quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

No gueto de Paraisópolis

1o. de dezembro de 2019: As vítimas de Paraisópolis
O processo da dominação totalitária é simples de ser entendido, especialmente quando ele tem o perfil da discriminação social e racial: as vítimas precisam ser neutralizadas como sujeitos políticos; devem renunciar à sua própria humanidade e incorporar a sensação de impotência diante do terror da violência. Devem abdicar de si mesmas. 

O que aconteceu em Paraisópolis em 1o. de dezembro foi um ritual que tem muito pouco a ver com uma suposta ação de prevenção policial contra os transtornos de um baile funk e muito a ver com a dinâmica nazi-fascista dos guetos e campos de concentração. Na verdade, tratou-se de um exercício extremo de confinamento seguido da intenção do extermínio, como se naquele instante Paraisópolis pudesse representar a solução final para a marginalidade que nossas elites criaram em volta de seus próprios bolsões de existência. O funk não incomoda pelo movimento que lhe é natural, pelo vozerio, pela lassidão do comportamento livre de quem o frequenta; incomoda porque é um reduto de classe e é esse reduto que precisa ser eliminado.

Doria quer se incumbir dessa tarefa; sempre quis - como o demonstraram suas investidas contra os pobres e dependentes de drogas durante sua desastrada e inútil passagem pela Prefeitura de São Paulo. A conjuntura de sua ascensão ao governo do Estado favoreceu seu projeto pois que veio acompanhada desses outros dejetos da vida nacional: Bolsonaros, Moros, Witzels... Aqui, portanto, é preciso advertir: estamos diante de um programa - quase escrevo pogrom - e não de um deslize momentâneo ou de um descontrole policial. Sob aquela loucura que os vídeos mostram (um policial que bate impiedosamente com um caibro nas costas de garotos desprevenidos - um exercício profissionalizado de maldade) há lógica. Uma lógica desprovida de qualquer norma ou intuito de civilidade, que é a forma da ética com que as elites liberais lidam com o povo no mundo todo. Está sendo assim em muitos países; está sendo assim, infelizmente, também no Brasil.

Reúno na sequência desta postagem, como uma espécie de arquivo, o noticiário e as imagens que consegui recolher entre o dia da tragédia e o fim da primeira semana de dezembro. Fica como um documento de um tempo pesado sob o qual estamos experimentando talvez a mais difícil etapa da história brasileira (continue a leitura)
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quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Post-it: Bolsonaro ladeira abaixo

A democracia é um empecilho para a agenda ultraliberal

Matéria de João Filho, no Intercept

Outras Leituras da Folha em 1o de dezembro: * Fantasia de imperador (editorial) * Se economia não reagir, governo não se sustenta (Simone Tebet) * Fundamentalismo de mercado pode ser calcanhar de Aquiles de Bolsonaro (Laura Carvalho) * Brasil vive entre riscos de extrema direita e recaída lulista (Hartung, Lisboa e Pessôa) * Descontrole (Marcos Lisboa) * Atos e falas são pontes entre governo de Bolsonaro e a ditadura (Guilherme Magalhães) * Bolsonaro escancara abuso de poder para fins particulares (Bruno Boghossian) * Hemorragia cultural (Rui Castro) * Liberdade de prensa (Janio de Freitas).
* El PaísBolsonaro intensifica perseguição à imprensa e ONGs (Carla Jiménez) * A terra é redonda: Radicalidade neoliberal: golpes, autoritarismo e destruição da soberania nacional (José Raimundo Trindade)




segunda-feira, 25 de novembro de 2019

A disputa pela infâmia (Le Monde)

Repressão contra os protestos no Chile mostra
vocação fascista dos exércitos da América Latina 

Bolsonaro é um de seus representantes

A moral e o passado: o 'rótulo' Bolsonaro cresce na América Latina

Vinicius Mendes
Le Monde Diplomatique
Brasil

Quando o empresário coreano-boliviano Chi Hyun Chung irrompeu por uma das ruas que dão acesso à Praça Kantuta, na região do Pari, zona central de São Paulo, no final de setembro, ninguém o notou de imediato. A chuva fina que caía sobre a cidade naquele domingo havia afugentado a maioria dos frequentadores que, normalmente, lotam o local – principal reduto de lazer dos bolivianos que vivem na capital paulista – neste dia da semana. 

À boca pequena, se dizia que a visita num dia daquele era benéfica porque não permitiria que ele aglomerasse muita gente ao seu redor. Quando, enfim, foi percebido, a praça se dividiu: uma parte das pessoas correu para pedir autógrafos, fazer vídeos ou tirar selfies com ele, enquanto outra passou a gritar o nome do então presidente da Bolívia, Evo Morales. De longe, enquanto eu via a aglomeração, uma conhecida surgiu correndo em minha direção gritando com um sorriso irônico: “Você viu o ‘Bolsonaro boliviano?’”. 

Naquela mesma semana, os jornais bolivianos Pagina Siete e Los Tiempospublicaram uma pesquisa de intenção de voto para as eleições do final de outubro com uma surpresa: o empresário asiático, candidato havia um mês, aparecia na quarta posição, com 3% das escolhas (continue a leitura)
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domingo, 17 de novembro de 2019

A dinâmica do fascismo no Brasil

O apelo ao senso medíocre como instrumento
da selvageria do capital.
Bolsonaro é um fantoche de forças que o transformaram no instrumento para finalzia o processo da revolução burguesa no Brasil, naturalmente com todas as peculiaridades determinadas pela nossa história. A principal delas: a modernização avessa à democracia.

A entrevista com Roberto Schwarz publicada na Ilustríssima de hoje (link alternativo) aponta para o paradoxo dessa oposição naquilo que o professor da Unicamp conceitua como "neoatraso bolsonarista", isto é, o atraso do capitalismo brasileiro que não se expressa apenas na sua existência periférica e parasitária, mas numa espécie de upgrade arcaico dos costumes e da miséria social. Segundo Schwarz é essa a marca que estabelece a linha de coerência entre o que o Brasil vive hoje e 1964 e será possivelmente bem sucedida se os instrumentos de mobilização das massas articulados pela extrema-direita forem eficazes.

Outras leituras: * Cultura e política no Brasil, 1964-1969 (R. Schwarz na antologia O pai de família e outros estudos, Paz e Terra) * Novo projeto de poder de Bolsonaro, a Aliança pelo Brasil é o primeiro partido neofascista do país (João Filho, Intercept) * Aliança de Bolsonaro é mais radical de direita do que Arena da ditadura (Fábio Zanini, Folha) * Bolsonaro quer dar futuro ao reacionarismo (Vinicius Torres Freire, Folha) * Dos cristais à porcelana: a América Latina na mira dos milicianos (Carta Capital) * Falta um projeto para o Brasil (IHU).

Leituras paralelas: * Nova ultradireita, filha dos neoliberais (Outras Palavras) * Sociedade incivil e barbárie (Muniz Sodré, Folha) * A muleta política neoliberal (José de Souza Martins, IHU) * Defesa da democracia nunca foi tão importante como agora (Abrucio, Valor) * Empresários bolsonaristas são 8 dos 200 maiores bilionários (Carta Capital) * A resistível ascensão dos novos fascistas (Löwy, Outras Mídias) * Direita tem nela um mal constitutivo (Folha) * Neofascismo é parceiro ideológico do neoliberalismo financeiro (GGN) * Sobre os surtos neofascistas (Dilma Rousseff).
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domingo, 10 de novembro de 2019