Argentina à deriva: desordem neoliberal põe democracia em risco

Argentina: pode ser o fim do pesadelo Milei?

Um milhão de estudantes vão às ruas, nos maiores protestos contra o presidente. Como sua política de neoliberalismo extremo destroça direitos, favorece o agro exportador e forja um país com preços europeus e salários miseráveis?

# Leia mais em Outras Palavras, no GGN e em A Terra é redonda

Estudantes protestaram contra cortes no orçamento das universidades públicas promovidos pelo governo Milei e teve público de 500 mil pessoas, segundo a Universidade de Buenos Aires (G1)

Meios de Comunicação da Argentina se dobram a Javier Milei

Sylvia Colombo, Folha

Grandes conglomerados exaltam descaradamente presidente ultraliberal, cuja gestão cravou 20,6% de inflação em janeiro 

Há alguns dias, o diretor da prestigiada publicação dos Estados Unidos Americas Quarterly, Brian Winter, escreveu em sua conta na plataforma X: "Estou achando difícil acompanhar os eventos na Argentina. Existem tantos jornalistas argentinos verdadeiramente extraordinários, mas o estilo sempre foi discursivo, quase literário. Na era Milei, as coisas estão se movendo tão rápido que às vezes você só quer as notícias. Os repórteres de lá, como em qualquer lugar, estão lidando com pressões financeiras extremas e menos recursos para reportagens verdadeiras. A maioria das mídias também tem sua 'perspectiva'."

Difícil não concordar com Winter, grande conhecedor da Argentina e do Brasil. Até mesmo os jornalistas baseados na própria Argentina vêm sofrendo com a falta de transparência do governo Javier Milei e com decisões que vão e vêm a cada tanto.

O presidente da Argentina, Javier Milei, em viagem a Jerusalém - Ammar Awad - 7.fev.2024/Reuters

Além disso, se já era uma tradição ter pouco jornalismo realmente investigativo no país, a imprensa independente vem padecendo por falta de recursos, a mídia estatal está sob intervenção por um ano e Milei tem a intenção de privatizar a TV Pública, a agência de notícias Télam e a Rádio Nacional.

O que tem sido um tanto constrangedor, porém, é o comportamento dos grandes conglomerados de mídia, que passaram, nestes dois meses de gestão, de "normalizar" Milei a exaltar descaradamente o mandatário, cuja gestão cravou 20,6% de inflação no mês de janeiro e começou uma guerra com os governadores das províncias, dos quais cortou repasses e subsídios.

Na última semana, Milei foi novamente entrevistado pelos mesmos jornalistas de TV que o entrevistam sempre. Três aduladores que não fizeram uma só pergunta complicada. Ao longo da semana, em seus respectivos programas, todos reproduziram o que disse o presidente e reforçaram sua visão e suas frases. Esses são do canal televisivo do La Nación.

Já o Todo Notícias, que pertence ao grupo Clarín, também fez seus movimentos para ter jornalistas pró-Milei em seu plantel, como Jonatan Viale. Desde a campanha, ambas as emissoras vêm reforçando suas coberturas de casos de roubo e falta de segurança, pintando a periferia de Buenos Aires como se fosse uma Medellín dos anos de Pablo Escobar. As taxas de homicídio argentinas são muito mais baixas do que as de países como Brasil e México.

Quando Winter fala de "perspectivas" está praticamente usando um eufemismo. Trata-se de uma tomada de posição mesmo. O que acontece na "Argentina real" é assunto quase que apenas de programas de viagens, que mostram o que há de pitoresco nas províncias.

Milei decidiu que, todos os dias, seu porta-voz, Manuel Adorni, faça declarações dos feitos do governo, mais ou menos como faz Andrés Manuel López Obrador no México.

As "mañaneras" do país do norte são tediosas, propagandísticas e com pouco espaço para perguntas dos jornalistas. As de Adorni são marcadas pela soberba, e com respostas sempre preparadas para perguntas mais inconvenientes. São mais para proteger o governo do que para esclarecer de fato o que vem ocorrendo.

Como dizia o escritor Tomás Eloy Martínez (1934-2010), a Argentina nunca tinha se recuperado da diáspora de excelentes jornalistas da imprensa escrita que tiveram de se exilar nos anos 1970, primeiro por conta da Triple A (esquadrão da morte criado ainda durante os governos de Perón e Isabelita) e depois por conta da própria ditadura militar (1976-1983). Martínez, ele mesmo obrigado ao exílio na Venezuela, continua tendo razão nesse quesito.

