terça-feira, 31 de maio de 2016

Bancos: cara de pau e ganância

Bertold Brecht: robar un banco es un delito, pero
más delito es fundarlo
Fiquei surpreso com a matéria que o Estadão divulgou ontem dando conta de um vídeo no qual o presidente do conglomerado financeiro Itaú-Unibanco, Roberto Setúbal, afirmou que o afastamento da presidente eleita Dilma Rousseff se deu "de forma organizada, ordenada, de acordo com o que está previsto na Constituição". Segundo o jornal, a mensagem do banqueiro aos participantes do encontro dos analistas e profissionais do mercado da especulação financeira foi clara: a interinidade de Temer renova as esperanças dos agentes econômicos.

Por que surpreso? Porque foi o mesmo Setúbal quem disse que não havia motivos "para tirar Dilma do cargo": em entrevista concedida à Folha, quando começaram a se articular as forças golpistas que fizeram o processo de impeachment prosseguir na Câmara e no Senado, o banqueiro - descrito pelo jornal como defensor contundente "da permanência de Dilma no Palácio do Planalto" - não tinha qualquer dúvida sobre as razões do golpe: "pelo que vi até agora, [o impeachment por corrupção] não tem cabimento. Pelo contrário, o que a gente vê é que Dilma permitiu uma investigação total sobre tema". Nem mesmo as "pedaladas fiscais" seriam "motivo para tirar a presidente".

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O que é que mudou? A resposta é simples: mudou o conjunto de expectativas que as medidas econômicas anunciadas pelo interino Michel Temer despertou entre os bancos - segmento que se sente muito bem representado pelo presidente do Itaú-Unibanco. Basta observar em cima de qual desempenho de ganhos o capital financeiro projeta suas práticas. Para que se tenha uma ideia, a instituição que Setúbal preside, há exatamente um ano atrás, apresentou o maior lucro mundial de toda a história do sistema financeiro internacional medido apenas o primeiro trimestre de seu desempenho: R$ 5,7 bilhões (leia aqui)

O Itaú-Unibanco, no entanto, não foi uma exceção: resultados semelhantes, sempre em percentuais de  crescimento bem acima das taxas de inflação dos períodos analisados, foram obtidos também pelo Bradesco e pelo Santander num processo histórico de transferência de renda para mãos privadas que não encontra paralelo em lugar nenhum do mundo e em nenhuma época. Não é preciso ser especialista em coisa alguma para perceber que esse fato é, em sua essência, o principal elemento desestabilizador da economia brasileira dada a sua natureza parasitária e conspícua, isto é, voltada para o âmbito da especulação financeira, um setor privilegiado pelas isenções fiscais e inflado sistematicamente pelo serviço de pagamento dos déficits públicos. Duvido que Setúbal seja favorável a qualquer tipo de reforma ou de pacote econômico que mexa com essa estrutura, com seria preciso ser feito para que a estrutura da distribuição da riqueza se alterasse (leia aqui).

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