quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Onde era o Brasil?

O Brasil era ali, logo depois da cerca onde estão aqueles empresários...

A julgar pela matéria da Folha - que já dá como liquidado o 2o. turno das eleições - está em andamento nos gabinetes que negociam a partilha de um eventual governo de Bolsonaro aquilo que em pirataria se chama butim - um termo que ainda serve para descrever a prática da pilhagem, do roubo legitimado pela vitória conquistada na guerra. O butim, portanto, tem como peculiaridade a selvageria: o objetivo é destruir, moral e materialmente, o adversário derrotado. 

Uso esse conceito aqui porque não me parece existir nenhum mais adequado para descrever o que está sendo arquitetado para o dia seguinte a uma eventual vitória de Bolsonaro: a pilhagem da soberania nacional através de um processo radical de privatizações que vai transferir para as mãos do interesse privado o patrimônio material e imaterial que o Brasil construiu ao longo da sua história. Não há notícia de algum país que tenha sido submetido a uma espoliação dessa magnitude. Tudo legitimado por um consenso obtido por meios cuja natureza e história serão contadas algum dia. Por hora, me parece suficiente construir uma metáfora: o Brasil está sob a ocupação consentida pelos próprios brasileiros, entre eles aqueles que deveriam zelar pela segurança nacional, uma curiosa ironia levando em conta que é um militar o vértice em torno do qual se alinham os beneficiários desse butim vergonhoso que está sendo planejado.

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quarta-feira, 17 de outubro de 2018

As luzes se apagam sobre o Brasil*

Espetáculo de rara brutalidade: estudantes e oficiais nazistas na
liturgia macabra da queima de livros de autores "malditos" pelo regime
de Hitler: um mitômano que prometeu salvar a Alemanha
A esta altura da disputa eleitoral, depois de divulgados os números da pesquisa feita pelo Ibope sobre o 2o. turno das eleições presidenciais, restam poucas dúvidas sobre o resultado dessa avalanche irrefletida que levará ao governo o capitão Jair Bolsonaro e todas as facções do  extremismo conservador que o cercam. 

Diz o Prof. José Arthur Giannotti que esse movimento quase sísmico não deixa de ser um fato positivo para a política brasileira porque trouxe à tona forças ocultas que vão ter que se civilizar: "Você não governa com ameaças e nem se mostra publicamente como bandido", diz ele. Por isso, essas forças "vão se moderar" (leia aqui). Será mesmo? Para acreditar no otimismo de Giannotti - imaginem radicais neofascistas tolerantes perambulando gentis pelos espaços públicos - é preciso também acreditar que nosso processo de modernização (os últimos 50 anos idealizados miticamente por Bolsonaro) gerou uma sociabilidade compatível com os índices de cordialidade do século XXI, o que não é verdade. Se fosse, não estaríamos diante da ameaça de um obscurantismo que pode nos fazer regredir à condição de um país culturalmente tão atrasado  e ignorante quanto foram aqueles governados por regimes teocráticos ortodoxos que existiram no mundo inteiro e que ainda existem.

As forças que vieram à tona agora no Brasil transpiram a negação radical de processos que não entendem e para os quais nunca foram educadas a entender, o principal deles o da existência da pluralidade identitária: são avessas a qualquer possibilidade alternativa de existência social fora dos rígidos padrões maniqueístas (o reino da luz x o reino das trevas) em que vivem. O efeito disso escapa a qualquer possibilidade de mediação.

É o caso, por exemplo, da área da Educação, onde desde a emergência do estúpido movimento Escola sem Partido os ânimos sempre estão à flor da pele. Segundo declarações de assessores próximos ao capitão, todos eles falando de lugares ideologicamente autorizados, o ensino, as escolas, os alunos, mas principalmente a organização curricular e os professores serão objetos de uma verdadeira fúria inquisitorial que pode devolver o aprendizado e a pesquisa em várias áreas do conhecimento à idade média, como já advertiu a revista Nature. Em artigo publicado na Folha, Bruno Boghossian diz acertadamente que a campanha de Bolsonaro, nesse segmento, substituiu quaisquer projetos escolares pelo viés ideológico aplicado ao ensino. O resultado é uma reflexão odienta feita por gente desqualificada que avança sobre a História, a Biologia, a Física. A própria existência de Darwin chega a ser posta em dúvida pelo General Aléssio Souto, ao que parece forte candidato a alguma pasta influente na área cultural (leia aqui).

