quarta-feira, 1 de julho de 2015

4a feira, 1o. de julho: o dia do desespero de Alexia Narkatos

Atenas, na porta de algum banco depositário dos benefícios dos aposentados
(veja o algum com as imagens do desespero provocado pelo projeto monetarista global)
Fico aqui imaginando o que a velha senhora aí da foto - D. Alexia Narkatos, 87 anos - pensa sobre a política de austeridade que o FMI e a União Europeia exigem que a Grécia ponha em prática para que possa receber ajuda para o pagamento de sua dívida. A coisa funciona mais ou menos assim: o sistema financeiro sai do controle e espalha os efeitos dessa turbulência para todas as economias nacionais. Os bancos e as empresas que provocaram a crise têm instrumentos de autodefesa - e mesmo quando fecham as portas, deixam seus gestores em situação bastante confortável.

É na outra ponta que está o drama: governos sem capacidade econômica e/ou financeira para resistir à crise veem seus orçamentos implodirem e buscam o reequilíbrio cortando gastos, procurando o "ajuste" fiscal, bloqueando o derretimento da moeda - em suma, protegendo o capital. Quem paga a fatura, portanto, é a sociedade, que vê seus serviços de assistência social (entre eles a saúde, a educação, a aposentadoria) e seu nível de vida em colapso.

Belo sistema esse... O modelo Levy para a recuperação da economia brasileira é exatamente o mesmo, ou alguém imagina que essas restrições aos direitos trabalhistas têm outra inspiração? Enquanto isso, a exuberância dos bancos nacionais está aí para não deixar nenhuma margem de dúvidas sobre o rumo dos ventos. 

Em tempo: pelo menos, por mais dois meses, continua em vigor a maioridade penal prevista na constituição. Por minguados 5 votos, não passou a proposta de redução - nem mesmo a proposta de redução para crimes graves. É o ponto a que chegamos: 5 votos.
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segunda-feira, 29 de junho de 2015

Habermas, a Europa e a Grécia...

Jürgen Habermas
O filósofo alemão sai mais uma vez em defesa da inteligência no artigo que o jornal El País acaba de publicar e que tomo a liberdade de sugerir a leitura da sua transcrição neste blog: O governo dos banqueiros. O texto remete de novo ao coração da instabilidade econômica europeia representada pela ameaça de um default grego. Na reflexão de Habermas, o fundamental é recolocar a política - e não a economia - como eixo das práticas dos governantes. Lá pelas tantas, diz o último representante da Escola de Frankfurt:

Estamos outra vez em crise com Atenas porque, já em maio de 2010, a chanceler alemã se importava mais com os interesses dos investidores do que com quitar a dívida para sanar a economia grega. Neste momento, evidencia-se outro déficit institucional. O resultado das eleições gregas representa o voto de uma nação que se defende com uma maioria clara contra a tão humilhante e deprimente miséria social da política de austeridade imposta ao país.

É isso. Esse sonambulismo que insiste em ignorar as tensões e demandas sociais em favor do capital corrói os projetos mais generosos da integração econômica, da democracia e do socialismo e ainda vai levar o mundo "ao abismo", depois de fazê-lo passar pelo "vazio". É só olhar ao redor para verificar que há muita objetividade nessas máximas. 

Aqui mesmo, neste Brasil sem rumo, nossa presidente acaba de marcar mais um tento contra si mesma e contra o país ao insistir na política cega de austeridade econômica que pauperiza setores vitais para a sociedade, enquanto privilegia as diversas facções dos empresários. Na oportunidade que teve em fazer valer a soberania de que se encontra investida quando de sua estada em Washington, ainda neste semana, Dilma Rousseff saiu-se com a ideia de um acordo de livre comércio com os Estados Unidos (leia aqui), naquele mesmo estilo do Nafta - o tratado que transformou o México numa nação de terceira categoria e em protetorado dos Estados Unidos. 

Posso estar enganado, mas essa turma ainda vai acabar sitiada no Palácio do governo em Brasília. E acho que o velho Habermas vai estar lá no seu gabinete amargando mais um acerto de suas teses sobre a Grécia ou sobre qualquer outro país...
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domingo, 21 de junho de 2015

Esses leitores...

Que mania é essa que os leitores têm de ficar atrás de notícias nas quais possam confiar?
O Estadão de hoje publica duas matérias que dão o que pensar, especialmente para os que se preocupam com o futuro do jornalismo na era digital. Segundo monitoramento feito pela empresa Bites (leia a notícia aqui), o site do jornal é o que tem o maior engajamento da internet brasileira. Entenda-se por engajamento mais um termo do qual as novidades da tecnologia se apropriam: trata-se de postura do leitor que acompanha o veículo em razão da sua credibilidade e não apenas através de visitas rápidas (fly-by) ou visitas únicas (one and done). 

