sábado, 13 de março de 2010

Sabático

Termino a leitura do Sabático, o suplemento que o Estadão lançou hoje em meio a um fim de semana de estreia de várias reformulações do jornal. O novo caderno me anima a acreditar que o investimento no Jornalismo Cultural, vindo de um veículo que tem forte tradição no gênero, representa avanços de diversas ordens e inevitavelmente vai contribuir para que a cobertura da área ganhe em qualidade. No caso do Sabático - cuja intenção de resgatar o saudoso Suplemento Literário é abertamente declarada pelos editores -, é ainda cedo para saber como ele vai dar conta de dois desafios que já me parecem presentes nesta 1a. edição.

O primeiro deles diz respeito à concepção do projeto gráfico do produto. Não sou especialista nisso (e certamente nada ali acontece de forma improvisada), mas percebo uma excessiva concessão feita aos recursos não-verbais em todas páginas do caderno; em contrapartida uma certa espremidez dos textos, com pequenas notas, citações, listas de mais vendidos etc. Imaginei que, para uma edição de lançamento, o caderno surgisse mais provocador e menos repetitivo daquilo que já existe na imprensa brasileira, e mais ousado em termos de volume verbal, sem medo de que isso possa afastar os leitores da leitura (um paradoxo que mais me parece uma lenda), ou a revista piauí não teria se transformado no sucesso em que se transformou.

O segundo desafio remete à pauta. Também imaginei que nesta edição inaugural iria me deparar com alguma coisa relativa ao espírito do suplemento, isto é, a Literatura. Alguma coisa que falasse ao leitor sobre sua importância como forma de conhecimento do mundo, de contestação do mundo, de reprodução do mundo. Isso, claro, não quer dizer que a entrevista com Umberto Eco não esbarre nessas questões, mas o foco principal da matéria com o professor de Bologna - o suposto desaparecimento do livro enquanto suporte cultural - me pareceu requentado, até porque outros suplementos culturais já publicaram artigos do entrevistado sobre o mesmo assunto. E o restante da entrevista fica muito no plano geral das curiosidades e pouco no plano conceitual, onde me parece que a presença de Eco ancoraria mais fortemente a destinação pública do Sabático.

Tenho estudado o Jornalismo Cultural nos últimos 6 ou 7 anos em razão das atividades de pesquisa que desenvolvo na pós-graduação da Umesp. São muitas as conclusões a que tenho chegado, juntamente com meus orientandos que optaram por desenvolver projetos nessa área, mas algumas me parecem consolidadas. A principal delas: a demanda intelectual socialmente legitimada em suas várias instituições é também a força do gênero. É aí que os cadernos, seções, suplementos e veículos especializados no Jornalismo Cultural devem buscar o núcleo fundamental do que produzem - na forma e no conteúdo. Torço para que o Sabático não descuide disso...

domingo, 7 de março de 2010

Chile

Fiquei impressionado com o relato de Ariel Palacios e João Paulo Charleaux, no Estadão deste domingo, sobre a tragédia vivida pelo Chile. Não é uma matéria que faz o inventário da destruição física que atingiu o país, mas da onda de saques, incêndios, roubos nas lojas e nas residências praticados por setores sociais dos mais diversos. A certa altura, diz um dos entrevistados: "não estamos só sobre uma falha geológica, mas também moral". A surpresa fica por conta do aparente paradoxo que a bárbarie representa: o Chile propagou pelo mundo, na última década, a imagem de uma sociedade adulta e culturalmente desenvolvida, madura e organizada, quase européia, tudo isso com base no milagre do crescimento econômico acelerado, nas reformas liberais e em todo o receituário que estrutura as sociedades de consumo contemporâneas.

Posso estar enganado, mas a julgar pelo comportamento dos chilenos em meio ao caos, o êxito da modernização parece ter se erguido sobre um vazio de humanização e de ética social: ao primeiro sinal de risco, salvou-se quem pode. O médico Cláudio Missareli, ouvido pelos repórteres, resumiu: "Que desenvolvimento o quê... É falsa essa imagem que os governos e os empresários chilenos venderam ao mundo, de que este era um país equivalente aos tigres asiáticos. Nós não passamos de um país subdesenvolvido. Isso agora ficou claro para todos os chilenos e para o mundo. Nem no Haiti as pessoas se comportaram assim".

Nem no Haiti... com seus 300 mil mortos. No Chile, com "apenas" 800, até a classe média alta, montada em veículos de luxo, avançou sobre o comércio: "Todos roubaram de todos... O vandalismo foi protagonizado por todos", disse a prefeita de Concepción. Acho que vale a pena refletir sobre isso. De um lado, é claro, há o paradigma que julga o comportamento humano pela situação limite em que ele se encontra - e me parece razoável que diante do desespero regramentos de qualquer espécie soem como abstratos; mas há também um estatuto de civilidade que estrutura padrões de comportamento na medida de sua consolidação. Os episódios ocorridos no Chile mostram que, pelo menos ali, eles são frágeis...

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Hungria

Leio na seção internacional do UOL a matéria (para assinantes) do Le Monde sobre o crescimento da xenofobia nacionalista na Hungria. O fato que motivou a matéria foi um episódio envolvendo recursos hídricos de uma província no sul do país, mas suficientemente revelador de um crescente sentimento antieuropeu capitaneado pelo Fidesz, o partido de direita de Viktor Orban, o mesmo sentimento que já motivou, como diz a matéria do Le Monde, "grande preocupação" dos principais países europeus com as posições húngaras em relação à integração na CEE.

Estive na Hungria recentemente e embora tenha sido uma viagem de absoluto lazer, duas coisas chamaram minha atenção. A primeira delas, que me parece ser uma tendência em toda a Europa, foi a obsessiva propensão para o consumo de toda a variedade das marcas globais que estão instaladas nas principais cidades do continente. Estimulados pela época do Natal e pelo período de grandes liquidações que é inaugurado ainda na última semana do ano, os húngaros, da mesma forma que os italianos, espanhóis etc em suas respectivas capitais, lotaram as lojas de Budapeste como uma massa meio sonâmbula e meio zonza, num corre-corre de fazer inveja ao nosso Magazine Luíza. A diferença, no caso de Budapeste, até onde consegui perceber, é uma espécie de voracidade pelo moderno-ocidental, como se aquela coleção de grifes pudesse compensar os anos difíceis do socialismo. Senti falta de alguma coisa ali que desse perfil consistente a um país de cultura secular, uma angústia existencial coletiva.

A segunda coisa a me chamar a atenção foi o clima pesado de permanente recuperação e exaltação do passado guerreiro dos húngaros, um clima que envolve a música, as praças públicas, a arquitetura, as estátutas erguidas aos heróis (raramente algum deles do período pós 2a. guerra mundial). Tudo ali me pareceu cansativo, triste e sombrio, como se a busca por uma identidade nacional só encontrasse correpondência na busca desenfreada do consumo, ambos igualmente insuficientes para dar aos húngaros o perfil que a Europa lhes cobra: o abandono das particularidades nacionais que desequilibram a integração política e o crescimento do poder de compra que equilibra a integração econômica.

Diz a Folha no box que acompanha a matéria do Le Monde que a Hungria só conseguiu escapar da falência provocada pela crise financeira porque recebeu um crédito de 20 bilhões de euros da União Européia, ajuda que provocou no país um plano de austeridade draconiana (estabilidade monetária mas com crescimento do desemprego e declínio do PIB), uma conjuntura rapidamente aproveitada por Viktor Orban, que promete agora para as eleições de abril (nas quais é apontado como favorito pelas pesquisas) aplicar a receita de sempre: redução de impostos, aumento de empregos e... recuperação da dignidade nacional: um prato cheio para um caldo de cultura que não se define como europeu muito menos como liberal.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Salinger, Eloy Martínez...

Semana passada morreu J.D.Salinger, autor de O apanhador no campo de centeio. Ontem, morreu Tomás Eloy Martínez, autor de Santa Evita. Há pouca coisa em comum entre os dois, exceto a sensibilidade para perceber o mundo e descrevê-lo sob a forma da literatura, eventualmente um campo do conhecimento que se revela mais eficaz que a própria narrativa da História.

Devo ter lido tudo o que a imprensa ao meu alcance publicou sobre Salinger e lamento ter encontrado mais referências à sua reclusão do que à sua obra, em especial ao seu principal livro (leia aqui o artigo de José Castello transcrito de O Globo e publicado no Observatório da Imprensa). Não é verdade que O apanhador inaugurou qualquer corrente inovadora na literatura norteamericana, nem é verdade que Salinger tenha provocado uma revolução estilística ou coisa semelhante.

Particularmente, vejo o livro como um registro da inquietação cultural dos Estados Unidos no pósguerra, uma espécie de linhagem que reiterou na ficção a presença do social, mas um outro lado do social - o da desconstrução dos mitos da grande sociedade afluente e seu impacto no conjunto dos movimentos de contestação que se seguiram nos anos 60 e 70. Salinger, Kerouac, Capote, Mailer, reunidos, certamente conseguiram produzir o retrato mais fiel da sociedade em que viveram.

Eloy Martínez, do seu lado, produziu a obra que, segundo penso, é a mais contundente demonstração das fronteiras entre a História e a ficção. Numa entrevista concedida a Ariel Palácios (leia aqui), o escritor argentino disse que "o passado e o público, sempre se entrelaçaram de uma forma difusa e profusa na História. Se os arquivos foram construídos por minorias letradas e os poderes ditatoriais, e se a História é uma série de exemplos que escamoteiam a verdade, como negar à novela sua versão da História? Nossa realidade por si só é novelesca! Ela precisa ser narrada por elementos mais flexíveis, e complexos". Para ele, só a literatura poderia corrigir o déficit de realidade que a História carrega consigo. Martínez fez isso em diversas obras, em especial aquelas em que buscou revelar os sentidos do peronismo na Argentina. Quem lê Santa Evita nunca mais vê a América Latina do mesmo jeito.

Esta não é a mais alegre das formas de postar meu retorno das férias, mas certamente é a mais indicada para que eu perceba mais uma vez, junto com meus alunos, o que vale a pena conhecer...

sábado, 12 de dezembro de 2009

Copenhague, 2009

Mais de 100 mil pessoas saíram às ruas de Copenhague neste sábado para exigir dos países pobres e ricos compromissos sérios com a preservação do meio ambiente. A imagem de uma multidão que protesta contra a degradação ecológica deve ter alguma coisa a ver com a reversão das mobilizações de identidade socialista dos anos 60 e 70 e se constitui numa nova narrativa da política contemporânea.