Há, obviamente, exceções, mas na imprensa escrita predomina o colunismo e faltam reportagens. A frustrada "lei ônibus", que Milei quis aprovar às pressas e depois mudou de ideia, retirando-a quando já estava praticamente aprovada, chegou ao público em geral quase sem explicações e com muita desinformação sobre seu conteúdo. A imprensa, aí, também falhou no didatismo ao não explicar o documento de forma clara e objetiva.

A situação só tende a piorar, considerando que o próprio Milei já demonstrou que não precisa desses meios tradicionais e fala diretamente com seus apoiadores pelas redes.

Posse de Milei reúne dejetos da extrema-direita internacional e antecipa forte ameaça à democracia na Argentina (expandir)

Indulto a quem comete crimes contra a Humanidade é uma afronta à democracia

Syvia Colombo, Folha

Vice de Milei, negacionista da ditadura, tenta abrandar penas de repressores condenados mas volta a mirar civis


Usted dijo perpetua" (você disse perpétua). É assim que, em "O Segredo dos Seus Olhos", o personagem Ricardo Morales (Pablo Rago) justifica a Benjamin Espósito (Ricardo Darín), o fato de ter feito justiça por conta própria e de ter mantido em cativeiro, por décadas, o assassino de sua esposa, que depois de ser preso e condenado, foi simplesmente liberado por ser membro da Triple AAA (o esquadrão da morte peronista).

O cinema não funciona como a Justiça. Mas sempre me lembro dessa passagem do vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2010 quando ouço vozes a pedir anistias, prisões domiciliares por idade ou doença, ou simplesmente a liberdade pura e simples para os que cometeram crimes hediondos, contra a humanidade, como os que Morales, ainda como oficial menor, realizava. Durante os anos 1970, além de suas tarefas, por diversão, também estuprava também moças inocentes.

Alberto Fujimori com seus filhos, ao sair da prisão em Lima - Mariana Bazo - 6.dez.23/Xinhua

Na última semana voltou-se a discutir a saída ou não da prisão do provecto ex-ditador peruano Alberto Fujimori, 85. É certo que sua condenação jamais disse "perpétua", mas sobre ele pesam penas como as de 25 anos por abusos de direitos humanos (massacres de La Cantuta e Barrios Altos, além de sequestros), mais seis anos por corrupção e, o que é pior, as centenas de milhares de denúncias sobre as quais jamais respondeu e que continuam em aberto na Justiça peruana.

Vem à minha memória, numa tórrida tarde de Piura, a conversa que tive com Victoria Vigo. Em abril de 1996, durante a gestação de seu terceiro filho, ela foi a uma clínica e ouviu as seguintes palavras: "Seu filho morreu e você foi esterilizada".

"Não tinham pedido permissão nem sequer a meu companheiro para o procedimento", contou, em seu espanhol precário —seu idioma do dia a dia era o quéchua.

Ela e outras 250 mil mulheres pedem ainda hoje o julgamento por essas esterilizações forçadas impostas pelo regime de Fujimori numa política de "planificação familiar" para "combater a pobreza". O caso dessas mulheres é um processo pendente contra o ex-ditador. Alegações de má saúde o mantiveram longe de ter que responder às evidências que a Justiça peruana já tem amontoadas. Por enquanto.

Não por acaso isso me vem à tona agora, em Buenos Aires, às vésperas da chegada de Javier Milei à Presidência.

Sua vice, Victoria Villarruel, é uma negacionista da violência do Estado e prefere acreditar que, se não fossem os militares, os montoneros tomariam o poder. A tese é comprovadamente falsa, pois nem Montoneros nem o Exército Revolucionário do Povo (ERP) ocuparam território ou cometeram atentados que abalassem o poder.

Na ESMA, centro de torturas da ditadura argentina, morreram apenas dois guerrilheiros, em fuga. Ali dentro, milhares foram torturados, mulheres pariram no cárcere para verem seus filhos entregues aos militares antes de serem assassinadas.

Villarruel pede indultos e prisões domiciliares a repressores idosos, quer indultar a todos e julgar crimes de civis que já prescreveram há décadas. A vice de Milei, que é advogada e deveria saber isso de cor, está ciente de que um crime cometido pelo Estado não prescreve, mas segue ocorrendo todos os dias. Crimes de um civil têm prazo de validade.

