História, cultura, comunicação

Vivendo e aprendendo

Essa apropriação ilegítima dos simbolos nacionais promovida pelo fascismo bolsonarista mostrou ontem sua extrema fragilidade, e eu aprendi mais um pouco sobre a natureza social do imaginário, como se não bastassem os exemplos deixados pela ditadura militar que tentou, nos anos 70, fazer a mesma coisa. O fato concreto é que em torno da seleção de futebol - como de resto em outras manifestações coletivas arraigadas à nossa formação cultural - aglutinam-se disposições políticas de massa que nem sempre se tornam instrumentos da mobilização totalitária, podendo resultar no oposto à sua intenção original.

Isso parece ter ficado evidente no contexto da vitória do Brasil sobre a Sérvia e no extraordinário poder catártico da organização coletiva como instrumento de luta - condições que caminham na contramão do projeto fascista que a vê (a organização coletiva) como instrumento passível da manipulação messiânica. O resultado foi o que se viu em torno da figura mítica construída por Richarlison ao assumir a condução da vitória do Brasil - condução essa rapidamente incorporada pela torcida na sua mais ampla significação democrática.

A lição é esta mesma: inviabilizar a apropriação fascista dos valores coletivos e torcer como se cada um dos signos desses valores fossem, como de fato são, territórios de disputa ideológica e política.

Leia também: * O atleta festejado dentro e fora de campo * Bolsonaristas vaiam vitória do Brasil * Richarlison é o ídolo que os brasileiros merecem depois de tanto sofrimento * Por que 'pombo'?

Richarlison: "Ultimamente, em toda entrevista que eu dou, uma pergunta é certa: ‘Por que você se posiciona?’ Mas talvez o melhor fosse ‘Por quem você se posiciona?’ É muito importante que isso fique claro. As pessoas de onde eu venho não têm voz e nem vez. Poucos, até hoje, procuraram saber o que é importante ou o que falta para que elas vivam melhor. No Brasil é assim, muitos só recebem atenção em época de eleição. Falando nisso, vocês sabem, eu nunca tive um partido político. Para ser sincero, nem me interesso, porque não preciso de um para saber que é errado faltar energia elétrica por 22 dias em um estado inteiro. Ou ainda que é um direito básico ter comida na mesa, saúde, educação e moradia. Também nunca entrei num laboratório. Ainda assim, eu posso dizer a todos que a ciência é a nossa única saída em todos os momentos. Eu vejo isso no meu dia a dia como jogador. Meu corpo precisa da ciência e da medicina para que eu possa fazer o que mais amo. Bom, eu sequer terminei meus estudos. Mas não é necessário um diploma para enxergar que muita gente é intimidada, encurralada e morta pelo racismo todos os dias no Brasil. Li numa matéria que 75% da população pobre é preta, e que 76% das pessoas mortas todos os anos também são pretas. Coincidência? Não precisa ser o rei da matemática para concluir o óbvio. É por isso que todos os dias agradeço a Deus pela oportunidade e por não ter virado estatística. O futebol me salvou! É por isso que eu falo, me posiciono e mostro a minha indignação: pelo mínimo de dignidade e igualdade para todos os brasileiros que não tiveram a mesma sorte que eu* (fonte).

Cem anos de fascismo

Por Jason Stanley, via piauí

Ao longo da história, políticos fascistas atraem o apoio de pessoas que, se questionadas, rejeitariam o rótulo de fascistas; elas só precisam ser persuadidas de que a democracia não mais atende seus interesses.