Postagens agora, só em 2010, quando as aulas forem reiniciadas. A experiência com o blog neste ano foi fundamental para minhas atividades docentes. Ela precisa de um tempo para seu aprimoramento. Até lá...

sábado, 28 de novembro de 2009

Ainda a relação professor x tecnologia

Volto ainda uma vez ao problema das difíceis condições de trabalho que os professores têm enfrentado por conta da disseminação das TICs na Educação. Até onde consigo perceber, o estranhamento dos docentes não se dá tanto em relação à natureza da tecnologia, embora seja possível perceber resistências conservadoras à sua utilização por professores refratários às mudanças de qualquer tipo sobre atividades que se incorporaram à sua existência profissional. Penso, no entanto, que em sua maioria os educadores atuam aí como todos os demais trabalhadores, buscando adotar um padrão mínimo de acompanhamento das inovações. Bem feitas as coisas, é possível que os professores acabassem se constituindo num núcleo de profissionais catalisadores das mudanças.

O estranhamento, portanto, é de outra ordem e tem outros motivos: ele existe em razão de um determinado conceito utilitário e quantitativista das TICs posto em prática na maioria das escolas (em especial as particulares) de forma meramente operacional, fato que dificulta ao docente o entendimento da riqueza que a técnica pode oferecer para o processo de ensino-aprendizagem. Responder emails de alunos, aplicar testes na rede, registrar frequência ou avaliações, sacrificar a qualidade de uma aula em razão de programações abstratas e pressionadas pela urgência constituem um conjunto de tarefas sufocantes e inspiradas numa concepção administrativa de sua relação com o conhecimento, porque não é dessa forma que ele é nem produzido nem apreendido. É natural que os professores vejam aí um padrão de atividade com o qual eles não se identificam e para o qual nem chegam a ser remunerados de forma adequada e digna; e é sintomático que a denominação de "tutor" vai ficando reservada para professores que veem o que fazem reduzido ao mero monitoramento de algumas dessas aplicações.

Estou convencido de que isso ocorre por dois motivos. O primeiro deles é consequência direta e imediata da filosofia interna daquelas escolas onde essa situação é mais aguda, isto é, a precipitação e o afobamento na adoção de modelos que agilizem o ingresso de seus cursos nesses novos tempos - eventualmente com a compra de pacotes prontos de softwares estranhos a quaisquer projetos pedagógicos qualificados. Tudo indica que isso tem provocado a alienação do professor sobre aquilo que está sendo posto em prática pois que ele não vê nas mudanças todas senão o sentido burocrático que se acrescenta ao sem-número de atividades com as quais já está envolvido. O resultado é o que se vê por aí: um grau de estresse, de desgaste físico, de sobrecarga de trabalho que anula a potencialidade que as TICs têm para os professores e para as próprias escolas como instituições educacionais, pois é isso o que elas deveriam ser.

O segundo motivo é bastante conhecido: em boa parte dos estabelecimentos de ensino, as mudanças incrementadas pelas novas tecnologias são inspiradas pelo mercado, pela concorrência, pelas cotoveladas que as empresas dão umas nas outras para conquistar a clientela; não têm nada a ver com o aperfeiçoamento dos processos didático-pedagógicos - ainda que os discursos que as jusfiquem digam que sim, até com um certo deslumbramento. Sob esse aspecto, é possível que as mudanças estejam sendo bem-sucedidas, mas é insignificante o ganho educacional que representam, e esse é um elemento que se acrescenta ao estranhamento dos professores.

Tenho dito em diversas ocasiões que as TICs são essencialmente emancipadoras da atividade intelectual e alargam as possibilidades de acesso à transmissão e à obtenção do conhecimento, mas sempre que isso seja feito de forma criteriosa e autônoma pelos sujeitos que conseguem estabelecer uma relação enriquecedora entre o conteúdo do que fazem e a forma como o fazem, no trabalho e na criatividade. Posso estar enganado, mas a lógica com que elas têm sido inseridas na Educação é o oposto disso, como os professores testemunham todos os dias. Como é mesmo o nome daquela espécie de imposto que uma geração transfere para outra porque não tem noção dos efeitos negativos que sua ação tem no presente? Imposto geracional? Pois a forma como as TICs têm sido implementadas nos nossos sistemas de ensino é bem isso: estamos empurrando para frente as consequências desse déficit.

domingo, 22 de novembro de 2009

Tecnologia & trabalho

Passei boa parte do fim de semana lendo o texto de Manuel Gómez Acosta publicado no la factoria (Leia aqui). Trata-se de um ensaio sobre as consequências das mudanças tecnológicas no plano econômico e das determinações que elas têm sobre o perfil geral dos trabalhadores. Por conta desse enfoque, nem de longe Acosta se preocupa com questões de natureza cultural, embora seja possível perceber que as transformações nos padrões operacionais de praticamente todas as categorias profissionais, segundo o autor, estejam ocorrendo paralelamente a mudanças correlatas de referências simbólicas e de comportamento.

No final das contas, o que Acosta quer demonstrar são os efeitos disso nas vantagens competitivas das empresas e no mundo trabalho, reservando para este último a indicação de um conjunto de categorias que demonstram o surgimento de uma nova segmentação social que toma como referência a maior ou a menor aproximação com os processos criativos-inovadores instaurados pelas tecnologias da informação e da comunicação (TIC) e não mais a maior ou a menor habilidade meramente operacional ou titulada: no topo, uma elite tecnocrática, detendora do conhecimento tecnológico; na base, a funcionalidade da mão de obra cuja atividade é meramente reflexa dessa elite. Não é preciso ir muito longe: na hipótese de que isso esteja mesmo acontecendo (e tudo indica que está), os efeitos dessas mudanças tendem a se espalhar pelo conjunto da sociedade em ondas assimétricas em cada um dos setores profissionais, com consequências ainda não suficientemente estudadas no universo educacional, que é o que me interessa.

Pois foi exatamente isso que me chamou a atenção no artigo de Acosta: em nenhum momento há qualquer referência ao lugar ocupado nesse panorama pelos educadores, nem nos processos de mudanças em curso, nem nos processos de sua consolidação. Evidentemente alguém poderá dizer (ou pensar) que são os professores os agentes fundamentais dessas transformações, mas me parece que essa afirmação oculta um fato mais grave: a segmentação apontada pelo autor do texto já se processa no interior da categoria dos docentes de todos os níveis de ensino, tanto pela pela relação mediata que a maioria mantém com as inovações tecnológicas quanto em consequência da forma como o seu trabalho com as TIC tem sido apropriado pelas instituições educacionais, públicas ou privadas.

Quero dizer com isso que a escola tem confinado os professores à condição de meros executores operacionais de um conjunto de recursos técnicos que ganham dimensão em suas atividades profissionais não pela emancipação criadora que podem permitir, mas pela sufocante rotina de procedimentos cuja lógica é administrativa e não educacional. Acrescente-se a isso o fato de que nessa racionalidade instrumental amplia-se a presença, no caso das escolas particulares, de uma racionalidade econômico-financeira que sobrecarrega a mão de obra docente como um valor agregado ao produto que vende à sua clientela. O resultado é o que se vê: um fosso que se abre cada vez mais profundo entre a educação e a técnica, como dois universos que se estranham no cotidiano dos professores.

Acosta trabalha em seu artigo com a hipótese de que o parâmetro da vantagem comparativa entre as nações é hoje o da inovação em TIC e apresenta o resultado do ranking elaborado pelo Network Readiness Index divulgado pelo Forum Econômico Mundial em 2006. Segundo a publicação, o primeiro lugar é ocupado pelos Estados Unidos; seguem-se Cingapura e Dinamarca. A Espanha, país do autor do artigo, está em vigésimo nono lugar, abaixo da Suécia, da Suiça, da Inglaterra, da Finlândia, da Holanda, da Noruega, da Alemanha, da Áustria, da Irlanda, da Bégica. Em todos esses países, com exceção dos Estados Unidos, o núcleo fundamental da cultura da mudança é a escola e, com ela, os professores. O Brasil ocupa o quinquagésimo segundo lugar (não vale a pena indicar abaixo de quais países). Penso que as relações dos professores com as novas tecnologias e o perfil de suas relações de trabalho com elas têm muito a ver com isso.

domingo, 8 de novembro de 2009

Uniban


Ao expulsar a aluna que foi alvo de todo aquele escândalo nas suas dependências, a Uniban agiu exatamente como se esperava que agisse. Uma universidade com aquele perfil acadêmico, com aquele projeto pedagógico, com aquela produção científica, uma referência para os padrões nacionais e internacionais de excelência, não podia fazer de outra forma. Causa espanto que não tenha agido antes, eventualmente no próprio dia em que os fatos ocorreram. Agora, com a expulsão de Geisy Arruda e para que não reste nenhuma dúvida, o quadro fica completo: a universidade imprime sua marca institucional no episódio.

Em tempo (8/11/2009): circula na rede abaixo assinado nacional, subscrito por professores, estudantes, intelectuais e demais categorias profissionais, em repúdio à atitude da universidade. Os interessados podem acessar o documento aqui.

Em tempo (10/11/2009): atualizo o post com as últimas informações sobre o episódio e concluo minha discussão sobre o tema:

* Uniban vira alvo na internet. Veja aqui as repercussões da expulsão de Geisy noticiadas pelo Estadão.

* Uniban revoga expulsão de aluna. Matéria da Folha Online.

Sobre o desfecho que o caso aparentemente ganhou com a decisão do reitor em suspender a expulsão da estudante Geisy, penso que se trata de um ato tão arbitrário quanto o que lhe deu origem. O próprio advogado da Uniban se apressou em esclarecer que a revogação da expulsão da aluna foi uma medida tomada pessoalmente pelo dirigente da instituição e que isso não se confundia com a deliberação punitiva do Conselho Universitário. Ou seja, o descontrole administrativo e o caráter intempestivo do comportamento da Uniban demonstram a marca da arbitrariedade, mesmo quando decorrem da pressão extraordinária que a opinião pública fez sobre a escola. Esses desdobramentos são atestados inconfundíveis do despreparo intelectual, acadêmico e administrativo dos responsáveis pela instituição para lidar com situações que exibem a verdadeira natureza do que ocorre ali. É claro que o MEC não pode, em razão desses acontecimentos, descredenciar a universidade, mas seria muito bom para toda a sociedade brasileira que isso ocorresse por outros meios.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Na área da Comunicação, excessos no jogo político podem prejudicar relevância acadêmica


Participei semana passada de uma reunião do conselho da Compós. Para quem não sabe, a Compós é uma associação nacional de programas de pós-graduação em Comunicação. A entidade tem uma presença relevante na área já que reúne em seus encontros anuais, em diversos grupos de pesquisa, docentes e alunos dos 34 cursos (se não me engano no número) espalhados pelo país. A atividade - em torno da qual gira um dos compromissos principais da associação - põe a público temas fundamentais das Ciências Sociais Aplicadas e através de um processo periódico de reclivagem assegura uma sistemática atualização do "estado da arte" em torno dos diversos objetos, conceitos e métodos de investigação que ocupam o cenário da Comunicação.

