quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Escócia

Uma Escócia britânica e europeia...
Não vejo com nenhuma simpatia movimentos separatistas que se inspiram em nacionalismos étnicos e/ou culturais. Invariavelmente, são conservadores e autoritários; em alguns casos, fratricidas... Quem é que não se lembra das tragédias que a autonomia da Sérvia provocou na Europa?

Mas eu não conseguiria tratar esse assunto da forma simples e contundente como Veríssimo o faz na sua coluna de hoje. Reproduzo o texto aqui e me dou por satisfeito.
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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Brizola tinha razão...

Para os que acompanharam sua trajetória política e a coerência de suas ideias, Brizola foi o melhor presidente que o Brasil infelizmente não teve. Um talento torpedeado pelas elites conservadoras que não suportavam sua ousadia em enfrentá-las
A eleição de 1989 - a primeira para a escolha direta do presidente da República depois de 1960 - terminou com o pior resultado possível, mas como campanha foi memorável. O embate dos candidatos, ao contrário do que acontece agora com esse jogo de esconde-esconde das propostas em discussão, foi uma briga aberta (e desabrida, como diria tia Cleps) que fez emergir na esfera pública o debate qualificado em torno dos pesados problemas que o país enfrentava ao sair da ditadura militar. O único candidato que não tinha qualquer preparo para discutir esses temas foi ironicamente o escolhido pelo voto popular...

Mas durante a campanha, o momento que oferecia mais energia e envergadura política à disputa era a disposição meio romântica de Leonel Brizola (1922-2004) em apontar aquela que seria, para ele (e para mim também ainda hoje) a causa fundamental do atraso econômico do país: as "perdas internacionais", como ele definia a pior consequência da condição subalterna que o Brasil vivia em sua inserção subordinada ao capital estrangeiro e às relações desiguais de troca no mercado global. O resultado dessas perdas - uma visão fundamentada na Teoria da Dependência de Celso Furtado e abraçada pela Social-Democracia, cujo melhor representante em nosso país não era o PSB nem o PT, nem depois o PSDB, mas o trabalhismo do PDT - quando o PDT  (ex-PTB getulista) tinha um programa digno de sua herança - era a manutenção da nossa fraca capitalização que a mediocridade financeira, política e de projeto da burguesia brasileira aprofundava (um quadro atualizado dessas perdas internacionais pode ser observado na notícia, aplaudida pelo agronegócio, de que aumentou a dependência brasileira da exportação de matérias-primas).

Brizola não foi eleito, como se sabe. Contra ele não conspiraram só o arrepio e o ódio das elites, mas segmentos amplos da própria esquerda, a mídia, a desarticulação partidária e o sentido conciliador da transição democrática que acabou... levando Collor ao poder. As denúncias de Brizola, no entanto, têm ainda hoje uma atualidade impressionante: basta olhar para a orgia de recursos que as empresas estrangeiras enviam para suas nações de origem periodicamente num processo sistemático de transferência da riqueza gerada pela sociedade brasileira para os centros do capital financeiro e industrial. Numa postagem feita por mim recentemente aqui mesmo, demonstrei, através de um gráfico do IBGE, que entre 2007 e 2013, para um total de investimentos da ordem de US$ 3,9 bilhões de dólares, as montadoras remeteram para suas matrizes, no mesmo período, US$ 26,4 bilhões.  A diferença entre os dois números é a perda internacional a que Brizola de referia na campanha de 89 e à qual continuou se referindo em todas as oportunidades que teve (continue a leitura).
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terça-feira, 16 de setembro de 2014

Afinidades eletivas

Quem são esses caras?
Matéria curiosa essa que o Globo publicou a respeito da irritação de diversos usuários do iTunes com a intromissão da Apple em baixar, de graça, um álbum do U2 nos seus computadores. O gesto - que é uma jogada de marketing de uma banda em declínio e cujos fãs já ultrapassaram a casa dos 40/50 anos - teve mais repercussão pública entre os jovens do que a violação do sigilo telefônico praticada pelos serviços secretos dos EUA. 