Só se espanta com isso quem não conhece a lógica intelectual com que o fascismo opera o mecanismo da prática reflexiva: no lugar da racionalidade cartesiana, o critério da unicidade da verdade, sempre concebida como algo hierárquico que se desdobra não da compreensão dos fenômenos mas da sua negação, de onde o conceito de "mentiras degeneradas", isto é, as afirmações - seja na arte ou na ciência - que escapam ao gênero absoluto. Essa parece ser a lógica cultural empiricamente praticada pela extrema direita no Brasil e que já se traduz em disposição repressora, como lembra a matéria da revista Carta Capital: Mentores culturais de Bolsonaro ensaiam perseguição à arte degenerada. Difícil imaginar que um projeto dessa natureza possa dar certo num mundo marcado pela sistemática reinvenção conceitual...

De qq forma, há um engrenagem em funcionamento que alterna intimidação e terror de forma sincronizada fora do controle de qualquer instância constitucional. Penso até que não estamos mais no terreno legal, como se pode perceber nestas matérias (reveladoras de uma tensão crescente na medida em que se aproxima o 2o. urno): * Generais eleitos querem filho de Bolsonaro na chefia da Câmara e impeachment de ministros do STF (Estadão) * Tem bolsonarista querendo uma noite dos cristais (The Intercept) * Ele está por trás da maior operação antifraude das urnas (The Intercept).


* O título da postagem refere-se à célebre frase de Edward Grey, Secretário das Relações Exteriores da Grã-Bretanha, no momento em que seu país e a Alemanha entraram em guerra em agosto de 1914. A íntegra da dramática reflexão do funcionário britânico é esta: "As luzes se apagam em toda a Europa., não voltaremos a vê-las acender em nosso tempo de vida".
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terça-feira, 16 de outubro de 2018

Micro-ranhuras de uma catástrofe política

"Quem tem o poder não é ele, é o povo"

Os formadores da onda

Roberto Kaz
Piauí

"Vou te contar um babado forte”, anunciou Lucia Helena Ribeiro Pinto, pelo telefone, um dia após o primeiro turno da eleição que comprovou o favoritismo do seu candidato, Jair Bolsonaro. “Votei e depois fui pra porta do condomínio do Jair, eu e um bando de maluca. Tava muito bom, tinha até carro de som.” Sua ideia era acompanhar o pronunciamento do presidenciável, que ocorreria num hotel da vizinhança, em caso de vitória. “Quando vi que ele não ia pro hotel, fui embora. Fiquei triste porque a gente queria massacrar o PT de cabo a rabo.”
Lucia Helena é uma mulher magra, pequena e despachada que aparenta ter menos que os seus 47 anos. Costuma salpicar as frases com interjeições (“Olha só!”,“Que que acontece?”, “Aí é que tá!”) e expressões marinadas no sotaque carioca (“Sou tranquilona”, “Goixto muito”,  “Ixquierdixta”). Sua mãe é negra. Seu pai era branco. Lucia votou a maior parte da vida em candidatos do Partido dos Trabalhadores. “Você não tá entendendo! Eu era PT Futebol Clube”, enfatizou. “Eu tinha bottom, bandeira, ia em passeata na Cinelândia e na Candelária. Vermelho era minha cor preferida.” Elegeu Lula duas vezes e Dilma Rousseff, uma. “Na segunda eleição dela, anulei. Uma pessoa sensata não pode votar na Dilma, mas o Aécio também não convencia.” Nesta eleição, encontrou o messias na figura de Bolsonaro (continue a leitura).

Leia também: * Os ricos, os pobres e os precariados: os 3 tipos de eleitores de Bolsonaro (The Intercept) * A herança maldita de Temer, com a minha observação: o próprio aprofundamento da crise provocado pelos golpistas favoreceu Bolsonaro (Extra Classe) * O candidato do colapso (Marcos Nobre, Piauí).
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segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Haddad: desenvolvimentismo e bem-estar social para tirar o Brasil da crise

Haddad: um governo de coesão nacional, de defesa da democracia e dos
direitos humanos. Um Brasil solidário...

Haddad promete criar 8 milhões de empregos se Congresso aprovar reformas

Entrevista ao Blog do Sakamoto

Penso que o projeto de Haddad para seu governo é a formulação mais séria apresentada até agora durante toda a campanha eleitoral: retomar o desenvolvimentismo e promover o bem-estar social: o único caminho para tirar o Brasil da crise de forma sustentável. Leia a entrevista completa aqui.

