quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Crimes da governabilidade

 
A prática da governabilidade é mais ou menos
 o que diz o grafite de Banksy: proteger as elites
do gigantesco déficit social do capitalismo brasileiro
O jornal Valor Econômico publica hoje uma notícia inquietadora para todos os brasileiros (e brasileiras) que depositam em planos de saúde individuais a expectativa de que estão a salvo de imprevistos.

A matéria (cuja íntegra o jornal só disponibiliza para assinantes, mas a leitura do lead me parece suficiente) informa sobre a disposição do governo em atender as operadoras que querem a liberação dos reajustes dos contratos - reajustes que até agora eram fiscalizados pela ANS. Além disso, essas empresas querem - e parece que serão atendidas - o "direito" de rescindir unilateralmente o plano, fato que joga literalmente o segurado na pior das situações já que nesse caso se entende por direito uma prerrogativa unilateral, e isso não configura direito em lugar nenhum do mundo.

Esse trololó me serve apenas para reiterar a miséria da governabilidade, um paradigma de gestão que Lula e Dilma adotaram como forma de assegurar apoio político do pequeno, do médio e do grande capital. O resultado é simples de entender: o Brasil é hoje provavelmente o país onde impera de forma escancarada a maior selvageria que o capitalismo já praticou desde os séculos 12 ou 13, que é a época de seu nascimento. 

Bancos (recomendo a leitura da postagem A face mais cruel da crise brasileira), montadoras, ensino superior privado, desonerações de toda ordem, isenções para exportações e importações, empreiteiras e mineradoras criminosas, tudo isso forma um complexo de privatização do Estado, mas não daquela privatização concebida como política econômica que transfere ao capital o impulso do desenvolvimento econômico e social. Por aqui, a ideia de privatização é a da transferência da riqueza da sociedade para a acumulação particular conspícua, descomprometida com qualquer outra coisa que não seja sua exuberância corrompida e corruptora.

O resultado me parece óbvio: a descaracterização de todos os projetos sociais que animaram candidaturas outrora de extração socialista e comprometidas em romper com as estruturas da concentração da renda no Brasil. No lugar disso, ainda mais sob o pretexto de tirar o país da crise, o benefício da governabilidade conciliadora: a herança histórica dos donos do poder rapidamente assimilada.

Não tenho a menor dúvida sobre a natureza reacionária e golpista de todos os movimentos da mídia e fora dela que estimulam essa militância do preconceito contra Dilma e Lula, mas é difícil observar a inação que parece prevalecer no âmbito do Estado (e não apenas no governo) diante dessa deformidade de proteção à nossas elites, uma coisa que me parece ter adquirido o perfil de uma filosofia estruturada, que tem começo e meio, mas que não tem fim. O resultado é geracional: todo mundo vai pagar por isso durante muito tempo.
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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

A face mais cruel da crise brasileira

População festeja resultados do Itaú e ensaia coreografias que devem
deixar as avenidas deslumbradas

Itaú Unibanco tem lucro líquido de R$ 23,4 bilhões em 2015, alta de 15,4% em relação a 2014


Leia aqui a notícia do Estadão e procure ser compreensivo com as dificuldades que os bancos estão enfrentando. Há duas semanas, mais ou menos, também o Bradesco ficou constrangido ao divulgar os resultados que obteve na orgia do capitalismo brasileiro: um lucro ajustado de 16,4% em relação ao de 2014. Ou seja, quase o dobro da inflação do período... dinheiro limpinho de quaisquer ônus.
 Não é por outro motivo que o seu presidente advertiu na farsa da reunião do conselhão em Brasília que todo mundo perde na recessão

Dá uma dó...

Mas está tudo bem... O  MEC regou hoje o caixa das espeluncas das universidades particulares com mais uma polpuda fornada de bolsas do Fies, o FGTS garante o crédito consignado, as desonerações continuam e o Carnaval de rua promete incendiar o país inteiro.
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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Toda nudez será castigada...

Vale a pena a agressão à Humanidade da Arte em nome de
 qualquer moralidade religiosa?
O episódio que talvez acabe por caracterizar este início de ano - justamente provocado pela Itália, estranhamente a salvo de crises poíticas nesta temporada - é a medida simplesmente idiota adotada pelo cerimonial responsável pela visita do presidente iraniano ao país: o encaixotamento provisório de esculturas clássicas cuja nudez poderia "ofender" seja lá o que for do visitante.

O fato é uma dessas trapalhadas repletas de significados que volta e meia nos assustam, mas é perigoso  na sua concepção - cuja lógica não é exclusiva da Itália. Agora mesmo, aqui no Brasil, a iconoclastia evangélica acaba de dar mostras da intolerância que a inspira quando um garoto de 13 anos, devidamente doutrinado pela "teologia" da Universal do Reino de Deus, destruiu imagens católicas numa igreja de Duque de Caxias, no Rio. Imaginem só esse pequeno boçal solto no museu do Vaticano ou no Duomo de Milão... É um terrorismo de outra espécie e que também nos ameaça: anda de braços dados com os impulsos que levam militantes do Estado Islâmico à destruição de templos e monumentos que não fazem coro com sua loucura santa.