"Quando os fascistas Camisas Negras marcharam pelas ruas de Roma ao final de outubro de 1922, seu líder, Benito Mussolini, acabava de tomar posse como primeiro-ministro. Embora os seguidores de Mussolini já houvessem se organizado em milícias e começado a aterrorizar o país, foi durante a marcha de 1922, escreve o historiador Robert O. Paxton, que eles “passaram de saquear e atear fogo em QGs locais socialistas, redações de jornais, agências de emprego e casas de líderes socialistas para a ocupação violenta de cidades inteiras, tudo sem enfrentar qualquer oposição do governo” (leia mais)


"Desengano, perspectivas cinzentas para a vida, frustrações de toda a sorte, a irresolução do self, um caldo de cultura que alimenta um rancor que dirige o cotidiano, o outro como inimigo... penso que são esses os ingredientes da subjetividade que transformam o apelo fascista numa narrativa sedutora e catártica. Os textos procuram elucidar esse enigma do capitalismo: um sistema de signos discursivos que cativa pelo seu potencial predador, um ideologia que dá sustentação à racionalidade totalitária." (A sedução fascista, antologia do site)

Vincere!

Um espetáculo deprimente

Bolsonaristas se ajoelham, abraçam quartel, choram, rezam o pai-nosso e colocam sua ignorância a serviço de golpe militar contra Lula

Leia aqui a matéria da Folha

Empresários dão mostras de sua verdadeira vocação espoliadora do povo e insistem na manutenção do teto dos gastos e na redução dos direitos sociais como instrumentos de acumulação de riqueza. O Brasil está diante de uma encruzilhada: ou transforma de cima a baixo as estruturas que o tornaram uma pastagem dos interesses financeiros globais ou se consolida como reduto daquilo que o capitalismo criou de pior.

O sonho do 'mercado'

Em meio ao otimismo despertado pela vitória de Lula, um processo curioso veio à tona: a torcida geral para que os projetos que possam colocar o Brasil entre as nações progressistas que querem construir uma nação democrática embasada na Justiça Social, teve uma única exeção: o muxoxo das elites apoiadas no bolsonarismo civil e militar que querem preservar as injustiças seculares com que se beneficiam, mas em especial os atrasos recentes marcados pelas reformas da previdência, da legislação trabalhista, pelos crimes ambientais, pelas privatiações, pela ação das milícias e tudo o mais que Bolosonaro representou desde 2018, quando fraudou a eleição que o levou ao Planalto.

Duas referências postadas aqui mostram a indignação dessa postura: a lembrança do deputado federal Ivan Valente (PSOL) em resgatar a oposição dos empresários à lei que criou o 13o, em 1962, sob a alegação de que o benefício arruinaria a economia nacional; e a magistral coluna de Janio de Freitas na Folha sob o sentido social dessa elocubração semântica chamada "mercado"- ao qual Lula deveria se submeter. Vale a pena ler os dois textos e divulgá-los amplamente.

No passado, a história como tragédia; agora, a história como farsa

Lula não foi eleito para servir ao mercado (Janio de Freitas)

Ah, que horror! Lula disse que prioritário é acabar com a fome, não a contenção de gasto social, o tal teto de gastos! A Bolsa caiu! Reação imediata do mercado (nome de guerra dos que não produzem, não se incluem na infraestrutura econômica, e ganham no jogo financeiro das Bolsas). E tome de manchetes em primeiras páginas e comentaristas do "mau passo" com que "Lula já começou". Todos sempre reforçando a exigência reiterada pelo mercado: "Lula tem que indicar logo o novo ministro da Economia".

Tem que? Ainda falta ao mercado a informação de que Lula foi eleito para presidir um país de mais de 215 milhões de habitantes, não para servir à camadinha especulativa. A decisão eleitoral completa neste domingo duas semanas, apenas. Nas quais o mercado se fez de inquieto porque este é um método eficaz para acionar o sobe-desce lucrativo da especulação financeira. E de quebra dizer quem manda, para ver no que isso dá. Nenhuma empresa séria depende da urgência de um nome de ministro.

Expoente dos chamados investimentos financeiros, Arminio Fraga deu a Lula, na Folha, a resposta do mercado: "Estabilidade fiscal (...) gera mais investimento e mais crescimento. Simples assim. E (...) aumenta a chance de os recursos beneficiarem os mais pobres". Parece falar de economia, mas é de políticas que trata.

