quarta-feira, 22 de outubro de 2014

"Tucanos partem para Sierra Maestra" (The Piauí Herald)

À frente dos indignados com essas últimas pesquisas, um estilizado Merval Pereira (O Globo) lidera a fuga para Cuba
Não costumo fazer isto e espero não ser acusado de apropriação indevida - porque a matéria vai citada aqui com todas as referências: saiu na revista piauí, em 21 de outubro, no blog Piauí Herald. Texto inteligente, de fino e corrosivo humor, dos que mais se encaixam na tradição da verve iconoclasta, irreverente e mal-comportada. A galera tucana deve ficar indignada, mas é muito divertido. Recomendo a leitura:  Tucanos partem para Sierra Maestra

De qualquer forma, é bom evitar o "já ganhou" de sempre, embora essa tal margem de erro, se for posta nos limites extremos para cima e para baixo, indique uma diferença que pode chegar a 8 pontos. Será? A julgar pela manchete da Folha de hoje, o cenário parece ter se invertido e tende a se consolidar. Figa!

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segunda-feira, 20 de outubro de 2014

México rebelde... e infeliz

Mexicanos procuram corpos de estudantes de pedagogia executados por criminosos com o apoio  da polícia: crimes são atribuídos à crise política e social provocada pelo regime que levou o país ao abandono neoliberal
Em fevereiro deste ano postei um texto aqui no blog intitulado O México e as ilusões das elites latino-americanas. O argumento que conduzia minha análise é velho conhecido: o México abriu mão de sua soberania em favor de uma economia associada ao capitalismo estadunidense (Nafta) e da sobre-exploração de seus próprios trabalhadores em linhas de montagem de produtos vindos dos EUA (à semelhança de um grande parque desses que pagam US$ 2 semanais aos operários). Hoje, em pleno regime neoliberal parecido com o que Armínio Fraga quer implantar no Brasil, o país vive uma profunda crise social.

O que aconteceu com os 43 jovens estudantes que foram detidos no fim de setembro pela polícia na cidade de Iguala e entregues para execução a um cartel de bandidos (leia aqui) é o sintoma do estado de descontrole ao qual a elite mexicana chegou e serve como advertência aos demais países da região.

Leia também: Um cemitério chamado Iguala (El País)
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domingo, 19 de outubro de 2014

"Tanto faz quem ganhe a eleição". Será?

O pior que pode acontecer é a indefinição das marcas simbólicas e ideológicas de Dilma e Aécio.
O amadurecimento democrático só tem a ganhar se o vencedor das eleições puser em prática o projeto político e social das forças que representa
O título da postagem é um primor do pensamento despolitizado, mas não é difícil encontrar por aí gente que acredita mesmo nisso, apesar do nível de polarização que a campanha ganhou. Será que há mesmo uma distinção fundamental e profunda nesse cenário e que as escolhas refletem antagonismos insuperáveis ou estamos diante de uma dramatização teatral retórica e corporal que oculta os limites ideológicos que estruturam as duas candidaturas?

Vou logo adiantando: não acredito nisso. Minha interpretação é a de que o processo eleitoral, desde a morte de Eduardo Campos, pôs em evidência alguma coisa que o lulismo, com seu imaginário conciliador e interclassista, não nos deixava ver: a existência de projetos diferentes para o Brasil; duas concepções de organização social e de gestão econômica que não se bicam, sem falar aqui nas dimensões culturais e políticas dessas concepções.  Essa emergência violenta do preconceito generalizado que os grupos conservadores vão manifestando em relação ao PT e a várias das causas e da representação simbólica que o identificam historicamente me parece ser a prova de que estamos diante de disposições antagônicas e eu torço para que aquela que podemos classificar genericamente como "de direita" saia das urnas derrotada.

A eventual vitória de Dilma, no entanto, vai exigir que isso fique mais claro, isto é, o resultado favorável das urnas à sua candidatura não pode criar a ilusão de um congraçamento nacional, como se as diferenças desaparecessem pelo encanto democrático, uma espécie de peemedebitação unicolorida do país.  Na minha opinião, tem sido exatamente o descuido das práticas políticas reformistas em deixar isso claro que fragiliza a sua identificação e a aparente correção do senso comum que o "tanto faz quem ganhe a eleição" representa (continue a leitura).
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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Que país é este?

Aécio e o "trabalho remoto": nem FHC acreditou muito na história.
O candidato do PSDB à presidência da República admitiu que morava no Rio nos anos 80 enquanto trabalhava na Câmara Federal, em Brasília (uma sinecura que foi arranjada por seu pai, então deputado federal pelo partido que substituiu a Arena). Na cena acima, a expressão de Fernando Henrique é de ceticismo, mas não há porque duvidar da sinceridade do moço. Quem resolveu o problema foi a Folha, que chamou de "trabalho remoto" a safadeza de Aécio - na notícia em que dá conta da cara de pau do ex-governador de Minas quando admitiu a irregularidade. Deve ser por causa desse artificialismo linguístico e semântico que Chico Sá resolveu deixar o jornal...

Um gentleman informal na diplomacia brasileira.
O técnico Dunga acaba de dar uma bela demonstração das boas maneiras (na definição clássica de Enrico Troglodiate in Buone maniere nel Rinascimento fiorentino) que marcam as relações profissionais da nossa seleção com equipes estrangeiras. Na foto, certamente inspirado nos exemplos de cordialidade herdados da Era Filipão, Dunga recomendava aos adversários que tomassem cuidado com o "nariz trancado" provocado pelo ar poluído de Pequim, cena que motivou o bate-boca com o pessoal da Globo para quem Dunga, com o gesto, referia-se ao cheira-cheira que pode eventualmente ter rolado nos vestiários de los hermanos. Gentil, elegante, cordato e refinado... são os adjetivos que merece essa espécie de embaixador itinerante que o Brasil sempre teve nos técnicos da nossa seleção. Exemplo que motiva todos os seus comandados... como se pode ver na atitude totalmente "esportiva" e "ética" de Damião logo abaixo...

Damião ventila as costas e o pessoal já pensa que é maldade...
Com aquele calorão, o jogador brasileiro, na verdade, está ventilando suas costas quando puxa para trás a própria camisa. Maldade daqueles que viram na cena uma tentativa de cavar um pênalti. Esses jornalistas e o seu jeito negativo de olhar o mundo... Damião só fez traduzir o zeitgeist brasileiro (como o definiriam os neomarxianos da Unicamp e de Higienópolis) e que foi imortalizado na frase de Gerson nos anos 70: "a gente tem que levar vantagem em tudo, certo?". Oportunismo, desfaçatez, simulação? Nada disso. O espírito do fairplay é o que orienta nossas práticas sociais e não há motivo para duvidar de que sejam elas as normas que norteiam nossas vidas cotidianas, o trabalho, a verdade, o engajamento naquilo que fazemos, como demonstram a Folha e Aécio Neves nessa história de "trabalho remoto". Pois sim...

Enquanto isso, hoje, 15 de outubro, é o Dia do Professor. Uma grande data para um desafio ainda maior: tem muita coisa a ser ensinada e muita coisa a ser aprendida pela sociedade brasileira.

E não deixe de ler O sexto turno, um excelente análise de Mauro Iasi (PCB) sobre as vicissitudes político-partidárias brasileiras (via blog da Boimtempo)
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