terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Brasil em transe (via Chico Bicudo)

Brasil em transe - 1o. episódio: O sonho acabou
Série de 3 episódios produzida pelo jornalista Kennedy Alencar em parceria com a BBC World News sobre a crise política e econômica do Brasil entre os anos de 2013 e 2018.
Os demais episódios: * A Lava Jato e o golpe * A Nação dividida
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Bolsonaro reproduz o Brasil que criticou e dá calote nos eleitores

Pantomima dos chinelos pode revelar talento para
a representação, mas o espetáculo tem hora para acabar
Esse jeito aparentemente descolado de Jair Bolsonaro oculta mais despreparo do que descontração, talvez uma dificuldade de ir além da mera percepção linear do que ocorre à sua volta; uma propensão a reduzir tudo ao senso comum das impressões imediatas. Será mesmo assim? 

Penso que não. Acho que estamos diante de uma pantomima pensada como tal, ou seja, ensaiada para aparentar o que de fato não é, dificultando a compreensão da essência do fenômeno que arrebatou os eleitores. Repete-se aqui no Brasil o simulacro de outros ensaios totalitários, felizmente em algum momento descobertos pela opinião pública, causa da ira que se voltou contra eles: Mussolini, Hitler, Franco, Salazar, Stalin e outros.

Até que isso aconteça, a História vai se fazendo à revelia de quem pensa dominá-la, pois que a vida é mais rica e diversa do que os projetos. O escândalo que envolveu o ministro de coisa alguma Bebianno é bem uma demonstração de que o ensaio se baseou num roteiro incompleto: a aberta apropriação do aparato eleitoral e, depois, governamental, em proveito privado, seja pela facção dos filhos ou pelas facções dos empresários, dos integrantes do Judiciário ou do Congresso. No final, em termos alegóricos, aquela massa de lama que escorreu do depósito da Vale em Brumadinho e que avançou sobre casas, pessoas, animais, matas e o diabo, se parece muito com o cerco que os dejetos vão formando ao pé das maiorias que saíram do golpe do impeachment e que até agora não interromperam sua trajetória. 

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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Brexit: contagem regressiva para o caos

Esfacelamento da Europa: a verdadeira motivação
da Inglaterra e dos Estados Unidos com o Brexit
Considero a União Europeia a construção mais inteligente do capitalismo em toda a sua história: uma arquitetura econômica, política e cultural que conseguiu, ainda que parcialmente, conter o desequilíbrio existente no Velho Continente desde sempre, mas notadamente depois da II Guerra, quando o ritmo da recuperação econômica tendia a provocar uma disputa nacionalista insana - tal como já havia ocorrido no final do século XIX e na primeira metade do século XX.

A UE, no entanto, sempre colocou em xeque as forças conservadoras globais, especialmente os EUA, que viam a comunidade de integração na Europa como uma ameaça ao seu poder global, ainda que os próprios europeus não pudessem prescindir do apoio estadunidense em sua economia. O fato, no entanto, de que pudesse haver uma vasta área do globo que se ampliou (de 6 para 25 países desde 1957) sob o marco do Estado do Bem-Estar Social e da regulação integradora, já era por si um elemento incômodo desde a Guerra Fria.

Penso que o Brexit é o ponto culminante desse processo de desgaste a que os conservadores ingleses e estadunidenses vêm submetendo a Europa comunitária nos últimos anos, ainda que sob o risco de levar a economia mundial a uma crise
sem precedentes. Dia 29 de março, por enquanto, é a data em que o desligamento da Inglaterra vai se consumar. Se isso de fato acontecer, no âmbito de outras tensões internacionais que marcam este início de 2019... pode ser o caos.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

A construção segregada do outro

No Brasil de Bolsonaro, as definições de vagabundo foram atualizadas (The Intercept)
Talvez um dos melhores textos de Rosana Pinheiro-Machado publicados nas redes: um inquérito conceitual sobre a construção do inimigo social que mobiliza o apoio ao fascismo. Já não é mais o invasor externo ou o marginal que nos ameaça a vida; agora é o outro, simplesmente, tenha ele qualquer atributo que possa representar ameaça para o sonho da estabilidade normativa: o negro, a mulher, o homossexual, o socialista, o contestador, todos enfeixados pela autora na categoria do senso comum - os vagabundos.

Como a própria Rosana Pinheiro Machado afirma: “Vagabundo” é um significante vazio que pode abarcar muita gente: ambulantes, desempregados, pessoas em situação de rua, pobres, nordestinos, putas, LGBTs, ativistas, bandidos. O que define o vagabundo não é o trabalho, honestidade ou esforço de um sujeito, mas relações de poder estruturadas no eixo raça, classe e ideologia. Lula é vagabundo, mesmo tendo estado à frente de um dos governos mais bem-sucedidos e respeitados internacionalmente da história do país.

Eis aí, segundo entendo, o espírito da dessolidarização e a legitimação da segregação que dá sentido ao senso comum organizado como articulação ideológica para o qual contribui a naturalização das relações assimétricas de poder. O Brasil do presente não será entendido se esse processo não for suficientemente discutido.
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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

A diferença que faz Ricardo Salles

O advogado das elites para quem movimentos sociais devem
ser tratados a bala

Repugnante

Ricardo Salles, até agora, é a figura do ministério de Bolsonaro que dá o tom da equipe inteira: a absoluta arrogância e insensibilidade social diante de um país que aos poucos vai despertando do estado de hipnose em que mergulhou nas eleições do ano passado.

