quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

A construção segregada do outro

No Brasil de Bolsonaro, as definições de vagabundo foram atualizadas (The Intercept)
Talvez um dos melhores textos de Rosana Pinheiro-Machado publicados nas redes: um inquérito conceitual sobre a construção do inimigo social que mobiliza o apoio ao fascismo. Já não é mais o invasor externo ou o marginal que nos ameaça a vida; agora é o outro, simplesmente, tenha ele qualquer atributo que possa representar ameaça para o sonho da estabilidade normativa: o negro, a mulher, o homossexual, o socialista, o contestador, todos enfeixados pela autora na categoria do senso comum - os vagabundos.

Como a própria Rosana Pinheiro Machado afirma: “Vagabundo” é um significante vazio que pode abarcar muita gente: ambulantes, desempregados, pessoas em situação de rua, pobres, nordestinos, putas, LGBTs, ativistas, bandidos. O que define o vagabundo não é o trabalho, honestidade ou esforço de um sujeito, mas relações de poder estruturadas no eixo raça, classe e ideologia. Lula é vagabundo, mesmo tendo estado à frente de um dos governos mais bem-sucedidos e respeitados internacionalmente da história do país.

Eis aí, segundo entendo, o espírito da dessolidarização e a legitimação da segregação que dá sentido ao senso comum organizado como articulação ideológica para o qual contribui a naturalização das relações assimétricas de poder. O Brasil do presente não será entendido se esse processo não for suficientemente discutido.
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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

A diferença que faz Ricardo Salles

O advogado das elites para quem movimentos sociais devem
ser tratados a bala

Repugnante

Ricardo Salles, até agora, é a figura do ministério de Bolsonaro que dá o tom da equipe inteira: a absoluta arrogância e insensibilidade social diante de um país que aos poucos vai despertando do estado de hipnose em que mergulhou nas eleições do ano passado.

Por que Salles? Porque a trajetória de Salles na vida pública brasileira é uma sequência de pegadas inéditas cujo timbre da maldade levou o MPF a recomendar que não tomasse posse no Ministério do Meio Ambiente em vista dos riscos que sua passagem pela pasta - ainda que por algumas horas - poderia representar para o país. O contexto dessa personalidade que responde por improbidade administrativa praticada durante do governo de Geraldo Alckmin em São Paulo, preside o Movimento Endireita Brasil e recomenda que o MST seja tratado a bala (como o próprio Bolsonaro insinua) foi publicado no jornal El País ainda em dezembro de 2018 e vale a pena ser lido e amplamente divulgado (acesse aqui).

Pois bem: é esse o cara que ofendeu no Programa Roda Viva (11/02) a memória nacional ao referir-se na pergunta que fica registrada como símbolo deste tempo: "que diferença faz quem é Chico Mendes?". A declaração, pode ser conferida no Blog do Josias.

Leia também: * A íntegra do Roda Viva com a participação de Ricardo Salles (Youtube) * Por que Salles foi condenado (Outras Palavras) * Eduardo Galeano - Quatro mentiras sobre o Meio Ambiente (Outras Mídias) * O ministro do arremedo (do blog).
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terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Cultura e Educação como produtos e serviços: a lógica do obscurantismo

Galileu e o significado do isolamento social
das ideias sob a opressão do poder

Violência anti-intelectual da classe média sustenta Bolsonaro

Christian Schwartz
Folha

Autor rejeita ideia de cisão identitária na eleição e atribui resultado a camadas que veem a Educação como algo ornamental

Há uma pergunta que, respondida em toda a sua complexidade, tem o potencial de iluminar muito do que se passou na política brasileira recentemente. É a seguinte: por que caminhos (ou diabos) o “Não me representa” dos protestos de junho de 2013 rapidamente virou o “Mito! Mito!” que anima o comício permanente de Jair Bolsonaro —e deve ser, ao que parece, uma espécie de grito de guerra deste governo tribal?
Num texto recente, a jornalista e escritora Eliane Brum lançou a tese de que, segundo ela pela primeira vez na história do Brasil, o presidente é um “homem mediano”. O argumento avança em três movimentos.
Expõe, primeiramente, o que seria um contraste: ao contrário de todos os seus antecessores no cargo (o texto silencia, curiosamente, sobre a única antecessora, nem uma só vez mencionada), Bolsonaro careceria de excepcionalidade. “Jair Bolsonaro é o homem que nem pertence às elites nem fez nada de excepcional. Esse homem mediano representa uma ampla camada de brasileiros”, escreve a jornalista.
Nas duas etapas seguintes, reafirma a explicação padrão de nossos intelectuais ditos progressistas para o fenômeno, este sim inédito, de um presidente de extrema direita (continue a leitura).



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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Governar para os banqueiros: a alma de Paulo Guedes

A política monetária do 1%

Os homens que determinam quanto a sociedade pagará aos bancos estão reunidos neste momento. São todos banqueiros, ou seus funcionários. Decidirão transferir bilhões a si próprios - sempre em nome da "responsabilidade fiscal"

Paulo Kliass
Outras Palavras

Durante todos os períodos matutinos e vespertinos, entre a quarta e a quinta-feira, haverá tempo mais do que suficiente para que os onze membros do comitê troquem opiniões e análises a respeito do propósito do encontro. No entanto, a decisão mais aguardada refere-se à definição do patamar da SELIC para a vigência ao longo dos próximos 45 dias. Afinal, essa é uma das atribuições primordiais do COPOM: estabelecer os parâmetros para a política monetária. Dentre os vários instrumentos possíveis para dar cabo dessa tarefa, historicamente sempre se utilizou por aqui o estabelecimento da referência para a taxa oficial de juros.

