segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Armínio Fraga e as ideias fora do lugar


(Eduardo Bolsonaro, Fórum)
A entrevista com Armínio Fraga que a Folha publica hoje (12/11) é reveladora na maneira como escancara a contradição existente entre o modelo econômico ultraliberal que deve ser implementado com o governo Bolsonaro e o déficit  de modernidade do país no convívio com estruturas arcaicas de sociabilidade. De forma menos acadêmica, é possível deduzir que Fraga percebe uma incongruência entre o forte conservadorismo ideológico e cultural manifestado pelo vencedor das eleições presidenciais e as reformas econômicas anunciadas, como se o projeto econômico estivesse desfocado da realidade social e política sobre a qual vai estender seus efeitos.  Ideias fora do lugar, para lançar mão do aforismo construído por Roberto Schwarz em seu conhecido ensaio sobre Machado de Assis.

A síntese do momento em que Fraga aponta para esse desencaixe: Mesmo quando falamos de economia, precisamos incluir hoje, aqui no Brasil, temas como Estado de Direito, respeito às minorias, fim da desigualdade, combate à violência. Se não tocarmos nesses grandes temas, estamos deixando algo muito importante de fora. É difícil imaginar que o grupo que sobe ao poder com Bolsonaro, por seu reacionarismo e estúpida ortodoxia - do ministério da Agricultura ao ministério da Educação, da disposição censória e repressora à complexidade cultural do país - esteja em condições de compreender a dialética do desenvolvimento, para além da simples ampliação do crescimento econômico, como quer o não menos estúpido lobby empresarial que atua junto ao presidente eleito.

Armínio Fraga não é flor que se cheire, como revela sua folha de serviços prestados ao grande capital, mas pode ser que o cosmopolitismo de sua percepção global o coloque alguns tons acima dessa fauna que está se apoderando do país.


Ilustração da postagem: Bansky
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sábado, 10 de novembro de 2018

Eliane Brum: A revanche dos ressentidos

Contra a mordaça, em defesa da inteligência e da liberdade de expressão

Sindicato dos Professores de São Paulo - SinproSP

Tinha razão Althusser quando dizia que a escola é um aparelho ideológico do Estado, mas não no sentido apenas formador de mão de obra, senão na totalidade do adestramento da subjetividade do cidadão às normas simbólicas de um dominação de classe. Foi a emergência da Social Democracia que atenuou essa natureza da Escola (e de outras instituições), mas o corolário de Althusser está correto, como se pode ver agora no Brasil com a tentativa de eliminar do processo educacional o esclarecimento como fundamento pedagógico da modernidade. O capitalismo global e seu braço direito mais agressivo - o ultraconservadorismo - parecem querer colocar as coisas no devido lugar: interditar o racionalismo como uma das duas principais metodologias de controle (a outra é a repressão) da sociedade.

O movimento Escola sem Partido me parece ser a expressão civil dessa investida. E agora, com essa atualização que o próprio Bolsonaro nos oferece - a intervenção do governo sobre o próprio governo - no caso do ENEM, consolida um projeto de poder que quer restituir à escola o que ela sempre precisou ser para as classes dominantes. A defesa da inteligência, nesse cenário, é fundamenatal e só isso é que pode nos livrar das trevas da ignorância...

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sexta-feira, 9 de novembro de 2018

A privatização da escola: ao invés de um diploma, uma promissória para a vida toda

O sonho americano como pesadelo

Financiamentos afundam os estudantes nos EUA: dívidas superam R$ 5,9 trilhões de reais

Sandro Pozzi
El País

Reportagem constata o que todos sabem: o desvio fundamental e dramático que a escola sofre nas mãos dos empresários: atividades de ensino e de pesquisa transformadas no mais vil instrumento de lucro. O resultado também é conhecido: gerações inteiras de eunucos intelectuais endividados para sempre... É isso o que nos espera no Brasil.

A geração Y, a que nasceu entre meados dos anos 1990 e começo do novo milênio, está afundada em dívidas nos Estados Unidos. O dado do Federal Reserve sobre a situação financeira das famílias é preocupante. Quatro de cada dez pessoas que concluíram os estudos universitários têm de devolver algum tipo de empréstimo. O total acaba de superar 1,5 trilhão de dólares (5,9 trilhões de reais), um montante que ultrapassa a riqueza de uma economia avançada como a da Espanha.


A dívida universitária supera tranquilamente o 1,1 trilhão (4,3 trilhão de reais) em financiamentos para a compra de automóvel. Também a que se acumula nos cartões de crédito, que se aproxima do trilhão. O problema, como mostram as estatísticas do banco central dos Estados Unidos, é que esses empréstimos se combinam. A dívida média do recém-formado chega a 28.400 dólares (cerca de 112.000 reais), segundo The College Board. A cifra é maior para os estudantes que vão para universidades privadas (continue a leitura).

