sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Vazio político e colapso da razão pública

A crise política vivida pelo Brasil vai gerando as primeiras indicações de que o seu desfecho pode reproduzir um retrocesso político maior do que foi o que se seguiu ao golpe de 64, não propriamente pela natureza institucional das duas conjunturas (estamos na plenitude do regime democrático e felizmente nada indica que isso vai mudar), mas pela natureza conservadora das reformas que o custo da superação da crise vai cobrar. 

Acho que as principais interpretações sobre essa possibilidade estão na rede. A primeira é o texto de Daniel Bin - Quando o impeachment é mais útil como hipótese do que como fato - publicado no blog da editora Boitempo. O autor faz um importante resgate do processo que nos trouxe até aqui e aponta, na minha opinião com clareza e consistência, como é que a filosofia da governabilidade criou uma cultura de práticas conservadoras num partido que não soube o que fazer com as estruturas do Estado que herdou nas eleições de 2002. A leitura do texto de Bin me dá a convicção de que o cerne da crise está no núcleo executivo do governo. É uma discussão interminável, mas vale a pena.

A segunda interpretação é a da Profa. Maria Hermínia Tavares de Almeida publicada no jornal Valor Econômico (O vazio traz seus riscos). Na entrevista que a pesquisadora do Cebrap deu ao jornal, a hipótese é a de que o vazio político decorrente do colapso da representação político-partidária em que o país se viu mergulhado gradativamente desde o fim do mandato de Lula cria condições para um tipo de regime velho conhecido nosso: o populismo, mas o populismo conservador e messiânico - mais no estilo de Jânio Quadros do que no de Getulio Vargas, fato que possibilitaria a emergência de um cenário de definhamento das estruturas racionais de deliberação política. Laclau diz que o populismo clássico cria o sujeito político a partir das demandas sociais que ele próprio estimula e em torno das quais mobiliza as massas. No nosso caso, especialmente agora, o populismo conservador talvez representasse o embrutecimento do sujeito político e o seu conformismo com a supressão dos direitos sociais que está sendo armada no Congresso. Deixando claro: não é Maria Hermínia quem diz isso; eu é que interpreto assim a análise que ela faz. Também é uma discussão que vale a pena. . .

* Leia ainda: Alguma atitude (Janio de Freitas).
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