra-mão do neoliberalismo 
(além do post abaixo, leia o artigo de Mark Weisbrot, do The Guardian)

Pedi a um dos meus seguidores no twitter - que não concordou com o post no qual elogiei a decisão do governo argentino de reestatizar 51% do capital da petrolífera YPF, expropriando-os da espanhola Repsol - que olhasse para o exemplo do México, um país que tratou com toda a doçura e subservivência os investidores estrangeiros e que hoje é um mero apêndice econômico dos Estados Unidos. Parece que Buenos Aires não concordou com essa escrita predestinada das econonomias periféricas e se recusou, com a medida de ontem, a virar refém do capitalismo global.

Por que a comparação com o México? Estive lá em 1982, quando já eram visíveis os sinais de declínio de uma das articulações diplomáticas internacionais mais importantes do pós-guerra: o movimento dos países não-alinhados. Tratava-se de um bloco que procurava tirar vantagem da sua condição de exportador de matérias-primas e de seu peso nas alianças político-militares da Guerra Fria para fazer valer seus interesses estratégicos, tanto no terreno dos organismos internacionais quanto em negociações bilaterais relativas à troca de commodities x manufaturados/tecnologia. Tudo isso sob a inspiração do que havia sido provocado pela OPEP na Guerra do Petróleo de 1973. Pois o México era um dos líderes desse movimento e fazia valer sua postura frente ao imperialismo norteamericano fortalecendo a sua independência e retirando dela projetos autônomos de desenvolvimento e uma respeitável soberania nas negociações com os países ricos. No centro dessa política estava o presidente Luís Echeverria que, ao deixar o cargo, passou a dirigir o Ceestem, uma entidade voltada ao estudo de projetos econômicos e sociais para o terceiro mundo.

Os resultados desse processo foram mais simbólicos que econômicos: na 2a. metade dos anos 80 já era possível perceber que o pêndulo da Guerra Fria voltava-se para o conservadorismo da dupla Reagan-Tatcher e para a hegemonia das práticas ultraliberais da circulação do capital - conjuntura amplamente desfavorável às demandas dos países pobres que viam na sua luta pela valorização das matérias-primas o único meio de provocar a transferência de riqueza que lhes abrisse caminho para o desenvolvimento efetivo, e não apenas para a modernização de suas sociedades estruturalmente pobres. O México deve ter sido uma das maiores vítimas dessa mudança de rumo: foram os governos conservadores que se seguiram ao de Echeverria no final dos anos 80 e primeira metade dos anos 90 que atrelaram o país ao desenvolvimento associado com o acordo Nafta fato do qual resultou a completa sujeição do país aos interesses estadunidenses. Para encurtar a história: o México desapareceu do cenário mundial e abdicou de tal forma de sua soberania que não é exagero considerá-lo como um enclave colonial dos Estados Unidos ao sul do Texas ou um protetorado que não fica nada a dever às colônias centroamericanas ou asiáticas do império britânico nos séculos XVIII e XIX; uma oficina de montagem com aparência moderna...


Parece que a Argentina não quer que o mesmo aconteça com ela e descobriu que a privatização da YPF - isso e sua adesão a um dos princípios básicos do neoliberalismo global - estava, na verdade, representando uma sangria de seus recursos, canalizados pelos investimentos da Repsol em outros países.

Repsol estava é colonizando a Argentina a partir da própria riqueza do país e só mesmo um governo transido é que, sabendo disso, permaneceria indiferente ao fato. Tratou-se, portanto, de uma manifestação de soberania legítima e necessária.

O espanto com a decisão de Buenos Aires só pode revelar desconhecimento e má fé, como revela a variedade das indignações diversas estampadas na mídia no dia hoje. 

Não se trata, obviamente, de torcer para que o movimento não-alinhado renasça e que o pobre México recupere sua independência, ou que Cristina Kirschner substituta Luís Echeverria. Esse parece ser um tempo que não volta mais, mas é bom observar a reação dos países da América Latina - já fragilizados por sua heterogeneidade na fracassada Cúpula da Américas - em relação ao episódio: saber se, além da Venezuela, serão capazes de adotar uma política comum em defesa da decisão de Buenos Aires e repudiar os tradicionais boicotes econômicos... Talvez até, em alguns casos, ampliar as expropriações das empresas que faturam com as dificuldades do continente.

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