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Bolsonaro vai desenhando o perfil do seu governo

A agenda furtiva de Bolsonaro e Bolsonaro e o controle da verdade
(duas boas análises de Outras Palavras)
Claro, ainda é cedo para tirar conclusões sobre o perfil que vai se desenhando na composição do ministério do governo Bolsonaro, mas alguns nomes, por sua trajetória na vida brasileira, já permitem algumas análises. O pano de fundo parece ser a filosofia  anti-social que orientará o novo governo: até aqui não há qualquer indício de que as áreas mais agudas das disparidades que caracterizam o Brasil, em termos de renda e de bem-estar social, receberão algum tipo relevante de atenção. Ao contrário: o tema parece ser visto pelo futuro novo governo como um território de vingança ideológica e é nesse sentido que se dirigem as manifestações de todos os indicados. A julgar pelas palavras de Eduardo Giannetti da Fonseca, um economista liberal que pontua suas análises com boa ilustração intelectual, o ultra-liberalismo de Bolsonaro pode acabar fazendo um milagre: temo que essa aventura arruine o liberalismodiz ele.

Mas não é só. À frente desse espectro de um projeto econômico que vai sendo diariamente improvisado e que pode tornar o Brasil um caldeirão explosivo de tensões sociais, os sintomas de um desastre moral e político vão se avolumando. Carente de uma diretriz política que dê alguma homogeinade ao governo, os nomes indicados para compor o ministério têm como lastro não propriamente a competência para as áreas onde estarão alocados, ainda que pudesse se tratar de competência conservadora. O que os caracteriza é o revanchismo de uma nova era; um discurso sistematicamente articulado em torno de políticas desafirmativas das garantias da democracia e da justiça: um veto radical e generalizado a qualquer coisa que se pareça com o ajuste do Brasil aos desafios que vai enfrentar, das relações exteriores às políticas públicas de forte repercussão social. Olhando de perto e analisando o que essa turma está dizendo, dá medo.

Leituras sugeridas:  * Em que mundo vive Paulo Guedes (Carta Capital) * Bolsonaro quer entregar a Amazônia (Eliane Brum, El País) * Com extinção do Ministério do Trabalho, trabalhador perde do Judiciário e do Estado (GGN) * Palestinos protestam em frente ao escritório do Brasil em Ramala (Uol) * Bolsonaro anuncia líder da bancada ruralista como ministra da agricultura (Uol) * Na nova lei antiterrorismo, seus likes podem levar vc para a cadeia (The Intercept) * Já está claro que Bolsonaro agirá contra a imprensa. A questão é como (The Intercept) * Astronauta tem passado comprometedor (título adaptado do The Intercept) * Indicada para a Agricultura admite negócio com a JBS (Folha) * Diante de Bolsonaro, movimentos sociais preparam resistência (Carta Capital)

Para uma leitura mais cuidadosa sobre a repercussão política da presença de Sérgio Moro no Ministério da Justiça, sugiro as seguintes consultas: * Moro faz autodefesa e mostra afinidade com Bolsonaro, a quem define como bastante moderado (GGN e El País)* Requião ironiza Sérgio Moro e propõe Lei Ônix para perdoar caixa 2 (GGN) * Confirmado ministro, Moro se contradiz sobre convite ao cargo (Lupa)  * Sérgio Moro (postagem do blog).
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quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Cidadãos ou consumidores?

Desvio ideológico dramático do PT pode ter sido uma das
causas do retrocesso que estamos vivendo

Do falso bem-estar social lulista ao individualismo predatório bolsonarista


Entrevista com Ricardo Cavalcanti-Schiel feita por Patrícia Facchin
IHU


vitória de Bolsonaro nas eleições presidenciais deste ano expressa a “lógica da maximização do individualismo liberal, que o lulismo promoveu obsessivamente”, diz o antropólogo Ricardo Cavalcanti-Schiel à IHU On-Line. Segundo ele, o novo governo será marcado por um “projeto de regulação social ultraliberal” que tem como característica o “individualismo possessivo, em conjunção com a lógica do privilégio”. Na prática, vislumbra, a nova gestão “vai se assentar sobre uma considerável devastação dos bens públicos (meio ambiente, reservas naturais, bens da União ― Terras Indígenas, por exemplo ―, Sistema Único de Saúde, empresas estratégicas...) ou, em última instância, do próprio espaço público”. Comparando o novo governo com as gestões anteriores do lulismo, Cavalcanti-Schiel é categórico: “Se o lulismo nunca teve por objetivo promover um Estado do bem-estar social, só o que muda agora com o bolsonarismo é a intenção deliberada de promover o Estado do mal-estar social, em nome do individualismo predatório”.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, o antropólogo comenta o discurso de pacificação do presidente eleito, e afirma que ele “significa a negação do conflito, nos termos de um componente militar da sua lógica política, que é o da tutela”. Essa lógica, explica, “funciona assim: ao se considerarem a salvaguarda em última instância da ‘soberania nacional’, as instituições militares se creem igualmente, em nome dela, dotadas da prerrogativa, se necessário, da tutela dessa mesma sociedade, inclusive para salvaguardá-la da perda de algo que ela não alcançaria reconhecer, que é a tal da ‘soberania nacional’. Só que essa lógica da tutela, no seu grau maximizado (e a ditadura militar assim o demonstrou), significa a pura e simples subserviência, única linguagem que, no fim das contas, um autoritário fala e entende. Essa é a linguagem de Bolsonaro” (continue a leitura)

Pra quem gosta de uma referência em torno do ultra-individualismo de extração trumpiniana: * Aumento do número de sem-teto nos EUA é bomba-relógio (BBC) .
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