sábado, 30 de novembro de 2013

O ENEM e a black friday: afinidades culturais

Tal como a educação privada no Brasil, a black friday não libera nenhum instinto primordial diferente daquele que o capitalismo alimenta  no cotidiano, apenas reforça a mediocrização da inteligência e o embrutecimento das relações sociais...

Novembro vai compondo a moldura de 2013 e com ela a consolidação de tendências que oferecem perspectivas para 2014. Enumero abaixo três fatos recentes que me parecem indicar esse movimento e a associação sutil e sorrateira que há entre dois fatos aparentemente distantes entre si: o ENEM e a black friday.

* O Papa Francisco fez sua Primeira Exortação Apostólica e com ela sinaliza para uma narrativa católica do mundo que a Igreja abandonou nos pontificados de João Paulo II e Bento XVI: a narrativa em torno de uma crítica ao capitalismo que repõe enunciados deixados de lado desde o Concílio Vaticano II. 

Diz o documento: O grande risco do mundo actual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada...

Quem assistiu às cenas de selvageria que se desenrolaram da black friday deste ano pode ter uma ideia do divórcio entre esse sistema econômico em que vivemos e as possibilidades de construção de uma sociedade solidária e humanista.

* O outro fato acompanha de perto esse painel e vem de uma área onde se supunha haver resistência pelo menos filosófica à desumanização das práticas do cotidiano: a escola. Em busca de resultados bem administrados que lhe sirvam de trunfo de toda espécie, o governo comemora a divulgação dos resultados do Enem. As notícias disponíveis sobre o assunto demonstram a mediocridade espantosa do ensino médio e o estado de falência a que os interesses privados estão levando toda a Educação nacional, repetindo nesse nível o que já aconteceu com o ensino superior.

* O resultado de um sistema de avaliação que estimula uma perspectiva pedagógica fundada no ranqueamento da escola como prática de mercado e não como prática educacional se traduz em bobagens de todo o tipo. A última delas é a notícia do Globo dando conta da recriação da II Guerra Mundial numa página do facebook. Lá pelas tantas, como se os países envolvidos no conflito atuassem como usuários do site, me deparei com a seguinte postagem do Reino Unido (que manifesta sua contrariedade com a expansão alemã): 

Se liga aí, porque a potência moral da Europa sou eu. Tô de olho nessa onda de vocês, mas se pensam que vou me estressar estão muito enganados. Tô de boa aqui!

O reducionismo linguístico que essa "didática" concede à prática das redes sociais - a julgar pelo destaque que ganhou nas páginas do jornal - mostra qual é o fundo de cultura que vai sendo consolidado: o do empobrecimento geral das articulações analíticas e discursivas presentes nos sistemas pós-modernos de cognição do mundo. A idiotização do estudante de uma ponta a outra do ensino...

No fundo, o corre-corre da 6a feira negra fica muito parecido com essa liquidação geral em que a Educação brasileira vive...
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