quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Como é que se explica isso?

Magritte, A sala de audição (1952)
Como num quadro surrealista, as imagens da realidade têm uma significação paradoxal
as coisas não "batem" entre si. Essa é uma analogia possível de ser feita com o malabarismo do pensamento brasileiro neoconservador que imagina um país moderno sem os atributos da modernidade

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso está assustado e quase em pânico com a notícia de que o Estatuto do Desarmamento está em vias de ser revogado na Câmara dos Deputados e até já gravou um vídeo em que pede aos parlamentares que impeçam essa possibilidade quando a decisão final for a plenário. "Como é que vamos agora derrubar este estatuto e permitir que pessoas, até criminosos, tenham legitimamente, armas? Isso é um escândalo", diz FHC (leia a matéria e veja o vídeo aqui). É claro que o descontrole do ex-presidente é basicamente midiático, mas é possível admitir que a decisão da Câmara (ainda que parcial) faça parte do vendaval neoconservador que está desarticulando os itens da sociabilidade moderna que o país vinha construindo até recentemente; e, neste caso, o arrepio provocado pelo atraso afeta mais gente do que se imagina.

A reação de FHC, no entanto, é contraditória pois parte desse impulso revisionista das práticas culturais pertinentes  à contemporaneidade brasileira e se deve justamente à reação ao aprofundamento das mudanças, atitude que tem no próprio ex-presidente uma espécie de guru. Em outras palavras, tudo se passa como se a negociação que as elites são chamadas a fazer com os itens da modernidade seja sempre "seletiva e negociada com os inacabados processos de modernização"(1): algumas coisas podem mudar, outras não, em especial aquelas que se localizam no território dos padrões de comportamento. A sociedade pode ser moderna, mas não necessariamente os atributos do moderno devem se estender para todo o conjunto de suas práticas, pois que é nesse terreno que se institui a ordem simbólica que estrutura o poder do neoconservadorismo.

Esse é o resultado - provavelmente, o mais grave - da nossa dualidade contemporânea, ou seja, uma assimetria em que o conservadorismo se recusa a incorporar a modernidade no seu projeto social moderno - repleto de construções sociais "avançadas" - como é o caso da ostentação da racionalidade financeira (bancos) e tecnológicas (mídia, empresas, universidades) - que operam no âmbito de uma resistência radical em estender ao terreno da cultura organizacional o correspondente a esses itens da inovação capitalista: concentração da renda, relações de trabalho atrasadas e com baixo índice de inovação, ensino de baixa qualidade, práticas culturais atravessadas pelas práticas da crendice religiosa.

O caso da ameaça de revogação do Estatuto do Desarmamento é um exemplo singelo que apenas aponta na superfície. Na minha opinião, o episódio recente que mais sintetiza essa dupla dimensão da realidade brasileira foi a crítica que os setores de extrema direita - a tropa de choque do neoconservadorismo - fizeram aos enunciados culturais das questões do Enem, em especial em torno do tema da violência contra a mulher. É preciso um elevado grau de agonia intelectual para se imaginar que um exame com tal nível de logística e operacionalidade moderna possa se eximir de abordar propostas de reflexão em torno de um assunto que guarda uma forte relação com toda a variação da sua sociabilidade (leia o artigo de Christian Dunker, A ideologia vermelha do Enem). É mais ou menos como se os brasileiros fossem obrigados a usar o ábaco para fazer o seu ajuste anual do imposto de renda sob o argumento de que calculadoras eletrônicas são instrumentos do diabo: coisas da mesma idade, do mesmo tempo, mas que não se coadunam no mesmo espaço.

A raivosa senhora que agrediu Eduardo Suplicy na Livraria Cultura (leia a postagem Agonia e êxtase na terra dos coxinhas), sua exasperação irracional e em tudo oposta aos padrões de urbanidade que emanam no ambiente de uma livraria cosmopolita, é, sob qualquer circunstância, o mais feio subproduto do nosso dualismo, um dejeto com o qual nem mesmo os neoconservadores sabem como lidar. Fernando Henrique, em pânico pelo retorno às armas, que o diga, mas tem sido ele um dos responsáveis por atear fogo no lixo que anda solto por aí.

(1) Neoconservadorismo e modernidade inacabada. Antonio Ianni Segatto e Felipe Gonçalves Silva. In Jürgen Habermas. A nova obscuridade. São Paulo: Editora Unesp, 2011.
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