terça-feira, 21 de maio de 2013

Enclave colonial...

Com uma dívida que chega a 81% da receita, a Odebrecht só sobrevive graças ao dinheiro público e aos inúmeros artifícios fiscais que o governo federal vergonhosamente usa para fortalecer o interesse privado do capital (clique na imagem para ampliar)
A notícia sobre a disposição do governo espanhol em enviar médicos ao Brasil para remendar a escassez desses profissionais por aqui dá bem a medida do estado de colonização virtual em que o país vive e que se estende por setores tão diversos e amplos da sociedade que o escândalo da dívida da Odebrecht até passa despercebido. Na Espanha, perto de 20 mil médicos estão desempregados, e o pedido de socorro feito pelo governo brasileiro em negociações que incluíram também Portugal é uma benção para um país transido pela crise econômica desde 2008. Mas essa ajuda que o Brasil oferece para economias à beira do colapso não é uma exceção: já salvamos a Ford, a GM, o Santander, operadoras de telefonia, redes de comércio varejista, ajudamos a Apple, o capital internacional disponível e em busca de nichos para especulação financeira etc etc etc... Na imprensa internacional, nossa imagem é a de um país que abdicou de sua soberania e se tornou um enclave colonial, como o México quando foi submetido às regras do acordo Nafta.  Falando nele, cadê o México?

No caso brasileiro, o resultado é o que se vê: uma economia tenuamente equilibrada sobre uma prática sistemática de chantagens empresariais que se arrasta com um fraquíssimo crescimento econômico, inflação represada e estratos sociais à beira de um ataque de nervos - como se pode ver no episódio dos boatos sobre a suspensão dos pagamentos do programa Bolsa Família

Fico me perguntando se essa minha zanga não demonstra má vontade e um certo humor enviesado. Afinal, observando em perspectiva e comparativamente com o que acontece na Europa, em boa parte da América Latina, em parte da Ásia, tudo sugere que estamos bem melhor situados - apesar de todos os índices negativos que objetivamente podem ser verificados em cada um dos itens apontados acima. Penso que não é bem assim. A estabilidade que sempre é louvada oficialmente não é mais que um simulacro que esconde a ausência de um projeto de desenvolvimento consistente e autônomo que seja mais que uma corrida contra o tempo para tapar as dificuldades estruturais que o país vai continuar vivendo. Enquanto isso, assistimos à mais brutal transferência da riqueza gerada pela sociedade para as mãos do capital privado - um processo de acumulação que acabou por anular os próprios avanços políticos e sociais observados nos últimos 15 anos. Que o diga a Odebrecht... Ou alguém imagina que manter esse trambolho falido em funcionamento sai de graça para a sociedade brasileira?
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sexta-feira, 17 de maio de 2013

Sem qualidades...

 Exasperamento infinito
Mais tarde começou a ficar mais difícil evitar a pergunta se era exatamente aquilo que ela havia desejado: destruir e matar a pancadas, por pura fúria aniquiladora, por incapacidade de deixar as coisas como elas eram, sobretudo quando elas pareciam boas ou mesmo apenas suportáveis. Ali parecia estar, pois, o limite da apatia de Ada. Tudo tinha de ficar em movimento, evoluir, escapar ao próprio naufrágio, porque conforme a natureza não havia outra direção possível, nem para os homens nem para as coisas. (...) Ocorresse em qualquer lugar um momento de equilíbrio e estabilidade, e logo uma necessidade de devastação subia pela medula da espinha, dava ordens às circunvoluções cerebrais, coloria os pensamentos, estabelecia notas e tomava decisões. Ada sabia da existência de insetos minúsculos, que se aferram aos gânglios de um hospedeiro e operam seu corpo como um guerreiro estelar o faz com seu veículo futurista. Este era o império do menor sobre o maior, que serve sempre a propósitos destruidores...
(Julie Zeh, A menina sem qualidades)


Estou às voltas com a 2a parte do romance de Julie Zeh de onde extrai o trecho acima. O livro pretende ser um retrato da desideologização e das posturas a-éticas dos jovens alemães depois da reunificação do país e a narrativa é toda centrada no comportamento de Ada, uma adolescente sem-qualidades, característica que a autora associa ao homem sem qualidades, que Robert Musil descreveu nos anos 30, um anti-heroi sem discernimento que vive ao sabor de impulsos que não se explicam de forma transcendente, da mesma maneira que Ada. Não sei... mas a julgar pelas características da sociedade europeia pós-muro de Berlim e pela hegemonia da cultura gerencial imposta pela lógica econômica, é mesmo possível que uma geração inteiramente adaptada a esses padrões, qualquer que seja o espaço no qual se encontre (em especial, na Universidade), já esteja em plena maturidade...

Digo isso a propósito da crítica feita por Carlos Boyero ao filme Jeune et Jolie, de François Ozon, no Festival de Cannes: a identificação do pragmatismo que domina a ação da personagem feminina e que frustra os sentimentos idílicos da cultura burguesa - que é, ao final, a matriz com a qual ainda julgamos todas as gerações. Boyero vai um pouco mais longe ao confrontar o retrato feito por Ozon com o filme de Sofia Coppola - The Bling Ring -, um semi-documentário com personagens reais inteiramente voltado para o vazio que cerca o cotidiano de adolescentes estadunidenses (leia aqui). É possível, por isso, que o fenômeno já tenha deixado de ser eminentemente europeu...
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quinta-feira, 9 de maio de 2013

O melhor capitalismo do mundo...