O crescimento não depende necessariamente de estabilidade financeira, e o Brasil tem no inflacionário governo Juscelino um dos seus tantos exemplos de desvario financeiro e crescimento. O governo da mediocridade desleal, de Michel Temer, até criou o "teto de gastos", mas daí não vieram "mais investimento e mais crescimento". Recursos, provenientes de estabilidade ou não, só "beneficiam os mais pobres" se esta for a política do governo. O que só por um breve período aconteceu no Brasil —e nem digo qual.

O batido tema da estabilidade fiscal ao gosto da especulação provocou, afinal, algo positivo. E assombroso. Em discreto pé de página, uma entrevista ao jornal O Globo (11 novembro, pg.12)


Muito reverenciada por seus colegas destacados na imprensa brasileira, carioca que leciona na Johns Hopkins University, Monica de Bolle foi direta e clara desde o início. Sobre a reação do mercado a Lula: "O mercado (...) faz esses movimentos de Bolsa e dólar para ganhar dinheiro. Esses movimentos não querem dizer nada. Os economistas do mercado têm uma visão míope e estão com ela há muito tempo". Eles e os jornalistas que os ecoam.

Mais: "O teto de gastos já não existe há bastante tempo, basicamente desde que foi criado. Foi modificado em praticamente todos os anos do governo Bolsonaro. (...) Foi uma regra fiscal para jogar no lixo. (...) O momento é de revogar e fazer um teto novo".

A complacência utilitária do mercado com Bolsonaro e Paulo Guedes sufocou as reações a desatinos como a PEC Kamikaze, "a coisa mais populista e gastadora" (de Bolle), o orçamento secreto ainda vigente, o gasto eleitoreiro pró-reeleição. E tantas outras causas do rombo já estimado em prováveis R$ 400 bilhões, a ser deixado para o novo governo.

O que deveria inquietar o mercado e o empresariado bolsonarista é o risco decorrente de esperáveis investigações sobre os pagadores de atos golpistas contra o resultado eleitoral. Esses fatos que se espalham pelo país alertam para o rigor necessário à escolha dos futuros dirigentes da Polícia Federal, das demais polícias federais e da Abin. E, mais adiante, de quem restaure a moralidade na Procuradoria-Geral da República.

A coalizão golpista


Lula terá pela frente o maior dos desafios: desratizar o Brasil dos interesses empresariais que promovem a pobreza e lucram com ela

Tudo indica que só uma coisa rivaliza com a torcida pela vitória do Brasil na Copa do Mundo do Catar: a torcida para que Lula - com a eleição consolidada nas urnas e com o fracasso do golpe planejado por Bolsonaro e seus seguidores civis e militares - reconduza o país à normalidade constitucional e democrática e nos livre da herança maldita do nazifascismo-rascista que vamos ter que aguentar até 31 de dezembro. Nessa figa coletiva que a sociedade faz, acompanhando passo a passo as reuniões da transição e já dando como certa a aprovação de medidas de impacto social previstas para o início do novo governo, só há uma exceção: a oposição que o empresariado fará - com suas disposições criminosas de sempre - a quaisquer mudanças nas práticas econômicas que vêm sendo adotadas desde o golpe do impeachment em 2016: a reforma trabalhista e o teto dos gastos públicos. Vale a pena acompanhar a movimentação dessa turma para que fique claro, de uma vez por todas, quem são os inimigos do país...

Brasil em transe

O transe coletivo de apoiadores de Bolsonaro após sua derrota nas urnas produziu uma série de ações como resposta ao sofrimento inscrito na estrutura neurótica: sofrimento que advém, neste caso, do déficit entre a realidade dos fatos e a psíquica (leia mais)

Antologia da vitória

Lula nos braços do povo pela terceira vez: significados e riscos

2022: derrotados e vencedores

  • Luiz Felipe de Alencastro: Como a eleição brasileira se conecta com o mundo

Vitória de Lula enterra 2013

  • Wilson Gomes: O campo democrático fecha 2013 e põe a história nos trilhos

O fascismo será derrotado

  • Druck e Filgueiras: Movimento está aqui, mas precisa ser destruido

O que querem os empresários?

