terça-feira, 31 de outubro de 2017

Bolsonaro e os empresários

Bolsonaro: a face escura pode ocultar o enigma dessa
vocação golpista do empresariado
Uma curiosa narrativa começa a ser construída em torno da candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência da República. Por enquanto, ela ainda é tímida e fragmentada, mas quem conhece alguma coisa sobre o relativismo moral e ético que inspira o empresariado brasileiro sabe que isso é por pouco tempo: não vai demorar muito para que as tendências políticas que se aglutinam naquilo que a imprensa chama de mercado manifestem-se aberta e decididamente pelo apoio ao mais declarado defensor da ditadura como alternativa política para o país.

O conjunto de indícios que eu chamo aqui de narrativa é formado por dois indicativos: a probabilidade real de que Lula se consolide como virtual vencedor das eleições no próximo ano. A julgar pelo apelo popular de seu nome e pela densidade de sua presença aberta em diversas regiões do Brasil, os 35% de preferência que os eleitores manifestam à sua candidatura tendem, em perspectiva, a se ampliar de forma consistente, ao contrário dos minguados 13% em favor de Bolsonaro (leia aqui). Digo em perspectiva por uma razão muito simples: o agravamento da crise econômica e social na qual o país está mergulhado tende a se tornar insuportável para os setores de renda média e baixa - em especial aqueles que viram no mandato Lula a ampliação de sua inserção no mercado consumidor.

Para essa polarização os empresários não têm qualquer alternativa senão interditar a candidatura Lula pelo caminho de uma inédita sustentação financeira e midiática que nem mesmo a campanha de Trump nos EUA registrou. Segundo o Estadão, "analistas do mercado financeiro já dizem que se o 2o. turno da eleição presidencial for entre o ex-preisdnete Lula e o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) preferem este último. Avaliam que a eleição de Lula causaria um susto na economia..." (leia aqui a matéria integral).

Essa disposição dos empresários, no entanto, está longe de se esgotar no campo eleitoral, como se a solução Bolsonaro apontada nas urnas resolvesse a crise brasileira: o raivoso capitão do exército, transfigurado em messias salvador da pátria consagrado pelo voto, legitimaria uma espécie de ditadura democrática... Penso que o que sustenta a simpatia agressiva com Bolsonaro é a possibilidade de que ele assuma a proteção armada dos interesses privados sempre ameaçados pela eclosão de uma ruptura social.

Aqui surge o outro indicativo da construção narrativa a que me referi no início deste texto. O estado de pauperização em que se encontra uma parcela enorme da população brasileira da qual o empresariado "moderno e liberal" foge como o Diabo da Cruz. Para que se tenha uma ideia disso, basta e leitura da matéria que a Folha publica em sua edição de hoje (22% dos brasileiros vivem abaixo da linha de pobreza). Segundo o jornal, são 45,5 milhões o número de compatriotas que vivem com US$ 5,5 diários, uma faixa da miséria absoluta maior que a população da Argentina, por exemplo. É dessa massa de despossuídos que apavora o capital e em nome da proteção de seus interesses que Bolsonaro tem que ser levado à presidência da República.

Leia mais: * Roteiro de eventos de Bolsonaro tem empresários e apresentadores de TV (Uol) * Jair Bolsonaro reúne empresários em BH (Hoje em Dia) * Bolsonaro quer mostrar dos EUA que é um liberal (Uol).
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