No caso brasileiro, até os intermediários foram dispensados
O que me chama a atenção diariamente para o noticiário econômico é o verdadeiro festival de bondades  anti-sociais que o governo promove todas as vezes que toma medidas para estimular a economia. A justificativa, claro, é sempre a mesma: oferecendo condições vantajosas para que os investimentos privados se ampliem, a expectativa é a da retomada do crescimento econômico e, com isso toda a sequência de resultados positivos do crescimento - desde a maior oferta de empregos, o crescimento do PIB, a redução da inflação, a estabilidade cambial, o aumento das exportações... o nirvana, ao final.

Esse me parece ser o senso comum porque não há, nem na "grande" mídia nem no setor oficial (não dá pra saber quem é que influencia quem), uma única voz discordante dessa lógica. Medalhões do pensamento econômico heterodoxo, que fizeram escola com argumentos imbatíveis sobre a presença do Estado na regulação social da atividade econômica - com o uso dos recursos públicos para a promoção do bem-estar - percebo hoje como os legitimadores teóricos e conceituais dessa farra que se faz com o dinheiro público em benefício dos interesses particulares (sobre isso, leia mais aqui).

Explico o paradoxo com dois ou três exemplos retirados do noticiário dos principais jornais (Estado, Valor e Folha). O destaque foi para as novas regras de concessão para a exploração das rodovias que agora asseguram aos concessionários uma elevação de 30% na taxa de retorno de seus investimentos (que era de 5,5% e passa a 7,2%). Como sempre, o ministro Mantega, na sua condição de um quase porta-voz dos interesses dos empresários, apressou-se em justificar: "todos os [empresários] declararam que com essa taxa de rendimento o investimento se torna bastante atrativo e que vão partipar dos leilões" (leia a matéria da Folha aqui). Bastante atrativo? E já não o era para o capital que goza da mais absoluta reserva de mercado em que se constitui a privatização de qualquer rodovia? O resultado é o de sempre, todas as vezes que o Estado protege o capital: a apropriação privada da riqueza gerada no setor e a socialização dos custos que isso acarreta. Ou alguém imagina que para permitir esse gigantesco reajuste de 30% na taxa de retorno das empresas as tarifas de toda a malha rodoviária privatizada do país vão ficar como estão? No caso das ferrovias, então, o nível de subserviência do Estado aos empresários beira o escândalo que significa a antecipação de pagamentos de receitas em qualquer condição (aqui).

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quarta-feira, 8 de maio de 2013

DNA da conciliação ou falta projeto?





O porteiro do prédio onde moro me indagou hoje cedo, meio sem jeito, mas de forma incisiva: "O que tá acontecendo com essa gente?"
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quarta-feira, 1 de maio de 2013

Exuberância financeira em meio às dificuldades com os salários...

As pautas dos jornalões no 1o. de maio é óbvia e só não as antecipa quem não quer: pancadaria geral nos direitos sociais - nos editoriais e fora deles; exposição dos discursos dissonantes das centrais sindicais; o custo Brasil representando pelo custo do trabalho e agora que a inflação da sinais de agressividade, tabelas comparativas entre taxas de aumento do custo da vida e as taxas de aumentos reais dos salários. Nas páginas da "grande" imprensa o Dia do Trabalhador (e não do trabalho, como se viciou dizer) deve ser comemorado com constrangimento e com disfarces pois nem parece que, mais do que o capital privado que só especula e pratica margens de lucro exorbitantes, é a força de trabalho que sustenta a economia do país... Minha sugestão é para que os seguidores do blog, por mera curiosidade, virem as páginas da Folha e do Estadão para comprovar minha interpretação. 

No meio disso tudo, quase às escondidas, a notícia que realmente dá o tom do momento econômico brasileiro: o Banco Itaú registrou um crescimento anual de 14,7% nos seus ativos financeiros e um lucro trimestral de R$ 3,7 bilhões (quase o dobro da inflação entre janeiro e março), numa clara demonstração de que o processo de acumulação de riqueza, apesar da explosão das margens de lucros das empresas graças às bondades fiscais do governo e à expansão do consumo, continua se deslocando do setor produtivo para o setor financeiro, e de forma acintosa - pois a exuberância dos bancos contrasta com as dificuldades que o Estado tem para manter os investimentos na área social. 

A equipe econômica do governo Dilma pode posar de bom-mocismo para o setor empresarial, brindar quase todos eles com desonerações que já provocam déficits perigosos nas contas públicas, adular o capital de todo jeito... mas todos os dias parece que fica evidente que esse não é o caminho da dinamização da atividade econômica.
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segunda-feira, 29 de abril de 2013

A ameaça que vem da Itália...

O vírus fascista da crise política italiana está na voz do desempregado disposto a tudo: "queria matar os políticos", disse o autor do atentado depois de ter sido preso...
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