segunda-feira, 29 de outubro de 2012

"Capturar sinergias e recompor colchão de recursos..."

Em lugar nenhum do mundo...
(copiado do jornal Valor Econômico, 27/08/12)

Pois é assim mesmo, do jeito grafado no título desta postagem, que a estratégia da Rede Anhanguera  para 2012 foi definida. A frase é de autoria dos jornalistas que fizeram a matéria publicada no jornal Valor Econômico em 27 de agosto (leia aqui o fac-símile) mas resume bem a disposição rentista que toma conta da racionalidade com a qual o ensino superior privado conduz seus negócios. A esta altura, no entanto, consagrada a máxima segundo a qual a educação tornou-se uma commoditie, pouca coisa ainda é capaz de produzir espanto. Mesmo assim, vale a pena apontar algumas características do jeito com o qual o setor se comporta:

1. O trimestre que serviu de base para a reportagem do Valor foi o segundo, período de baixa geral no rendimento de 60% das empresas que têm títulos na Bolsa. Só dois segmentos chamaram a atenção dos analistas por seu desempenho no sentido oposto: aluguéis e ensino superior.

2. No ensino superior só quatro empresas mereceram destaque: Anhanguera, Estácio, Kroton e Abril. Com exceção desta última, as outras três registraram crescimento na sua base de alunos (dizem os repórteres: "A falta de mão de obra qualificada abre espaço para um crescimento forte dessas empresas"). A Estácio cresceu 9,3% no primeiro semestre, relativamente a 2011; a Anhanguera, 31,4%; a Kroton, que adquiriu a Unopar e a Uniasselvi, todas no segmento do ensino à distância, mais de 400%.

3. Isso não é tudo. Igualmente notável tem sido a eficácia "e o sucesso na captação de sinergias" que ajudam a explicar "o bom resultado das redes de ensino". No final, todas ampliaram suas margens de lucros também em consequência de novas práticas operacionais, embora não haja qualquer registro do que venha a ser isso. De qualquer forma, a executiva de um desses grupos deixou escapar que "o principal custo dessas empresas é com o professor", o que pode significar que as "novas práticas operacionais" estejam caindo no colo dos docentes, em especial daqueles envolvidos com a EAD.

4. Em resumo, no panorama geral da rentabilidade das empresas, o que se vê na tabela acima explica o paraíso em que vive parcela do ensino superior privado, um desmedimento de riqueza financeira que mais parece uma piada diante do déficit de ensino e de pesquisa em que o país vive, uma espécie de húbris...

É nesse ponto que aparece a história do título da postagem. "Capturar sinergias e recompor  colchão de recursos" é um eufemismo que pode ser traduzido como "cautela e ousadia simultâneas". A primeira, conservadora, fala sobre "parcimônia na estratégia de aquisições". O lucro tem sido tão exorbitante e tão fácil que a obsessão de outros tempos cede lugar à disposição cuidadosa de "botar o pé no freio para manter a rentabilidade", uma lição que o baixo capitalismo aprendeu desde a fábula da Galinha dos Ovos de Ouro. A ousadia, no entanto é política e passa como um trator sobre qualquer consideração que possa questionar uma universidade dessas numa sociedade como a nossa. É aqui que estão situadas duas das marcas mais graves do processo todo:

1. No Brasil, a fonte mais importante na produção de ciência e tecnologia são os institutos de pesquisa e as universidades públicas. É esse fato que nos levou, no último ranqueamento, à 13a. posição internacional no setor, o que representa um momento importante na vida acadêmica brasileira e que foi reconhecido por duas revistas internacionais de referência - a The Economist e a Science (leia aqui matéria sobre o tema publicada no site do SINPRO-SP). Em contraste com esse esforço, no entanto, a participação da universidade privada na produção científica brasileira é praticamente nula, apesar do gigantismo de seus lucros e das perspectivas de crescimento contínuo, como dizem seus próprios gestores.

2. Temos em mãos, portanto, uma instituição parasitária que vive da energia que consegue sugar de uma reserva de mercado que não lhe garante apenas condições de expansão despoliciada, sem exigências muito rigorosas em relação ao cumprimento dos objetivos que dizem respeito à sua natureza; garante também um fluxo contínuo de recursos financeiros públicos através dos mais diversos estratagemas. O mais clamoroso deles é o da isenção fiscal (leia a notícia do DCI sobre o assunto), seguido da anistia à prática das dívidas fiscais (aqui)  e dos créditos subsidiados pelo BNDEs (para que se tenha uma ideia do que isso representa: o valor da anistia concedida à sonegação fiscal praticada pelas universidades privadas corresponde a mais de 50% da dotação orçamentária do MEC para o ensino superior).

"Capturar sinergias e recompor colchão de recursos" deve significar alguma coisa que explique o paradoxo de um país que queima uma riqueza social extraordinária para construir uma sociedade moderna e igualitária, mas que aloja um segmento empresarial que vive às custas do próprio Estado e ignora suas responsabilidades, inclusive com os profissionais que atuam nele. São reflexões feitas a propósito da recente divulgação pelo MEC das regras de avaliação da qualidade do ensino superior (aqui), uma boa oportunidade para resgatar o ensino e a pesquisa que o capital deve ao país.
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