sexta-feira, 27 de março de 2015

A crise econômica brasileira: textos em discussão

A instabilidade da economia brasileira nem chega a ser cíclica; é errática. Suas oscilações revelam crise estrutural causada pelo modelo que a transição conciliadora pós 85 manteve: a hegemonia dos interesses privados na apropriação da riqueza gerada pela sociedade. Os textos abaixo procuram jogar luz na análise dessa crise que já vai se configurando como uma crise de média duração (clique no gráfico para ampliá-lo)
O gráfico acima foi publicado no Estadão (27 de março) ao lado de uma nota surpreendente: o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, garante que a queda do PIB em 2014 é uma "pausa no crescimento econômico". Na área econômica, da mesma forma que nos demais setores estratégicos do país, parece que a palavra de ordem é a mesma que prevalece no mundo da avestruz - faz de conta que não está acontecendo. 

Diante da complexidade do tema, reúno nesta postagem alguns textos que nos ajudam a entender a dinâmica desse processo que me parece conduzir o Estado a um impasse muito complicado: ou ele abre mão de  seu papel de instituição norteadora de um projeto de desenvolvimento e mergulha a ordem institucional e política numa crise sem precedentes ou ele recupera a iniciativa do processo de mudanças estruturais profundas que afastem do poder essa elite parasitária que nossa sociedade sustenta desde meados dos anos 60.

Os textos (em ordem cronológica decrescente, exceto o Dicionário da crise econômica, posto ao final das indicações):

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quarta-feira, 25 de março de 2015

Redes sociais: presente e perspectivas

Beth Lorenzotti:
redes sociais enfrentam
processo de inserção nos
movimentos da sociedade civil

O sonho acabou?


Há algo comum entre as jornadas de junho de 2013 e as manifestações de 13 e 15 de março de 2015?

Elizabeth Lorenzotti (*)

O professor Faro me pede um artigo a partir das entrevistas do professor Fabio Malini e do ativista Bruno Torturra sobre as manifestações de 2013 e estas recentes, de março de 2015. [1]

Eu começo por estes dados que estão no meu e-book Jornalismo Século XI- O modelo #midianinja”, capítulo Jornadas de Junho. 

 “No dia 21 de junho de 2013 a Agência Brasil publicava levantamento da Confederação Nacional de Municípios (CNM) mostrando que, no dia 20, houve protestos em pelo menos 438 cidades de todos os estados do país. Quase dois milhões de brasileiros fizeram manifestações pela redução das passagens do transporte público, contra os gastos com as obras da Copa do Mundo, pelo aumento dos recursos para a saúde e educação, contra a corrupção e a impunidade etc. 

A maioria dos confrontos aconteceu em cidades grandes e médias, nas pequenas as manifestações foram pacíficas. Houve atos, inclusive, em municípios de 5 e 10 mil habitantes. Desde Belém, no Pará, até Santana do Livramento, na fronteira com o Uruguai.

A exemplo do ocorrido no mundo árabe, no Occupy Wall Street e nos vários que se seguiram, no 15M (15 de maio de 2011) em Madri, entre outros, as manifestações foram convocadas pelas redes sociais. Tratou-se de uma propagação viral.”

Lembremo-nos que nas jornadas de junho de 2013, com suas bandeiras difusas, entre outras ações foram ocupadas inúmeras Câmaras Municipais de várias cidades, num fato inédito entre nós. Por exemplo, capitais como Belo Horizonte 9 dias, Porto Alegre 8 dias.[2] E cidades pequenas também (continue a leitura)

(*) Elizabeth Lorenzotti é jornalista e escritora, ex-professora e graduação e pós-graduação em Jornalismo na PUCSP e Universidade Metodista. Escreveu Suplemento Literário: Que falta ele faz! (2007): Tinhorão, o Legendário (2010), As Dez Mil Coisas (poesia, 2011) e o e-book Jornalismo Século XXI- O modelo #mídianinja (2014).
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Mercadante: "estudante não sente"

Declarações de Mercadante ferem o bom senso e exigem providências severas contra as empresas que negociam diplomas do ensino superior
O ministro chefe da Casa Civil do governo federal, Aloísio Mercadante, em entrevista coletiva dada ontem (24), disse que os estudantes não sentem os reajustes abusivos das mensalidades escolares praticados pelas empresas de "educação" superior. Segundo Mercadante, que foi quem ocupou a pasta da Educação justamente no período em que as irregularidades foram praticadas, o peso do aumento não é percebido em razão dos "muitos anos" que os bolsistas têm para pagar a dívida contraída. Como é que é?!? 