Os executivos do jornal, é claro, chamam para a qualidade do seu produto a explicação para o êxito conseguido junto à audiência e se apressam em explicar, apoiados em Ken Doctor (o especialista mundial em análise da indústria jornalística que fala aqui sobre o assunto), e na opinião de Manoel Fernandes, diretor da Bites, a razão do resultado: "o modelo clássico de jornalismo, praticado pela maior parte das empresas de mídia do País, ainda é uma das fontes confiáveis de informação à disposição da sociedade". E por que o Estadão? Porque "a credibilidade do jornal, que tem 140 anos de existência, também está presente no meio digital".

O tema é inesgotável, mas me parece razoável que o pressuposto teórico dessa explicação tenha muito a ver com a permanência das características doutrinárias pelas quais o campo do jornalismo se consolidou como um universo de experiências socioculturais que ainda ancoram sua relação com o leitor. Se for mesmo isso, é o caso de ponderar que o entusiasmo que o jornal demonstra pode acabar se frustrando pelas equivocadas restrições de acesso - que uma pequena e caipira mentalidade mercadológica insiste em praticar contra os que procuram o portal do Estadão.
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Cinismo, cumplicidade e prepotência...


Marcelo Odebrecht, a caminho do xadrez, não deixou por menos e prometeu derrubar a República. Seu pai, em defesa do filho, já adiantou que leva com ele para a prisão Lula e Dilma.
Enquanto isso, o ministro da Justiça declarava que é arbitrariedade proibir que as empresas dessa gang participem de novas licitações. Nas mãos de quem meu país foi parar...
Vale a pena ler: * Marcelo Odebrecht ameaça derrubar a República
* Força tarefa reage a tentativa de alterar a lei
* Empresas envolvidas na Lava Jato tentam perdão do governo
* Operação Lava Jato chega à "joia da coroa" e se aproxima de Lula
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sábado, 20 de junho de 2015

Boechat põe Malafaia a nocaute e expressa opinião de milhões de brasileiros

O jornalista Ricado Boechat acaba de se transformar em porta-voz de milhões de brasileiros: em resposta às bobagens que o "pastor" Silas Malafaia disse no twitter, o âncora da Band News revidou em tom inusualmente agressivo e bem longe do estilo blasé que caracteriza seus comentários no rádio e na Tv (ouça a sonora do vídeo aqui

"Você é um idiota, um paspalhão, um pilantra, tomador de grana de fiel, explorador da fé alheia... tu é um otário...", foram algumas definições fortes que o jornalista usou para referir-se a Malafaia - uma das principais estrelas pop do mercado religioso. O motivo da queda de braço foi uma acusação seríssima feita pelo âncora: os neopentecostais constituem-se hoje num núcleo irradiador de intolerância social. Aliás, penso eu que a acusação é bastante fundamentada em vista do clima de intimidação que o Partido Evangélico criou no país inteiro. 

Tudo indica que a contundência do jornalista vai ter desdobramentos no âmbito da Justiça, pelo menos de acordo com o que o próprio "pastor", com jingado de malandro de subúrbio e com pinta de mau caráter que mastiga palito de dente na própria mesa em que come, anunciou em vídeo que divulgou como retaliação às virtudes e sugestões que recebeu de Boechat - um delas curiosíssima e enigmática: "Ô Malafaia, vai procurar uma rola, vai".

Será que o imperador e teórico da homofobia topa essa? Sei não...
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quarta-feira, 17 de junho de 2015

A hibridação cultural, a novela e os shoppings centers de Sorocaba

I love Paraisópolis pode se transformar num rolezinho eletrônico (já que os verdadeiros foram proibidos nos shoppings centers), mas agora com o sinal trocado: quem é que ousa colocar La Marquesine como outsider e proibí-la de entrar na sala de jantar; quem recusa o jeito Neymar de ser? Aqui entre nós: é o caos cultural.

Dia desses participei de uma banca na qual o candidato resolveu proteger suas reflexões com o mantra do hibridismo cultural. Parece que o conceito é a fruta da estação - ainda que bem madura - tantas são as vezes que me deparo com ele, uma espécie de eureka sociológico que tenta provar uma coisa que eu entendo que não é possível ser feita: mascarar as contradições sociais a partir de uma universalização de padrões de gosto, de consumo e de comportamento que democratiza por cima a sociedade desigual.

Tem gente de peso que defende isso, mas fico com um pé atrás porque me parece que estamos diante de uma "descoberta" mais próxima do merchandising do que da realidade - ou foi a realidade que acabou se transformando em merchandising de uma vez por todas (continue a leitura).
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