Dito assim, de forma simples e objetiva, a atividade desenvolvida pela entidade é coberta de méritos. E é mesmo: passam pela Compós pesquisadores que gozam de prestígio variado no espaço acadêmico da área, todos eles envolvidos com a seriedade de sua produção, e eu não hesitaria em afirmar que esses encontros anuais catalisam o conjunto da massa crítica e o estoque do que há de melhor no conhecimento que o Brasil produz na pesquisa científica que tem como foco os fenômenos comunicacionais. Ainda bem que é assim pois que se tomados como referência os temas da reunião de que participei nem de longe é possível atribuir à Compós a importância que ela construiu nos últimos anos. Digo isso porque há uma distância muito grande entre o perfil orgânico dessa entidade e aquilo que se processa na sua base, no universo fragmentado da pesquisa. No topo, na direção da associação, um intrincado jogo de peças que tenta sistematizar as pulsões da área; no andar de baixo, a essência da atividade acadêmica. Em cima, estão em disputa os espaços de reconhecimento de natureza política; em baixo, os espaços de reconhecimento são disputados pela qualidade dos trabalhos de investigação.

O problema todo é que a Compós não está sozinha na área pois o que não falta na Comunicação hoje são foruns, associações, federações: estaduais, por sub-área, de graduação e de pós, nacionais, internacionais, latinoamericanas, iberoamericanas, européias, lusófonas, africanas, australianas, de professores, de estudantes, sem falar nas representações nas agências de fomento... um universo disperso no qual é um verdadeiro desafio encontrar algum tipo de unidade - ou de plataforma programática - que justifique essa pluralidade de existência que eu imagino não existir em outras áreas; e ainda que todas essas entidades queiram para si, da mesma forma que a Compós, o abrigo da produção científica de excelência e a legitimidade da representação da área, o fato concreto é que o embate político que decorre de seu movimento acaba fragilizando o conjunto das demandas e até mesmo o brilho da pesquisa que se produz no interior dos cursos. Pior que isso: institui-se, no lugar do debate de idéias e de tendências teóricas, o confronto de redutos personalizados de poder acadêmico que acabam por obscurecer as reivindicações mais amplas de todo o conjunto.

Espero estar enganado, mas não vejo com otimismo esse processo e acho mesmo enganoso que ele possa ser justificado como efeito de uma suposta riqueza democrática da área. Penso que não se trata disso: a fragmentação aqui revela fragilidade mais que dinamismo e, se é que isso já não está ocorrendo, pode contaminar a própria relevância acadêmica de sua produção.

Reprodução: Fragmentos, Paulo César.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Mudanças sociais e processos de comunicação

Concluí nesta semana a análise e a discussão do texto Capitalismo tardio e sociabilidade moderna com os alunos da disciplina História Social dos Processos Comunicacionais do Póscom/Umesp. O trabalho, de autoria de Fernando A. Novais e João Manuel Cardoso de Mello, integra o 4o. volume da obra História da Vida Privada no Brasil. Trata-se de um painel bastante complexo das mudanças sócio-culturais características da ocorrência da modernização "prussiana" vivida nas diversas etapas de expansão do processo de industrialização brasileira. O estudo de Novais e Cardoso de Mello põe à mostra os paradoxos decorrentes de uma sociedade marcada profundamente pelos desníveis de renda mas que, contraditoriamente, espalhou por todos os estratos a adesão aos produtos do consumo moderno e aos seus signos culturais. Ao final da leitura do texto, é possível perceber as marcas aparentes de uma sociabilidade que consagra a universalização de comportamentos mas que consolida de forma radical as distâncias sociais, base das relações do poder oligárquico e econômico, das quais a mídia tradicional foi expressão e instrumento.

Capitalismo tardio, no entanto, é um texto que observa o cenário brasileiro até um determinado período histórico e precisaria, de alguma forma, ser atualizado face às mudanças que se verificaram no país nos anos recentes. Refiro-me aos indicativos de mobilidade social que vêm sendo apontados por diversos estudos que levam em conta o perfil da distribuição da renda brasileira, em especial aquele que diz respeito à emergência de uma "nova classe média" que amplia sua inserção na diversidade de manifestações culturais permitidas pela intensidade do crescimento econômico, mas agora alicerçada numa maior participação no bolo da riqueza nacional. Quais os efeitos que essas mudanças têm provocado nos processos comunicacionais?

Um matéria publicada recentemente no site do Forum Nacional pela Democratização da Comunicação (leia aqui) apresenta cifras que jogam luz sobre a dinâmica entre os dois processos - o da condição econômica e o dos padrões culturais. Segundo Sandra Carvalho, que assina o texto, a FGV informa que 97,2 milhões de pessoas compõem hoje a chamada classe C emergente (pessoas com renda familiar mensal entre R$ 1.064 e R$ 4.561). Nesse enorme contingente o percentual de "penetração" na internet é de 39%, índice que deve chegar a 45% ainda em 2009, o que significa que "uma de cada duas pessoas emergentes surfará na web até o final do ano". Trata-se de uma cifra inferior à proporção de internautas nas classes A e B, mas quantitativamente mais expressiva se levarmos em conta os números brutos que ela representa. Em linhas gerais, a expansão do acesso à rede vem acompanhada pela ascensão ininterrupta da compra de computadores e do uso da banda larga em todos os estratos: a mesma matéria do FNDC dá conta de 12 milhões de máquinas vendidas em 2008 às quais se acrescentaram outros 4,8 milhões no 1o. semestre de 2009. A banda larga em 2008 cresceu mais de 45% em relação a 2007. Essas duas medidas - a da aquisição de computadores e a do acesso à rede - demonstram que a maior participação na renda nacional vem acompanhada, de forma geral, de maior acesso à informação através de alternativas variadas, mas de qualquer forma inéditas: novos padrões de consumo vinculados a padrões de comportamento também modernos, o que, em hipótese, pode mudar inteiramente o perfil dos processos comunicacionais na base da pirâmide social.

Nesse contexto, ganha importância a constatação feita por Venício Lima: uma redução gradativa, mas persistente, da influência dos veículos tradicionais e sua conformação com perspectivas regionais de atuação, fato que demonstraria a existência de um gueto comunicacional circunscrito social e geograficamente em contraposição ao dinamismo exibido pelos índices de acesso à informação em setores com os quais os "jornalões" (para usar a expressão do autor) deixaram de manter - se é que mantiveram em algum momento - uma relação hegemônica de controle discursivo. Venício Lima não diz que esse "isolamento" dos veículos tradicionais representa o fim de seu papel de "formadores de opinião", em especial nas classes A e B, apenas pensa a possibilidade de que a ação desses veículos acabe por reproduzir vozes sociais que falam para si mesmas, alheando-se às mudanças ocorridas à sua volta. Se a hipótese encontrar sustentação em outros estudos sobre essas transformações, alguns paradigmas teóricos e conceituais sobre a comunicação no Brasil teriam que ser revistos, entre eles um evidente déficit de natureza metodológica, a saber: a necessidade de visualizar o cenário aparentemente errático das mudanças com a atenção voltada para o movimento que se dá na sociedade, nos deslocamentos provocados no interior dos diversos grupos e entre eles mesmos, ou corrermos o risco de produzir um entendimento de um fenômeno que oculta na sua essência interpretações fundamentais dos processos comunicacionais.

sábado, 24 de outubro de 2009

O existencial e o político no jornalismo cultural

Penso que um outro conjunto de elementos faz parte de muitas das matérias publicadas nos suplementos e cadernos de cultura. Nas duas últimas postagens sobre o tema fiz uma rápida referência a eles quando afirmei que, além dos componentes de natureza mercadológica e daqueles de perfil estético-conceitual, também os contextos de natureza ético-política aparecem na produção do gênero. Trata-se, neste caso, das referências de contexto existencial e histórico que as pautas do jornalismo cultural cobram do profissional da imprensa, invariavelmente ligadas às dimensões de natureza reflexiva que a produção artística ou acadêmica sempre apresenta.

Exemplifico com a observação empírica que tenho feito sobre os suplementos de cultura dos jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo, que são os órgãos com os quais tenho trabalhado no projeto de pesquisa que desenvolvo na Umesp. Pois bem: com exceção daquelas matérias de menor dimensão interpretativa e quase sempre voltadas para a "prestação de serviços" (notas, breves comentários, apontamentos de natureza essencialmente informativa), as demais costumeiramente apontam para o conjunto de possibilidades oferecidas pelas "aberturas" analíticas presentes com maior ou menor intensidade na produção cultural. É bastante comum nesses casos - diria mesmo que é inevitável - que o jornalista se debruce sobre o universo de problemas de perfil existencial ou político que as obras que comenta têm em maior ou menor grau, remetendo o leitor para um contexto ampliado da simples referência objetiva ao tema da matéria.

Nesse sentido, um lançamento literário ou uma apresentação dramatúrgica, a estreia de uma produção cinematográfica, uma obra de estrutura acadêmica, operam com duas dimensões igualmente fortes na composição dos textos que tenho analisado: a primeira elas, que chamo aqui de existencial, remete a questões relativas à ontologia do contemporâneo e à diversidade de apelos à sua compreensão ética, entendida aqui como uma esfera de comportamentos que, embora possam se refletir no cotidiano (e identificada nele), apontam para dilemas do ser, da sua subjetividade, da sua inserção no universo dos sentimentos e das relações com o mundo. A segunda, que chamo de política (obviamente referida aqui em sua compreensão transformadora e organizadora), diz respeito à estrutura social, às relações de dominação e ao poder.

