domingo, 24 de junho de 2018

O império em decomposição

O destino incerto dos pequenos imigrantes: sedados e espalhados por todos os EUA (IHU
Violência do facínora Donald Trump contra os imigrantes não revela força; revela estado de fragilidade diante da ameaça que a pobreza representa, no mundo inteiro, para a estabilidade das instituições que provocam a maior fratura social que o capitalismo pode construir. Na Itália, na Turquia, na Hungria, na Alemanha, as práticas segregadas, em maior ou menor grau, jogam o planeta numa crise humanitária muito maior do que aquela decorrente da II Guerra. Esta geração vai ter tempo de assistir à derrocada dos impérios fundados na opressão do Homem.

Leia aqui o texto da matéria de Anna Lombardi originalmente publicada no La Reppublica e divulgada no Brasil pelo site IHU, versão que o blog copia integralmente nesta postagem.
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sábado, 23 de junho de 2018

O Brasil em apuros...


Postura de Neymar no jogo contra a Costa Rica revela um país transido: o jogador do PSG é a imagem do Brasil neoliberal, sem ética, que tem como paradigma a vitória a qualquer preço, arrogante e cafajeste. 

Fico pensando se seria possível imaginar uma alternativa para essa miséria em que nos transformamos... acho que não. Nosso Brasil - quem diria - acabou nas mãos de escroques de todo o tipo que se encontram instalados em áreas estratégicas da política, da economia, da cultura, da educação, da mídia - e em todos eles é possível perceber o domínio de uma ideologia que enaltece esse individualismo selvagem e estúpido do qual Neymar é um dos melhores exemplos. 

A vitória de um super-homem empreendedor, avesso a regramentos legais e disposto a fazer o que for possível para "chegar lá" tornou-se paradigma, ou não teríamos - imaginem! - na Presidência da República um embusteiro como Temer, um político em ascensão como Doria, um líder empresarial como Skaf, um advogado de província suspeito mas munido da autoridade como Moro. Gente que não vale nada, nem o ar que respira. 

O Brasil não está em apuros nos campos de futebol da Rússia; sua situação é difícil no campeonato do futuro. Por enquanto, já conquistamos um lugar garantido entre os observadores e especialistas: somos motivo de chacota no mundo todo não porque Neymar finge uma falta para cavar um pênalti e é desmoralizado pelo juiz real e pelo eletrônico, ou porque ofendeu, mais uma vez, um adversário, ou porque não há sinal dignidade no choro hipócrita com que saiu de campo. Estamos vivendo essa situação humilhante e difícil de ser superada porque violamos nossa Constituição, aceitamos um golpe contra uma presidenta eleita, mantemos na cadeia nosso mais importante líder popular, vendemos nossas riquezas ao imperialismo... Se der a lógica nesse torneio inevitável que é o do tempo, vamos sair da competição da História numa classificação pior do que merecemos na Rússia.

* Imprensa britânica critica Neymar: Mimado, resmungão, dramático e trapaceiro (Estadão) * Neymar desafia do discurso ético de Tite (El País) *  Neymar é flagrado pelo VAR (Folha) * O choro de Neymar. E a saúde mental no esporte de alto nível (Nexo). * O título é outro, mas o sentido é este: O verdeamarelismo que nos envergonhou (da Folha) * Neymar é psicótico e mau caráter (Conversafiada) * Lugano acusa Neymar de simular e desrespeitar os marcadores (Uol). Assista ainda ao programa Ponta Esquerda que discutiu a partida Brasil x Costa Rica.
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sexta-feira, 22 de junho de 2018

Democracia de fachada (Jacques Rancière, no Valor Econômico)

Rancière: a democracia é, hoje, uma ilusão
Para o filósofo Jacques Rancière, o que hoje se entende por democracia é, na verdade, uma ilusão, pois "os cidadãos não têm poder efetivo sobre decisões que lhe dizem respeito". 

Entrevistado pela repórter Daniela Fernandes, do Valor Econômico, o professor de Política e Estética da Universidade Paris VIII, ajuda a entender esse paradoxo bem conhecido dos brasileiros mas nos últimos dias evidenciado de forma dramática por Donald Trump: a governação à revelia do povo... na plena vigência das instituições da democracia liberal. Como isso é possível? Parte da resposta vem da ponderação de Rancière: 

Fazemos como se a democracia fosse um regime em que todos estivessem de acordo para discutir juntos e chamou isso de "consenso". Mas "consenso" quer dizer outra coisa: que é preciso estar de acordo sobre o fato de que não há nada para discutir porque a realidade impõe as decisões a serem tomadas. É o que os nossos governos fazem.

