quarta-feira, 25 de maio de 2016

O pacote dos golpistas: cortes na Saúde e na Educação

Ninguém está à vontade na gangue de golpistas e corruptos que
usurpou a Presidência da República: todos desconfiam de todos e
o ambiente é carregado de oportunismos e jogadas típicas das cortes
mais devastadas do velho regime europeu dos séculos 17 e 18.
O Brasil só dá certo se essa turma for varrida de onde está.
Temer levou Meirelles a tiracolo (ou terá sido o contrário?) ontem na apresentação do pacote econômico a deputados e senadores da base aliada.

Na verdade, com exceção dos elogios dos representantes do grande capital e da especulação financeira em benefício de quem o conjunto de medidas foi anunciado, o que está sendo proposto é um arrocho social que vai custar aos golpistas o pouco capital político que lhes restou depois do escândalo provocado pelas confissões do senador Romero Jucá. Aliás, o pacote é tão estúpido em relação aos setores mais carentes da sociedade brasileira que agora fica claro porque Jucá fez tanta questão de tranquilizar seu interlocutor ao lembrá-lo de uma eventual ação repressora do exército caso os movimentos anti-golpe se insurgissem contra os golpistas. Com a conspiração colocada à luz dia, a fisionomia de Meirelles postada aí em cima ganha sentido.

E não é para menos. O que Temer anunciou é o que os jornalistas apelidam de "ajuste", isto é, a fixação de parâmetros de austeridade para as despesas públicas (em especial as feitas no setor da Saúde e da Educação) e para a contenção do déficit público, cujas causas permanecem intactas (veja post a respeito). Não há referência a nenhum tipo de esforço que o empresariado tenha que fazer para dar a sua "contribuição" ao esforço, como se ninguém soubesse que é sempre essa a ladainha das políticas de austeridade.

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terça-feira, 24 de maio de 2016

Temer cometeu crime contra os princípios democráticos da Constituição: deve ser afastado e preso

No final das contas, o recurso que os golpistas têm para
escapar do escrutínio popular é a repressão.
Pelo menos para mim, depois de ler inúmeras vezes a transcrição da fita sobre o verdadeiro confiteor entre Romero Jucá e Sérgio Machado, não há nenhuma dúvida de que o agora (felizmente) ex-ministro do Planejamento revelou uma conspiração contra o Estado Democrático de Direito nos dias que antecederam o fatídico (e vergonhoso) 17 de abril, data da votação na Câmara pelo prosseguimento do golpe contra a presidente eleita Dilma Rousseff. 

Penso que o fato é o mais grave de todos os que vieram a público desde que o verdadeiro caráter da conspiração contra Dilma começou a se evidenciar. Jucá, do alto da sua prepotência, mas também feito um estúpido que se arroga poderes que não tem, revela um complexo de interesses envolvidos no golpe que se espalham por toda a cúpula que hoje ocupa o Palácio do Planalto, inclusive o conluio de Michel Temer, que eu acusaria de ter o domínio do fato, o que o levaria à prisão junto com Jucá.

No entanto, o mais delicado de tudo quanto existe na gravação da fala de Romero Jucá é a referência aos entendimento havidos com o Exército no sentido de assegurar a repressão aos movimentos anti-golpistas e pró-Dilma. Quem teria sido o interlocutor de Jucá? Na entrevista que o agora ex-ministro deu para anunciar que "não devo nada a ninguém" e pousar de Rasputin com aquela história "fico, se Temer quiser que eu fique", os jornalistas parecem ter perdido a noção do que estava acontecendo: não indagaram sobre a conspiração com o STF, não aprofundaram as referências sobre o garoto Aécio, não quiseram saber o que significa o "acaba tudo" dito por Sérgio Machado ao referir-se ao bloqueio da Lava Jato... mas deixar passar batida a hipótese de que houve um apelo ao Exército para que a tropa caísse de pau sobre os opositores do golpe... é muita falta de fibra.

Pior para a sociedade. Quer dizer que, passados 32 anos da redemocratização e 28 anos da Constituição, não temos ainda uma consciência democrática suficientemente consolidada para que um pulha como esse Romero Jucá se julgue de mãos livres para ir lá, com o rabo no meio das pernas, pedir ajuda ao Exército? Sei não... tem mais coisa por aí...

Leituras sugeridas: * A solução mais fácil era botar o Michel: os trechos principais da conversa entre os dois bandidos (El País) * O general de Temer rejeita a Comissão da Verdade (Outras Palavras) * Tropa de Choque reprime violentamente Ocupação Temer (Midia Ninja) * Juca continuará ajudando o governo e forma decisiva (Estadão) * Gilmar Mendes e "o esquema do Aécio" (Blog do Miro) * Gilmar Mendes não vê obstrução por Jucá no curso da Lava Jato (Folha).
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segunda-feira, 23 de maio de 2016

O pior dos crimes e o organograma do golpe

Jucá e Temer, cúmplices de crime de conspiração
 contra a Constituição e os poderes da República.
A conversa de Romero Jucá com Sérgio Machado divulgada hoje pela Folha (leia aqui) parecer ser a prova definitiva (e conclusiva) de que o golpe que resultou no afastamento temporário da presidente Dilma foi uma armação destinada a mudar (ou estancar) o curso da Operação Lava Jato. O que o Ministro do Planejamento diz no documento é de uma clareza meridiana e é difícil imaginar que, sendo o homem de maior confiança de Michel Temer, não compartilhasse com ele o teor da conspiração que o levaria ao governo. A gravação revela uma peça de geometria absolutamente perfeita em torno da qual amontoaram-se cumplicidades: de deputados, de senadores, de empresários, de jornalistas e de movimentos sociais ingenuamente crédulos de que estavam aderindo à construção de um Brasil melhor.