  • Arquitetos da pobreza pressionam Lula para não mexer na reforma trabalhista

Como ficam os militares depois da vitória de Lula

  • DW: Apesar da história, Lula quer distância dessa turma


Direita quer enquadrar Lula e promover 3o e 4o turnos

  • A Terra é redonda: bolsonaristas vão continiuar aprontando


O bolsofascismo brasileiro contra a justiça social

  • Bolsonaro é modular e representa o fascismo no século XXI

Amotinados frente aos quarteis cometem crime contra a democracia

  • Punição rigorosa para os que rejeitam vontade popular

Bolsonaro: que o esquecimento lhe seja leve

Governo de Bolsonaro termina em ato de covardia institucional

Igor Gielow, Folha de S. Paulo


O presidente Jair Bolsonaro (PL) encerrou seu governo na prática nesta tarde de terça (1º) com um ato de covardia institucional, para ficar próximo da pior sigla da ditadura que enalteceu de várias formas ao longo de sua gestão.


Convocou sem ênfase o fim de protestos em rodovias por parte de uma franja de seus apoiadores que acredita que coisas como intervenção militar para negar a derrota por margem mínima sofrida para Luiz Inácio Lula da Silva (PT).


Agradeceu os mais de 58 milhões de votos que teve, mas não reconheceu a vitória do adversário. Deixou para um encabulado, se a palavra se aplica, Ciro Nogueira (Casa Civil) o papel de dizer que irá começar a transição de governo com o vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin (PSB).


Ou seja, admitiu a derrota sem ter a hombridade de fazê-lo. Novamente, seguiu a cartilha deixada por seu modelo político, o ex-presidente americano Donald Trump. Em novembro de 2020, o republicano demorou uma semana após a proclamação do resultado da eleição para, a seu estilo, postar no Twitter que Joe Biden havia ganho a eleição (continue a leitura)

A armação de Bolsonaro para negar a derrota nas urnas e escapar da prisão

O capitão criou uma teia que acabou por aprisioná-lo: rejeitado em toda a parte pelos desmandos criminosos que cometeu, imaginou jogar os trunfos que acumulou em quatro anos de 'governo' para mobilizar seus apoiadores de forma incondicional. Errou feio. A vitória de Lula mostrou uma sociedade ainda enérgica e disposta a fazer valer seus direitos e vontade sobre o impulso totalitário do fascismo. Vão pagar caro todos os que apostaram nessa aventura.


Lula presidente!

População ocupa as ruas e deve enterrar fascismo bolsonarista


Vitalidade democrática inédita na história brasileira: Fora Bolsonaro!

Por quem somos?

Ipec indica empate técnico em SP: Tarcísio, 46%; Haddad, 43%

Por que Bolsonaro é incancelável

Como os conservadores, que defendem valores familiares

tradicionais, se encantaram com um homem agressivo e desrespeitoso

Pablo Ortellado e Marcio Moretto (piauí)


Como é que um homem sórdido, abjeto e indecoroso como Jair Bolsonaro se tornou a principal liderança do conservadorismo brasileiro? Como é que conservadores, que defendem a decência e os valores familiares tradicionais, se encantaram com um homem agressivo, bruto e desrespeitoso? O estranhamento não é só brasileiro. Os americanos também se perguntam como os conservadores de lá puderam se deixar seduzir por Donald Trump, que tem os mesmos vícios. Enquanto os brasileiros se perguntam como seus conservadores podem admirar um homem que diz que usava verba de gabinete “para comer gente”, os americanos se questionam como seus conservadores podem respeitar um homem que disse que certas mulheres “pegamos pela boceta”. A explicação parece estar na cultura do cancelamento e do politicamente correto que os conservadores tão ardentemente repudiam (continue a leitura)

afinidades eletivas

À semelhança do processo químico que explica a atração mútua entre elementos de uma mesma natureza estrutural, esse retorno ao 'bom' convívio entre Bolsonaro e Sérgio Moro é uma amostra do novo tipo de ética que o fascismo brasileiro erigiu em norma política. Aqui, no entanto, a metáfora de Goethe pode encontrar uma outra referência: a da atração mútua entre vermes, o predador e sua vítima - ambos aproximados pela identidade do caráter fétido de suas personalidades. Vale a pena, por isso, um mergulho nas análises feitas em torno das imagens colhidas pela imprensa no debate entre Lula e Bolsonaro ocorrido no último dia 16 de outubro, um palco de performances de todo o tipo: do coro aos heróis e dos anti-heróis à observação do protagonista ausente, o povo brasileiro, vítima dessa imensa conspiração. Sugiro a leitura das matérias lincadas ao lado:

