quarta-feira, 25 de março de 2015

Redes sociais: presente e perspectivas

Beth Lorenzotti:
redes sociais enfrentam
processo de inserção nos
movimentos da sociedade civil

O sonho acabou?

Há algo comum entre as jornadas de junho de 2013 e as manifestações de 13 e 15 de março de 2015?

Elizabeth Lorenzotti (*)

O professor Faro me pede um artigo a partir das entrevistas do professor Fabio Malini e do ativista Bruno Torturra sobre as manifestações de 2013 e estas recentes, de março de 2015. [1]

Eu começo por estes dados que estão no meu e-book Jornalismo Século XI- O modelo #midianinja”, capítulo Jornadas de Junho. 

 “No dia 21 de junho de 2013 a Agência Brasil publicava levantamento da Confederação Nacional de Municípios (CNM) mostrando que, no dia 20, houve protestos em pelo menos 438 cidades de todos os estados do país. Quase dois milhões de brasileiros fizeram manifestações pela redução das passagens do transporte público, contra os gastos com as obras da Copa do Mundo, pelo aumento dos recursos para a saúde e educação, contra a corrupção e a impunidade etc. 

A maioria dos confrontos aconteceu em cidades grandes e médias, nas pequenas as manifestações foram pacíficas. Houve atos, inclusive, em municípios de 5 e 10 mil habitantes. Desde Belém, no Pará, até Santana do Livramento, na fronteira com o Uruguai.

A exemplo do ocorrido no mundo árabe, no Occupy Wall Street e nos vários que se seguiram, no 15M (15 de maio de 2011) em Madri, entre outros, as manifestações foram convocadas pelas redes sociais. Tratou-se de uma propagação viral.”

Lembremo-nos que nas jornadas de junho de 2013, com suas bandeiras difusas, entre outras ações foram ocupadas inúmeras Câmaras Municipais de várias cidades, num fato inédito entre nós. Por exemplo, capitais como Belo Horizonte 9 dias, Porto Alegre 8 dias.[2] E cidades pequenas também.

Segundo a revista Carta Capital em 25 de julho de 2013, ao menos 23 cidades tiveram suas Câmaras Municipais ocupadas, por diversos motivos. “Algumas cidades chegaram a ter mais de uma ocupação. Em Dourados, por exemplo, estudantes de universidades públicas tomaram o prédio pedindo a redução da tarifa de ônibus. Posteriormente, índios ocuparam o mesmo local pedindo auxílio à reserva do município”.

“Muitos dos motivos remetiam às reivindicações locais. Em Santa Maria, manifestantes permaneceram quase uma semana pedindo após a divulgação de uma gravação com conversas entre vereadores, pedindo para que a CPI instalada sobre o incêndio na Boate Kiss não “dar em nada”.


(...) “Outras cidades, como Ilhéus, tiveram a prefeitura ocupada. Já em Vitória, a Assembleia Legislativa foi tomada em protestos”.  A revista listou as cidades que tinham, na época, ou tiveram, a sede do Legislativo municipal tomada desde o mês de junho:
Aracruz (ES); Belém (PA): Belo Horizonte (MG): Divinópolis (MG); Dourados (MS); Governador Valadares (MG); Indaiatuba (SP); tapetininga (SP); Juiz de Fora (MG) 
Montes Claros (MG); Natal (RN); Ouro Preto (MG); Passo Fundo (RS); Porto Alegre (RS); Pouso Alegre (MG); Ribeirão Preto (SP); Rio Preto (SP); Salvador (BA); Santa Maria (RS) 
São Leopoldo (RS); São Luís (MA); Teófilo Otoni (MG) Uberlândia  (MG).

