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| Eppur si muove, teria dito Galileu Galilei em resposta às bobagens obscurantistas e inquisitoriais proclamadas pelo bispo emérito de Guarulhos, D. Luiz Gonzaga Bergonzini, a respeito da liberdade de pensamento e de opinião dos professores da PUC-SP (aqui). ______________________________ |
História, Cultura, Comunicação
terça-feira, 13 de março de 2012
Galileu e o bispo de Guarulhos
sexta-feira, 9 de março de 2012
Modernização inconsistente
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| Gráfico da Folha mostra a fragilidade do crescimento econômico brasileiro |
Tenho dito aos meus alunos que o longo processo de modernização da economia brasileira é repleto de defeitos estruturais, como parece que ocorre com todas as sociedades que se industrializaram na periferia do sistema capitalista. Também aqui - e talvez como uma forte peculiaridade nossa - o crescimento do setor manufatureiro se deu com a manutenção intocada do setor agrário-exportador, da dependência de tecnologia e de capital e também com a manutenção dos desníveis de renda que estrangularam o mercado consumidor interno. Nessa análise, sempre incluí a inexistência de uma burguesia suficientemente disposta a assumir o projeto da industrialização a partir de uma postura moderna e ousada, preferindo ficar na franja do poder político e na expectativa dos investimentos e apoio financeiro do Estado.
Pois eu não imaginava que esse quadro ainda mantivesse suas principais características de forma tão integral e aguda como demonstra a matéria que a Folha de S. Paulo publica em sua edição de hoje (leia aqui). Pelos números expostos no gráfico acima, desde o início dos anos 90, a participação da indústria no Produto Interno Bruto (PIB) do país, mostra um comportamento sinuoso mas, em perspectiva, persistentemente em declínio, de tal forma que a comparação feita pelo jornal assusta: voltamos aos patamares dos anos 50. Não sei se esses dados comparativos estão atualizados de acordo com variáveis populacionais e monetárias, mas se estiverem - o que melhora o padrão de análise - a conclusão é gravíssima de qualquer forma: estamos no mesmo estágio da década posterior ao fim da II Guerra, um dos momentos mais favoráveis para o Brasil e que permitiu a arrancada do período desenvolvimentista de Juscelino.
A começar daí, a conjuntura do presente é exatamente o oposto: a liquidez de capital que tem beneficiado o Brasil com o ingresso de recursos é causada por uma verdadeira fuga da crise que se verifica nos Estados Unidos e na Europa, fato que mostra tratar-se não de um impulso inovador no setor industrial e produtivo, mas especulativo e de curto prazo. Portanto, uma das razões que explicam o boom econômico-financeiro vivido pelo país em consequência da atração que a nossa estabilidade exerce sobre os investidores é certamente o resultado de uma bolha especulativa que pode nos deixar na mão a qualquer momento. Significa dizer que nem mesmo os fatores positivos que dão sustentação aos bons resultados que a economia brasileira tem apresentado são confiáveis (o outro fator, o elevado preço das commodities brasileiras no mercado externo, é tão frágil quanto o primeiro).
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quarta-feira, 7 de março de 2012
Unip reflete sistema universitário sem projeto
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| Ministério da Educação precisa retirar sua chancela das bad apples do sistema universitário nacional |
Como causa dessas "consequências nefastas" (vai aqui um pouco da retórica que me parece que o caso exige) venho usando o conceito de "efeito Anhanguera" - uma cultura da esperteza e do gigantismo econômico-financeiro que se espalha pelo conjunto do sistema e que tem nessa holding uma paradigma que normatiza, para pior, as práticas de todas as escolas privadas. A rigor, penso que esse desdobramento no âmbito da ação dos empresários, com apego às mais legítimas tradições da selvageria com a qual sempre pautaram seu comportamento, tem como resultado a desorganização da presença reguladora do Estado. No final das contas, como pude afirmar em outro comentário, ministros após ministros, governos depois de governos, o que se verifica é sempre a sujeição do poder público à política do fato consumado das empresas. Em suma: duvido muito que o escândalo da burla do Enade seja uma prática exclusiva da Unip e nem que era ignorada pelo MEC.