Quem assistiu a "Argentina, 1985" viu apenas os julgamentos dos generais, mas essa não é toda a história. Os juízes promoveram, no tempo jurídico em que isso era o correto, julgamentos de guerrilheiros, e houve muitas prisões.

Villarruel, agora vice-presidente da República, está prestes a armar uma guerra contra o que de mais valioso a Argentina construiu em seus 40 anos de democracia. Em resposta a esses projetos de liberar repressores, deveriam valer as palavras do personagem de Rago: "Vocês disseram perpétua".

A derrota do peronismo

Flávio Lazzarin, IHU

"Parece que os partidos progressistas ainda não aprenderam a reconhecer o quanto as sociedades latino-americanas mudaram. Confrontados com uma mentalidade generalizada, que esquece as ditaduras corporativo-militares, a violência colonial e chega a considerar aceitáveis ​​os delírios da extrema direita, eles não reagem adequadamente e perdem-se na repetição acrítica de práticas e narrativas obsoletas", afirma Flávio Lazzarin, padre italiano fidei donum que atua na Diocese de Coroatá e agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), em artigo publicado por Settimana News, 27-11-2023.


Eis o artigo.

“O poder desgasta quem não o tem”: o aforismo do bispo e diplomata Charles Maurice de Talleyrand, o mais famoso transformador múltiplo da modernidade, foi retomado dois séculos depois por Giulio Andreotti.


Como é que, ao testemunhar o resultado das eleições presidenciais argentinas, me lembro do aforismo de Andreotti? Porque não consigo refletir sobre a vitória de Javier Milei, mas, pelo contrário, a pesada derrota do peronismo continua a atormentar-me. E então me pergunto se o poder realmente desgasta aqueles que não o têm ou se, em vez disso, o aforismo deveria ser substituído por um provérbio muito mais antigo: “mais cedo ou mais tarde os problemas voltam para a casa”. No final, o poder desgasta até mesmo aqueles que o possuem.


Depois de oitenta anos, o Partido Justicialista sobrevive enfraquecido à derrota eleitoral ou já deveríamos considerá-lo uma doença terminal? Terá o regresso da esquerda ao poder, depois da trágica experiência das ditaduras corporativo-militares, terminado definitivamente? A Argentina está dizendo ao Brasil e a todas as nações que o que acontece lá é um destino condenado para todas as pessoas? Como dizem aqui no Brasil: «Eu sou você amanhã» (Hoje eu sou, você amanhã).


Acredito verdadeiramente que estamos a assistir à revelação da incapacidade radical da esquerda global para enfrentar com sucesso a ofensiva da extrema direita, aparentemente antissistema e, de fato, ao serviço do capitalismo anômico e beligerante.


E, se esta hipótese for plausível, devemos realmente preocupar-nos não só com o aumento da violência estatal, mas sobretudo com a impotência prática e teórica da oposição.


Diagnosticar a morte política do kirchnerismo pode ser prematuro, porque os peronistas têm um número significativo de senadores e deputados eleitos em 2023 e, além disso, elegeram com os seus aliados os governadores de oito províncias – incluindo a mais importante, a de Buenos Aires. Estes números certamente criarão dificuldades políticas ao poder de Milei.


Mas apesar destes dados, o contexto argentino – em que a oposição não parece ter sido mortalmente ferida – repete-se, fazendo as devidas distinções, no Brasil, no Peru, no Equador e no Uruguai.


Obviamente, são crises diferentes, sofrimentos sociais específicos, percursos políticos distintos. Por esse motivo, a identificação de Milei com Bolsonaro não é aceitável. Consideremos, por exemplo, quão importante é o apoio dos militares, evangélicos e católicos tradicionalistas para Bolsonaro no Brasil e como esta composição não aparece no eleitorado de Milei. Ou como, apesar da agressividade de Milei durante a campanha eleitoral, ao contrário do Brasil, não houve uma avalanche digital de fake news, nossas farsas, para manipular o eleitorado.


Somos, no entanto, obrigados a pensar que existe uma sintomatologia comum: na verdade, tanto a direita convencional de Lacalle Pou no Uruguai, como a extrema direita de Bolsonaro no Brasil e Milei na Argentina, de Daniel Noboa no Equador, de Dina Boluarte no Peru, germinam e explodem a partir da crise dos governos progressistas ou de esquerda. O erro da esquerda, no final das contas, é sempre o mesmo: montar estratégias neoliberais com descontos e correções populares. Mais cedo ou mais tarde a aposta não funciona e o que resta é a violência predatória e desenfreada do capital.


