domingo, 20 de julho de 2014

Rubem Alves (1933-2014)

Dimensão cristã do pensamento de Rubem Alves reforçou a crítica severa à industrialização, mais do que ao capitalismo
Acho difícil distinguir, em meio às referências feitas na notícia sobre a morte de Rubem Alves, qual tenha sido a principal contribuição que ele trouxe ao pensamento contemporâneo. Não sei se estamos diante de um filósofo, de um educador, de um cientista social; o que eu sei é que sua contribuição para o entendimento do mundo abre caminho para perspectivas visionárias de interpretação da realidade - e isso é o que me parece ser suficiente para marcar sua presença no terreno das ideias e das práticas sociais.

Particularmente, encontrei num de seus textos um valioso instrumento de análise da crise cultural da modernidade. Refiro-me ao ensaio Tecnologia e Humanização (veja aqui uma cópia anotada do trabalho) publicado na antiga revista Paz & Terra (n. 8, outubro de 1968) que integrou diversos cursos em que procurei discutir o impacto da racionalidade tecno-científica na caracterização da sociedade industrial - tema que sempre me pareceu essencial para a compreensão dos elementos constitutivos de uma ordem de valores que era apenas intuída no final dos anos 60 e que Alves, com uma consistente fundamentação teórica e conceitual, descreve e interpreta.

Fica esse registro pontual como reconhecimento da importância que Rubem Alves teve na   minha formação acadêmica.
______________________________

sexta-feira, 18 de julho de 2014

A cidade destruida...

Figueira centenária no Ipiranga é derrubada para a construção de mais prédios
A notícia publicada pela Folha no último dia 10 mostra com toda a clareza qual é o verdadeiro significado dos discursos que entregam a cidade aos interesses privados das empreiteiras. O novo Plano Diretor de São Paulo é parte desse processo predatório...

E como se isso não bastasse, corredores passarão por cima de casas e lojas, mas protegerão igrejas, diz o Estadão. Minhocão de Maluf vai perder a primazia de monumento símbolo da deterioração urbana paulistana.
______________________________

Argentina é alvo de pilhagem internacional financeira, afirma Cristina Kirchner

A manchete acima é do Estadão de hoje (16 de julho) e expressa com muita precisão o processo covarde que vem sendo movido contra a Argentina pelos conhecidos fundos abutres - grupos financeiros especuladores internacionais protegidos por tribunais estadunidenses que impõem ao país vizinho condições insuportáveis para o resgate de títulos de suas dívidas.

Penso que este é o momento do governo Dilma deixar claro qual é o lado que o Brasil ocupa nesse cenário - se a da tradicional conivência com os desmandos do capitalismo neoliberal (que inspira as medidas de transferência de renda para os setores privados nacionais, como vem acontecendo há anos no país) ou se é a da coerência com a soberania que nos leva a participar dessa medida de criação de um Banco Central dos BRICs (leia aqui atualização sobre a posição defendida por Dilma).

Acredito que o governo Kirchner tem hoje a mais esclarecida política econômica da América Latina e se manifesta dignamente no confronto com os fundos abutres. Torço para que Dilma não se deixe levar pelas bobagens ditas pela mídia nem perca a oportunidade de participar de forma decisiva da construção de uma nova ordem econômica mundial. Defender a soberania Argentina claramente - e eventualmente repudiar o que vem ocorrendo na Palestina - é um bom começo.

Saiba mais sobre a queda de braço do governo Kirchner com os fundos abutres: 

 Como acabar com os abutres que ameaçam a Argentina (Opera Mundi)  Divida da Argentina não tem justificativa legal, nem administrativa, nem financeira (entrevista com Maria Lúcia Fatorelli em IHU).
______________________________

domingo, 13 de julho de 2014

Esse Brasil não funciona mais...

Del Nero, Marin, Felipão, Parreira e, na ponta direita, um assessor da CBF
Nos últimos dois dias, devo ter lido uma parte bastante significativa das colunas mais consagradas da crônica esportiva. São textos de 1a qualidade, ferinos e competentes na análise que fazem das causas e das possíveis consequências do fracasso brasileiro na Copa do Mundo. O que se viu ontem em Brasília, o caráter transido da seleção canarinho e o ar ensimesmado de jogadores e técnicos (incluído aí o Parreira cujas funções eu nunca entendi) é coisa para ocupar toda a nossa imaginação crítica, com severidade e contundência. 