Minhas observações sobre o jornalismo cultural, ainda que reconheçam no gênero - como já foi dito - determinações informativas e de puro entretenimento (onde se concretiza a interface com o mercado da cultura), evidenciam processos de produção voltados para essas outras duas lógicas dos bens simbólicos: a dimensão estético-conceitual e a dimensão existencial e política. Acredito que essas conclusões culminam, pelo menos até aqui, a interpretação dos produtos que tenho estudado. A tarefa agora é sistematizá-las, mas é preciso mais que um blog para isso.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Debate contesta revisão da estrutura dos cursos de Comunicação e das diretrizes de Jornalismo


A redefinição dos cursos de Comunicação a partir do desmembramento das atuais habilitações e a proposta de novas diretrizes curriculares para Jornalismo apresentada recentemente ao MEC pela Comissão de Especialistas acendeu o debate na Compós. A partir de uma mensagem postada na lista por Ivana Bentes, na qual a professora da ECO/UFRJ adverte para a possibilidade de que as mudanças previstas contrariem a concepção transdisciplinar do ensino de graduação com a segmentação das formações profissionais, duas manifestações posteriores indicam que muita água vai rolar até que o Conselho Nacional de Educação delibere sobre o assunto. A primeira veio de Afonso Albuquerque; a segunda, de Erik Felinto.

Para Albuquerque, "não são apenas algumas mudanças de nome e de perfil que ameaçam uma concepção mais abrangente do ensino da comunicação. É o espírito da reforma como um todo. E acho que a ameaça não se limita à graduação. A médio prazo o objetivo do movimento é alterar também a lógica da pós-graduação, impondo também a ela um modelo fragmentário".

Diz o professor da Federal Fluminense que "não se trata de especulação vazia. Basta observar o documento da Comissão de Especialistas - sempre me espanta a falta de transparência e de consulta pública com que o MEC define quem é 'especialista' - responsável pela elaboração das Diretrizes Nacionais para o Curso de Jornalismo". Com base no trecho da proposta das diretrizes para jornalismo no qual a comissão recomenda ao ministério a ênfase na formação pós-graduada em jornalismo de professores da habilitação, Afonso Albuquerque adverte que "afora o absurdo evidente de uma comissão criada para normatizar cursos de graduação em jornalismo extrapolar a sua autoridade para também normatizar a pós-graduação - o que significa simplesmente passar por cima da Compós como forum de debate sobre o assunto - fica evidente uma atitude preconceituosa em relação à formação teórica em Comunicação. Como esta é a matéria prima básica do nosso modelo de pós, dá para se ver o tamanho da ameaça".

"De resto, a reforma da graduação é de um fantástico contra-senso", diz Albuquerque: "Para começar, ela mistura alhos e bugalhos. Jornalismo, Publicidade e RP são campos de atuação profissional, Rádio, TV e Internet são tecnologias da Comunicação, que têm interfaces evidentes com Cinema e Audiovisual - alguém conhece alguma televisão que não veicule produtos audiovisuais? - e multimídia é... Alguém ainda se lembra o que é multimídia?

"Em segundo lugar, prossegue, ela ignora inteiramente a realidade do mercado de trabalho deste século: a convergência das linguagens e dos meios, dos usuários ativos, das redes sociais e assim por diante. O mercado de trabalho real, que emprega uma grande (e crescente) parcela dos alunos que saem da faculdade hoje". Afonso Albuquerque acha "bizzaro sugerir que ninguém trabalha com 'comunicação', mas com 'jornalismo', 'publicidade' e etc. É justamente o contrário. As pessoas hoje trabalham com comunicação em um sentido integrado, muito mais do que dentro de fronteiras habilitacionais específicas. É público e notório que o mercado de trabalho das organizações jornalísticas stricto sensu está em declínio. Provavelmente, o setor que mais emprega jornalistas no Brasil é a assessoria de imprensa. E só no Brasil assessor de imprensa é jornalista... Os profissionais 'puro-sangue' ambicionados por este modelo são, hoje, espécies em extinção. Simplesmente não há mais lugar para eles no mercado de trabalho.

"De onde vem tanta cegueira", pergunta Albuquerque. "Provavelmente - acrescenta ele - da repulsa mal disfarçada (se é que em algum momento disfarçada) em relação à formação teórica em Comunicação. A formação prática só permite olhar para o passado. Reproduzir modelos estabelecidos. E quando as coisas mudam, e estes modelos entram em crise? Neste caso, o que entra em jogo é a capacidade de diagnosticar a situação, avaliar os elementos envolvidos e propor sugestões originais".

"A minha sensação, conclui o ex-presidente da Compós, é que o verdadeiro objetivo da reforma é deter a evolução da formação superior em comunicação. Evolução inevitável, dado que as coisas estão mudando, e estão mudando rapidamente. Querer parar a história a golpes de burocracia é algo que nunca dá certo".

Para Erik Felinto, que também foi presidente da Compós, as mudanças que estão sendo propostas criam paradoxos graves: "... mais preocupante ainda que as diretrizes do MEC é a filosofia (se é que assim podemos chamá-la) que está na base da coisa". E acrescenta: "É um verdadeiro absurdo que 'especialistas' considerem ser impossível pensar sobre qualquer prática humana sem que a tenhamos primeiramente exercido. Nesse caso, ninguém poderia tornar-se criminologista ou fazer sociologia da violência sem ter cometido um crime. Preciso primeiro matar alguém para depois poder refletir sobre as motivações e métodos de Raskolnikov. No domínio dos estudos literários, igualmente, não passaria pela cabeça de ninguém julgar que os escritores seriam necessariamente os melhores teóricos da literatura apenas pelo fato de escreverem literatura (ainda que até possa ser o caso acidentalmente).

"Isso é divertido, admite Felinto, "mas é o de menos". "O que me parece realmente assustador é a concepção de comunicação (bem como da produção do conhecimento e da formação universitária) que estrutura essa reforma. Em primeiro lugar, essa concepção essencializa realidades histórica e culturalmente determinadas, como o jornalismo ou o cinema, transformando-as em idéias platônicas. Para garantir sua subsistência nas feições que adquiriram historicamente no mundo moderno, mesmo face às violentas transformações tecnológicas, sociais, econômicas e culturais dos últimos anos, é preciso elevá-las ao “topos ouranos” da imobilidade temporal e fetichizá-las da maneira mais rasteira possível.

"Em segundo lugar, acrescenta, criam-se mundos estanques (agora, numa versão bastarda das mônadas leibnizianas), nos quais os campos, as práticas, as teorias são completamente incapazes de se comunicar. Em relação ao cinema, especificamente, o sôfrego desejo de desligá-lo a todo custo da comunicação ou da rubrica “audiovisual” revela um extremo desconhecimento da história da mídia e suas dinâmicas particulares. A mais recente historiografia da mídia vem demonstrando à exaustão que nunca existiu algo como um puro discurso ou forma cultural cinematográfica. Ainda que o cinema pertencesse somente a uma esfera da 'pura arte' (como alguns gostariam), sem qualquer relação com questões comunicacionais, teríamos que perguntar de que noção (também historicamente condicionada) de arte estamos falando".

No caso do jornalismo, a idéia de um "suposto domínio cognitivo da sua especificidade" entra em choque o "cenário em que os impactos tecnológicos das novas mídias – e aqui aceito sem nenhum embaraço a surrada acusação de “determinismo tecnológico” – põem em cheque uma vasta série de hábitos cognitivos e formas tradicionais de produzir e consumir informação".

Para Felinto, a proposta de reforma curricular apresentada pela comissão "parece conformar-se à certa tendência de pensamento tecnicista e disciplinar que vem assolando o campo da comunicação aqui em nossas terras tropicais. Enquanto no resto do mundo centros de pesquisa e pesquisadores tornam-se cada vez menos apegados a rótulos disciplinares e a objetos nitidamente recortados, por aqui ainda encontra bastante ressonância a fábula dos três porquinhos que se trancam em sua casa enquanto o lobo assopra lá fora. Nesse sentido, o exemplo da literatura comparada, que não teve pudor algum em declarar a dissolução de seu objeto tradicional (e com isso buscar novos horizontes precisamente nos estudos de mídia) é significativo e inspirador. Na UERJ, impressiona-me a quantidade de estudantes que se graduam em jornalismo para depois cursar Relações Públicas ou Publicidade (e vice-versa). Isso porque eles percebem, ao contrário do que insinuam as diretrizes, que o campo profissional da comunicação encontra-se cada vez mais esgarçado e o mercado se interessa precisamente por aqueles que conseguem transitar entre diferentes horizontes práticos e universos de referência cultural.

"Na verdade, conclui o professor da UERJ, se a comunicação já não fosse tão fragmentada quanto é, talvez eles não tivessem que gastar tantos anos fazendo outros cursos. Afonso termina dizendo que 'parar a história a golpes de burocracia é algo que nunca dá certo'. Eu acrescentaria, lembrando Zizek, que a burocracia é uma das mais representativas encarnações do super-ego: ao mesmo tempo assustadoramente autoritária e totalmente risível em seu incansável afã prescritivo".

O debate está aberto... Pretendo acompanhar os desdobramentos da discussão e postar no blog as idéias principais apresentadas nas listas.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Estética e conceito no jornalismo cultural II

Volto ao tema desenvolvido na postagem anterior. Do jornalismo cultural espera-se naturalmente que cumpra sua função de prestador de serviços: é sob esse aspecto que o gênero se encontra com demandas de natureza mercadológica e sobre as quais trabalha com um universo carregado de infomações objetivas e funcionais. As publicações especializadas comprovam isso em todas as suas edições: textos que oferecem ao leitor uma espécie de roteiro em torno do qual ele (o leitor) se situa no panorama das atividades culturais. O gênero, no entanto, dada a sua complexidade sempre crescente, desenvolve-se em outras direções - e as pesquisas mais atuais em torno do tema já conseguiram identificar uma massa elaborações discursivas que se afasta desse primeiro estágio e caminha para um exercício de contextualização das matérias.

Por conta de colaboradores ou por conta de jornalistas especializados nos diversos segmentos da cultura, essa outra abordagem tem nas questões de natureza estético-conceitual um dos núcleos principais de sua elaboração. Sobre essas questões, no entanto, convém desde logo destacar que estão mais presas a um enfoque de perfil analítico, mais propensas ao estilo ensaístico. Invariavelmente, quando o projeto editorial do veículo contempla isso, o volume informativo das matérias cede lugar a um aggiornamento do leitor face ao lugar que o assunto (a obra) ocupa no cenário mais amplo das formulações expressivas, se mais ou menos próxima das propostas de vanguarda, se mais ou menos próxima de questões culturais mais amplas, se emerge como resposta formal para os impasses da arte no mundo contemporâneo. Nesse sentido, a densidade informativa do gênero cede lugar a um cruzamento de possibilidades para as quais jornalistas profissionais especializados ou autores, estes últimos quase sempre de origem acadêmica, oferecem suas interpretações. É em razão dessa constatação que as pesquisas desenvolvidas sobre o tema indicam que o jornalismo cultural é o gênero de maior presença autoral entre todos os outros.