As sondagens informais realizadas pelos principais órgãos de comunicação junto ao meio financeiro já buscam antecipar o resultado de tal segredo de Polichinelo. E, ao que tudo indica, por mais uma vez o nível da SELIC não será alterado. Ele deverá permanecer nos mesmos 6,5% anuais, tal como foi estabelecido na reunião de março de 2018 e que foi repetido ao longo dos seis encontros subsequentes. Interessante é observar que qualquer manual básico de macroeconomia recomenda que a política monetária seja relaxada em momentos de recessão ou de reduzido crescimento da economia. Na tradução do economês, isso significa que a autoridade monetária deveria reduzir a taxa oficial de juros com o intuito de estimular a atividade econômica de uma forma geral. Em tese, custos financeiros mais baixos induzem a maior investimento e maior consumo (continue a leitura).

Atualizações: * Paulo Guedes e a receita para o atraso (Outras Palavras) * País perde R$ 4,6 bi ao não tributar acionistas do Itaú, do Bradesco e do Santander (GGN) * Plano B de Guedes pode virar Plano A: desindexar o orçamento da União (Cláudia Saffatle, Valor Econômico).

Para entender a dinâmica da concentração bancária - um verdadeiro Estado paralelo ou "um Estado dentro do Estado" - sugiro estas matérias da Folha: * Sem concorrência, de cada R$ 10 depositados, R$ 8,5 ficam só em 5 bancos * Entenda o que é verticalização e como ela afeta juros e preços * A desverticalização está vindo aí Concentração bancária fica fora das prioridades do governo.

Leia também: * FMI manda o recado: "o debate de políticas públicas na América Latina continua girando em torno de temas dos anos 80" (El País) * Dimensão da reforma da Previdência está correta, afirma presidente do Itaú (Folha) * Ninguém quer a reforma da Previdência de Guedes, só as empresa e os bancos (do blog).
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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Brumadinho: "para matar, vocês são rápidos"

Vale recusa pedidos de vítimas da tragédia de Brumadinho e exibe a frieza
de uma serial killer empresarial: até agora, 150 mortos e 182 desaparecidos
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Ninguém quer a reforma da Previdência de Paulo Guedes, só as empresas e os bancos

Projeto da reforma é precário em termos técnicos e políticos
(Vinicius Torres Freire, 
Folha)

Reforma da Previdência: por que 4 países da América Latina revisam o modelo de capitalização de Guedes?

Décadas depois de instituírem o regime de capitalização nas aposentadorias, Chile, Colômbia, México e Peru se deparam com pelo menos um grande problema: benefícios demasiadamente baixos ou cobertura restrita que exclui parte dos idosos

Camila Veras Mota
BBC Brasil

Décadas depois de realizarem grandes reformas que, via de regra, substituíram sistemas públicos de Previdência por outros total ou parcialmente privatizados, cada um deles se deparou com pelo menos um grande problema: ou o valor dos benefícios recebidos pelos aposentados era muito baixo ou o alcance do sistema se revelou muito restrito, o que deixaria um percentual significativo da população sem aposentadoria no futuro (continue a leitura)
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terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

A modernização global que nos condena ao atraso

Maia: discutir nossas normas de convivência atrapalha as
reformas econômicas:
antes de tudo a selvageria moderna; depois, o resto

Primeiro as reformas econômicas; depois, nossa civilidade

Um Brasil adaptado às normas de uma sociabilidade digna, que nos deixe confortáveis com o que imaginamos ser, parece ter desaparecido do horizonte de Rodrigo Maia, o reeleito presidente da Câmara dos Deputados. Numa entrevista de rara felicidade conceitual dada à Folha de S. Paulo, o deputado do DEM-RJ, um serviçal do poder que está disponível para o que for necessário, servo de todos os amos, sintetiza a armadilha na qual o Brasil foi apanhado: a condenação ao atraso em troca do ajuste econômico exigido pelo capital. 

Diplomação de Amauri Ribeiro, de Goiás, na Câmara:
essa assimetria de costumes que ele fez questão de exibir ao
colocar no colo o registro de sua posse humilhada e
compassiva traduz o que Rodrigo Maia quis dizer


Não será difícil entender, por isso, todo o sentido anti-civilizatório das reformas e posturas que vêm sendo anunciadas e propagadas pelo governo de Bolsonaro: de ponta a ponta, do meio ambiente à Previdência, das mudanças no Código Penal, ao apoio velado às milícias e à criminalização dos movimentos sociais e de gênero, a perseguição ideológica dos professores, tudo se encaixa no universo das práticas selvagens do colonialismo neoliberal - se quisermos ter acesso ao grande capital, teremos que conviver com a pobreza extrema, com o preconceito, com a incultura de um ensino esvaziado de substância; teremos que nos conformar com a paisagem de Brumadinho, mais do que com a paisagem da Av. Paulista. É nas práticas predatórias da mineradora Vale que encontramos a lógica do nosso destino, não na Embraer.

Esse desnível paradoxal de camadas históricas que nos acompanha desde a colonização ganha na entrevista que Maia deu à Folha uma razão decifrável como poucas vezes aconteceu: Bolsonaro é o norte coerente com as exigências de encaixe de dois brasis: o da utopia igualitária e tolerante à diversidade suprimido pela brutal concentração da renda que coloca 80% da população brasileira na condição da sub-humanidade. Talvez tenhamos encontrado nosso rumo.

Leia ainda: * Pauta conservadora em segundo plano deixa inquieta base aliada de Bolsonaro (Folha).
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