Somente estes episódios configuram um cenário absolutamente diverso do ocorrido recentemente: ocupar o legislativo para cobrar, exigir direitos de uma forma que jamais havia ocorrido neste país e refletiu as ocupações que se deram pelo mundo, igualmente convocadas pela internet, igualmente sem bandeiras partidárias, igualmente horizontais.
Segundo o perfil traçado pelo Datafolha, a idade média dos manifestantes era de 25 anos, diploma de nível superior, antipartidos políticos (84%), e suas bandeiras contemplavam desde a questão do transporte publico até os gastos com a Copa, por saúde e educação de qualidade, entre muitas outras. Houve forte repressão policial em todos os Estados onde se registraram as jornadas.

O perfil do 15 de março era homem, 40 anos, curso superior, assalariado com carteira assinada ou empresário, centro-direita, mais simpático ao PSDB, branco, renda superior a dez salários mínimos, estreante em manifestação de rua.

A manifestação de 13 de março, convocada pela Central Única de Trabalhadores e por movimentos sociais em defesa da Petrobras e do governo federal não pode ser comparada às jornadas de junho, que não tinham lideranças. Assim como a de 15 de março, contra o governo, contra a corrupção, pelo impeachment, com grupos pedindo intervenção militar.

Diz Bruno Torturra: “Não adianta comparar, pois a origem do movimento atual é oposta à de junho de 2013, que teve como gatilho uma demanda não só histórica, mas de cunho de esquerda e popular: pelo transporte grátis. Era uma pauta específica e histórica, catapultada, depois, pela violência policial empregada nos primeiros protestos. Na verdade, é um movimento antítese ao de junho.”

Sim, não há como comparar. Além do protagonismo do  Movimento Passe Livre (MPL)  de São Paulo, com a luta pelo barateamento das tarifas de transportes púbicos tendo como horizonte a tarifa zero- as razões do movimento eram subjetivas, derivadas de uma percepção negativa, generalizada, do campo político em geral.

Em 2013, todos – governo federal, estaduais e municipais, partidos políticos, direta e esquerda foram pegos de surpresa. Em comum, como lembra o professor Malini, “a mobilização em rede ativista e a temática do combate à corrupção e reivindicação da reforma política.

Lembra ainda Malini que há uma diferença fundamental: ”As manifestações de março possuem forte atuação dos partidos e de lideranças políticas. A imagem mais representativa disso é o carro de som, o microfone e a pessoa bradando palavras e discursos para a massa”. Isso em ambas as manifestações, de 13 e 15 de março.

Nas Jornadas de Junho, após a surpresa inicial, houve a consequente criminalização dos manifestantes também por uma parte da esquerda- pois suas bandeiras partidárias foram rechaçadas nas manifestações – assim como a imputação de patrocínio da direita.

Mas junho de 2013 fez parte do conjunto de manifestações pelo mundo- Occupy Wall Street, 15M da Espanha, entre tantos outros, convocados pela internet e viralizados. Movimentos sem lideranças, com decisões tomadas em assembleias e comitês. Como acentua o cientista social espanhol Manuel Castells no livro Redes de Indignação e Esperança- Movimentos Sociais na Era da Internet (2013)- sobre os movimentos sociais surgidos no mundo nos últimos três anos:

“Não se trata de falta de líderes, mas de profunda desconfiança da maioria dos participantes em relação à delegação de poder. As redes, tanto na internet quanto no espaço urbano criam companheirismo, o que ajuda a superar o medo e descobrir a esperança”.

No Brasil, outra grande diferença entre 2013 e 2015 foi a cobertura pela mídia. Enquanto em 2013, inicialmente, ela se posicionou contra o MPL, tachando os manifestantes de vândalos: em seguida voltou atrás, pois a violência da PM atingiu até mesmo seus repórteres (vide caso FSP)- para depois insurgir-se novamente (o jornal O Globo chegou a editar uma primeira página “entregando” militantes como criminosos).

Nas manifestações de 13 de março houve controvérsias quanto ao numero de participantes. Já a de 15 de março, ao contrário desta, teve grande divulgação prévia pela mídia, chegando mesmo a constar como destaque de programa em caderno de “divirta-se” da Folha de S. Paulo e em vários programas de TV (inclusive de auditório) e rádio. Também houve controvérsias quanto a números, com a PM estimando 1 milhão de pessoas e a Folha 210 mil.

