sábado, 22 de junho de 2019

Democracia em vertigem: a história do golpe contra o Brasil

Petra Costa torna escancara a conspiração contra
 a democracia no Brasil
Lula, o mais expressivo líder popular da história brasileira, vítima da natureza conciliadora - e traiçoeira - das nossas práticas políticas

Confesso minha hesitação em assistir o documentário Democracia em Vertigem, de Petra Costa, levado pela ansiedade despertada pelos comentários e pelas notícias com que o filme foi anunciado nos espaços culturais e na mídia. Conhecendo o percurso feito para revelar a natureza complexa, mas dramática, dos acontecimentos que se desenrolaram no Brasil a partir de 2013, e até a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, meu receio era o de que a emoção reinasse sozinha na percepção dos fatos narrados e, com isso,  a compreensão da crise ficasse prejudicada. 

Não adiantou. Colocar a atenção na narrativa serena de Petra e na força consistente que ela põe no encadeamento do processo político que enredou a esquerda brasileira ao longo daqueles cinco anos é o suficiente para que venha à tona o sentimento de perplexidade que tomou conta dos brasileiros comprometidos com a democracia e com a justiça social: "como foi possível que isso acontecesse?" A indagação, que é de espanto e retórica, mas não uma pergunta efetiva, é incontornável, já durante os breves instantes em que a câmera silenciosamente se aproxima do interior do gabinete da presidência da República e da mesa onde atua o supremo mandatário da nação.

Digo tudo isso para explicar que não é possível assistir Democracia em Vertigem exclusivamente a partir de uma suposta isenção da analise política, como se isso pudesse ocorrer na leitura dos trabalhos de André Singer sobre Lulismo, por exemplo. Petra Costa não faz isso deliberadamente, mas encharca a significação de seu texto e de suas imagens com a sua vida e na resposta que o próprio espectador procura para o desencanto que nossa história recente provocou. Sob esse aspecto, o documentário é catártico.

Mas não é só isso. Democracia em Vertigem é também o ensaio que nos remete à revisão inteira do processo político que se desenrola entre o fim da ditadura militar e a eleição de Lula em 2002, num primeiro momento; num segundo momento, na frágil articulação que sustentou Lula até a eleição de Dilma em 2010 - um sistema pleno de concessões feitas à direita e ao centro do espectro partidário conservador (ainda que com evidentes e inegáveis benefícios sociais para a massa empobrecida da população brasileira). 

Ouso dizer que esse típico populismo lulista que deixa de lado transformações estruturais que sua natureza simbólica promete, mas não cumpre, lembra (guardadas as diferenças históricas) o impasse de Jango em 1964: não há alternativa para o ponto agônico das contradições de classe senão a ruptura revolucionária. Jango não sabia onde estava pisando; Lula também não, talvez. Em 2002, com a Carta aos brasileiros, um atestado de clamorosa conciliação eleitoral, já era possível vislumbrar para onde nos levaria o suposto consenso nacional pregado pelo próprio Luiz Inácio Lula da Silva e que Petra mostra no seu encadeamento com os manifestos da sua candidatura nas eleições anteriores.

Vistas as coisas de agora fica fácil apontar os problemas, mas na época não faltaram vozes de advertência sobre a descaracterização do projeto petista (Chico de Oliveira, por exemplo) caso o envolvimento do governo de Lula com as artimanhas da burguesia prosseguisse em nome da governabilidade. O capital é o diabo: promete o poder, mas cobra a alma dos que acreditaram plenamente nessa promessa (continue a leitura)
 
______________________________

Nenhum comentário: