sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Férias...


Buon Natale e felice anno nuovo. Auguri a tutti...
(torno presto)
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segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Pistorius...

Mephisto, na versão de István Szabó para o cinema (1981):  metáfora genial da obsessão pelo poder, do Estado ao cotidiano. O que foi ficção mitológica e tragédia para Goethe, filosofia para Nietzsche, destruição para Hitler, para Pistorius foi salvo-conduto para colocar-se acima de sua própria e difícil humanidade
A reflexão acontece com muita frequência nas aulas de História Contemporânea, em particular quando o tema me aproxima da explicação sobre o nazismo no âmbito da cultura germânica. Recomendo aos alunos um breve olhar em perspectiva sobre o teatro, as ciências, a filosofia, a arte produzidos na Alemanha no século que se estende entre 1830 e 1930 sob a seguinte indagação: como foi possível que a mesma formação socio-cultural tenha gerado a monstruosidade hitlerista? A resposta é quase sempre a mesma: foi possível porque, como no Fausto, a construção mítica do homem além do humano - o übermensch de Nietzsche - coloca-se acima de quaisquer considerações de natureza ética, moral ou mesmo física que possam resultar em obstáculo para o reino do absoluto e da totalidade (continue a leitura).
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sábado, 22 de novembro de 2014

Ministro, Vossa Excelência está querendo dizer que não tem jeito?

As distinções sociais são incontornáveis e os vícios que elas provocam também: não há o que fazer porque as coisas são como são e só nos resta lamentar... Será mesmo assim?
(na foto, Paulo Gracindo e Brandão Filho no humorístico dos primos pobre e rico, sucesso sarcástico, mordaz e irreverente da Tv brasileira)
O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, acaba de naturalizar a corrupção atribuindo-a a uma espécie de endogenia cultural que forma o caráter brasileiro. Em palestra que proferiu na Associação dos Magistrados (AMB), Cardozo referiu-se a uma suposta "cultura social" que dilui a distinção entre "o público e o privado" através de práticas que descem ao cotidiano da sociedade inteira, embora muitos dos que se beneficiem com elas sejam críticos dessas próprias práticas. Para o ministro, "a classe política é reflexo da sociedade". Nem Pelé diria com tanta clareza. 

Pois então... dos desmandos das empreiteiras e dos funcionários corrompidos por elas ao síndico de um prédio (foi o tipo social escolhido por Cardozo para exemplificar o que disse) que procura levar algum trocado na encomenda de um capacho, estamos diante de um pecado original, como foram designadas em outros tempos a preguiça, a malandragem, a ginga... enfim, toda a galeria de lugares comuns e vulgares com que temos sido definidos por nós próprios ao longo da nossa história. Que um ministro de Estado, da pasta da Justiça, mande esse recado para a sociedade, é de amargar!

Com todo o respeito, tomo a liberdade de recomendar a S. Exa. que leia Os donos do poder do saudoso Raymundo Faoro, obra clássica da nossa historiografia (weberiana, é bom que se diga), para que compreenda melhor que esses escândalos todos e essa incompetência generalizada que nos atormenta a vida, são construções das relações de poder estamental nos diversos momentos da nossa história, poder esse do qual as empreiteiras, festejadas por seu capitalismo selvagem e expropriador do Estado, são exemplo. Não há nisso nada de intrínseco e inapelavelmente cultural, como V. Exa. deixou entender, salvo que eu não tenha comprendido o que foi exposto pelo ministro na AMB. São práticas políticas que só podem ser compreendidas e combatidas nesse âmbito. Fora dele, a palestra de V. Exa. nos deixa prostrados e sem esperanças... É isto o que o senhor quis dizer, que não tem jeito, que estamos condenados a ser até o fim dos tempos esse bando de oportunistas e batedores de carteira bem apessoados? Ora, faça-me o favor senhor ministro...

* Para os frequentadores do blog, duas matérias que estão relacionadas ao tema: A Lei Anticorrupção aqui e agora (artigo de Modesto Carvalhosa no Estadão) e Empresa atingida pela Lava Jato ameaça demitir ml operários sem pagar (Época Negócios).
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Sem virtude, sem fortuna...

Maquiavel quis dizer que competência, arrojo, ousadia, determinação, vontade e descortínio estratégico são atributos  de quem pretende a hegemonia do processo político. Nossa burguesia industrial não tem nenhuma dessas qualidades o que a torna parasitária e conspiratória, chorona e cansativa...
Tem uma coisa que a operação Lava Jato está deixando de positivo no cenário político brasileiro: a exibição do mau caráter do empresariado. Não é só o fato de que as grandes empreiteiras estejam sendo pegas no maior flagrante de corrupção da história; é também o silêncio constrangedor das suas entidades representativas, de sua base ideológico-parlamentar, uma espécie de cumplicidade espiritual que toda a burguesia mantém com o assalto ao Estado, como se já não bastassem as pequenas e grandes pungas dos estímulos financeiros do BNDES, das desonerações (essa sonegação legalizada que só prejudicou a sociedade), as irregularidades trabalhistas etc. E pensar que essa gente pode inviabilizar o país...

Tenho comigo uma tese que certamente não é muito original, mas que vale a pena ser dita: nosso empresariado se especializou no anti-capitalismo. Não é uma coisa doutrinária, uma adesão às teses de Marx ou de Lênin; é uma postura de zanga, de entristecimento envergonhado pelo que ele é, de antipatia por si mesmo, uma má-vontade freudiana com seu próprio negócio (continue a leitura).
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quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Uma coisa de cada vez...

A base conceitual do logotipo do Podemos é bastante inspiradora da significação que o movimento pretende ter entre os espanhóis: o orgânico sobre o dispersivo.
Quem não se lembra das imagens da Praça do Sol, em Madri, apinhada de gente que protestava contra o governo socialista de Zappatero em 2011, quase às vésperas das eleições que acabaram levando o conservador Rajoy (do PP) ao poder? Teve início na época uma agitação que se espalhou não só pela Espanha; também em outros países europeus e nos Estados Unidos cresceu a agitação contra o que prometia ser o golpe dos bancos contra a crise que eles próprios criaram em 2008. Em 2011 o ruído era em torno da indignação geral que as políticas de austeridade econômica - controle do déficit público, aumento dos juros, redução dos programas sociais - e a inevitável recessão e o desemprego para salvar o capital financeiro do colapso. Fiquem espertos: tudo isso é muito parecido com a guinada que o governo Dilma pretende imprimir à política econômica para "agradar e tranquilizar o mercado" (veja no final da postagem uma pequena relação de artigos sobre o tema, mas antes disso, continue a leitura).
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