Por que Salles? Porque a trajetória de Salles na vida pública brasileira é uma sequência de pegadas inéditas cujo timbre da maldade levou o MPF a recomendar que não tomasse posse no Ministério do Meio Ambiente em vista dos riscos que sua passagem pela pasta - ainda que por algumas horas - poderia representar para o país. O contexto dessa personalidade que responde por improbidade administrativa praticada durante do governo de Geraldo Alckmin em São Paulo, preside o Movimento Endireita Brasil e recomenda que o MST seja tratado a bala (como o próprio Bolsonaro insinua) foi publicado no jornal El País ainda em dezembro de 2018 e vale a pena ser lido e amplamente divulgado (acesse aqui).

Pois bem: é esse o cara que ofendeu no Programa Roda Viva (11/02) a memória nacional ao referir-se na pergunta que fica registrada como símbolo deste tempo: "que diferença faz quem é Chico Mendes?". A declaração, pode ser conferida no Blog do Josias.

Leia também: * A íntegra do Roda Viva com a participação de Ricardo Salles (Youtube) * Por que Salles foi condenado (Outras Palavras) * Eduardo Galeano - Quatro mentiras sobre o Meio Ambiente (Outras Mídias) * O ministro do arremedo (do blog).
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terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Cultura e Educação como produtos e serviços: a lógica do obscurantismo

Galileu e o significado do isolamento social
das ideias sob a opressão do poder

Violência anti-intelectual da classe média sustenta Bolsonaro

Christian Schwartz
Folha

Autor rejeita ideia de cisão identitária na eleição e atribui resultado a camadas que veem a Educação como algo ornamental

Há uma pergunta que, respondida em toda a sua complexidade, tem o potencial de iluminar muito do que se passou na política brasileira recentemente. É a seguinte: por que caminhos (ou diabos) o “Não me representa” dos protestos de junho de 2013 rapidamente virou o “Mito! Mito!” que anima o comício permanente de Jair Bolsonaro —e deve ser, ao que parece, uma espécie de grito de guerra deste governo tribal?
Num texto recente, a jornalista e escritora Eliane Brum lançou a tese de que, segundo ela pela primeira vez na história do Brasil, o presidente é um “homem mediano”. O argumento avança em três movimentos.
Expõe, primeiramente, o que seria um contraste: ao contrário de todos os seus antecessores no cargo (o texto silencia, curiosamente, sobre a única antecessora, nem uma só vez mencionada), Bolsonaro careceria de excepcionalidade. “Jair Bolsonaro é o homem que nem pertence às elites nem fez nada de excepcional. Esse homem mediano representa uma ampla camada de brasileiros”, escreve a jornalista.
Nas duas etapas seguintes, reafirma a explicação padrão de nossos intelectuais ditos progressistas para o fenômeno, este sim inédito, de um presidente de extrema direita (continue a leitura).



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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Governar para os banqueiros: a alma de Paulo Guedes

A política monetária do 1%

Os homens que determinam quanto a sociedade pagará aos bancos estão reunidos neste momento. São todos banqueiros, ou seus funcionários. Decidirão transferir bilhões a si próprios - sempre em nome da "responsabilidade fiscal"

Paulo Kliass
Outras Palavras

Durante todos os períodos matutinos e vespertinos, entre a quarta e a quinta-feira, haverá tempo mais do que suficiente para que os onze membros do comitê troquem opiniões e análises a respeito do propósito do encontro. No entanto, a decisão mais aguardada refere-se à definição do patamar da SELIC para a vigência ao longo dos próximos 45 dias. Afinal, essa é uma das atribuições primordiais do COPOM: estabelecer os parâmetros para a política monetária. Dentre os vários instrumentos possíveis para dar cabo dessa tarefa, historicamente sempre se utilizou por aqui o estabelecimento da referência para a taxa oficial de juros.

As sondagens informais realizadas pelos principais órgãos de comunicação junto ao meio financeiro já buscam antecipar o resultado de tal segredo de Polichinelo. E, ao que tudo indica, por mais uma vez o nível da SELIC não será alterado. Ele deverá permanecer nos mesmos 6,5% anuais, tal como foi estabelecido na reunião de março de 2018 e que foi repetido ao longo dos seis encontros subsequentes. Interessante é observar que qualquer manual básico de macroeconomia recomenda que a política monetária seja relaxada em momentos de recessão ou de reduzido crescimento da economia. Na tradução do economês, isso significa que a autoridade monetária deveria reduzir a taxa oficial de juros com o intuito de estimular a atividade econômica de uma forma geral. Em tese, custos financeiros mais baixos induzem a maior investimento e maior consumo (continue a leitura).

Atualizações: * Paulo Guedes e a receita para o atraso (Outras Palavras) * País perde R$ 4,6 bi ao não tributar acionistas do Itaú, do Bradesco e do Santander (GGN) * Plano B de Guedes pode virar Plano A: desindexar o orçamento da União (Cláudia Saffatle, Valor Econômico).

Para entender a dinâmica da concentração bancária - um verdadeiro Estado paralelo ou "um Estado dentro do Estado" - sugiro estas matérias da Folha: * Sem concorrência, de cada R$ 10 depositados, R$ 8,5 ficam só em 5 bancos * Entenda o que é verticalização e como ela afeta juros e preços * A desverticalização está vindo aí Concentração bancária fica fora das prioridades do governo.

Leia também: * FMI manda o recado: "o debate de políticas públicas na América Latina continua girando em torno de temas dos anos 80" (El País) * Dimensão da reforma da Previdência está correta, afirma presidente do Itaú (Folha) * Ninguém quer a reforma da Previdência de Guedes, só as empresa e os bancos (do blog).
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