Nessas sociedades, a luta dos movimentos sociais não alinhados, em favor dos direitos ambientais, da vida e dos territórios dos povos originários e dos agricultores, contra o agronegócio e a mineração, contra a comercialização da natureza, é bastante reduzida. Experiências agroecológicas e antipatriarcais. Contra o capital.


E parece que os partidos progressistas ainda não aprenderam a reconhecer o quanto as sociedades latino-americanas mudaram. Confrontados com uma mentalidade generalizada, que esquece as ditaduras corporativo-militares, a violência colonial e chega a considerar aceitáveis ​​os delírios da extrema direita, eles não reagem adequadamente e perdem-se na repetição acrítica de práticas e narrativas obsoletas.


Esta mudança nas subjetividades populares, que introjetam a loucura da extrema direita, hoje também desafia duramente o catolicismo argentino. Não se trata, em primeiro lugar, das graves ofensas de Milei contra o Papa Francisco ou das recentes reconciliações após a vitória eleitoral. Trata-se sobretudo do que acontece nos bairros e vilas, tradicionalmente católicos, que, como em La Cava e San Isidro, votaram a favor de Milei.


Talvez até a Igreja argentina, surpreendida pelas escolhas políticas dos seus fiéis, esteja a viver o mesmo impasse que os peronistas e a esquerda. Devemos, novamente, como sempre, perseverar na companhia do Espírito e exercer o poder da Profecia.

Início e fim de um homem intratável e triste: o personagem Javier Milei
Julian Fucks, ECOA, Uol

# Leia o texto original em Ecoa

Um homem intratável e triste vive só, com seus quatro cães. Desde a infância afastou-se dos pais, nunca cultivou amizades. Há alguns anos perdeu seu único amigo, Conan, um mastim inglês que o acompanhava a cada noite numa taça de champanhe. Não quis ficar de todo só quando Conan morreu, por isso o clonou em quatro novos mastins, que agora dominam sua sala inteira. Dividiu entre eles o território, prendendo-os em correntes cravadas com ganchos no chão. São cachorros grandes, fortes, agressivos às vezes. Há pouco um deles se soltou e atacou o outro, o homem meteu-se no meio e fez-se alvo dos cães, sofrendo uma mordida severa no braço esquerdo.

Quanto mais brutos se tornam seus cães, mais brutos se tornam os humores e as ideias do homem, mais bruto se torna o homem. Uma década atrás não passava de um acadêmico ameno, embora adepto de noções estúpidas e caducas, como a injustiça dos direitos e a inutilidade dos governos. Agora, inspirado pelos cães, que ele passou a ouvir através de intervenções mediúnicas e a tomar como seus conselheiros, fez-se sujeito raivoso e grosseiro. Late agressivamente em suas aparições públicas, cada vez mais frequentes. Por sua capacidade única de gerar constrangimento, é o convidado favorito de escandalosos programas televisivos, que com sua presença incômoda ganham audiência.

O homem intratável e triste poderia seguir só, seria seu destino mais razoável. Mas tem agora uma horda de adoradores intratáveis e tristes que riem dele, e riem das vítimas de suas mordidas ferozes e de seus latidos estridentes. O homem agora tem um projeto político: somou ao anarcocapitalismo propostas ainda mais estúpidas e caducas, incorporou o sumo do ódio, do machismo, do racismo, do elogio às armas e às ditaduras assassinas — sim, sua própria contradição não o preocupa tanto. O homem elegeu-se deputado e levou aos palanques os conselhos de seus cães. Há uma semana obteve sua máxima conquista: foi eleito presidente de seu pobre e instável país, o pobre país que dá origem ao narrador desta história.

Esqueça-se por ora o tempo apressado, a trama extravagante, a improbabilidade desse clímax, esqueçam-se outros elementos precários da composição literária: aqui estamos diante de um estrondoso personagem. Javier Milei é seu nome, comum e verossímil como tantos outros, embora em sua língua o nome insinue o poder por que ele quer se reger: minha lei. Um personagem, um ser imaginário saído da mente de outro ser, que no entanto pode provocar pavor ou encanto naqueles que o contemplam, que por um momento nele creem.

