segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

A intenção e o gesto

Avaliação de Bolsonaro se mantém no melhor nível de seu mandato

Segundo o Datafolha, com exceção de Collor, Bolsonaro continua sendo o presidente eleito para um primeiro mandato com pior avaliação dos eleitores 

É difícil tirar leite das pedras, mas tudo indica que a corrosão da popularidade de Bolsonaro não é suficientemente forte para seu afastamento do governo. Um fato, no entanto, é também inquestionável tanto quanto os índices de sua "aprovação": o aprofundamento da crise brasileira em todos os níveis. Se é possível observar em perspectiva os sinais da deterioração generalizada em que o Brasil se encontra mergulhado, penso que em nenhum outro momento o governo do ex-capitão esteve tão perto do colapso quanto agora. 

Minha principal observação se dirige à alteração no tom das críticas que Bolsonaro recebe da mídia que o ajudou na eleição de 2018. Há uma mudança editorial no apoio com o qual os veículos conservadores vinham se manifestando em relação ao governo até a explosão da crise das vacinas, crise que revela de forma aguda a inexistência de qualquer projeto coerente que poderia apontar caminhos para o fim (ou a atenuação) do estado falimentar generalizado do país. Dos índices da inflação ao aumento do desemprego, das denúncias do aparelhamento do Estado pelos aliados e parentes corruptos e corruptores de Bolsonaro à crise fiscal e cambial e ao isolamento internacional, em todos esse níveis o aceno positivo ao presidente de 37% dos entrevistados pelo Datafolha (leia aqui) não coincide com certeza de que o país estaria em melhores mãos que não sejam nem as dele nem as do obtuso vice Mourão. Esse me parece ser o significado do paradoxo em que estamos mergulhados e que a pesquisa evidencia: o pior presidente na pior crise tem a melhor avaliação. Ou a crise não é tão grave quanto são os seus indícios concretos ou a popularidade de Bolsonaro é inconsistente e frágil.

Em apoio à hipótese da natureza volátil desses 37% recomendo a leitura de dois textos da Folha, o editorial do próprio jornal e a coluna de Janio de Freitas, ambos publicados neste fim de semana: * Vacinação Já! * A conduta na balbúrdia da vacina basta para justificar o impeachnent de Bolsonaro.
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Leia também: * Inércia da opinião pública reflete tensão entre pandemia e economia (Alessandro Janoni, Folha)

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