domingo, 11 de abril de 2021

Quem oprime o Brasil?

 Garimpo da fome procura comida no lixo e sobrevive de doações

Reportagem da Folha publicada neste domingo exibe a degradação a que estão submetidos mais da metade dos brasileiros. O quadro - digno de uma alegoria sobre o inferno - é o resultado de um fenômeno chamado 'concentração da renda', um processo no qual o empresariado brasileiro e seus prepostos civis e militares vêm se especializando com selvagem intensidade depois do golpe que levou Temer e Bolsonaro ao poder

Artur Rodrigues e Lalo de Almeida
Folha

Cercada de moscas, Marli Oliveira Gama, 54, revira uma caçamba de lixo, no Jardim São Norberto, região de Parelheiros (extremo sul de SP).


Ela dá alguns restos de comida para seu cão, enquanto tenta encontrar qualquer coisa que possa aproveitar. De útil, só encontrou duas latinhas de cerveja na última quinta (8) —para ganhar R$ 3 com venda de alumínio, precisaria de mais cerca de 60.

Também não encontrou nada para comer ali. Conforme a pandemia foi se estendendo, a situação piorou em casa e ela passou a aproveitar alimentos que encontra no lixo.


Na periferia de São Paulo, sem renda e com o recrudescimento da pandemia, muitas famílias passaram a garimpar comida por aí, seja indo atrás de doações de entidades e vizinhos e até procurando no lixo.


“Eu já peguei pão para os meus filhos comerem, não tinha nada nem para o café nesse dia, tem uns tempinhos aí para trás. Às vezes, jogam algo que a gente vê que dá [para comer]”, diz. “Eu tenho uma menina em casa que tá com meus três netos. Essa semana mesmo achei umas bolachas aí, nós comemos, a vida está difícil” (continue a leitura)


Leia ainda: * País precisa de uma nova Carta ao Povo Brasileiro para enfrentar a desigualdade (Edmundo Machado de Oliveira, FSP)

Quem oprime o Brasil?

Empresários condenam país a colapso social e humanitário

"Venha a nós o reino do vosso trabalho e da sua existência: fodam-se os brasileiros!"
A cena repetida à exaustão pela mídia não será esquecida tão cedo: sorrateiros, como ladrões, um grupo de empresários mineiros, na madrugada de um dia qualquer, reuniu-se na garagem de uma empresa de transportes em Belo Horizonte para apressar o privilégio da vacina fora da fila social e conseguir a imunização antes da sua vez. O que inicialmente foi visto como uma operação de contrabando de vacinas da Pfizer, foi afinal revelado como uma gatunagem para pegar otários e trouxas já que o conteúdo das seringas era soro fisiológico. A ironia, contudo, não deixa de expressar todo o simbolismo do acontecimento: o grupo de BH é uma síntese da imoralidade com que nossas elites empresariais - sempre acompanhadas da tecnocracia civil e militar que lhes dá sustentação - mostram que não valem o ar que respiram. No fundo, essa concepção egocêntrica e anti-social de suas práticas é a causa mais profunda do nosso atraso e tem que ser varrida do cenário político do país.


sábado, 10 de abril de 2021

Alfredo Bosi (1936-2021)

O puro orvalho da alma

Como professor, Bosi exalava uma aura de paciência e capacidade de observação crítica ao mesmo tempo aguda e abrangente. A argúcia fazia parte de seu estilo, mas também a generosidade humanista

Flávio Aguiar
Carta Maior

O título deste artigo rememora palavras de Alfredo Bosi, dirigidas à sua esposa Ecléa, nos agradecimentos a ela pela ajuda que prestou durante a elaboração de um dos livros mais impactantes – dentre muitos – do professor: “Dialética da Colonização“, publicado em 1992. Como ele as colocou entre aspas, imagino que seja alguma citação, que pode ter tanto um significado litúrgico de menção ao refrigério trazido pelo Espírito Santo a quem ele abençoe, quanto ao de um amálgama de referências a diferentes poetas brasileiros, de Gonçalves Dias a Vinícius de Moraes. Elas poderiam também se aplicar a ele mesmo.
É impossível condensar referências ao vasto espírito de Alfredo Bosi em algumas poucas linhas. Estudioso denso da literatura e da cultura italianas, de Dante e Leonardo da Vinci a Antonio Gramsci e outros, Bosi o foi também em relação à nossa literatura brasileira e nossa cultura. Além disto, foi militante incansável das causas democráticas e de princípios identificados com um socialismo cristão, ou de um cristianismo socialista, como se queira (continue a leitura).

Leia também: * Alfredo Bosi (Marilene Felinto, Ilustríssima)