domingo, 18 de maio de 2014

Dimensões culturais do Jornalismo

Coletânea de textos sobre as relações entre Jornalismo e Cultura reedita artigos e pretende contribuir para a discussão sobre o tema. Abaixo, a apresentação do livro:

Antologia reúne 11 artigos sobre as relações entre Jornalismo e Cultura escritos por mim entre 2006 e 2013. São textos já publicados em periódicos científicos (com a única exceção da colaboração feita com o Suplemento Literário da Secretaria da Cultura do Governo de Minas Gerais), que agora compõem um painel articulado em torno dos principais resultados do projeto de investigação científica que desenvolvi no mesmo período na Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), onde atuo no Programa de Pós-Graduação em Comunicação. 

Dois desses textos foram produzidos em coautoria com minha colega Profa. Elizabeth Moraes Gonçalves, pesquisadora de extraordinária sensibilidade para a dimensão linguística do nosso objeto de estudo – parceria que me assegurou uma visão mais abrangente das relações entre os dois universos da pesquisa.

Meu interesse acadêmico pelas aproximações possíveis entre Jornalismo e Cultura data da tese de doutorado que defendi sobre a revista Realidade, na Escola de Comunicações e Artes da USP, em 1996, quando pude analisar detidamente o vínculo que a publicação da Editora Abril manteve, principalmente nos seus primeiros três anos de existência, com os novos padrões de comportamento de meados dos anos 60, época transgressora do conservadorismo que, no Brasil, vinha de braços dados com a construção do Estado autoritário iniciada com o golpe militar de 1964. O estudo de Realidade, que também para mim foi um dos suportes de construção e de entendimento dos significados da época, está na origem de uma preocupação que acabou por me acompanhar na vida universitária: quais os universos que a produção jornalística efetivamente traduz em sua operacionalidade noticiosa e de qual matéria-prima é constituída a sua narrativa? 

Ao contrário do que pode supor uma visão apressada do problema, a dimensão cultural dos textos jornalísticos tem larga abrangência, porque, desde a mais elementar reconstrução substantiva dos fatos até a mais intrincada reflexão presente nas matérias que avançam sobre os processos da criação artística ou sobre o universo conceitual do pensamento científico, o Jornalismo apela sistematicamente para os campos do imaginário e do simbólico, espaços que me parecem dar sustentação à sua eficácia comunicacional em todos os gêneros em que ele se manifesta. 

Em decorrência disso, penso que uma boa análise sobre os desafios e impasses que esse campo enfrenta como instituição dessa etapa de longa duração da contemporaneidade que estamos vivendo deve levar em conta os vínculos que suas pautas mantêm com a estrutura das formas de pensamento e valores, padrões de gosto e consumo, construções semânticas e míticas do e sobre o cotidiano e... com a sociabilidade que decorre da circulação das notícias – talvez até, neste último caso, como um subproduto das marcas estruturais de sua natureza fenomenológica. É, portanto, um complexo cuja compreensão cobra, dos estudiosos e dos que atuam profissionalmente com ele, um mergulho em territórios de diversas áreas do conhecimento.

Mas é preciso que essa dilatação de perspectiva multidisciplinar da produção e da análise do Jornalismo não seja nem meramente tangencial nem apenas episódica, já que ela diz respeito à sua disposição de registro sistemático e intermitente do mundo observado a partir da singularidade epistêmica da informação, como apontou Adelmo Genro Filho em O segredo da PirâmideÉ a partir desse contexto que emergem os gêneros narrativos e/ou temáticos em que o Jornalismo se subdivide, espaços de ressignificação do real e de aplicação do terreno conceitual em que eles se distribuem. Esse é o motivo que explica o Jornalismo Cultural como núcleo dos estudos que são objeto dos artigos reproduzidos aqui, talvez a manifestação que mais expressa a complexidade referida acima. De um lado, porque a matéria-prima de suas pautas é não só a informação como mercadoria (embora ela também o seja), mas também o próprio objeto da informação que circula como tal na sociedade de consumo, fato que o aproxima em demasia de uma perspectiva que o coloca na contingência de um gênero prestador de serviços em toda a linha, esvaziado de riqueza analítica voltada para o interesse público, como pretende o pensamento liberal que interpreta dessa forma toda a cobertura noticiosa. 

