domingo, 29 de maio de 2016

Um degrau ainda mais abaixo

(O que a audiência de Frota tem a ver com o estupro no Rio, M. Magalhães)
O momento do pleno significado da crise brasileira: no centro, um dos imbecis
da quadrilha de Temer; do lado direito, um outro estúpido que se diz líder
do movimento revoltados on line; do lado esquerdo, o testicocéfalo
Alexandre Frota, que esteve no MEC para apresentar o seu projeto para
a Educação Nacional
Uma das frases mais marcantes do regime militar foi dita por Delfim Netto, esse mesmo cara que se apressou em levar ao golpista Michel Temer seus conselhos e sua solidariedade há alguns poucos dias. O então homem forte da economia durante a ditadura pontificou que "o Estado é a-ético".

Na época, com a censura imposta à imprensa, era muito difícil questionar as asneiras que os militares e seus prepostos propagavam, mas o aforismo de Delfim praticamente dispensava quaisquer considerações porque vivíamos mesmo uma realidade política em que a Ética, como práxis filosófica, havia deixado de ser um dos componentes do poder. Não era o caso de se dizer que o Estado era anti-ético, mas a-ético, isto é, a moral havia deixado de ser - como certamente proclamaram todos os teóricos do Estado como ente de racionalidade puramente técnico-administrativa - uma variável da lógica da política e da economia. Na sua gestão como ministro da fazenda, Delfim protagonizou o pior período da histórica disparidade da renda no Brasil e o momento mais obscuro da ditadura, que sobrevivia em meio às covardes violações dos direitos humanos, mas essas questões eram menores diante do conceito de um Estado que se põe acima do sentimentalismo que eventualmente atravessa as regras da Moral: uma instituição desprovida de qualquer outra consideração que não seja a sua própria funcionalidade.

Pois guardadas as devidas proporções de conjunturas tão diversas, um olhar panorâmico sobre o cenário em que se desenvolvem as práticas políticas deste Brasil enxovalhado por Michel Temer e seus capangas, penso que estamos diante de mais um momento em que as considerações de natureza ética capitularam um degrau mais abaixo, como se já não fossem suficientes as cenas que marcaram o histórico 17 de abril na Câmara dos Deputados.

Quero dizer com isso aquilo que praticamente qualquer cidadão sabe: em nome do sequestro do país, um grupo de conspiradores liderados pelo empresariado paulista e por segmentos reacionários e fascistas que se distribuem entre velhacos do PSDB, do PMDB, do PP, do PDS e o diabo, estimulados todos pela mais abjeta campanha midiática de que se tem notícia, estão pondo em prática um conjunto de medidas cuja única lógica é a sua natureza anti-social, mas talvez mais que isso, sua natureza a-ética, como se tivessem - como Delfim Netto imaginou que tinha durante a ditadura - a certeza de que escrevem a história de acordo com suas próprias determinações. 

Os resultados desse estado de alienação em que se encontram é bastante visível  e acumulam uma tal  soma de contradições que não é exagero dizer que o que está aí não se sustenta nem mesmo pelo período constitucional da transitoriedade de Temer na presidência da República.  Numa postagem que fiz no twitter, a propósito do vexame dado por Fernando Henrique Cardoso em Nova Iorque, onde uma palestra sua teve que ser cancelada por pressão de uma multidão que o repudiou, disse que nossas elites pró-golpe estão asiladas em seu próprio país: nem podem ir ao exterior em razão da grita ria que seus representantes  ouvem onde quer que estejam, nem podem ficar por aqui imunes à indignação que provocam. 

Sugiro a leitura das notícias que comprovam esse estado de declínio que essa chusma conseguiu aprofundar: * Definido o estilo Temer: tapa na mesa e recuo (El País) * Pescadores de ilusões (Outras Palavras) * Golpe: a diplomacia cifrada de Washington (Outras Palavras) * EUA abrem diálogo com governo Temer (El País* Governo acabará com subsídios no Minha Casa (O Globo) * A desgraceira que cresce nas mãos de Meirelles e Temer (Jânio de Freitas, Folha) * Cunha manda e governo Temer terá que se ajoelhar, diz Dilma (Folha)  * Carta aberta a Cristovam Buarque (Tijolaço) * Congresso chegou ao fundo do poço (Estadão) * Vamos trazer de volta a sensatez ao Brasil (Mídia Ninja) * Gravações mostram que partidos financiaram MBL em atos pró-impeachment (Folha) * Após divulgação de gravações, aliados e até inimigos defendem Renan (G1) * Reações ao estupro mostram país indignado (El País).
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