Seria inapropriado nos limites deste post apresentar o elenco de exemplos que comprovam essas características, mas um rápido acompanhamento das edições dos veículos que são considerados referências na área, especialmente impressos, indica uma produção que tem nessa perspectiva estético-conceitual um de seus suportes. O outro suporte é o de natureza ético-política, como dissemos na postagem de 12 de outubro. Volto ao tema ainda uma vez para analisar essa questão.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Estética e conceito no jornalismo cultural I

Nos estudos que tenho feito sobre o Jornalismo Cultural uma das hipóteses com as quais trabalho é a de que são dois os elementos fundamentais que estruturam a pauta do gênero: as informações e análises de natureza estético-conceitual e aquelas de natureza ético-política. São dois conjuntos que caminham lado a lado, mas é preciso distinguir a especificidade de cada um deles para que seja possível perceber onde reside o núcleo noticioso daquilo que é publicado em suplementos, revistas, seções e cadernos onde a cultura está presente no jornalismo.

No primeiro caso que me ocupa aqui - os elementos estético-conceituais -, o que chama a atenção é o conjunto de proposições expressivas que marcam o objeto das matérias, isto é, as informações que dão conta das relações entre uma determinada manifestação cultural e a realidade, sempre a partir de uma proposta narrativa que emerge das questões colocadas na cultura contemporânea. Obras da literatura, do cinema, do teatro, da música, mesmo quando são reedições, constituem-se em fatos noticiosos do jornalismo cultural não propriamente por sua emergência enquanto fatos, mas por uma abrangência tradutora de posições a respeito de problemas relativos à sociedade em geral e ao indivíduo em particular. Quando isso ocorre, o jornalista se vê na contingência de trabalhar em torno desse sentido mais amplo que a percepção estética permite, debruçando-se sobre o significado social daquilo que está sendo analisado.

Essa breve reflexão vem a propósito da apresentação que José Luiz Braga fez do livro de Sérgio Gadini (Interesses cruzados: a produção da cultura no jornalismo brasileiro). Para Braga, no jornalismo cultural "o texto jornalístico [não] pode se pretender externo ao 'acontecimento'. Ele não só relata, mas interpreta, comenta, é estruturalmente solicitado a se manifestar em termos de valor". E acrescenta: "a 'validade' (noticiabilidade?) do cultural é menos objetiva em si, mais dependente de valores simbólicos às vezes impoderáveis, em todo caso, menos previsiveis". Segundo entendo, é nessa característica mediata do gênero e em seu déficit de objetividade que se encontra um dos núcleos específicos do jornalismo cultural, de onde ele retira os parâmetros de identidade com os quais aborda o assunto de sua pauta. A conclusão não me parece tão óbvia, mas é possível especular então com a hipótese de que parte de tais parâmetros estão localizados nas dimensões estéticas e conceituais do fato cultural.

Naturalmente, uma visão mais econômica do gênero leva sempre à constatação de que os fatores determinantes dos fatos culturais explicam-se antes por sua inserção no mercado de bens simbólicos, mas é preciso ponderar sobre essa dupla dimensão da cultura: a da sua racionalidade mercantil e a da sua imanência e interioridade criadora. Esta última é que me parece se constituir, como disse acima, num dos elementos que estruturam o jornalismo cultural. Vamos voltar ao tema na próxima postagem.

sábado, 3 de outubro de 2009

Literatura é desafio para o jornalismo cultural

Acabo de encerrar a 1a. aula do módulo sobre Jornalismo Cultural do pós da Unimep. Uma boa discussão com os alunos, tal como ocorreu, me fez refletir ainda mais sobre o verdadeiro desafio que a Literatura representa para o gênero, desde que ele não seja entendido como um espaço do jornalismo reduzido à prestação de serviços e sempre que os editores dos suplementos, cadernos, seções etc não queiram reduzir as matérias a uma coletânea produzida por especialistas. Nessa hipótese, o profissional está diante de um complexo de possibilidades para o qual, segundo entendo, só há uma saída: um mergulho profundo na narrativa literária com os olhos postos na cultura.

É sobre isso que Mário Vargas Llosa fala na apresentação do livro A cultura do romance recém-lançado pela Cosacnaify: a literatura "é um desses denominadores comuns da experiência humana, graças ao qual os seres vivos se reconhecem e dialogam". Para Llosa, essa partilha permitida pela arte produz um "conhecimento totalizador" que remete à essência dos processos sociais e, ainda segundo ele, só o romance é que tem condições de fazer isso.

Não é o caso aqui de discutir as teses do escritor peruano, mas essa dimensão da literatura parece inquestionável e põe em cheque sistematicamente o jornalista que trabalha com a cultura, já que a ele compete não propriamente o estudo do estilo, das estruturas linguísticas de uma obra, mas a atenção para o universo dos conflitos humanos que produz aquele território comum de entendimento, um mesmo mapa de significações através do qual o jornalismo cultural se transforma num exercício de reflexão e de esclarecimento.

Digo isso porque em diversas ocasiões, as discussões em torno do gênero têm sido permeadas pela visão invariavelmente conclusiva de que tudo se resume às pressões econômicas desencadeadas pelo mercado dos bens simbólicos sobre os veículos. Sem descartar a hipótese de que tais pressões realmente ocorram, pondero sobre um dos mecanismos de resistência a elas: a qualificação intelectual do profissional da imprensa. No caso da Literatura, isso não é possível sem o conhecimento denso do universo ético-político em que ela se manifesta, mais do que seus parâmetros estéticos e estruturais.

sábado, 19 de setembro de 2009

Diretrizes curriculares para os cursos de Jornalismo


O Ministro da Educação recebeu ontem (18/09) o documento que propõe novas diretrizes curriculares para os cursos de Jornalismo. O estudo, elaborado por comissão de especialistas designada por Fernando Haddad, deve agora ser submetido à apreciação do CNE. Caso as diretrizes sejam aprovadas na sua concepção geral - ainda que sofram ajustes na tramitação da Câmara de Educação Superior do órgão - a proposta passa a valer como orientação para todo o país e deverá provocar mudanças significativas na orientação e na estrutura didático-pedagógica dos cursos.

A primeira e mais polêmica mudança será a transformação do Jornalismo em curso específico, não mais concebido como uma habilitação da Comunicação Social. Em comentário anterior feito neste blog (leia aqui), ponderei sobre a dupla dimensão que essa idéia poderia adquirir caso viesse a ser apresentada: de um lado, a possibilidade de que inspirasse uma aversão à reflexão teórica em torno de processos que explicam o campo ontológico do Jornalismo; de outro, a perspectiva de que, uma vez autônomos, os cursos pudessem trabalhar com maior ênfase na especificidade conceitual do campo profissional. O documento entregue ao MEC mostra que seus autores foram cuidadosos no tratamento dessa questão, não apenas porque acenam com o respeito à Área do Conhecimento em que o Jornalismo se insere, mas também em razão dos fundamentos com os quais justificam sua proposta.

Os fatos parecem dar razão à comissão de especialistas, especialmente porque as novas diretrizes emergem como um roteiro que procura resgatar a identidade da formação profissional, fortemente abalada pela extinção da obrigatoriedade do diploma determinada pelo STF. Se levarmos em conta a qualidade da sustentação teórica que os autores do documento apresentado a Fernando Haddad dão aos argumentos pela formação específica, penso que as novas diretrizes representam um avanço significativo na formação dos jornalistas, mas não só por isso: também pela coerência e consistência com que apresentam os eixos em tornos dos quais as estruturas dos cursos devem gravitar.

Evidentemente, agora que se tornou público e depois da expectativa com que os envolvidos no assunto aguardavam o estudo, o resultado final da comissão entra no território aberto da polêmica, mais do que foi permitido pelas audiências públicas e pelas discussões que sua gestação provocaram nas várias listas (leia aqui, por exemplo, o documento do Prof. Fábio Malini, da Universidade Federal do Espírito Santo, contrário às diretrizes sugeridas pela comissão).

Particularmente, estou convencido de que a proposta apresentada ao MEC caminha na mesma direção de um consenso que vai se criando depois da decisão do STF: é preciso fortalecer a qualidade e a identidade dos cursos como instrumento legitimado de formação dos jornalistas. A dúvida sobre a viabilidade dessa construção fica por conta da competência e da seriedade com que professores e escolas darão conta do desafio.

domingo, 13 de setembro de 2009

O simbólico e o econômico no jornalismo cultural

Volto ainda uma vez ao artigo de Graham Murdock (Comunicação contemporânea e questões de classe) publicado no último número da revista Matrizes, da ECA/USP, agora para uma rápida reflexão que envolve a recorrente polêmica conceitual sobre a natureza do jornalismo cultural.

Murdock, a certa altura do seu texto, reitera a clássica interpretação segundo a qual há, na imprensa e na esfera dos meios de comunicação em geral, uma permanente tensão "entre os interesses políticos e comerciais de proprietários (...) e a integridade profissional e criativa de jornalistas, dramaturgos de televisão, produtores cinematográficos e músicos...". Segundo ele, o resultado disso tem sido não apenas a preocupação de que o capital social e econômico e seus interesses privados se sobreponham aos interesses públicos, mas a evidência mesma de situações em que essa disputa desemboca na existência de uma "mídia rica" no âmbito de uma "democracia pobre", em especial no campo da produção cultural, isto é, um aparelhamento empresarial técnica e financeiramente forte, mas frágil do ponto de vista da abordagem e das discussões sobre os grandes temas da sociedade contemporânea.

Penso que há inúmeros motivos para concordar com a tese: basta acompanhar o movimento das pautas de alguns dos grandes veículos, em especial no campo do jornalismo, para se perceber que há um embotamento geral da criatividade de seus profissionais. Em alguns momentos, chega a ser sonolento o mesmismo das abordagens, dos destaques e até dos textos que circulam nas diferentes mídias, em especial naquelas que integram complexos da comunicação. Particularmente, atribuo isso, além das causas gerais apontadas por Murdock, às rotinas da produção e a uma espécie de servidão que elas vivem em relação a fórmulas mecadológicas bem sucedidas. Se associarmos isso ao universo de mudanças de natureza profissional vividas pelos jornalistas (brevemente apontadas por Murdock), temos aí um bom contexto onde buscar a explicação para o paradoxo entre o dinamismo espetacular que a produção midiática adquire crescentemente e esse acanhamento de conteúdo cujo resultado é uma sistemática práxis reiterativa do cotidiano.