Eu temo que uma declaração dessas seja sintoma do estado de paralisia ou de catatonia que o governo federal mantém em relação aos interesses privados e, ao mesmo tempo, à indiferença com que a burla cometida pelas "instituições" privadas que negociam diplomas universitários é tratada. No mínimo, um desrespeito ao bom senso e à dignidade dos estudantes.

A coisa toda, no entanto, vai além... (continue a leitura
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terça-feira, 24 de março de 2015

Apropuc erra na análise das mudanças do Fies

Os interesses privados que tomaram conta do ensino superior brasileiro são os responsáveis pelo engodo vivido pelos estudantes e pelos professores - suas principais vítimas ao lado da própria sociedade. A disputa pelas verbas do Fies é parte de uma manobra para manter esse sistema inalterado.
Fiquei mal impressionado com a análise equivocada que a Apropuc faz (pelo menos a julgar pela matéria publicada no Puc Viva) sobre as supostas dificuldades que as "universidades" privadas estariam enfrentando com as mudanças introduzidas no Fies. Segundo o jornal, a contenção adotada pelo governo no repasse de verbas para as bolsas seria a responsável pelas dificuldades financeiras que atingem não só o benefício para os estudantes mas também as negociações do reajuste salarial dos professores.

Acho que a Apropuc está reproduzindo o discurso dos donos das "escolas" particulares que agora querem colocar os professores contra a moralização do Fies e, com isso, ampliar a pressão para que o governo continue despejando verbas, de forma irregular e sem controle, para essas empresas - tal como tem acontecido até agora.

Na verdade, para promover a concessão de auxílio aos estudantes - mal informados sobre de quem é a culpa pelas dificuldades que estão enfrentando neste início de ano - e para dar aos professores o reajuste salarial que estão obrigadas a dar, os vários subsídios do governo (além do Fies, isenções fiscais diversas, Prouni, créditos subsidiados do BNDES e ausência total de fiscalização sobre os abusivos aumentos de mensalidades) são amplamente suficientes, já que as empresas de "educação" superior acumularam anos a fio uma gordura financeira de deixar com inveja até mesmo as empreiteiras da Lava Jato.

No entanto, o problema é bem maior que esse: (continue a leitura)
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sábado, 21 de março de 2015

"Universidades" particulares: êxtase do capital, agonia do ensino e da pesquisa

Algumas fachadas suntuosas das "universidades" particulares ocultam o mundo precário das condições de trabalho dos professores, da qualidade do ensino e da própria existência da pesquisa. Mas é a sociedade brasileira que as carrega nas costas... na simbologia virtuosa que construíram na mídia e na ilusão que alimentam entre os estudantes, suas principais vítimas...

Os jornais estão noticiando um suposto abalo financeiro no bolso da facção dos empresários do "ensino" superior particular. Os motivos são curiosos e reveladores: o vai-e-vem nos critérios de concessão de bolsas de estudo do Fies - um dos diversos programas mal-concebidos do governo federal - criou gargalos no fluxo das receitas provenientes do dinheiro público que alimenta várias "universidades" privadas, além da redução no número de estudantes que conseguiram o "benefício" do crédito neste início de ano. Em razão disso, o lobby do setor choraminga na mídia prejuízos inexistentes - se levarmos em conta a gordura financeira que acumularam durante anos.

Parte do segmento do "ensino" superior particular é uma caixa preta que, uma vez aberta por uma investigação independente e honesta, vai exalar um escândalo de proporções semelhantes a esse da operação Lava Jato porque operacionaliza suas atividades através da transferência de recursos públicos desonerados para o capital privado nacional e estrangeiro que tem nessa atividade empresarial um filão inesgotável de lucros. 

O Fies é apenas um dos mecanismos (ao lado do Prouni, de isenções fiscais e de créditos subsidiados) que consolidou esse processo:  foi através dele - sem fiscalização alguma - que as empresas de "ensino" captaram dinheiro de bolsas de estudo - algumas contabilizadas de forma fraudulenta nos registros das "escolas", como noticiou a imprensa. Muitas bad apples no cesto das maçãs, como dizem nos EUA (continue a leitura).
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