Como disse alguém em algum texto das centenas que estão circulando na rede, o fato concreto é que uma Presidente da República eleita pelo voto popular, sem uma única acusação de que tenha participado ou se beneficiado de qualquer fato que possa ser classificado como corrupção, foi deposta por um golpe organizado e liderado por facínoras. Na suposição de que isso pudesse beneficiá-los com o acobertamento das investigações de Sérgio Moro depois que Temer estivesse no poder, o que essa facção de escroques fez foi praticar o pior dos crimes: conspiraram contra a Constituição e contra os poderes da República. Nenhum deles deve permanecer solto e no gozo de seus direitos políticos. Eles não têm nada a ver com o Brasil, com o nosso povo, com as nossas leis. De verdade? São gente da pior espécie...

O difícil é saber onde está a saída. Na minha opinião, mesmo com as suspeitas que a entrevista de Jucá levanta sobre o STF, ainda me parece estar nas mãos da nossa suprema corte um pouco da garantia de estabilidade institucional. O iminente afastamento de Temer (por renúncia ou prisão) e a detenção de Cunha e Maranhão, poderia dar ao presidente do STF as condições constitucionais para a convocação de eleições gerais. Quem sabe? Seja como for, continuo achando que é uma Marcha sobre Brasília o fato que deve gerar essas mudanças.


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Temer e Cunha, um "espúrio contubérnio". Lembram dessa?

Que gente é essa? O Brasil não merece...
Acho que foi o Coronel Jarbas Passarinho, ministro na ditadura militar, quem introduziu a expressão no vocabulário da política brasileira. É uma definição gongórica para apontar uma relação ilegítima e imoral entre duas ou mais pessoas. Nem me lembro mais do fato que motivou a retórica de Passarinho, mas dos anos 70 para cá, ela foi sendo estendida a diversas situações que representam alianças políticas oportunistas e corruptas. É bem o caso dessa evidente associação ilícita entre Temer e Cunha que transformou o Brasil num pais de negociatas, que vive no marco do desrespeito à Constituição e nas mãos de gente ruim, de mau caráter, marginais da cidadania e vergonha da nacionalidade. Espúrio contubérnio é isso. Nem o mais safado dos golpistas imaginaria que a conspiração contra Dilma teria esse resultado.

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domingo, 22 de maio de 2016

Leituras indispensáveis... reflexões difíceis...

Chian Tsun Hsiung
Qual é a cara que as medidas tomadas por Temer até agora têm? O observador menos atento dirá que a fisionomia da interinidade é errática e improvisada, e é natural que seja assim, na hipótese de que o golpe contra Dilma tenha sido um fato imprevisto, isto é, levou a um ajuste governamental de urgência. Se fosse isso...

Mas parece que não é exatamente assim. O perfil da gestão interina de Temer é o de uma bem planejada desmontagem não propriamente do aparelho de governo - pois que isso já tinha acontecido quando Dilma ainda estava lá - mas a desmontagem do aparelho estatal. Explico o que entendo por isso.

Os grupos que apostaram no golpe do impeachment têm uma visão estratégica de seus interesses e alimentam um projeto que vem sendo acalentado desde o fim do regime militar: a mudança nas estruturas do poder devem ser feitas de tal forma que, mesmo sobre o ônus da convivência aparentemente democrática com a diversidade política do país, é preciso instituir um regime de diretrizes econômicas e sociais fechado, extremamente controlado pela casta que concentra a riqueza nacional, alguma coisa não muito superior a 5% da população, se tanto.

A desmontagem acelerada do Estado que estamos assistindo nas últimas duas semanas evidencia isso. Do ponto de vista do historiador que observa o cenário de longa duração do processo de modernização burguesa que o Brasil vive desde a Revolução de 30, a etapa de agora pode muito bem passar para a História como uma reação termidoriana(*) ao Populismo distributivista com o qual nossa elite foi obrigada a conviver desde então, sem o dispêndio das práticas conciliatórias que sempre representam, de alguma forma, o adiamento do projeto inteiro. Agora, não; agora parece que os dirigentes desse processo têm a intenção de concluir a obra inteiramente (continue a leitura).

(*) Devo a um texto longínquo do jornalista Fernando Pedreira o conceito de reação termidoriana com o qual ele procurava designar o processo conservador global que se seguiu a 1968 e que, no Brasil, veio junto com o recrudescimento da ditadura. Minha impressão é a de que o golpe do impeachment faz parte desse processo.
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