As perspectivas que identifico nesse cenário, no entanto, não são exatamente pessimistas porque há uma outra contradição que me parece não suficientemente explorada: a fragilização dos grandes veículos provocada pela disseminação das tecnologias digitais, especialmente na área do jornalismo cultural. Onde era possível encontrar uma agenda dada pelos grandes jornais, por exemplo, verifica-se agora a possibilidade de construção de uma pauta que escapa ao seu poder econômico e avança na direção da ocupação do espaço público com temas que recuperam o capital simbólico da inovação jornalística. No caso da produção cultural e de sua inserção nessa esfera dilatada da imprensa, arrisco dizer que esse movimento chega contrabalançar o poderio do capital organizacional e social da mídia hegemônica. Naturalmente, o tema exige pesquisas de vulto que tomem como objeto até mesmo a quantificação parcial das páginas na rede que veiculam uma produção independente do jornalismo cultural e a checagem do impacto que essa nova produção tem sobre as editorias dos grandes veículos, mas aquilo que pode ter sido um fator de desarticulação do campo jornalístico, a "flexibilidade" apontada por Murdock no universo das relações de trabalho, no campo do simbólico, em parte em razão das inovações tecnológicas, pode estar significando uma revitalização das pautas e das coberturas. Quero voltar ao assunto.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Pré-sal

Não encontro argumentos para ter qualquer atitude contrária ou cética em relação à posição que o governo adotou na questão do pré-sal. Quando leio ou ouço nos grandes veículos de informação que Lula está usando o tema com motivações eleitorais, aí sim é que percebo a intenção de campanha que a mídia dá ao assunto. Penso que o Brasil está diante da 3a. grande oportunidade de impulsionar o desenvolvimento econômico em bases independentes dos grandes interesses privados internacionais ou nacionais. A primeira ocorreu com a criação de Volta Redonda; a segunda, quando a Petrobrás foi fundada. Nessas duas ocasiões, prevaleceu o interesse público, não propriamente o interesse do governo, mas o do Estado brasileiro. E também nessas duas ocasiões o discurso contrário à iniciativa de Vargas foi muito parecido com o de agora - menos no caso de Volta Redonda, mas intensamente no caso da Petrobrás.

Pois me parece que estamos diante de um momento parecido, não só porque as reservas do pré-sal são estratégicas como recursos minerais que devem permanecer nas mãos do Estado, mas porque o volume de divisas que elas representam pode dar sustentação a um desenvolvimento socialmente orientado, isto é, capaz de promover uma mudança profunda nos setores de maior carência da vida brasileira (Educação e Saúde, por exemplo). Deixar que o grande capital, qualquer que seja a sua constituição ou origem, se apodere disso significa manter a lógica do país como um grande exportador de commodities, mas estruturalmente pobre (leia aqui matéria da BBC Brasil sobre os efeitos que a crise teve sobre o perfil das exportações brasileiras). Aliás, foi esse o destino das principais nações periféricas exportadoras de petróleo e de outras matérias primas industriais.

Quero acompanhar com cuidado a tramitação das medidas que o Governo Federal enviou ao Congresso e conferir os argumentos que vão dominar o debate, especialmente os fundamentos das posições contrárias ao projeto oficial. Sobre o tema, sugiro a leitura do artigo (A tarefa maior) de Janio de Freitas publicado na Folha de 3 de setembro (convertido para o word para que fosse possível postá-lo aqui).

sábado, 5 de setembro de 2009

Bug no Congresso

Ando com minha atenção voltada para dois ou três problemas que ocupam as manchetes principais dos grandes jornais. De todos eles, o que mais me incomoda é a possibilidade de que a reforma da lei eleitoral acabe impondo restrições ao uso da internet nas campanhas dos candidatos. Tento entender a lógica do legislador quando leio que essas restrições atingiriam não propriamente os sites noticiosos ou as páginas on-line dos principais veículos de comunicação, mas os blogs. Isso mesmo: os blogs.

Minha suposição é a de que a autoria da proposta - que tem fortes possibilidades de aprovação - acredita que o movimento dos sites produzidos por entidades, associações, movimentos e cidadãos independentes, sem compromissos com os grandes grupos de mídia, tenham hoje uma presença tão forte na vida política brasileira que seriam capazes de influenciar, de maneira decisiva, os resultados eleitorais. Ora, se é assim, uma restrição dessas passaria a confrontar a própria Constituição já que privaria um setor importante da opinião pública do seu direito à liberdade de expressão. É evidente, no entanto, que não se trata disso. Há uma extensa faixa da população brasileira que nem de longe é atingida pelas manifestações da rede, o que tornaria a proibição absolutamente inócua. Se for isso, aí é que a restrição não se justificaria de jeito nenhum.

Pois é justamente essa dificuldade em localizar as razões da proibição que me chama a atenção. Penso que estamos diante de uma questão mais profunda que a simples tentativa de evitar supostos "desmandos" ou "abusos" de campanha cometidos na rede: a ignorância que uma parcela significativa dos parlamentares brasileiros mantém em relação aos processos que se desenvolvem na sociedade brasileira. A esta altura da expansão das redes virtuais que existem no interior dos centros urbanos, quase que universalmente espalhadas por quase todas as faixas etárias, todas as classes e todos os gêneros, ignorar que restrições à internet possam simplesmente ser inviabilizadas é negar a realidade. E o que é pior, negar a realidade com fundamento numa aversão a um dos equipamentos mais dinâmicos da modernidade.

A sensação que tenho ao ler as notícias sobre a proposta, em especial os argumentos que a justificam, é a de que os grupos parlamentares que a apoiam se constituem num reduto do que há de mais atrasado na representação politica brasileira, uma espécie de trincheira das práticas pré-históricas dos processos eleitorais. Ou é isso ou estamos diante de uma camuflagem que quer preservar a influência dos grandes veículos de comunicação nas escolhas dos eleitores, fenômeno que a internet tende a relativizar. Dizem os setores de centro-esquerda que a proposta não passa. Até lá podemos verificar qual é a tendência dos que visitam esta página: leia o artigo de Juliana Lima, do blog Jornalismo nas Américas, e opine na enquete ao lado.

Resultado da enquete: 60% dos que opinaram são contrários a qualquer tipo de restrição à propaganda política na internet; 30% são favoráveis apenas a restrições que atinjam a propaganda de candidatos; 10% concordam com restrições a todos os conteúdos da campanha eleitoral para as eleições de 2010.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Nova economia e comunicação, quase 10 anos depois

Terminei o trabalho que pretendo apresentar no Congresso de Produção Científica da Metodista. O tema do paper gira em torno de um assunto que ocupou parte das minhas leituras nos últimos anos: passado o deslumbramento provocado pelo impacto das novas tecnologias na economia global, o que restou das promessas de expansão universal da riqueza e da criação de uma nova cultura? No trabalho, tento responder essas questões recorrendo à verdadeira mitologia que a mídia criou em cima de um conceito que, segundo entendo, depois de quase 10 anos, na prática reforçou a natureza concentracionária do capitalismo com efeitos perversos para todas as sociedades. No âmbito da cultura, a consagração de uma dicotomia: o fosso existente hoje entre a funcionalidade e a disfuncionalidade, categorias e normas que atingem todas as áreas da atividade humana.

Minha explicação para o paradoxo que se criou no final dos anos 90, que foi percebido por poucos estudos acadêmicos - invariavelmente por aqueles apoiados em construções teórico-metodológicas de extração radical - é que faltou o conhecimento sobre os processos históricos e sobre o dinamismo das lutas sociais. Vistas as coisas com a perspectiva do presente e tendo no nosso cotidiano as marcas do rescaldo da crise geral que atingiu a economia global no final do ano passado, algumas conclusões são possíveis, pelo menos alguns indicativos, o mais importante deles sobre as práticas discursivas dos profissionais da comunicação: podem ter percebido que devem colocar sua compreensão sobre o que ocorre no mundo a serviço da recuperação do caráter finalista da economia e, com isso, torná-la efetivamente global - não meramente no sentido geográfico ou físico do termo, mas no seu sentido universal, socialmente universal.

Pretendo discutir essas questões no Congresso de outubro.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Lições de uma entrevista

Everardo Maciel foi entrevistado na manhã de hoje por Anchieta Filho, da Jovem Pan. Maciel foi secretário da Receita Federal entre 1995 e 2001 e sua opinião sobre a suposta crise criada com a demissão de funcionários do órgão vai na contramão das manchetes dos principais jornais do país: para ele, estamos diante de um "factóide" criado com objetivos políticos e a Receita ganha em transparência com o afastamento dos demissionários. Ouça aqui a entrevista e perceba as lições que ela oferece para a leitura da imprensa. Luis Nassif, por exemplo, ficou indignado com a manipulação do mesmo episódio na TV (leia a matéria publicada na Carta Maior)

sábado, 22 de agosto de 2009

Democracia incompleta

O preço que o Brasil paga por sua tradição política conciliadora é o que está aí: uma democracia permanentemente posta sob a dúvida da descrença (leia aqui o artigo de Thiago Romero sobre o assunto) e sistematicamente condenada pelos bolsões de corrupção das elites que sobreviveram a todas as mudanças recentes na história do país. Nem mesmo um governo de forte extração popular, como é o de Lula, conseguiu escapar dessa armadilha: não pode sacrificar a governabilidade que consegue com a maioria parlamentar; em troca disso, convive e garante a vida de figuras como a de Sarney. O resultado é o pior possível porque essa lógica de afago com aquilo que há de mais atrasado no sistema de poder corrói não propriamente a popularidade do presidente, mas todo o conjunto de promessas e princípios sobre os quais construiu a liderança de sua identidade.

No entanto, imaginar que isso se restringe ao Congresso e aos "políticos" é esquecer a rede de favorecimentos ao poder econômico e a convivência com os traços do modelo concentrador da renda que subsiste na vida brasileira e de todos os benefícios que empresários de todos os setores retiram disso. No Senado, isso assume a forma de desvio de recursos; mas na vida econômica são os subsídios de toda ordem, fraudes nas concorrências públicas, bancos que praticam agiotagem descarada, uma econonomia cartelizada que tem muito pouco de liberal. Também em direção a esses setores o governo é obrigado a dirigir acenos de convivência sem os quais não consegue administrar a vida econômica do país. Na verdade, segundo entendo, é todo o conjunto das elites que se encontra contaminado, sem um claro projeto consistente de construção nacional: nas suas mãos, continuamos a ser um grande feudo, uma grande propriedade particular.