Então é isso? O U2 ficou velho e o Bono é um cara desajeitado, bom moço, que não encanta mais, se é que encantou mesmo algum dia. Na minha aula de ontem fiz referência ao primeiro filme de Richard Gere, um trabalho de John Schelesinger, de 1979, sobre os conflitos que as tropas americanas provocaram em sua passagem pela Europa. Em Yankees, Gere, como protagonista, desestabiliza a família de uma jovem britânica por quem se apaixona: uma trama romântica, sem qualquer apelo dramático mais forte, mas que ilustra a transição das hegemonias cultural e política que a II Guerra representou. O difícil não foi explicar para meus alunos o enredo do filme e seus significados; o difícil foi explicar quem é Richard Gere. Nem as alunas o conhecem...

Bono, U2, Gere, todo mundo sendo atropelado pelo tempo e eu ainda nem consegui me desvencilhar do The Animals... Tenho a impressão de que não é o tempo que passa rápido nessa definição boba da efemeridade do contemporâneo, pura elucubração acadêmica. É uma dispersão desaglutinadora de partículas químicas que fundem e refundem padrões de gosto. Um sufoco... E o pessoal ainda me vem com as rainbow parties...
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sábado, 13 de setembro de 2014

O Banco Central e a paradinha na hora de bater o pênalti

O importante é saber o que nos espera lá no fundo
Essa discussão sobre a autonomia do Banco Central me faz lembrar uma decisão tomada acho que há uns dois ou três anos sobre a paradinha na cobrança do pênalti. Pois eu discutia com um amigo sobre a injustiça que representa o batedor fingindo que vai chutar, não chuta, o goleiro cai para o lado e, com a batida de fato, a bola entra no outro canto. Meu argumento era simples: como a paradinha disfarça o que na verdade são duas cobranças eu concordaria com ela desde que... os goleiros também fossem dois. 

Com o Banco Central acontece a mesma coisa e acho difícil que o Renan Calheiros ou o Francisco Dornelles (o que é que fazem exatamente o sr. Renan Calheiros e o sr. Francisco Dornelles neste país?) consigam entender isto: se é para ter autonomia, então temos que ter duas eleições para presidente: o da República e o do Bacen. A razão é muito simples: como é que a sociedade vai permitir que um cidadão fique 6 anos no comando do organismo que cuida da nossa política monetária - cujos efeitos se estendem por todos os setores da economia do país - sem que ninguém possa escolhê-lo? Qual seria a fonte do poder desse sujeito? Dizem os defensores da medida que uma instância de natureza técnica não precisa de uma fonte política de poder, já que a racionalidade de suas ações explicam-se por si só: são técnicas e ponto final. 

Aí é que está: esse divórcio que a tecnocracia tenta estabelecer com a política - que na discursaria da Marina é vista com simpatia - penso que é o grande risco da autonomia do Banco Central. No aparelho do Estado (seja ele qual for) toda e qualquer instituição deve traduzir uma política de governo pois é no governo que votamos e não nos técnicos (continue a leitura).
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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O que é que estamos escolhendo?

A república dos bancos

No discurso - e somente nele - a campanha eleitoral se faz referida à pauta da sociedade. Na prática (como aconteceu com a tal Carta aos Brasileiros de 2002), a acomodação é com o grande capital. A política, assim, descola-se da economia e as eleições acabam não sendo mais do que um simulacro de democracia. Como se pode concluir da entrevista de Gil Castelo Branco lincada abaixo: quem não vota, elege.

Essa talvez seja uma das razões que estruturam o cenário contemporâneo. Boaventura de Sousa Santos analisou esse processo em profundidade quando advertiu para o fato de que "o princípio do mercado adquiriu pujança sem precedentes, e tanto que extravasou do econômico e procurou colonizar tanto o princípio do Estado, quanto o princípio da comunidade - um processo levado ao extremo pelo credo neoliberal" (Pela mão de Alice). Em Saramago, a lucidez é o momento em que a sociedade se recusa a participar desse jogo de imagens turvas e sombrias.

Penso que no Brasil esse complexo surge agravado pelas variáveis da nossa formação histórica e cultural e pelas peculiaridades que os acontecimentos trouxeram à campanha presidencial - uma mistura de fragilidade doutrinária, colapso das ideologias, oportunismo político e mistificação religiosa. Vale a pena ver de perto o que dizem alguns protagonistas dessa história... 

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