A novidade de 2013, uma irrupção das redes nas ruas manifestando uma indignação represada- embora ninguém seja inocente ao não creditar infiltrações - foi o inicio de qual fim não se sabe.

Apenas sabe-se que a internet pode servir a chamamentos diversos, não apenas ao novo, não apenas àqueles que, em todo o mundo, através dos movimentos sociais em rede, propõem uma nova utopia, aquela da autonomia do sujeito em relação às instituições sociais. Também pode convocar e levar às ruas de um país como o Brasil, 2 milhões e 200 mil pessoas, “sem quebrar uma vitrine”, como acentuou em entrevista no dia 23 de março ao Roda Viva o engenheiro Rogerio Chequer, liderança de um dos movimentos, o Vem pra Rua.

De braços abertos

O pessoal do Vem pra Rua usava pulseiras de identificação e camisetas, espelhando assim os camarotes dos shows e dos carnavais, que identificam desta foram os convidados VIPs.
Rogerio Chequer é sócio de uma empresa que ensina executivos a preparar palestras em power-point e diz que o movimento começou em setembro de 2014, inicialmente ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL) [3]que prega o impeachment da presidente, o que os teria levado a romper, segundo se entendeu na entrevista.

Ele não compareceu a nenhum ato das Jornadas de Junho de 2013. Tornou-se um ativista social durante as eleições de 2014, marcadas pela polarização entre apoiadores do governo do PT e opositores do PSDB. 

O movimento, segundo ele, tem três pilares: “Exigimos uma separação entre poderes; exigimos liberdade de expressão e não queremos que ocorra a democratização da mídia”.
Chequer diz que o movimento tem 150 lideres espalhados pelo país, mas muitos têm medo de retaliações e daí a sua visibilidade.  Afirma que a hierarquia vai se formar aos poucos, que nunca se reuniram fora da rede e não monitoram os novos movimentos sociais internacionais em rede.

Ao contrário daqueles, o Vem pra Rua prevê, então, uma hierarquia. Entre as características comuns dos movimentos sociais recentes no mundo, Manuel Castells refere-se à horizontalidade das redes (que) favorece a cooperação e a solidariedade, ao mesmo tempo em que reduz a necessidade de liderança formal.”

O Vem pra Rua praticamente se reúne apenas via rede, ao contrário dos movimentos, que realizam assembleias deliberativas que podem durar até dias.

O empresário afirmou que 34% dos presentes da Avenida Paulista ganham de zero a dois salários mínimos, e “a classe média e alta estão de braços abertos para se misturar com pessoas de todo o país”. O VPR vai começar a fazer manifestações mais perto deste segmento, que tem dificuldades de locomoção, informa Chequer.

Para ele, a contraposição de classes surgiu na era Lula, pois antes “não se via isso no Brasil”. Mas ele crê que “não há uma classe mais importante do que outra”.

E na manifestação que estão chamando para 12 de abril, o importante não será o numero de pessoas, mas de cidades. Para esse dia, suas reivindicações serão: redução de ministérios; transparência nos dados dos empréstimos do BNDES; impedimento do ministro Tofoli para julgar o Petrolão, “por ser ligado ao PT”.


[1] As manifestações de 13/15 de março e a artificalização das redes sociais. Entrevista com Fábio Malini

"Estamos deixando de discutir as verdadeiras pautas nesse protesto". Entrevista com Bruno Torturra

[2] http://www.cartacapital.com.br/sociedade/ao-menos-23-cidades-tiveram-camaras-municipais-ocupadas-3078.html

[3] Movimento Brasil Livre
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(*) Elizabeth Lorenzotti é jornalista e escritora, ex-professora e graduação e pós-graduação em Jornalismo na PUCSP e Universidade Metodista. Escreveu Suplemento Literário: Que falta ele faz! (2007): Tinhorão, o Legendário (2010), As Dez Mil Coisas (poesia, 2011) e o e-book Jornalismo Século XXI- O modelo #mídianinja (2014).
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