Digo tudo isso porque os episódios que culminaram com as dificuldades enfrentadas por Lula na semana passada - marcadas na 6a. feira pelo esforço em manter Mercadante na liderança do PT no Senado - me fizeram lembrar o isolamento de Vargas em 1954 e o de Jango em 1964. É claro que todas essas conjunturas são diferentes e nem se pode fazer qualquer associação maior entre as três situações, mas é curioso notar que a crise de representação partidária e a sistemática campanha de desmoralização institucional - itens de forte mobilização das classes médias - sempre estiveram presentes quando o objetivo das elites foi o de fragilizar o presidente da República, figura para a qual - nas duas ocasiões anteriores - convergiam todas as garantias de frágil equilíbrio político, como se Vargas e Jango, cada um à sua maneira, representassem os últimos obstáculos a serem removidos, apesar de sua forte popularidade.

Posso estar enganado, mas minha impressão é a de que estamos diante de uma vaga denuncista, pontilhada pela alavancagem midiática de candidaturas de esquerda, cujo objetivo parece ser o do desgoverno no território do parlamento brasileiro, pois que é ali que se constrói a sustentação do sistema político. Não fosse o descolamento que a economia guarda em relação a isso e a conjuntura estaria ainda mais deteriorada. É por isso que gostei do recuo de Mercadante: sua saída da posição de líder do governo no Senado agravaria ainda mais esse conjunto de dificuldades; sua permanência esvazia o discurso conservador (leia aqui a carta de Lula a Mercadante).

domingo, 16 de agosto de 2009

Gripe suína reitera nova representação da escola particular

Se alguém ainda não tinha percebido isso em situações anteriores, o episódio do adiamento do reinício das aulas em razão das ameaças do vírus H1N1 serviu também para não deixar dúvidas sobre a mudança que a representação simbólica da escola privada sofreu no país. A versão antiga do colégio particular era próxima do conjunto de extensões culturais da classe média: o médico, a igreja, a liderança comunitária. Essas instâncias da sociabilidade eram vistas como redutos irrestritos da confiança familiar: acreditava-se nelas de forma categórica e nem se imaginava que sua orientação pudesse ocultar qualquer intenção que não fosse o genérico bem-estar da esfera privada. É claro que essas relações fundadas em fortes laços pessoais ocultavam inúmeras dissimulações de poder e de domínio, mas penso que no cotidiano esse era o caminho através do qual um certo conformismo encontrava soluções para a ordem natural das coisas: a educação, a saúde, a paz do espírito e até mesmo a orientação política tinham nesses polos de influência respostas de credibilidade indiscutível.

A modernização capitalista colocou tudo isso abaixo e a escola é uma das instituições que paga o preço da mudança: a privatização do ensino foi tão aguda, a noção da educação como serviço ficou tão arraigada na vida brasileira que o que antes era uma relação de confiança transformou-se em relação mercantil cujo núcleo ideológico - como de resto em todas as outras dimensões da existência social - é a troca de equivalentes, isto é, tudo deve corresponder ao preço pago. No final das contas, a escola é uma operadora com a qual se tem um contrato, e essa relação contratual é sistematicamente medida não mais pela confiança, mas pela suposição de que se o atendimento ao cliente não for integral e satisfatório, algo deve ser feito pelo ressarcimento de quem se julga enganado, neste caso o aluno ou os seus responsáveis.

Agora mesmo, quando as escolas foram "obrigadas" a suspender o reinício das aulas, nem foi preciso muito tempo para que os atores envolvidos no problema se manifestassem: os pais foram logo questionando o pagamento dos dias parados e querem ou uma coisa ou outra - ou o seu desconto em valores ou a reposição integral das aulas; as escolas põem em dúvida se devem pagar seus professores e acenam para eles com calendários draconianos de reposição das aulas, obviamente para que não tenham que mexer no próprio bolso, mas continuam indignadas com a possibilidade de que a emergência tenha se tornado "férias suplementares" para os mestres; os professores, de seu lado, dispostos a cumprir com o seu ofício, se veem no meio desse tiroteio e, como é natural, defendem seus direitos.

Pode parecer exagero, mas há uma farsa montada em torno disso tudo porque já se sabe que o estrago no semestre letivo está feito e que nada conseguirá restabelecer a sua normalidade. Conteúdos programáticos, projetos de ensino, eficiência didático-pedagógica, tudo isso foi deixado para trás porque os discursos articulados em torno desses princípios são vistos com descrédito (ou com desconfiança, o que é mais grave): o importante é o valor; melhor, o preço, porque valor é outra coisa. O resultado é o que aí está: um problema de saúde, tratado em meio a trapalhadas de todos os lados, acabou tendo um aspecto positivo: revelou - como se outros fatos já não o tivessem demonstrado - que a escola pode ter perdido sua credibilidade como instituição educacional, ainda que encontre soluções que deixem sua clientela satisfeita.

domingo, 9 de agosto de 2009

Pondo as ideias em ordem

Acabo de ler o artigo de Graham Murdock, Comunicação contemporânea e questões de classe, publicado no último número da revista Matrizes, da ECA/USP. Murdock é professor do Instituto para Comunicação de Massa da Universidade norueguesa de Bergen, e está disposto a resgatar o conceito de classe, entendendo que sua ausência nos estudos atuais, "bloqueia uma visão abrangente das condições contemporâneas" dos processos comunicacionais. O texto disponível em Matrizes - aliás, até agora o melhor número da revista - é uma excelente oportunidade para que os pesquisadores da área, quaisquer que sejam suas tendências filosóficas, ponham um pouco de ordem na dispersão teórica que tomou conta das Ciências Sociais nos anos recentes.

Para o autor, que se incumbe de historiar de forma bastante ampla o surgimento e o desenvolvimento da idéia de classe desde os primeiros textos de Marx, esse deslocamento para os lados daquela que pode ser vista como a referência fundamental da sociologia moderna foi o resultado da emergência de novos grupos no interior da sociedade pós-industrial, percebidos nas novas tendências teóricas não mais como segmentos do mundo do trabalho, mas como extratos portadores de uma gama complexa e exclusiva de padrões culturais, estes sim entendidos como o nexo causal de seu comportamento.

Foi o que bastou para que a pesquisa se voltasse "a descobrir as possibilidades para a liberação pessoal e autoexpressão" como um imenso universo de manifestações voluntariosas, desprovidas de sentido político e econômico, ainda que repletas de brilho de natureza coletiva e comportamental. Certamente, foi nos estudos dos processos comunicacionais que essa vaga obteve maior número de adeptos, até porque também foi neles que se manifestou empiricamente, mas eventualmente apenas na superfície dos processos sociais, o mundo informacional, midiático e cultural, que aparentemente transcendia as classes e se universalizava para todo o conjunto da sociedade.

O resultado a que assistimos agora, passados cerca de 40 anos desde o início dessa tendência, é a perda da percepção sobre a essência das contradições do mundo contemporâneo e a fragmentação particularista dos estudos que são feitos sobre os processos sociais, inclusive os da Comunicação.

Murdock apresenta cinco conclusões de sua análise, todas elas funcionando como uma espécie de roteiro para a superação das carências teóricas construídas em torno do abandono do conceito de classe. Elas vão desde a recuperação dos estudos de Bourdieu até a identificação das peculiaridades dos sistemas de sentido inerentes a cada formação social. Não é o caso de explorar aqui cada uma de suas sugestões, mas é sintomático que a proposta de uma revisão sociológica em profundidade dos conceitos com os quais as ciências da comunicação tabalham suja no momento mesmo em que todo o complexo midiático empresarial vai dando mostras de ser incapaz de construir uma cultura transcendente das condições econômicas e políticas do universo de sua audiência. Vale a pena ler o texto de Murdock.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Adiamento das aulas: um erro atrás do outro

Não fosse pelas implicações sanitárias que tem e o episódio do adiamento do reinício das aulas teria tudo para se transformar numa dessas comédias de erros que bem poderia ser aproveitada pelo Saramago. Até agora, não há uma única justificativa consensual para a medida e provavelmente vamos chegar à data limite desse recesso (dia 17?) sem qualquer certeza de que o caos provocado nas escolas tenha valido a pena.

O que me parece estar por trás dessa trapalhada é o corre-corre político que anuncia a disputa eleitoral de 2010, porque evidentemente ninguém quer a batata quente da gripe suína nas mãos, muito menos os estados governados pelo PSDB. Medidas de urgência, bem ao sabor da maneira como a mídia as trata, fazem bem para o eleitorado e, pelo menos em São Paulo, todas foram tomadas na contra-mão das mensagens "tranquilizadoras" emitidas pelo Ministério da Saúde. O resultado é o que se vê: ao lado do bate-boca travado na imprensa entre as autoridades do setor, a população desorientada e a desordem instalada no funcionamento do semestre letivo.

Infelizmente, em situações desse tipo, quem paga o pato são os professores e as professoras que estão diante de uma equação difícil de resolver: tiveram, à sua revelia, duas semanas de recesso, caso não tenham sido convocados para cumprir seus horários normais de aula mesmo sem os alunos. Mas, em qualquer dos dois casos, começam a perceber que o preço cobrado por isso vai sair caro: a extensão das aulas por um período indefinido, em alguns casos com o sacrifício, desde já, de sábados inteiros de reposição. Como muitos docentes (em São Paulo o percentual é de 40% nas escolas particulares) lecionam em mais de um lugar, qualquer calendário é impraticável.

Até onde consigo perceber, a única solução é a redução da carga letiva do semestre - para que a precipitação que provocou tudo isso não acabe desembocando numa desordem didático-pedagógica e operacional generalizada.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Jornalismo versus Comunicação


Recebo, em lista, email do Prof. Edson Spenthof, presidente do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo. O conteúdo da mensagem pretende "tranquilizar" os destinatários para a possibilidade de que, com as novas diretrizes curriculares, as habilitações em jornalismo ganhem autonomia e se desvinculem organicamente dos cursos de Comunicação, tal como já aconteceu com Cinema. Muito saudável a iniciativa do Prof. Edson, mas os argumentos que ele usa me deixaram ainda mais intranquilo, especialmente os exemplos tomados da área das ciências biomédicas. Quer dizer, então, que dentistas não estudam Anatomia como os médicos porque os cursos de odontologia se desvecilharam dos cursos de medicina?