2022: entre barbárie e democracia

Entrevista de Bresser-Pereira no IHU


A luta de classes será geossocial

Artigo de Bruno Latour no IHU

Damares é a face apenas insinuada da maré de dejetos orgânicos bolsonaristas que espalha esse cheiro insuportável pelo país. Transformar a surpresa em indignação e resistência é a tarefa do povo brasileiro no 2o turno. Lula presidente!


Professoras e professores na reflexão de Valter Hugo Mãe

Achei por muito tempo que ia ser professor. Tinha pensado em livros a vida inteira, era-me imperiosa a dedicação a aprender e não guardava dúvidas acerca da importância de ensinar. Lembrava-me de alguns professores como se fossem família ou amores proibidos. Tive uma professora tão bonita e simpática que me serviu de padrão de felicidade absoluta ao menos entre os meus treze e os quinze anos de idade.

Estragar os nossos miúdos é o fim do mundo. Estragar os professores, e as escolas, que são fundamentais para melhorarem os nossos miúdos, é o fim do mundo.

A escola, como mundo completo, podia ser esse lugar perfeito de liberdade intelectual, de liberdade superior, onde cada indivíduo se vota a encontrar o seu mais genuíno, honesto, caminho. Os professores são quem ainda pode, por delicado e precioso ofício, tornar-se o caminho das pedras na porcaria do mundo em que o mundo se tem vindo a tornar.

Nunca tive exatamente de ensinar ninguém. Orientei uns cursos breves, a muito custo, e tento explicar umas clarividências ao cão que tenho há umas semanas. Sinto-me sempre mais afetivo do que efetivo na passagem do testemunho. Quero muito que o Freud, o meu cão, entenda que estabeleço regras para que tenhamos uma vida melhor, mas não suporto a tristeza dele quando lhe ralho ou o fecho meia hora na marquise. Sei perfeitamente que não tenho pedagogia, não estudei didática, não sou senão um tipo intuitivo e atabalhoado. Mas sei, e disso não tenho dúvida, que há quem saiba transmitir conhecimentos e que transmitir conhecimentos é como criar de novo aquele que os recebe.


Os alunos nascem diante dos professores, uma e outra vez. Surgem de dentro de si mesmos a partir do entusiasmo e das palavras dos professores que os transformam em melhores versões. Quantas vezes me senti outro depois de uma aula brilhante. Punha-me a caminho de casa como se tivesses crescido um palmo inteiro durante cinquenta minutos. Como se fosse muito mais gente. Cheio de um orgulho comovido por haver tantos assuntos incríveis para se discutir e por merecer que alguém os discutisse comigo. Disse que eu estava muito certo. Iluminei-me todo, não por ter sido o mais rápido a descortinar aquela solução, mas porque tínhamos visto imagens das estátuas mais deslumbrantes do mundo e eu estava esmagado de beleza. Quando me elogiou a resposta, a minha professora contente apenas me premiou a maravilha que era, na verdade, a capacidade de induzir maravilha que ela própria tinha. Estávamos, naquela sala de aula, ao menos nós os dois, felizes. Profundamente felizes.

Talvez estas coisas só tenham uma importância nostálgica do tempo da meninice, mas é verdade que quando estive em Florença me doíam os olhos diante das estátuas que vira em reproduções no sétimo ano da escola. E o meu coração galopava como se tivesse a cumprir uma sedução antiga, um amor que começara muito antigamente, se não inteiramente criado por uma professora, sem dúvida que potenciado e acarinhado por uma professora. Todo o amor que nos oferecem ou potenciam é a mais preciosa dádiva possível.

