terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Diferenças...

Obama caminha na reta final de seu 2o mandato para a cristalização do welfare state na regulação econômica e nas políticas de taxação do grande capital. Nossos trapalhões neoliberais fazem o oposto e o resultado é o que se vê...

Passei alguns bons momentos na leitura do livro Alegorias do Subdesenvolvimento, de Ismail Xavier (leia aqui entrevista com o autor na revista Cult). É uma obra maravilhosa sobre o cinema brasileiro, mas é também um tratado sobre a nossa cultura e as diversas perspectivas que nossa formação social inspirou nos cineastas. Lá pelas tantas, ao analisar o filme Brasil ano 2000 (de Walter Lima Jr, 1969), Xavier diz que "o problema do Terceiro Mundo (...) vem de dentro e dispensa as conspirações...". 

Mais adiante, Ismail explicita melhor o que Lima Jr pretendeu: "Brasil ano 2000 retoma a crítica à modernização reflexa. No país atrasado, o avanço tecnológico se encontra nas mãos de trapalhões" e isso significa "por distintos meios, o quanto sua cultura é provinciana e incompatível com tal programa" - referindo-se a um fictício programa espacial que se constitui "numa sátira técnico-científica-militar" às bobagens da ditadura que então se definia no cenário político nacional.

Eis aí uma boa síntese de um dos nossos principais dilemas. Fico ouvindo os discursos do empreendedorismo, da inovação, do superavit orçamentário, do rigor fiscal, das desonerações estúpidas, dos afagos que temos feito nos últimos cinco séculos e meio aos nossos colonizadores - os de dentro e os de fora - e percebo que nossa elite se resume a esses trapalhões provincianos que nos condenam ao atraso. 

Digo isso porque agora mesmo, nos jornais de hoje e de amanhã, começa a circular a notícia segundo a qual o presidente Barack Obama abandona de vez a política de austeridade e resolve ampliar os gastos públicos como instrumento de estímulo à retomada do crescimento econômico. Obama tem sido aconselhado pelo pensamento econômico heterodoxo e sabiamente acompanha as reflexões de Paul Krugman e de Joseph Stiglitz que desde o estouro da crise em 2008 advogam a ampliação do papel do Estado na regulação econômica - sugestão que vem tomando forma política na rejeição das práticas neoliberais no mundo inteiro, menos... no Brasil .

Mas não é só isso: outra informação dá conta de que o orçamento dos Estados Unidos para 2016 já prevê o aumento da taxação dos lucros que as empresas do país obtem no exterior sem qualquer possibilidade de anistia para aquelas que deixam seus ativos fora das fronteiras. Nenhuma grande empresa vai se beneficiar daquilo que conhecemos como "desoneração" - política fiscal suicida adotada por Dilma e que privou o Estado, em 2014, de recursos da ordem de 100 bilhões de reais. Nem mesmo as meninas dos olhos da tecnologia - Google, Apple, Microsoft - estarão livres da investida do tesouro.

Aqui, como se sabe, continuamos no papel de bobos do capitalismo global, reduzindo investimentos sociais, violando direitos dos trabalhadores, protegendo os aventureiros do capital financeiro...
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