Mais grave ainda é a afirmação de que a criação dos cursos de Comunicação obedeceu a um projeto de dominação imperialista e conservador que envolveu a Unesco e o Ciespal, "no contexto da Guerra Fria e anos de chumbo no Brasil". A história é conhecida e resulta de um ensaio do Prof. Eduardo Meditsch, da Universidade Federal de Santa Catarina, para o qual, no entanto, faltam evidências e elementos empíricos que comprovem a hipótese. Como argumento de natureza acadêmica, posto da forma como o presidente do FNPJ o faz, desrespeita e ofende quem o lê.

Jornalismo é Comunicação e não há malabarismo teórico, filosófico ou epistemológico que consiga contornar isso.

No entanto, e particularmente, não tenho nada contra a autonomia do Jornalismo em relação à Comunicação, preservada a vinculação ontológica entre os processos que se intercambiam entre os dois. Mas acho que a formação específica teria muito a ganhar com a desvinculação. Contudo, as razões que justificam uma mudança dessa ordem exigem mais profundidade, muito mais do que o arrazoado do Prof. Edson. Pode ser uma impressão - e torço para que seja -, mas esse "resgate" do Jornalismo anda meio contaminado por um ressentimento anti-acadêmico que pode ter efeitos empobrecedores para a filosofia norteadora das diretrizes curriculares.

Precipitação dos cursos deixa medíocre o ensino de jornalismo


O fim da exigência do diploma decidido pelo STF e a ameaça de que tenham sua existência posta em dúvida pela qualidade do ensino que oferecem está levando alguns cursos de jornalismo a reformas curriculares precipitadas que podem agravar ainda mais a sua mediocridade. Evidentemente, há as exceções de sempre representadas pelas faculdades que têm projeto pedagógico definido e consistente e que procuram oferecer aos alunos formação universitária sólida. Mas, a julgar pela matéria publicada na Folha desta semana, uma boa parte dos cursos está promovendo mudanças meramente cosméticas, num afobamento que pode trazer como resultado um distanciamento ainda maior entre os desafios do jornalismo e a qualificação dos alunos para enfrentá-los.

Penso que esse corre-corre curricular é provocado por uma identificação equivocada do cerne da questão: não se trata de preparar o estudante de jornalismo para o mercado, obrigando-o a um praticismo para o qual as empresas estão muito melhor preparadas. Trata-se de dotá-lo de instrumentos que lhe permitam refletir sobre os impasses de natureza experimental e teórico-conceitual da profissão. Nesse sentido, a história, contada não sem um certo ar de satisfação pelo coordenador de um desses cursos, segundo a qual os alunos do 1o. ano vão trabalhar com blogs e com o twitter, dá bem uma idéia do caráter acanhado da concepção que alimenta parte das reformulações no ensino de jornalismo que ainda estão por vir. Melhor será aguardar a definição das novas diretrizes curriculares, na hipótese de que a comissão encarregada de elaborar a proposta que será enviada ao MEC não tenha caido na mesma tentação.

Em tempo: boa a iniciativa da Cásper Líbero em oferecer "a estudantes de graduação ou portadores de diploma de nível superior (de qualquer área do conhecimento)" o curso A arte de fazer jornalismo. A proposta, muito bem estruturada e sob responsabilidade de profissionais qualificados que atuam na imprensa e na universidade, é (até onde sei) a primeira investida de uma instituição na nova realidade criada com o fim da exigência do diploma. As reações de ira e de reprovação manifestadas nas listas de discussão da área não contribuem em nada para adensar o debate em torno das novas perspectivas do ensino de jornalismo.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Diversidade e riqueza no twitter

Neste momento, tenho exatos 346 seguidores no twitter, a maioria formada por alunos e alunas da Metodista e da Puc. No início, confesso que tinha muitas restrições a uma certa precariedade discursiva que observava nas postagens de todos e não fosse pelas ponderações de uma amiga jornalista que insistia nas potecialidades desse tipo de rede, acho que teria deixado a coisa pra lá.

Minha percepção sobre isso mudou bastante. Primeiro, em razão das notícias dando conta das guerrilhas de comunicação que o twitter tem permitido. No Brasil e no exterior, já são diversos os casos de amplificação de informações mobilizadoras que encontram na plataforma das micropostagens um instrumento tão dinâmico quanto democrático. Os exemplos são muitos, mas me parece que o episódio recente do acompanhamento da votação do STF sobre o fim da exigência de diploma para jornalistas é sintomático: nem bem os juízes acabavam de proferir seus votos e a notícia já estava na rede. No final da sessão, quando saiu a sentença, já havia do lado de fora do Supremo, por todo o país, um intenso movimento em torno do assunto. Não discuto o acerto desta ou daquela posição, mas o fato concreto da disseminação da notícia e da opinião; isso, sim, é muito positivo.

O segundo motivo que me deixa olhar o twitter com outra perspectiva está mesmo no conteúdo das postagens do cotidiano, essas que levam a sério o propósito do twitter e de outras redes ("o que vc está fazendo agora"). Descemos aí a uma hiperindividualidade reveladora de quase tudo: tem gente que reclama do frio, da solidão, da fome, do trabalho, fala de sexo, diz palavrão, dá conselhos - um mural meio radiográfico de ansiedades, de expectativas que abragem uma disposição de escancaramento que só mesmo os "meus diários" das meninas do passado é que permitiam - se é que permitiam. Pois é aí que eu quero chegar.

Meus 346 seguidores fazem tudo isso - e haja paciência para ler tanta "angústia existencial" - mas registram um outro conjunto de experiências - vou chamar de culturais - que os envolvem: bandas que ouvem, filmes que assistem, livros que leem, notícias sobre fatos variados da vida brasileira que comentam; um universo de percepções de uma variedade tão grande quanto a sua complexidade. E não é que o @qualquercoisa, que eu apenas li lamentando sobre uma ficada que não deu em nada, mostra ser possuidor de um refinado gosto musical? E a @fulana, depois de mal-dizer um fim de semana trancada em casa, me sai com um comentário preciso e denso sobre um filme?

Sei perfeitamente que isso tudo pode ser passageiro e que há em meio aos frequentadores do twitter os malandros de sempre: empresas, messiânicos, oportunistas do esporte e da política. Mas seria muita ingenuidade imaginar que a rede é seletiva e que pode ser condenada por conta desse tipo de frequência - ela é absolutamente incontrolável. O que eu quero dizer é que esse instantâneo caótico, desordenado e anárquico das micropostagens no twitter tem me ensinado muito sobre o universo das pulsões intelectuais dos meus seguidores e tenho sido surpreendido não só com a sua diversidade, mas também com a sua riqueza.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Flip 2009: jornalismo cultural em débito

A cobertura da Flip já foi objeto das pesquisas que desenvolvo na Metodista sobre o jornalismo cultural. Nas edições anteriores do evento identifiquei um conjunto de matérias que procuravam esclarecer o universo da literatura contemporânea a partir da análise das obras cujos autores estavam em Paraty.

Minha conclusão até 2008: os jornalistas que acompanharam a feira em outros anos ofereceram aos leitores de seus veículos um bom roteiro de natureza estético-conceitual que enriquecia a compreensão do público sobre o foco principal daquilo que rolava na cidade A leitura que fiz então permitia a conclusão de que estava diante de um consistente exemplo da dimensão mais profunda do gênero, ainda que fosse preciso relevar uma certa e inevitável propensão ao tratamento mítico (e espetacularizado) dos personagens centrais do acontecimento.

Em 2009, no entanto, minha percepção sobre a Flip sofreu algumas mudanças. A primeira delas vem ancorada numa constatação que me parece bastante evidente: a feira acabou se tornando um território mais das editoras do que da Literatura. Penso que fica confirmada a tese de Alberto Dines já postada neste blog: a pressão empresarial que se faz em torno dos lançamentos literários cria embaraços para a cobertura jornalística.

A segunda mudança diz respeito à maneira como o mundo das celebridades literárias foi comemorado pela imprensa. Explico: ninguém tem nada contra a exposição das excentricidades dos escritores, mas a falta de comedimento com que isso é tratado nas coberturas especializadas inverte o núcleo noticioso que a Flip tem para o jornalismo cultural.

No final das contas, tenho dúvidas sobre o significado que adquiriu para o público a profusão de matérias que transformaram a vida privada de expoentes da literatura contemporânea em objeto de um culto massivo que acabou por ofuscar o sentido de sua obra.

sábado, 27 de junho de 2009

Produção científica

Três textos disponíveis na coluna ao lado (em Produção científica: qualidade versus quantidade) dão conta dos dilemas que os pesquisadores brasileiros, em especial aqueles vinculados à Universidade, estão enfrentando. O tom geral é dado por Olgária Mattos, que identifica uma mudança na vida acadêmica capaz de condicionar o próprio conceito da reflexão científica e cultural. Apanhados em cheio pela idéia de um produtivismo a todo custo, os docentes e os alunos estão fazendo fazendo tábula raza da dimensão - eu diria narrativa - do conhecimento científico. Estamos em meio a uma vaga empirista que tem nos intermináveis e inconsistentes estudos de caso, sem precisão conceitual ou metodológica, a razão de ser da própria instituição universitária. Pouco importa se o estado da arte nos vários campos do conhecimento avança. O importante é emplacar em algum periódico e garantir os níveis quantitativos dos relatórios da Capes.

Mas as consequências específicas dessa conjuntura aparecem nos outros textos - um, da revista Pesquisa; outro, do suplemento EU& Fim de Semana do jornal Valor Econômico. Depois de passar pelo ar meio entristecido de Olgária, vale a pena ler os dois. Como agora não é mais o âmbito da circulação dos periódicos o que os classifica no Sistema Qualis, mas o índice de citação dos trabalhos publicados em outras produções, a comunidade científica vive um ambiente de intensa selvageria com consequências predatórias para o esforço editorial de inúmeros programas de pós-graduação: simplesmente ninguém quer publicar senão nas revistas melhor situadas nos novos estratos.

As consequências podem representar a marginalização de qualquer artigo que não atenda os requisitos do prestígio, mais do que os requisitos da consistência científica. O resultado é o que já se vê, pelo menos no campo das Ciências Sociais Aplicadas: artifícios estatísticos (como mostra o suplemento do Valor) e um distanciamento cada vez maior entre os principais fenômenos da área da Comunicação e a reflexão acadêmica que se faz sobre eles; muito malabarismo, poucos resultados. Em outras palavras: a produção cresce, mas pode estar crescendo sobre um extraordinário vazio conceitual e cognitivo que deixa longe o entendimento sobre a natureza mesma dos fenômenos que estuda.