A matéria sobre o que ocorreu na Itália foi publicada no jornal El País - As estátuas cobertas em Roma ou quando a complacência ofende - e vale a pena ser lida pela fina ironia com que nos deixa envergonhados, todos nós, italianos, brasileiros, iranianos, sírios...
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sábado, 30 de janeiro de 2016

Conselhão e cinismo: recursos públicos é que sustentam o capitalismo brasileiro

Esforço desigual: não há um único indício de que as elites
empresariais e financeiras assumam as soluções para que
o país saia da crise que elas próprias criaram
Não há novidade nenhuma na lógica que inspirou o pacote de medidas de "estímulo" à economia que o governo anunciou na 5a feria: no conjunto, o tal Conselhão (que me fez lembrar, pelo cinismo de alguns de seus integrantes, diversas cenas de O poderoso chefão, como foi o caso do Ceo do Bradesco com seu hipócrita aforismo lamurioso, pronunciado nem bem os resultados que o banco obteve em 2015 haviam sido divulgados), foi chamado para assentir e aplaudir mais do mesmo: transferência de recursos sociais para aliviar as empresas e tranquilizar os bancos. O gráfico ao lado dá bem a ideia da alma da iniciativa do governo: dos R$ 83 bilhões anunciados para salvar o estado de anorexia do nosso capitalismo, 49 bilhões (ou seja, 69%) são patrimônio dos trabalhadores - o FGTS; o restante vem do BNDES e do Banco do Brasil, que também trabalham com dinheiro público. Ou seja, 100% do apoio a empresas e bancos são recursos da sociedade brasileira. E nossas elites ainda falam em redução da carga fiscal...

Os economistas que estão do lado de fora,  no entanto, não perdoam e mostram, tecnicamente que o equívoco das medidas está na análise equivocada que as inspiraram. Sobre isso, o jornal Valor Econômico publicou uma boa resenha das restrições com que o pacote foi visto, especialmente na área acadêmica (leia aqui): se estiverem certas, as críticas podem nos fazer concluir que o pacote é um sedimento civil para consolidar a percepção de que a tese do impeachment gorou e que, mais uma vez, nossa estabilidade política cobra o ônus da conciliação com os interesses do capital para que seja superada. 
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quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Ônibus e Metrô a R$ 1,27?

Prefeitura de São Paulo se especializou no minimalismo administrativo.
Quando tem que se ocupar de questões de grande dimensão estrutural, social
e politica, faz o jogo dos empresários e do capital, como é o caso do

transporte público
Ex-secretário de Transportes de São Paulo explica: Brasil é um dos países que menos subsidia passagens. Redução é possível com subvenção praticada em Paris, Pequim ou Buenos Aires.

Por Bruno Bocchini, Agência Brasil (via Outras Palavras).

Acesse aqui a matéria completa.
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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Dívida pública: o que o noticiário não diz nem os jornais explicam

Tão feio quanto lhe parece, mas pode não ser
(Velhos tomando sopa, de Goya)
Está na capa do site do jornal Valor Econômico: Dívida Pública Federal sobe 21,7% e soma quase R$ 2,8 tri em 2015. É uma manchete inescapável, no sentido que produz e na significação que tem para os leitores. São atributos que remetem à noção rasteira segundo a qual esse peso do Estado - representado pelo tamanho da dívida pública - é a mãe de todos os nossos males. Aliás, como todo o texto da matéria é um elenco insuportável de cifras que se espalham por outros jornais, a coisa tem jeito de uma reiteração sistemática e organizada... Sei não...

No final das contas, qualquer que seja a especialidade do leitor, a lógica daquilo que está escrito é imanente e acaba resultando num valor político que se agrega ao valor aparentemente positivo e insofismável que dos números têm nessa cultura.

É um mau jornalismo esse. Reflete uma tendência que hoje está presente em todas as editorias - a fetichização das quantidades, das proporções e dos percentuais - como se o conteúdo noticioso das matérias se confundisse com sua dimensão factual. Se um time perdeu 43,5% das chances que teve de marcar gols numa partida, está aí, nessa simplicidade inócua, todo o segredo do jornalismo de dados, mais ou menos a mesma coisa em relação à dívida pública que aumentou 21,7% em 2015, totalizando incríveis R$ 2,8 trilhões de reais. É muito, é pouco, há algum grau de comparabilidade que possa qualificar os números apresentados no texto? O quanto essa numerária esclarece ou não esclarece o leitor? (continue a leitura).
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