Só não encontrei referência ao anacronismo que inspira as atitudes da comissão técnica e de alguns atletas. Em especial, fiquei impressionado com o espírito evasivo de compadrio de Felipão ao justificar o desempenho de "seu" grupo e a atitude de reverência servil dos jogadores (todos eles, mas exemplarmente representados por Neymar) aos desmandos e erros do comando da seleção. Esse conjunto de significados - que pode traduzir a persistência do coronelismo das relações sociais do futebol - mostra uma prática pré-moderna que insiste em prevalecer no comando dos clubes e que sustenta o vértice da cartolagem nacional.

Particularmente, nunca acreditei na tal da Famiglia Scolari - designação emblemática! - nem pelos resultados que Felipão alcançou até aqui na sua carreira, nem pelo traço cultural dessa designação num território carente de profissionalismo. Nesta Copa de 2014 minha surpresa veio da postura filial e irrefletidamente obediente dos jogadores, todos muito jovens em idade, mas velhos no comportamento, autoritários, arrogantes e, acima de tudo, arrivistas e vaidosos. Tal como o técnico, nenhum deles me convenceu... O grupo todo me parece ter encenado uma pantomina sem pé nem cabeça e se esqueceu de que o futebol é um patrimônio cultural imaterial do povo brasileiro; não se presta a essa apropriação privada que a CBF e os patrocinadores fazem dele. O resultado é o que se viu.

Sou pelo retorno do Mano Menezes ao comando da Seleção.
______________________________

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Plano Diretor de SP: a vitória das empreiteiras

São Paulo: novo Plano Diretor põe ordem no caos, mas não se preocupa em acabar com suas causas (imagem Outras Palavras)
Estou devendo para o blog uma postagem que esclareça o tweet sobre a cumplicidade de Fernando Haddad com o crime cometido pelos vereadores ao aprovar o novo Plano Diretor de São Paulo. A coisa toda me parece simples: a manutenção dos privilégios das empreiteiras e incorporadoras - ainda que sejam privilégios aparentemente disciplinados pelas novas normas - inviabiliza o planejamento sério da cidade. Essa é a razão principal que justifica meu pessimismo e que me faz desconfiar da natureza cosmética da decisão da Câmara Municipal de São Paulo.

Um exemplo que pode simbolizar a tendência hegemônica entre os vereadores. No dia seguinte à aprovação do Plano a Câmara autorizou o prefeito a vender uma rua às construtoras (leia aqui), numa concessão do patrimônio público ao interesse privado inédito na história de São Paulo. Ainda que o fato possa ser visto como anedótico - e de forma assemelhada à história do caipira que comprou o Viaduto do Chá -, o fato é que ele demonstra o peso que o interesse do capital tem na fixação das políticas urbanas. Com o Plano Diretor acontece a mesma coisa: é esse o interesse que vai determinar os corredores da expansão imobiliária de intensa verticalização nas áreas próximas ao transporte coletivo, favelizando-as...

Além disso, enquanto a legislação contemplar a excrescência da "outorga onerosa" - uma fórmula legalizada de burlar os limites de proliferação dos espigões - não acredito que a homogeneidade do planejamento urbano possa ser respeitada, sem falar no impacto desses edifícios na mobilidade social qualitativa que os cerca.

São Paulo precisa de planejamento socialista rigoroso para além dos interesses imediatistas das pressões políticas e do interesse privado. Fernando Haddad, na minha opinião, faz a média da governabilidade quando elogia o que foi aprovado pelos vereadores e, com isso, abre mão da visão estratégica que deveria presidir seu papel como prefeito.

* Duas leituras sugeridas sobre o Plano Diretor de São Paulo: São Paulo está em crise. E não vamos sair dela (Lucila Lacreta); São Paulo: o que muda como novo Plano Diretor (Nabil Bonduki).
______________________________