domingo, 20 de janeiro de 2019

A chantagem da General Motors


* Em carta, diretoria da GM ameaça funcionários (Uol) * Se precisar fechar, fecha, diz secretário de Guedes (Folha) * GM propõe cortre de 10%no piso salarial de São Caetano, mas sindicato recusa (Estadão)

A esta altura, já ficou claro para todo mundo qual foi a lógica que presidiu o colapso político em que o Brasil mergulhou desde o início da conspiração que derrubou Dilma Rousseff, mas não custa relembrar: uma verdadeira joint venture formada por interesses externos e internos do capital. O resultado é o que está aí: uma articulação populista de extrema direita cujo projeto é liquidar com mecanismos de defesa dos direitos sociais e com a soberania nacional. 

O país que saiu das urnas em 2018, e que emplacou Jair Bolsonaro na presidência da República em 2019, não é apenas o território da corrupção acobertada pelo difuso autoritarismo de um governo paramilitar, mas também alguma coisa que se assemelha a uma pastagem dos interesses privados nacionais e internacionais. Sob esse aspecto, não há nada mais parecido com um enclave (ou um protetorado) neocolonial do que o Brasil do século XXI: pré-sal, Petrobras, Embraer, ocupação de terras na Amazônia, privatizações de toda ordem... esses são alguns dos sintomas desse quadro de sujeição imoral da República aos interesses das elites, daqui e de fora.

Penso que é esse o contexto que explica a sem-cerimônia, o cinismo e a desfaçatez com que a General Motors anunciou sua intenção de deixar o Brasil caso suas atividades não voltem a dar lucro (leia aqui a matéria da Folha sobre o assunto). Do ponto de vista institucional, as ameaças da empresa - que está sendo feita diretamente sobre os trabalhadores, fato que configura o crime de assédio - representa uma ameaça à estabilidade social e à soberania do Estado brasileiro - o que por si só justificaria a expropriação da GM e a prisão de seus dirigentes, na hipótese de que tivéssemos no governo uma representação comprometida com os interesses estratégicos nacionais. Do ponto de vista econômico-financeiro, no entanto, a coisa é mais concreta: a GM mente.

Como assim, mente? Mente porque esconde da opinião pública a verdadeira orgia de lucros em que as montadoras estrangeiras sempre viveram no Brasil, mas em especial depois das facilidades fiscais criadas no governo FHC. A própria General Motors, nos anos 90, só conseguiu sair da crise profunda em que viveu na época, e que quase a levou à falência nos EUA, graças à fartura das remessas de lucros de sua filial brasileira, um cenário irônico e típico da realidade do capitalismo global: a sangria financeira que os países da periferia sofrem nas mãos de suas matrizes, as "perdas internacionais" às quais Leonel Brizola se referia nas eleições de 1989.

A esse respeito, o noticiário que permite resgatar a verdade sobre essa história é farto. Em 2014, por exemplo, para ficarmos numa data situada quando o processo de espoliação do mercado interno brasileiro já estava consolidado, as montadoras foram campeãs de envio de lucros ao exterior, de acordo com a Folha, o que repetia o êxito nas remessas passadas. No ano anterior, a General Motors, segundo a Forbes, havia dobrado seu lucro no mundo inteiro (leia aqui), especialmente em função dos ganhos obtidos em economias dependentes. No caso brasileiro, esse duto de transferência de riqueza totalizou no quinquênio 2009-2014 a estratosférica soma de US$ 33 bilhões, levadas em conta todas as empresas estrangeira instaladas no país. Não é preciso destacar o permanente - e profundo - processo de descapitalização sofrido pela economia brasileira em decorrência dessa dinâmica e, por consequência, as difuculdades de superação dos entraves ao nosso desenvolvimento.

O tamanho da mentira da GM só é maior quando os números falam diretamente sobre os últimos três anos do setor automotivo como um todo e da performance da própria General Motors. No 1o. caso, ainda que registrando recuo, as remessas totalizaram US$ 11 bilhões em 2016, situação que seria superada em 2017, quando o envio dos ganhos remetidos às matrizes triplicaram, segundo o Estadão.

Como se vê, o enunciado neoliberal segundo o qual o fim das amarras do Estado à livre circulação do capital é o instrumento de promoção da riqueza nos países que se abrem para os investimentos externos não passa de um sofisma: a rigor, o que ocorre é justamente o oposto, isto é, a sustentação das economias centrais a partir do fluxo da riqueza gerada justamente nas áreas que mais carecem de recursos. A máxima soa panfletária, mas é real: a riqueza no centro aumenta na mesma razão do crescimento da pobreza na periferia, É o preço que o Brasil paga pela escolha que suas elites fizeram para ficar no poder à revelia dos interesses e sociais e ficar exposto à chantagem que a GM pratica agora com as ameaças anunciadas na Folha.
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