sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

A alma e as motivações golpistas do impeachment

Os mercados de câmbio e ações responderam positivamente à aceitação do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff, apostando que aumentaram as chances de uma definição no quadro político e econômico do País. O otimismo dos investidores se manteve mesmo diante da perspectiva de um processo longo e de resultado imprevisível. Com isso, o dólar fechou em queda de 2,13%, cotado a R$ 3,7459. A Bovespa, que chegou a subir quase 5% ao longo do dia, fechou com ganhos de 3,29%, aos 46.393,26 pontos e R$ 7,8 bilhões em negócios (Estadão)

Acho que a população brasileira, caso vingue a armadilha golpista do impedimento da Presidente Dilma, deve se preparar para enfrentar um longo período de supressão de direitos e de desorganização das suas conquistas tal é a verdadeira volúpia com que os empresários de todos os setores se agarram à tese do impeachment. Na verdade, nossas elites - nem mesmo nos momentos dos afagos a essa turma feitos erroneamente pelo PT em nome da governabilidade - nunca suportaram (ou o fizeram de nariz tapado) a ideia de um governo de extração popular, ainda mais quando, depois da eleição de Dilma em 2010, os grandes interesses financeiros foram fustigados pela política desenvolvimentista  da presidente (leia aqui a análise de André Singer). Não adiantaram nada as medidas de crédito subsidiado, de desonerações fiscais, de estímulo às exportações ou a absoluta liberalidade em relação aos gigantescos lucros dos bancos e às remessas de lucros das empresas estrangeiras, os empresários conspiraram contra Dilma o tempo todo.


Resultados das operações financeiras, assim que o facínora Eduardo Cunha anunciou aceitar abrir o processo de impedimento da presidente Dilma, não deixam qualquer dúvida sobre o interesse dos empresários no golpe

É claro que essa facção não está sozinha, já que age com respaldo de partidos de forte presença no Congresso (como é o caso do PSDB e do PMDB) e até em altos postos do executivo (alguém me explica o que Afif Domingos fez no governo e Temer na vice-presidência?) - mas é ela a alma de toda a desestabilização política que temos assistido durante o ano de 2015. Alma e inspiradora das motivações, em especial a desorganização do regime de proteção ao trabalho e à renda que mal a sociedade brasileira conseguiu defender até agora. Por esses motivos, estou convencido do artificialismo jurídico da tese do impeachment, mas também estou convencido de sua dimensão política e social: trata-se de um assalto que se pretende definitivo ao Estado do Bem-Estar Social, talvez a conclusão de uma obra ensaiada tantas vezes na nossa História (1945, 1954, 1961, 1964) e que agora parece ter entrado na sua etapa final.

Grande parte dos empresários brasileiros é pré-capitalista e pré-moderna; assemelha-se uma camada parasitária encrustrada nas benesses do Estado, sem projeto de capitalização de seus próprios empreendimentos e especialista em esgrimir contra os direitos trabalhistas. Dificilmente consegue conviver com a democracia plena e com a sociabilidade moderna. O afastamento da presidente Dilma parece ser a garantia de que isso não mude. Se chegarem ao poder sem os empecilhos do respaldo popular, não tenho a menor dúvida de que nossas práticas sociais vão caminhar para a selvageria dos contratos.

Vale a pena ler: * Fiesp: conspiradores deixam o esconderijo (do blog) * Empesariado enxerga com bons olhos o impeachment (Paulo Skaf) * Setor privado cavou crise * Para FHC, mercado prefere que haja impeachent de Dilma * Capitalismo sem democracia x democracia sem capitalismo: como FHC simplificou essa escolha * Bolsa fecha em alta um dia após o pedido de impeachment de Dilma (El País) * Dólar cai e Bolsa tem forte alta com expectativa sobre impeachment (Estadão) * E agora, Dilma * Eduardo Cunha: definição de cínico (El País) * Processo encaminha solução para a crise (Valor) * Tática para barrar impeachment deteriora relação entre Dilma e Temer (Valor). Por último: * Alegações para o impeachment desprezam soberania do voto popular (Mario Magalhães, Uol).
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3 comentários:

Anônimo disse...

Kkkk professor, esperava mais de alguem politicamente engajado como o sr. Dizer que é um golpe é um absurdo. Essa abertura nada mais é que total exercício de democracia, onde DEVE-SE sim investigar as denúncias envolvendo a presidente que são gravíssimas para alguém que ocupa o maior cargo do país. Uma tristeza chamar isso de golpe

J.S.Faro disse...

Eu concordaria com você se... a campanha pelo impeachment de Dilma não tivesse sido iniciada antes mesmo de que a presidente tomasse posse no seu 2o. mandato. Na minha opinião, esse fato mostra a dificuldade dos setores conservadores em absorver o resultado das urnas e em tentar encontrar subterfúgios que justificassem o afastamento de Dilma, aliás uma dificuldade histórica pois reincide ao longo da história recente do país: 1954, 1955, 1956, 1961, 1964... É o nda autoritário e anti-constitucional das nossas elites. "Denúncias gravíssimas"? Quais?

Anônimo disse...

Ta certo.. Mas e as tentativas de impeachment da atual situação no governo passado de FHC, como petistas podem alegar com tamanba cara de pau que isso é uma tentiva de golpe e que é um ato incostitucional sendo que, alguns mandatos atras foram eles quem tentaram realizar tal manobra?!