Certamente, como verificação empírica da “mudança estrutural” a que se referiu Habermas ao apontar o déficit de substância argumentativa e deliberativa da esfera pública, são inúmeros os exemplos da perda de distinção do Jornalismo Cultural em favor de matérias pressionadas pelas assessorias de imprensa ou pelas regras da midiatização mercantil dos eventos artístico-culturais, assim como são também variados, mas recorrentes, os motivos do ceticismo com que os próprios projetos editoriais dos “segundos” cadernos são vistos inclusive por seus próprios protagonistas. Provavelmente, na dependência de estudos que possam ser feitos em torno desse cenário, reside aí o desencanto teórico-metodológico e reducionista com que o gênero é visto, uma espécie de senso comum refinado e sentencioso que acaba por concluir o óbvio: se na contemporaneidade nada escapa à forma essencial da mercadoria midiatizada, por que o jornalismo cultural conseguiria fazê-lo? 

Claro que não consegue, mas a polêmica que cerca o gênero não se esgota nisso. É certo que os casos estudados nos textos desta antologia reafirmam a variedade de condicionamentos que atravessam suas práticas, em especial aqueles que decorrem da própria performatividade do discurso da crítica cultural (o ganho conceitual que emerge nos dois artigos produzidos na parceria com a Profa. Elizabeth Moraes Gonçalves) e os que se desdobram do mercado de bens culturais que se forma ao redor dos veículos que reproduzem informações a respeito deles. 

Todavia, também é certo que se constituiu em torno de alguns desses mesmos veículos um estatuto de reconhecimento e de credibilidade que lhes conferiu historicamente o papel de tribunas de questões estético-expressivas e ético-políticas consubstanciadas na crítica cultural (reforçada pela presença autoral de especialistas – de dentro e de fora do jornalismo) e produzidas em sintonia com demandas oriundas de diversos campos das práticas culturais, processo que permite observar que o gênero escapa dessa determinação mercantil, chegando mesmo a se instituir como espaço de presença pública de intelectuais que o conduzem para fora da racionalidade exclusiva da cultura de massas.

Essa hibridação do Jornalismo Cultural representada pelo sentido pendular com que é percebido pelos profissionais e estudiosos da imprensa é, portanto, o tema em torno do qual se articulam as hipóteses com as quais trabalho praticamente em todos os artigos reproduzidos aqui.

Resta, no entanto, um paradoxo: as relações entre Jornalismo e Cultura e o próprio Jornalismo Cultural são temas debatidos mais fora do que dentro da universidade. A realização de eventos promovidos por publicações da área, seminários organizados por entidades de perfil corporativo ou até mesmo por instituições que sugerem a temática em cursos destinados a profissionais e estudantes se situam em um terreno caracterizado pela troca de experiências práticas, relatos de cases e por certo distanciamento do rigor analítico que o assunto exige – e certamente merece. Na academia, contudo, em especial nos programas de pós-graduação em Comunicação ou em Jornalismo, o volume de pesquisa sobre o assunto é apenas residual – levada em conta a massa crescente de conhecimento produzido sobre a variedade de temas de que os cursos de mestrado e doutorado se ocupam. Particularmente, percebo nesse desequilíbrio uma das causas das dificuldades que o gênero enfrenta no interior dos próprios veículos que trabalham com ele, fato que exigiria, para sua superação, uma aproximação maior entre editores e jornalistas que trabalham com a crítica cultural e os que o estudam sem o peso das contingências do imediatismo com que o Jornalismo em geral é produzido. 

Se esta antologia contribuir de alguma forma para que essa possibilidade se concretize, o empenho em disponibilizá-la para os interessados terá valido a pena.
J. S. Faro

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