domingo, 27 de abril de 2014

Economia volta a concentrar renda...

Operários, Tarsila do Amaral
A obra é de 1933, mas a realidade da concentração da renda em 2014 continua parecida

Dia desses, numa aula de Brasil Contemporâneo dada aos estudantes de Jornalismo da Metodista, estive às voltas com um tema clássico: as razões da crise do Populismo nos anos 60 e que levaram ao golpe de 64. Acho que esse foi um assunto recorrente nas turmas de vários cursos neste mês de abril, à margem das recordações entristecidas pela passagem dos 50 anos do início da ditadura. 

Para que a coisa toda ganhasse um pouco mais de profundidade, recorri a elementos de análise presente em diversos autores, em especial Weffort, Ianni e Laclau. Para esses três autores (um pouco menos em Laclau) o que aconteceu em 64 foi o resultado de um processo de esgotamento de uma prática política que dinamizava as demandas dos trabalhadores até o limite dos canais de absorção do conflito de classes. A partir daí - como se viu no Comício das Reformas em março daquele ano - o Brasil estava mesmo na fronteira entre a mudança radical das estruturas de distribuição da renda, com as consequentes reformas de base, e o retrocesso conservador - que foi, afinal, o que acabou acontecendo. Deixei claro para meus alunos que a ênfase da análise, portanto, recai sobre essa dicotomia: o perfil da renda versus as instituições conservadoras do Estado brasileiro. Penso que Goulart caiu premido entre esses dois pólos das contradições da época.

É claro que vivemos em momento totalmente diferente, mas há um conjunto de informações veiculadas pela mídia nos últimos dias que me fazem refletir sobre o quanto esse modelo excludente ainda persiste na sociedade brasileira e o quanto ele retarda processos políticos de mudanças. Posso estar enganado, mas a julgar pelas tendências observadas no comportamentos o perfil da renda, os sentidos do Lulismo presentes das medidas de natureza emergencial que levaram às mudanças nos estratos C e D da sociedade brasileira - e que foram tão bem analisados por André Singer - caminham para o esgotamento e vão exigir mudanças delicadas até as eleições de outubro.


Os sinais disso podem ser observados em dois níveis. O primeiro é o que transpira da notícia do Estadão (aqui) segundo a qual a classe B voltou a ter a hegemonia do consumo, atingindo a 50,8% do total dos recursos destinados às despesas diversas para o seu sustento. Somada a classe A (cujo percentual é de 19,5%), o total representando pelos dois grupos é de 70,3%, isto é, um poder aquisitivo altamente concentrado no topo da pirâmide social brasileira, embora classes A e B sejam numericamente menores que as classes C, D e E. Indagado sobre esses dados, um personagem entrevistado pelo Estadão afirmou que "a classe emergente (...) ainda tem a maior quantidade de domicílios, mas ela perde força". Segundo o jornal, "a classe C deve responder por 26% do potencial de consumo, nível mais baixo desde 2005". Portanto, uma tendência oposta à que justificou o entusiasmo com as mudanças na distribuição da renda, que volta agora a se concentrar nos estratos minoritários da sociedade brasileira. Aqui entre nós: um quadro eleitoral e socialmente explosivo.

O segundo nível é mais sutil, mas corrobora os indícios de uma profunda deformação na estrutura econômico-social do país. O mesmo Estadão noticia que "o Sudeste deixa de responder por mais da metade do consumo brasileiro" (aqui). Afora o fato de que o jornal não tem a menor ideia de como construir manchetes que permitam ao leitor entender do que ele está falando, o fato concreto é que dissociada do agravamento na distribuição da renda - como demonstra a matéria disposta acima - a diluição do poder de compra por outras regiões brasileiras e sua consequente desconcentração, poderia ser vista como um fato positivo, mas não é. Se o perfil da renda volta a se acumular nas classes A e B, a desconcentração do consumo regional repete os mesmos problemas estruturais observados no Sudeste. Ou seja: o sistema se reproduz para onde quer que vá, com os mesmos vícios da modernização que o país herdou da ditadura e que a armadura conciliatória das elites e dos movimentos de oposição não foi desmontada até agora...

* Leia também as advertências feitas pelo Nobel de Economia, Robert Shiller, sobre o descontrole dos preços no mercado imobiliário: nos últimos 12 meses, os valores dos imóveis subiram o dobro da inflação. Estamos surfando sobre uma bolha financeira que faz lembrar as causas da crise iniciada em 2008. É o reinado irresponsável do capital financeiro - que continua sendo bajulado pelo governo.
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