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domingo, 14 de outubro de 2018

Jornalismo abjeto

O Partido da Mídia Golpista

A IMPRENSA PRECISA FAZER AUTOCRÍTICA


Fabiana Moraes
* Piauí

Foram anos tratando o inaceitável como controverso ou mesmo engraçado


Às vezes, estamos procurando um calmante, um Rivotril da vida, e acabamos tomando, sem querer, uma dose do jornalismo diário brasileiro. Se o primeiro tranquiliza e dá sono, o segundo causa algo desastroso para o cotidiano: confunde, desorienta. Principalmente quando não nomeia as coisas pelo que elas são. Um exemplo: quando chama crime de “polêmica”. Ameniza, doura a pílula, deixa soft. Lembro-me de quando a revista Placar lançou, em abril de 2014, uma capa com o ex-jogador Bruno na qual víamos seu rosto em quase pôster. Na foto, ele nos olhava diretamente, e a manchete dizia, em letras garrafais: “Me deixem jogar.” O título era seguido pela chamada “Goleiro fala da vida no cárcere, da morte de Eliza Samudio e do sonho de cumprir o contrato que assinou com um time mineiro.” Um desavisado poderia facilmente pensar, a partir daquela construção, que se tratava de alguém que sofria uma injustiça, que apenas queria voltar a exercer sua profissão. Que havia perdido um amor. Pobre Bruno.
A chamada suavizava a imagem de um homem preso após ser condenado a 22 anos de prisão pelo homicídio da mãe de seu próprio filho. Não bastasse, a Placar também resolveu escrever “a morte” de Eliza, e não “o assassinato”, como manda o jornalismo mais responsável. Se havia a tentativa de amenizar a imagem do moço – era (é) impossível não lembrar as circunstâncias horrendas do crime –, que se naturalizasse o machismo e a barbaridade, então. Escrevi sobre o tema em uma rede social, e a publicitária Rosiane Pacheco e a designer Cynthia MB criaram outra versão da capa, agora com Eliza. O caso repercutiu e fui procurada pelo autor da reportagem, Breiller Pires, que, de maneira cordial, argumentou que Bruno estava na capa por ser um personagem “polêmico”. Veja só: polêmico (continue a leitura).

Leia também:* Ele sim, ele não, tortura pode ser (Marcelo Coelho, Folha) * Como a mídia ajudou a construir o mito que ameaça a democracia (Carta Capital) * Os bastidores do apoio do R7 a Bolsonaro (The Intercept) * O que é ser de extrema direita (a masturbação semântica da Folha de S. Paulo nas palavras de Paula Cesario Costa, a ombudsman do jornal) * Na mesma Folha, espaço assegurado para um assassino e o repúdio de Caetano Veloso * O que é firehosing e como o clã de Bolsonaro se aproveita disso? (Vice) * O marqueteiro brasileiro que importou o método da campanha de Trump (El País).
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sábado, 13 de outubro de 2018

Fogo cerrado

Daniel Aarão Reis 
Distinguir o núcleo duro da direita do antipetismo

A democracia está ameaçada no Brasil Conseguiremos salvá-la?

Daniel Aarão Reis
* entrevista ao site IHU
A novidade desta eleição é o surgimento de uma “onda conservadora que varreu o país, de norte a sul, evidenciando uma polarização forte entre petismo e antipetismo”, diz o historiador Daniel Aarão Reis à IHU On-Line, ao comentar o resultado das eleições presidenciais do último domingo, em que Bolsonaro obteve 46% dos votos contra 26% de Haddad. Apesar de a “nova direita” representada pela candidatura de Bolsonaro ter recebido mais votos, Aarão Reis pontua que “é preciso de fato distinguir um núcleo duro de extrema direita, combativo e ativista, e uma nebulosa de diferentes direitas — alcançando até setores centristas — que se reuniram momentaneamente em torno de Bolsonaro, mas que não são adeptas de regimes ditatoriais nem nostálgicas de última ditadura. O que liga toda esta gente é muito mais o antipetismo”.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Aarão Reis frisa que múltiplos fatores ajudam a explicar esse fenômeno, como a “extrema desmoralização do sistema político; ausência irritante de autocrítica pelos principais partidos (MDBPT e PSDB); situação aflitiva da questão de segurança; profunda crise econômica, com milhões de desempregados; péssimos serviços públicos (saúde, educação e transporte); questões comportamentais mal discutidas e mal resolvidas”. Além disso, menciona, “ao se sentirem desamparadas e não atendidas pelo sistema em vigor, muita gente se sentiu atraída e seduzida por propostas alternativas conservadoras, que se apresentaram como outsiders, ‘contra tudo o que aí está’” (continue a leitura).

Leia também: A radicalização da polarização política no Brasil. Análises (IHUA vitória da insatisfação (Diego Viana, Valor) * Uma eleição que demoliu todos os padrões de campanha no Brasil (El País) * O que iremos decidir (Sul21)
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