Dá-me isto agora porque me ando a convencer de que temos um governo que odeia o seu próprio povo. E porque me parece que perseguir e tomar os professores como má gente é destruir a nossa própria casa. Os professores são extensões óbvias dos pais, dos encarregados pela educação de algum miúdo, e massacrá-los é como pedir que não sejam capazes de cuidar da maravilha que é a meninice dos nossos miúdos, que é pior do que nos arrancarem telhas da casa, é pior do que perder a casa, é pior do que comer apenas sopa todos os dias.


Estragar os nossos miúdos é o fim do mundo. Estragar os professores, e as escolas, que são fundamentais para melhorarem os nossos miúdos, é o fim do mundo. Nas escolas reside a esperança toda de que, um dia, o mundo seja um condomínio de gente bem formada, apaziguada com a sua condição mortal mas esforçada para se transcender no alcance da felicidade. E a felicidade, disso já sabemos todos, não é individual. É obrigatoriamente uma conquista para um coletivo. Porque sozinhos por natureza andam os destituídos de afeto.

As escolas não podem ser transformadas em lugares de guerra. Os professores não podem ser reduzidos a burocratas e não são elásticos. Não é indiferente ensinar vinte ou trinta pessoas ao mesmo tempo. Os alunos não podem abdicar da maravilha nem do entusiasmo do conhecimento. E um país que forma os seus cidadãos e depois os exporta sem piedade e por qualquer preço é um país que enlouqueceu. Um país que não se ocupa com a delicada tarefa de educar, não serve para nada. Está a suicidar-se. Odeia e odeia-se.”

Valter Hugo Mãe é escritor, editor e artista plástico, cursou pós-graduação em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea na Universidade do Porto. Possui livros publicados de poesia, contos e narrativa longa, romances. Em 2007, recebeu o Prêmio Literário José Saramago com o seu segundo romance, O remorso de baltazar serapião

No Rio de Janeiro, a milícia do governador bolsonarista Cláudio Castro comemora o Dia das Crianças: episódio registra a essência verminosa da ideologia de direita no Brasil (video postado no twitter por Sérgio Barreto e transcrito para o blog via youtube)

Carta Compromisso da Chapa 1 para as eleições do Sindicato dos Professores de São Paulo (SinproSp): documento histórico sobre a luta por una educação que emancipe a sociedade brasileira

Definição do 2o turno pode decidir o Brasil que queremos para o próximo século: ou a estupidez bolsonarista ou o Estado Social

Uma família de ladrões governa o Brasil. Leia e divulgue o livro de Juliana Dal Piva sobre as origens do patrimônio dos Bolsonaro: um segredo em sigilo pelos próximos 100 anos

A Folha de sempre

Demorou, mas finalmente a Folha de S. Paulo abriu o jogo e decidiu proclamar, ainda que envergonhada, sua simpatia pela mais daninha corrente política que já atingiu a sociedade brasileira: sem qualquer prurido, em três editoriais deste domingo (9 de outubro), o jornal da Barão de Limeira repete a vilania que exibiu durante o golpe de 64 e pondera com seus leitores sobre os riscos de uma virada democrática caso Lula, Haddad e Moraes emplaquem os princípios que os tem caracterizado nesta etapa de resistência ao fascismo em que o Brasil vive. Vale a pena ler os 3 textos e concluir de sua narrativa ardilosa e sem fundamento a decisão a ser tomada pelos eleitores no próximo 30 de outubro. Como ilustração dessa armadilha ideológica em que o jornal se debate, vale a pena ler o artigo de Cristina Serra: Lula, o mercado e a Folha.

Dignidade posta à prova

"Neste segundo turno voto por uma história de luta pela democracia e inclusão social. Voto em Luiz Inácio Lula da Silva" (FHC). Temer e Tebet ficam com Lula.

Ipec: Lula, 55%; Bolsonaro, 45%

Propaganda fascista minimiza vitória de Lula no primeiro turno: rejeição a Bolsonaro é 10% maior que a de Lula. (leia mais).

Mídia deve assumir seu papel na naturalização da extrema-direita no Brasil

Leia Milly Lacombe, Folha

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