segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

A lição que o Brasil esqueceu (ou que nunca aprendeu)

Falência da economia brasileira deve pouco à pandemia e muito à estupidez neoliberal

Cenário social desolador e economicamente depressivo foi meticulosamente construído pelos interesses privados que sequestraram o estado brasileiro depois do golpe do impeachment. Efeitos da pandemia agiram sobre um país vulnerável e desprotegido pela ação de políticas ultraconservadoras recessivas.

Aos poucos, vai se aproximando a hora da verdade para a economia brasileira, se é que ela já não chegou. Diante das evidências de uma catástrofe nunca imaginada nas dimensões atuais - recorde de desemprego e subemprego, explosão de preços, queda no nível da renda, desindustrialização, déficit público contido artificialmente pelas práticas recessivas de um governo sem rumo - os analistas ensaiam as explicações para o desastre, boa parte delas ainda inspiradas no mantra das reformas estruturais, um mito que a mídia e seus articulistas construíram e que ainda os embala: segundo eles, a economia brasileira só sairia da estagnação (na qual não se encontrava) se o tamanho do Estado fosse reduzido - tanto no plano normativo quanto no plano propriamente econômico-financeiro. 

Penso que foi a implementação desse modelo, em especial com o afastamento ilegal de Dilma Rousseff, a causa das dificuldades principais que o país passou a viver depois de 2016. Retração dos investimentos públicos, política monetária voltada à proteção da especulação financeira, reformas sociais (entre elas, além da Previdência, a da flexibilização dos direitos trabalhistas) de forte impacto na retração do mercado interno, tudo isso colaborou para que o capitalismo brasileiro aprofundasse o seu já ínfimo nível de acumulação. A recessão data desse período. Quando o covid-19 nos atingiu nos primeiros meses de 2020, as bases da economia brasileira - principalmente as bases formadas pelo mercado interno e pelo estoque nacional de recursos financeiros destinados a investimentos - essas bases já estavam profundamente fragilizadas.

As consequências  da desmontagem do que restava do Estado do Bem-Estar Social entre nós eram sabidas, não apenas mundialmente, mas também internamente. Não foram poucos os economistas estadunidenses e europeus que advertiram para o caráter recessivo das políticas de austeridade fiscal e de enxugamento dos gastos públicos. No Brasil, diante da criminosa PEC do teto orçamentário que condenou o país à estagnação dos investimentos públicos, porta-vozes do pensamento econômico desenvolvimentista apontaram os efeitos negativos da pauperização generalizada das condições sociais e da depreciação dos valores do trabalho. O Brasil tornou-se, com isso, o 2o país do mundo a registrar o maior nível de concentração da renda e algo em torno de 50% de sua população passou a viver abaixo da linha da pobreza (os textos lincados abaixo são fartos na descrição desse cenário).

Para uma economia periférica que mostra um nível medíocre de acumulação de capital, esse conjunto de elementos recessivos - associados todos eles à fuga de capitais externos - foi fatal.

A pandemia nos pegou nesse voo rasante e atuou como um bloco gigantesco de concreto que inviabilizava quaisquer possibilidades de sair do chão. Ao contrário, o discurso bolsonarista (se é que se pode chamar de discurso o arrazoado destrambelhado de um sujeito despreparado como o ex-capitão) introduziu mais incertezas nesse quadro, em especial pelas proposições de Guedes - que amarrou sua permanência no governo ao seu papel de fiador de novas reformas neoliberais.  

Os dois anos de Bolsonaro na presidência da República vão passar à história do Brasil como o período da dissolução do país. Não foi apenas na mobilização retrógrada que seu discurso provocou numa sociedade sem perspectivas e em estado de desespero, disposta a acreditar em qualquer boçalidade dita por ele e por seus apoiadores; foi também no conjunto de sua ação predatória no campo material, seja no ambiental ou no econômico, no das relações externas, na Saúde, na Educação, na estrutura do Poder Judiciário, no acobertamento de criminosos (alguns deles seus descendentes diretos) milicianos ou fardados... Esses são os fatos que jogaram o país no fundo do poço. O coronavírus tem muito pouco a ver com isso e não é mais que um bode expiatório para o fracasso do modelo econômico neoliberal que nos está sendo imposto.
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Leituras sugeridas: * Lara Resende: Por que Summers e Berbanke agora defendem política fiscal expansionista (Valor, para assinantes) * Uma visão conservadora e equivocada: Como a pandemia 'bagunçou' a economia brasileira (G1O caminho sem saída da economia (Paulo Kliass, Outras Palavras) * O terror da reforma trabalhista - 3 anos depois (Manuella Soares, OP) * Para superação da crise, Brasil precisa abandonar o liberalismo econômico (Bresser-Pereira, IHU) * Esquecer as velhas teorias e gastar (Bresser-Pereira, A Terra é redonda) * A disputa em 2022 será sobre como tirar o Brasil da lama (Sérgio Amadeu, IHU) * O colapso do capitalismo no Brasil (clipping do blog).

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