sexta-feira, 7 de maio de 2021

O Brasil ocupado - parte II

O cheiro da morte

Um país de covardes (Lygia Jobim, Carta Maior)
O que nos faz aceitar sermos a chacota do mundo e o gozo de um psicopata 
O Brasil é hoje um país fétido. Não é apenas o pária rejeitado no cenário internacional pelas políticas sanitárias criminosas que já provocaram a morte de mais de 400 mil pessoas; é também o reduto de um bando que está pondo em prática um processo meticuloso de extermínio, uma espécie de limpeza étnico-social que dá acabamento ao serviço que o covid-19 não consegue concluir. O cheiro disso é o cheiro fétido e insuportável da morte.

Os relatos do que aconteceu em Jacarezinho exibem a ação de verdadeiros esquadrões cuja existência vem sendo alimentada na mesma medida e em perfeita sincronia com a construção de uma sociedade onde a pobreza vive associada a um segregacionismo agora revelado abertamente e aos tiros. Tudo isso como consequência de um projeto de dominação das mesmas elites que usurparam o Estado em golpes sucessivos, de Temer a Bolsonaro. Só não vê isso quem, por covardia ou má fé, acredita que os mortos estão mortos porque são bandidos, numa argumentação incivilizada que pauta o discurso dos aparelhos da dominação fascista.

Não há síntese capaz de dar conta dos desdobramentos desse processo. Reúno nesta postagem alguns textos que sinalizam para as possibilidades de uma revolta civil e para a resistência dos mecanismos normativos que se localizam na esfera jurídica e legislativa, mas será preciso a mobilização popular para resgatar o país.

sábado, 1 de maio de 2021

terça-feira, 27 de abril de 2021

Sem saída

Pobreza extrema é o custo do desmonte do Estado brasileiro 

O projeto da burguesia golpista para o Brasil é o que se vê na foto: a proteção dos interesses privados dos empresários é paga com o custo da pobreza extrema dos brasileiros

Curiosamente, uma das melhores análises feitas sobre o beco sem saída em que se encontra a economia brasileira foi publicada hoje no Estadão e leva assinatura do professor Felipe Salto. Digo curiosamente porque os textos que falam sobre o assunto no jornal dos Mesquita invariavelmente defendem a política de uma suposta austeridade orçamentária - o teto dos gastos - como o caminho da retomada dos investimentos. Em resumo: quanto menor o tamanho do Estado maior será o impulso 'natural' do mercado na dinamização da economia.

Para Felipe Salto, no entanto, a redução dos gastos públicos num país de fraco nível de acumulação e reduzidos índices de inovação e de produtividade, como acontece no Brasil, a desmontagem do Estado tem o efeito oposto: a recessão generalizada que se abate sobre o mercado interno e que fragiliza toda a economia. Não dá para escapar da frase feita: o remédio mata o doente. Vale a pena ler o artigo de Salto:  O desmonte do Estado brasileiro.

Leia ainda: * O retorno da fome ao Brasil está no centro de interesses econômicos e políticos (IHU) * Um pé de cabra para resgatar o Brasil (Outras Palavras).

segunda-feira, 26 de abril de 2021

A imitação da arte

Cidades brasileiras abandonadas reproduzem a ficção de Nomadland, o filme vencedor do Oscar 2021
 (Reportagem do G1: leia aqui)
Nomadland não é um grande filme (Luiz Zanin Oricchio, Estadão)
A América redescoberta (José Geraldo Couto, Outras Palavras)

domingo, 25 de abril de 2021

De onde vem o perigo? (atualização)

Fenômeno dos anos Lula, classe c afunda aos milhões e cai na miséria

Matéria publicada no G1 (leia aqui) dá conta do processo de definhamento dos padrões de vida de vários segmentos da sociedade brasileira, em especial dos estratos comumente chamados de 'médios'. Na verdade, trata-se do resultado da crise econômica global de 2008, agravado agora com o colapso geral provocado pela pandemia. Os efeitos mais visíveis dessa deterioração da renda -  e das expectativas simbólicas que o sistema capitalista alimenta por todo o tecido social - são sentidos mais fortemente nos setores médios - o locus do arrivismo conservador e autoritário - que reage de forma antidemocrática ao menor sinal de risco que possam sofrer seus paradigmas ideológicos.

É claro que as consequências materiais da crise são mais sentidas na classe que a reportagem chama de "baixa", mas é na "classe média tradicional", pelo peso que ela tem na formatação da esfera pública midiatizada, que esses efeitos são mais perceptíveis e mais proclamados, em especial pela forma espetacularizada com que a crise afeta suas perspectivas. Os segmentos "inferiores" da pirâmide social brasileira, de qualquer forma, tiveram mitigados - ainda que de forma efêmera -  os resultados da crise também como consequência das políticas de ajuda emergencial implementadas durante a pandemia.

Com a classe média isso não ocorre. Espremida entre os extremos da pirâmide e ameaçada pelo rebaixamento de sua proletarização, esse estrato atribui invariavelmente à "desordem da democracia", à "corrupção", ao "estado" e à "proliferação dos direitos sociais" as causas do seu estrangulamento. E reage à altura dessa simplificação: o melhor remédio que possa salvá-la disso tudo é a ditadura. Não será a primeira vez que isso ocorre no Brasil (no mundo também) e certamente não será a última. Os exemplos de 1964, 1968, 1989, 2015-2016 e 2018 são suficientes para que se perceba o quanto a fragilidade da democracia fica exposta à adesão à ruptura institucional como o caminho para escapar da crise... 

A repercussão das últimas decisões do STF - relativas a Lula e à formação da CPI da pandemia - já mostram os primeiros sinais dessa reação, especialmente nos espaços ultraconservadores que repercutem a 'indignação' de que o bolsonarismo (o programa do fascismo brasileiro) lança mão para mobilizar os segmentos que estão dipostos ao golpe para inviabilizar a retomada da democracia no Brasil. Nesse sentido, vale a pena observar a conversão à direita que alguns jornais comprometidos com o golpe contra Dilma Rousseff já manifestam em matérias e editoriais, a exemplo do Estadão de hoje (17 de abril).

Penso que contra essa construção totalitária só há um caminho: a radicalização da luta pelo afastamento imediato da dupla Bolsonaro-Mourão do governo, a formação de um governo de salvação nacional e a convocação de eleições gerais.