quarta-feira, 23 de abril de 2014

Atraso brasileiro

Indústria automobilística - com o apoio de sindicatos de trabalhadores do setor - quer dinheiro do FAT para compensar lucros e perda de competitividade

Sempre que podem, as marcas da indústria automobilística - estejam ou não instaladas no Brasil - sangram a economia nacional e transformam a sociedade brasileira em refém de seus interesses privados
Não imaginei que um dia isso fosse acontecer, mas li no Estadão de hoje (23 de abril) um editorial que considero histórico: sob o título Proposta indecorosa, o jornal descanca a intenção da indústria automobilística, com o apoio sindical, de usar o dinheiro do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) "para pagar durante dois anos parte do salário de empregados com jornada reduzida". 

A história é a de sempre e é velha conhecida nossa. A indústria automobilística instalada no Brasil está entre as menos eficazes do mundo, embora goze de privilégios inimagináveis em qualquer país onde o capitalismo é levado a sério. Além de manter a maior margem de lucro por unidade de capital investida (o que não é difícil já que os investimentos que ela faz são baixíssimos), teve, só em 2012, o benefício total de isenções fiscais no montante de 26 bilhões de reais e conseguiu, graças a uma liberalidade inédita no mundo inteiro, alcançar o recorde de remessa de lucros para suas matrizes no exterior: US$ 3,3 bilhões de dólares em 2013 (leia aqui). Apesar disso, o setor está em crise - pátios esturricados de veículos, baixo nível de competitividade no mercado interno e no mercado internacional, poucas perspectivas de recuperação da demanda.


No setor automobilístico, ganhos sempre em alta são comprovados pelo recorde de remessa de lucros para as matrizes no exterior, mas nada disso satisfaz a voragem com que os empresários detonam a economia nacional.
Esse é o quadro que os empresários, verdadeiros chefes mafiosos, usam na garganta do governo para obter mais vantagens. O exemplo vem agora com essa proposta criminosa de usar o dinheiro do FAT para compensar a crise que elas mesmas criaram - se é mesmo que há crise (quem é que confia nos balancetes das empresas?). Desta vez, no entanto, a pressão não é feita apenas sobre o governo; parece que nem mesmo os sindicatos escaparam da chantagem porque a proposta inclui um plano de redução salarial em troca da manutenção do emprego. Como legalmente isso não é possível, o uso do FAT compensaria o cofre das montadoras. Difícil imaginar que os sindicatos concordem com isso...

Eu tenho a impressão de que as razões do atraso brasileiro estão todas localizadas nesse capitalismo de periferia e indigno que mantemos aqui sob o protecionismo do Estado e sob as vistas grossas e oportunistas do movimento sindical.
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quinta-feira, 17 de abril de 2014

Gabriel García Márquez

Gabo, 1927-2014
um homem parecido com sua obra: sólido, sorridente, silencioso, como o definiu François Mitterrand

domingo, 13 de abril de 2014

A cultura dos linchamentos na sociedade cordial

Martírio, de Gustave Dore
O jornal El País chama isso de justiça popular e em quatro excelentes matérias (uma delas com uma entrevista do sociólogo José de Souza Martins) afirma que se trata de uma "epidemia" que afeta não só o Brasil, mas também a Argentina. O tema é oportuno porque põe para fora - nessa espécie de terapia coletiva que estamos vivendo em torno dos 50 anos do golpe de 64 - os demônios da violência física como padrão básico de conduta da sociedade moderna - eventualmente sua raiz, ainda mais nesse formato arrivista que ela adquiriu entre nós nos últimos anos. Ontem mesmo, em matéria pinçada no Jornal Nacional, a repórter afirmava que a prioridade de gastos das famílias brasileiras de média e baixa renda são os eletrônicos e não a Educação ou a Saúde. Quem sabe não sejam a audiência difusa da Sherazade...

É o Brasil que estamos construindo... e em torno do qual lutam para descobrir sua verdadeira essência - um fundo arcaico da nossa formação tardia - comissões da verdade de todos os tipos. Vamos chegar lá de qualquer forma, mas no percurso temos que enfrentar o caldo de cultura de um conservadorismo da pior espécie: o da revanche e o da intolerância, que pega à direita e à esquerda, em pedestres ou na euforia fascista de um motorista endividado na direção de uma SUV. Pois não foi o empresário gaúcho Gerdau, um dos próceres da classe dominante, que num arroubo de idiotice veio a público recomendar que a população se rebele? 

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quarta-feira, 9 de abril de 2014

Jorge Gerdau pede ao povo que se rebele...

A população tem um menu variado para escolher os alvos da rebelião sugerida por Gerdau: das operadoras dos planos de saúde aos bancos, são os interesses privados instalados como prática ou como cultura nos serviços públicos o que a oprime. 
O empresário Jorge Gerdau posou de lider de rolezinhos durante um tal de Fórum da Liberdade realizado em Porto Alegre. Segundo notícia do Estadão, na curtíssima palestra que proferiu aos deslumbrados jovens empresários liberais que participaram do evento, Gerdau sugeriu que a população se rebele contra a precariedade dos serviços públicos porque "não dá para aceitar" a maneira como o cidadão é atendido. 

Daqui do meu canto eu quero ajudar Gerdau a concluir seu pensamento. Em primeiro lugar, apoio o conselho do empresário gaúcho: a população deve se rebelar também contra todas as empresas privadas que se beneficiam de recursos públicos através de créditos subsidiados ou de isenções fiscais e desonerações de todo tipo. Acho que boa parte das dificuldades que o governo tem em gerir os serviços que presta à população, deve-se à brutal transferência de riqueza que sai das mãos da sociedade e cai no colo flácido de empresários como Gerdau. "Não dá para aceitar", repito em coro... e acrescento: vamos pra cima deles.

O segundo momento da rebelião gerdauniana deve ter como alvo todas as empresas que abocanharam o filé mignon dos serviços públicos na era das privatizações: serviços de telefonia, transportes (inclusive a precária e criminosa linha amarela do metrô de São Paulo e as sucateadas empresas de ônibus), universidades particulares, operadoras de planos de saúde, empreiteiras corruptas e corruptoras que detonam a paisagem urbana e o meio ambiente. "Não pra aceitar" o que essas porcarias fazem com o atendimento (e o interesse) público.

O terceiro impulso rebelde todo mundo já sabe pra onde vai: os bancos, uns parasitas campeões imbatíveis de reclamações. "Não dá pra aceitar" que 1/3 de seus lucros sejam provenientes dos "serviços" que dizem prestar à população e que eles continuem a cobrar juros criminosos de seus clientes, as maiores taxas do mundo. "Tem que ter rebelião, gente", disse Gerdau (segundo o Estadão), e eu concordo: vamos pra cima deles.

Eis aí um bom roteiro para que o discurso de Gerdau comece a ganhar forma nas ruas de todo o país. Se isso acontecer, afora o fato de que o empresário gaúcho tenha que se desculpar pelo deslize e indelicadeza que cometeu ao recomendar que a população afronte um governo ao qual ele próprio presta assessoria como presidente da Câmara de Políticas de Gestão, talvez os serviços públicos comecem a ser geridos com racionalidade social e não privada. Gerdau, no entanto, não deve saber muita coisa a respeito disso...
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