domingo, 21 de setembro de 2014

A serviço da escola particular



Escolas particulares: sob a aparência da diferença, uma mesma natureza

Curiosa a prestação de serviço que a Folha faz hoje para a classe média ao publicar uma suposta "pesquisa" sobre o perfil das escolas particulares de São Paulo. O objetivo é o de sempre, no momento em que essas empresas já definiram os escorchantes índices de reajuste que vão aplicar às suas mensalidades (leia aqui) e também na hora em que os pais participam dessa alucinada corrida em busca de um colégio que os proteja do ensino público, sem que saibam exatamente os motivos disso. Não tem importância que a educação privada tenha fracassado na avaliação do Ideb e que venha apresentando níveis sofríveis de desempenho no Enem (no caso do Ideb, fato noticiado pela própria Folha); o importante é a consagração desse modelo que sobrepõe a distinção social à mediocridade do ensino.

O roteiro que o jornal oferece é perfeito. Além de um mecanismo de busca muito parecido com o que os sites de compra disponibilizam na rede, com filtros refinados de pesquisa (no caso da Educação, nível de ensino, mensalidade e região/bairro, mas nada sobre o corpo docente das escolas, nem sua qualificação nem as condições de trabalho em que atuam, menos ainda sobre a consistência de seus projetos), uma variedade caótica de informações que abrangem "grife", desempenho e nível econômico, uso de tecnologia e uma bobagem dita por uma coordenadora entrevistada na "pesquisa" e que funciona como um mantra para todo o conjunto: "a escola é que deve se adaptar ao aluno e não o contrário". Ainda bem que isso não é verdade - embora o princípio funcione no aprimoramento do marketing das empresas que atuam na área, preocupação que parece orientar a entrevistada.

Não tenho dúvidas sobre o perfil ideológico e anti-jornalístico de uma publicação dessas: ela enaltece a natureza privada da educação como sinônimo de qualidade, mesmo que no Brasil já esteja consolidada a comprovação de que é exatamente o oposto o que acontece - em inúmeras situações no ensino fundamental e médio e na quase totalidade do ensino superior. Ao mesmo tempo, apresenta-se com roupagem de matéria e de pesquisa, o que não é verdade nos dois casos: não há sinal apuração do que o texto nos diz e nem se pode chamar de "pesquisa" o mero levantamento descritivo das categorias fundamentais para que a escolha da clientela possa ser feita. A Folha, com isso, junta-se a outras publicações (Veja, por exemplo) que instituem o complexo discursivo-midiático dos interesses privados no ensino, e os legitima com isso - na minha opinião prestando um desserviço à Educação e à sociedade.
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