segunda-feira, 2 de setembro de 2013

O homem que fazia chover...

Matt Damon alivia o sofrimento do doente terminal que o Seguro Saúde se recusa a atender: a rotina da selvageria social do capitalismo no mundo todo

Entre o futebolzinho que o São Paulo está jogando e o brilho do Corinthians, preferi neste domingo assistir O Homem que fazia chover (1997), de Francis Ford Coppola. Não é o melhor filme do diretor do Chefão e certamente também não é o trabalho de melhor desempenho de seus atores. É puro entretenimento em torno de alguns temas consagrados em Hollywood: o poder de advogados idealistas contra o poder do dinheiro e o célebre mito da vitória final da Justiça, ainda que uma vitória inócua pelo gigantismo da punição imposta ao lado mau da história. Posso estar enganado, mas reside aí uma sub-moral da narrativa hollywoodiana, uma espécie de poder fiscalizador da nêmesis que retira até do vitorioso a arrogância da vitória. No final do filme, as vítimas não têm como receber a indenização que os réus foram condenados a pagar, a "modesta" soma de 50 milhões de dólares.

Bom entretenimento com dois apelos para a reflexão. O primeiro vem das dúvidas existenciais do jovem advogado (Matt Damon) que indaga sobre o padrão ético de sua profissão e conclui que se ela já foi o território de práticas desonestas, reergueu-se nos anos 60 junto com a emergência da luta pelos direitos civis. Pode ser fantasia, mas de fato o advogado picareta da filmografia da década de 30 e 40 passou a dividir o palco com uma nova moral que emergiu com o fim da II Guerra, o Vietnã, os movimentos da contra-cultura etc. Rudy Baylor, o personagem de Damon, é produto dessa geração e por isso mantém a aposta que fez com o seu futuro.

O segundo apelo à reflexão é a causa que sustenta o núcleo principal do enredo: uma batalha judicial que uma família trava contra uma seguradora de saúde que se recusa bancar o transplante de medula que pode aliviar um de seus integrantes da leucemia terminal. O doente, como era de se esperar no desenvolvimento do filme, acaba morrendo, fato que só agrava o sentimento público contra a seguradora - uma das gigantes do ramo. A ideia é esta: na ausência de um poder público regulador (denunciado como uma ameaça num rápido momento do filme), só mesmo o regramento jurídico - exercido por um juiz negro que insinua simpatia pela causa das vítimas - e a confiança que ele inspira na sociedade, é capaz de colocar as coisas no devido lugar. E a seguradora é condenada a pagar o que nem pode e nem quer pagar: consegue, com base numa dessas artimanhas que protegem a "pessoa jurídica", escapar do cumprimento da sentença. No final, todas as vítimas e carrascos (inclusive Baylor que mata a golpes de bastão o marido de sua namorada e escapa sem deixar pistas para a polícia - uma zorra...) sentem-se compensados porque há crimes e crimes. Seja como for, alguma Justiça foi feita... 

Pois vem dessa segunda reflexão que o filme permite a justificativa desta postagem. Se os desmandos do grande capital nos Estados Unidos são acobertados no plano simbólico pela miragem de uma Justiça que restabelece o equilíbrio entre o público e o privado (ali representados pelo interesse social da família vitimada pelo arbítrio da seguradora e pelo interesse da empresa em assegurar seu gigantismo financeiro), no Brasil parece que nem temos esse consolo, se é possível afirmar com segurança que o ideológico compensa os desmandos concretos do capital. 

Exemplos não faltam, mas um fato recente me permite afirmar que, no nosso país, o comprometimento institucional com o regramento jurídico faria Coppola inverter o enredo de seu filme... ou desistir dele. Refiro-me a esse escândalo (que já está escapando das manchetes dos jornais) que envolve o ministro do Supremo Tribunal Federal (a nossa Suprema Corte), José Antonio Dias Toffoli (leia aqui): um episódio que embaralha de tal forma os ingredientes do seu conteúdo que todas as forças sociais envolvidas acabam vítimas de uma armação que não tem fim. Uma húbris de sentido inverso: não se trata mais de um descomedimento virtuoso - como seria o caso da vitória do poder do dinheiro narrada no filme de Coppola - mas de uma desvirtuosidade completa e radical, a ausência de qualquer elemento de dignidade, um default ético e institucional absoluto.

Parece exagero, mas não é. Na imprensa brasileira, até onde sei, só Luiz Gonzaga Beluzzo é que escreve sobre o tema da desarticulação geral que o grande capital provoca na sociedade e no papel regulador do Estado (aqui, naturalmente, compreendido como a estrutura dos três poderes). Depois da leitura de um artigo seu intitulado O capitalismo e seus cartéis publicado no Valor Econômico é possível entender melhor (mas não justificar) a lógica de Toffoli, dos nossos Planos de Saúde, dos nossos Bancos, das nossas universidades privadas etc etc.

Nem sei se Coppola previu que seu filme chegaria a tanto, mas é o que uma distração dessas me permitiu. Certamente muito mais do que o fultebolzinho do São Paulo e o brilho do Corinthians... Foi uma boa troca.
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