Leia aqui a entrevista de Jacques Rancière em cópia pdf transcrita do caderno Eu&Fim de Semana, Valor Econômico, edição de 22/06/18.
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quinta-feira, 21 de junho de 2018

Indignação internacional contra Trump. No Brasil, presidente dos EUA é elogiado por deputado evangélico

Com exceção de um triste pronunciamento do Deputado Marcos Feliciano em favor das políticas anti-imigratórias de Trump (assista aqui se tiver estômago) e das justificativas da própria Casa Branca, no mundo todo o episódio das crianças apartadas de seus pais e mantidas em celas de prisioneiros comuns provocou indignação e revolta. O presidente dos Estados Unidos, um sujeito inculto e bestial, cultiva sua popularidade à maneira dos nazistas, pelo medo e pela truculência de seu discurso.

Sugiro a leitura destas três matérias especiais do IHU: * Migrações - 30 milhões de crianças deslocadas no mundo. O número mais alto desde a II Guerra * Crianças enjauladas - onda de indignação também nos EUA * O choro desesperado das crianças separadas de seus pais. E do próprio blog: * Donald Trump, um nazista.
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Zé Marques, incansável, construiu a carreira acadêmica de
centenas de estudiosos da Comunicação e do Jornalismo e nos colocou

ao lado da produção científica internacional dessas áreas

José Marques de Melo (1943-2018)

(Jornal da USP) Morreu na tarde desta quarta-feira, dia 20 de junho, aos 75 anos, José Marques de Melo, um dos principais pesquisadores na área de comunicação no Brasil. Melo é Professor Emérito da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, da qual foi diretor, além de integrar o corpo docente fundador da unidade.

Nascido em Palmeira dos Índios, em Alagoas, no dia 15 de junho de 1943, obteve os títulos de bacharel em Jornalismo (Universidade Católica de Pernambuco, 1964), bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais (Universidade Federal de Pernambuco, 1965) e pós-graduação em Ciências da Informação Coletiva (Centro Internacional de Estudos Superiores de Comunicação para a América Latina, Equador, 1966) no período anterior à sua ida a São Paulo.

Iniciou a carreira acadêmica em 1966 como assistente do professor Luiz Beltrão, no Instituto de Ciências da Informação da Universidade Católica de Pernambuco (Recife), transferindo-se logo em seguida para a capital paulista. Nessa ocasião, foi convidado por Octávio da Costa Eduardo para trabalhar como diretor de pesquisas do Instituto de Estudos Sociais e Econômicos (Inese), onde começou a ganhar reputação como pesquisador comunicacional (
continue a leitura).

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Erradicar a desigualdade, ampliar a democracia: as únicas saídas para o Brasil

Camarilha de empresários que se esconde atrás da manipulação política e da concentração da renda é que vai pagar os custos da terra de ninguém em que o país se transformou
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Na Rússia, a matéria prima de um país que está fracassando

Como todo mundo, também eu fiquei constrangido com as cenas dos brasileiros que humilharam jovens russas nesses dias de Copa do Mundo. Acho que é redundante, a esta altura, a crítica ao conteúdo machista ou sexista do assédio a que as meninas foram submetidas: só a mais absoluta insensbilidade pode ver naquilo motivo de riso ou de algum prazer - me parece, neste caso, que é essa a lógica - a primeira lógica do que aconteceu - das cenas viralizadas nas redes, ou seja, a submissão do outro pela ignorância que o outro tem do discurso de quem o submete, como um castigo que é imposto a quem ignora sua causa. Penso que quando Bourdieu falou em "dominação simbólica" deve ter pensado em algo parecido.

Mas é a segunda lógica do assédio a que me chama a atenção: a anulação da alteridade, pois que as pessoas vitimadas pelo assédio tiveram que ter a sua existência absolutamente apagada para que fossem submetidas ao constrangimento que sofreram. A indiferença dos torcedores a essa situação é ali absoluta: não há ninguém à frente deles que mereça sequer uma ponderação em torno de sua humanidade, seja mulher, seja homem.

Um dia depois desse episódio fico sabendo que um desses "torcedores" foi meu aluno no curso de Jornalismo que concluiu em 2006. Jornalismo... uma área profissional que por sua natureza é atravessada sistematicamente por questões de natureza ética e cultural e que, pelo menos enquanto estive na instituição que ele frequentou, constituia a espinha dorsal do projeto pedagógico com o qual trabalhávamos. Minha indagação advém deste fato: como é possível que esse capital que constituiu a formação desse moço tenha sido de tal forma ignorado nessa revelação que ele faz na Rússia?

Temo que a profunda crise em que o Brasil vive está queimando as referências do cotidiano de uma parte dessa geração que agora vai mergulhando na maturidade, transformando-a em refém de uma cultura do embrutecimento e do deboche, de um egocentrismo que revela uma enorme dificuldade em entender as regras da sociabilidade humanista, racional e inteligente. Se isso for verdade, esses episódios grotescos que nos expuseram ao mundo podem ser o registro de um país que está fracassando.

Leia aqui o texto em que os colegas de um dos envolvidos no episódio manifestam sua indignação com o que ocorreu: Carta de repúdio ao jornalista Leonardo da Silva Júnior
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