sábado, 17 de novembro de 2012

O cardeal e o falsário

O simulacro do falsário acaba
revelando a verdade do falseado
A crise na PUC-SP, com todos os seus ingredientes dramáticos e carregados de dilemas difíceis de resolver, vai revelando sinais de uma riqueza política inusitada. O melhor desses sinais, até agora, parece ser o da nota falsa que, supostamente em nome de D. Odilo Scherer, justificou o desrespeito do cardeal ao nomear a Profa. Anna Cintra como reitora da universidade, ignorando a vontade majoritária que preferia no cargo o atual reitor, Prof. Dirceu de Melo (leia aqui a íntegra do documento). A falsidade da nota foi descoberta por um estudante de Jornalismo da própria PUC depois de analisá-la minuciosamente, desconstruindo-a ponto por ponto até concluir que se tratava de uma burla - fato posteriormente noticiado pelo Estadão.

Pessoalmente, digo que não fiquei aliviado com a notícia, como se o que está dito na nota falsa fosse pior que as razões que  todos deduzem estar por trás da atitude original do Grão-Chanceler da PUC-SP, e isso pudesse nos dar qualquer esperança de que tudo, afinal, não passou de um equívoco de D. Odilo, estando ele disposto a rever a atitude arbitrária que tomou ao indicar a nova reitora.  Penso que a nota falsa reflete com tanta verosimilhança o espírito que norteou o desrespeito à vontade da maioria que sou tentado a dizer que ela ocupou o lugar da verdade e acabou por se apossar do falseado.  Mais ou menos como se um dinheiro fabricado no fundo do quintal valesse de fato mais que aquele feito na Casa da Moeda, ou como se o quadro falsificado fosse melhor que o original. Pois a nota atribuída à Fundação São Paulo me parece refletir com tanta clareza as razões da crise da PUC que na sua inteira falsidade nos documenta a realidade. Aponto alguns motivos para a minha aparentemente estranha conclusão. 

O primeiro deles é a que nos informa sobre as motivações do cardeal. O falseador está nos dizendo que D. Odilo Scherer resolveu deixar claro que "aqui quem manda sou eu", já que cabe ao Grão-Chanceler da PUC "a prerrogativa total" da escolha do reitor, seja lá o que tenha acontecido em épocas anteriores, com o que o cardeal se coloca acima de quaisquer considerações institucionais: "mando eu nesta merda, e ponto final", é possível ouví-lo dizer no seu íntimo desde quando optou pelo nome da candidata menos votada.
 
O segundo motivo que me faz acreditar nessa identidade entre o falseador e o falseado é o arrazoado que esse alter-ego de D. Odilo nos apresenta para colorir a decisão do cardeal de alguma racionalidade sistêmica - como se isso aliviasse o peso excessivo posto numa decisão autocrática. "A PUC é uma instituição privada, e de notória propriedade da Igreja (...) [e] cabe aos [seus] reais proprietários a escolha de sua administração". A lógica que explica o gesto do Grão-Chanceler, portanto, não teria sido arbitrária apenas por sua vontade pessoal; é também o resultado de uma perversidade que conduz o interesse público de que se constitui uma universidade a partir da ótica privada. "Fazemos o que bem entendemos disto aqui, apesar de quantas dimensões sociais, culturais, científicas possam estar envolvidas no nosso negócio". O falsário é de um realismo a toda prova: sintetiza a filosofia que orienta não apenas a empresa privada de maneira geral - planos de saúde, operadoras de telefonia, açougues, desmanches de automóveis, empreiteiras etc - mas a fraude em que se transformou boa parte das instituições particulares de ensino superior no Brasil e em cujo nicho parece que o cardeal quer acomodar a velha PUC. Parece que é ao lado delas que ele estaria mais seguro.

O terceiro motivo é mais simples, mas demonstra a quase sofisticada leitura histórica que o falsificador da nota da Fundação São Paulo faz dos fatos recentes. A PUC-SP talvez esteja hoje na condição de uma remanescente das mais legítimas e caras tradições da difícil construção da Universidade brasileira. Embora "propriedade" de uma "empresa" como é a Igreja Católica, por força dos vários segmentos que a construíram, tornou-se um paradigma educacional, científico e comunitário; na verdade, um símbolo da resistência à ditadura e ao obscurantismo em épocas passadas, mas também da recusa à mediocridade e ao comércio do ensino e da pesquisa nos dias de hoje. Certamente é por isso que figura entre as melhores instituições do ramo no país, ao lado de outras do mesmo padrão, raras mas ainda existentes. O falsário da nota nos mostra que D. Odilo não estaria nem aí para isso tudo: "...suas 'lutas' e 'resistências' pertencem a um passado e contexto de outrora e NÃO (sic) podem e devem interferir e dilubriar (sic) o diferente cenário e sociedade de hoje...".

Sujeito bom esse falsificador da nota da Fundação São Paulo; intérprete seguro, quase um porta-voz. Naturalmente, interessa a todos saber - na hipótese comprovada de que se trata mesmo de uma nota falsa - como é que se chegou a isso, mas eu não apostaria tantas fichas nas inverdades que o documento possa eventualmente ter, já que ele me parece tão expressivo e didático que pode, no seu simulacro, ter atingido esse ponto de perfeição que todos os simulacros perseguem: uma fusão suficientemente forte com a realidade de tal forma que possa falar por ela.
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