A outra face do problema entendo que está ligada à filosofia pedagógica que orienta todo o conjunto das avaliações promovidas pelo governo: o critério do desempenho quantitativo do estudante como referência de qualidade. Enem e Enade são também contaminados pela orientação que favorece a constituição fraudulenta e manipulada dos universos de alunos que as escolas relacionam para as provas. A regra do jogo, portanto, o gaming como isso é denominado no editorial do Estadão de hoje (leia aqui), tem espaço que minimiza a prática anti-ética das escolas, o que as estimula a prosseguir na mesma política da vantagem a qualquer custo.
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Leia aqui a matéria do Estadão de 03 de março e acompanhe os desdobramentos da denúncia sobre as irregularidades praticadas pela Unip na avaliação do ENADE.
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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
Efeito Anhanguera mostra crise da Universidade no Brasil
| Por trás da pirotecnia financeira das universidades privadas, anemia e mediocridade acadêmica |
Pois o artigo publicado por Carlos Henrique de Brito Cruz nesta semana na Folha (leia aqui), joga um pouco mais de luz sobre o problema. Segundo o ex-reitor da Unicamp e ex-presidente da Fapesp, a julgar pelos números registrados nos últimos anos, tudo indica que o sistema universitário nacional aproxima-se da estagnação tal é a redução do número de diplomados que apresenta: em 2010 formaram-se 24 mil estudantes a menos que em 2004; e embora o declínio seja menos acentuado nas instituições privadas, também elas registram uma redução nos seus índices de expansão: 4,5% ao ano desde 2005 contra 13% ao ano entre 1995 e 2005.
Para Brito Cruz, os efeitos dessa redução têm consequências que se espalham por todos os lados - já que representam não só o esgotamento da demanda de novos alunos (cujos motivos para desistirem do diploma universitário vão desde o desinteresse pelos cursos oferecidos até as dificudades econômicas, penso eu) mas também a insuficiência do ensino médio, a redução dos estudantes de pós-graduação e a escassez de quadros que sustentem os desafios do desenvolvimento nacional - no âmbito da economia e da técnica.
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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
Por um triz...
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| Apolo e Dafne, de Bernini |
Foi em meados dos anos 70 que a FAU da USP exibiu, pela 1a vez em São Paulo, a série Civilização, produzida pela BBC e dirigida pelo historiador britânico Kenneth Clark. O trabalho constituia-se num conjunto de 13 documentários sobre a História da Arte que, algum tempo depois, foi exibido pela TV Cultura e editado pela Martins Fontes. As sessões que se realizavam semanalmente na FAU reuniam uma variedade muito grande de interessados em questões culturais, em especial nós, estudantes comunistas do PCB, querendo compreender a dinâmica das ideias numa sociedade de classes, e a interpretação da arte feita por Clark era, nesse sentido, um prato cheio.
Logo no primeiro filme, que dá título a este post, o historiador apresentava sua tese: o fato que salvou a cultura ocidental da barbárie dos povos germânicos, ao final do Império Romano, foi o cristianismo católico, cujas manifestações de espiritualidade institucionalizada na Igreja - e, depois, herdadas pelo protestantismo - favoreceram o desenvolvimento da arte tal como a conhecemos depois da Idade Média. Em apoio às suas afirmações, Clark exibia a delicadeza e a afetação das formas do Renascimento e do Barroco, na pintura e na escultura; sua suavidade e leveza, além do forte apelo à introspecção da música de Bach. Por um triz, não fossem essas forças culturais e toda a arte teria sucumbido ao embrutecimento estético dos povos que ocuparam a Europa ocidental.
Essa interpretação culturalista da História, evidentemente precisa ser vista com cautela porque são muito complexas as forças que atuam nas várias formações sociais e, em especial, na sua produção estética, mas pessoalmente - depois de ter assistido à série em outras oportunidades e de ter participado das discussões que ela provocava - nunca mais deixei de levar em conta as razões de Clark em todos os cursos de História ministrei. Penso que há uma forte razoabilidade na relação que pode ser estabelecida entre o refinamento das formas de Bernini e de outros artistas, um certo exagero que buscava "completar o que a natureza deixara incompleto" (Wolgang Iser), e o apelo à harmonia entre um estado de existência anímico e o mundo, neste caso pelo caminho de uma escultura.
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