segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Revelações

Ricardo Vélez Rodriguez, competidor na
emulação ministerial bolsonariana 

Ideia de universidade para todos não existe, diz ministro da Educação

Imagino o que deve ser uma reunião do ministério de Bolsonaro. A julgar pela disputa entre seus integrantes nesta fase inaugural de um governo que não tem a menor ideia do que fazer com o país, o que a imprensa registra todos os dias é um caleidoscópio de asneiras... algumas mentirosas, outras até realistas, mas asneiras. O exemplo de agora é o do ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodriguez, que se saiu com essa mensagem copiada acima da manchete do jornal Valor Econômico, uma espécie de recado destinado a aliviar todo o desconforto que o crescimento das matrículas no ensino superior nos últimos anos registrou no terreno do senso comum da middle class brasileira.

Por que desconforto? Por que a tímida democratização do acesso às universidades públicas e particulares não gerou apenas o conservadorismo arrivista que se transformou em massa de manobra do anti-petismo; transformou-se também num caldo de uma cultura de confronto no interior dos próprios aparelhos das elites. Essa gente diferenciada que de alguma forma foi protegida pelo Estado para chegar ao diploma universitário, maculou o poder simbólico das nossas elites e colocou na mesa de discussão a prerrogativa do mando - tudo isso numa sociedade onde a marca estamental (Faoro) sempre andou lado a lado com a dominação de classe.

A frase do ministro, portanto, não é um desabafo impensado, apesar de sua construção confusa; ela é uma resposta orgânica que um vasto segmento do eleitorado bolsonariano estava esperando e que quer o povo tolo. A universidade não é para todos - e talvez nunca seja - mas é como projeto cultural através do qual o senso comum pode implementar a noção kantiana do sapere aude, isto é, o estágio da razão crítica plena do Iluminismo que Rodriguez nega o direito ao conhecimento. Um ministro da Educação que afirma o que ele afirmou não pode ocupar o cargo que ocupa, a menos que haja, no ministério de Bolsonaro, alguma emulação pela boçalidade.  Vale a pena ler a íntegra da entrevista do ministro no Valor Econômico.

Leia ainda: * Uma ruína chamada Brasil (Clóvis Rossi, Folha) * O ministro, os canibais e as línguas (Outras Palavras)
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