Um personagem central, terrível anti-herói, um homem sem nenhuma virtude em torno do qual a narrativa trágica há de se revolver. Um personagem plano, extremo, caricato, sem profundidade psicológica, e por isso de assimilação fácil por um público vasto, ávido por uma história simples e ágil, mesmo que brutal. Capaz, assim, de atrair atenções e gerar envolvimento, de fazer sentir que em torno dele gravitam todos os acontecimentos. Por isso caberia a ele sanar os problemas do mundo em que estamos imersos, como ele acredita, como acreditam seus eleitores, seus leitores. Eis o universo do romance: nele lemos o confronto entre o herói profundamente problemático e a realidade em disrupção perpéetua.

O problema, aqui, é que a realidade vai além daquela impressa nas páginas dos livros ou novelada nos programas escandalosos. A narrativa trágica e envolvente não existe para entreter, e sim decide o destino concreto de um povo e de um país — como já tem ferido o destino de povos pelo mundo inteiro. E então será preciso romper o pacto ficcional, será preciso romper qualquer encantamento com a história e já não desejar nenhum ansiado desfecho: nem que o homem vença o riso e o horror e triunfe contra seus inimigos, subjugando-os para sempre; nem que seja devorado vivo por seus cães.

Nisso talvez se veja o maior desafio ao exercício atual da política, num tempo de personagens estrondosos e narrativas extravagantes. Deixar de se reger pelo assombro e resistir no apego à máxima lucidez. Tentar devolver os homens intratáveis e tristes à sua condição de homens, não mais de heróis lunáticos, e garantir que também eles despertem de seus devaneios.

O que espera a Argentina?

Milei presidente: vitória da extrema direita na Argentina é projeto costurado no Brasil

Lucas Berti e Maurício Brum, Agência Pública

Articulação regional conta com família Bolsonaro no Brasil e extremismo de Kast no Chile

“Estamos aqui, no maior evento conservador do mundo, com o próximo presidente da Argentina.” A frase premonitória foi dita pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) em junho de 2022, em Campinas (SP), durante a CPAC Brasil – a versão brasileira do evento Conservative Political Action Conference, surgido nos Estados Unidos. Dezessete meses depois, as palavras se tornaram realidade: o economista ultraliberal Javier Milei venceu o peronista Sergio Massa no segundo turno e se elegeu presidente do país vizinho, com cerca de 56% dos votos.

Apresentado na CPAC de 2022 sob aplausos a uma multidão de bolsonaristas, Milei, que à época sequer tinha certeza da própria candidatura, gritou seus jargões agressivos – como “viva la libertad, carajo!” – que o ajudariam na campanha vitoriosa do ano seguinte. No evento, ele prometeu se aliar ao grupo político do então presidente Jair Bolsonaro por um objetivo comum: “enfrentar o socialismo” na América Latina. 

Os laços entre o clã Bolsonaro e o agora presidente eleito da Argentina não afrouxaram depois daquele encontro. Pelo contrário, só aumentariam: em outubro deste ano, Eduardo Bolsonaro viajou a Buenos Aires para acompanhar pessoalmente seu aliado durante o primeiro turno, quando Milei foi o segundo mais votado, atrás de Sergio Massa

O ex-ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, integrante da ala ideológica mais radical do bolsonarismo, também compareceu, falando em “pátria e fé”. Ele retornou à Argentina no final de semana do segundo turno, quando Milei foi eleito.

Consultado pela imprensa local, Eduardo Bolsonaro comparou o economista argentino com seu pai, dizendo ver similaridades entre a Argentina de 2023 e o Brasil de 2018, ano em que Jair foi eleito. Milei facilitou as comparações, sobretudo à imprensa: também se intitulando um outsider, ou alguém vindo de fora do sistema político tradicional, o libertário viralizou nas redes sociais com uma retórica violenta, prometendo “dinamitar” a política comum e pulverizar a máquina estatal. Durante comícios, puxou gritos de apoiadores segurando uma motosserra, símbolo que durante a sua campanha virou a versão da “arma com a mão” de Bolsonaro, indicando que seria implacável contra “corruptos”. 

Ainda que aliados e produtos da mesma tendência política global de direita, que desde a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos em 2016 deu papel decisivo às redes sociais na ascensão da chamada ‘antipolítica’, Milei e Jair Bolsonaro ascenderam sob distintos panos de fundo. Se Jair, militar, surfou a onda em 2018 após servir quase três décadas como parlamentar, sendo integrante do tal “sistema” que prometia combater, Milei, por outro lado, iniciou sua carreira na política somente em 2021, quando foi eleito deputado. 

Desbocado e raivoso, também passou a cativar o eleitor diante de um descontentamento crônico argentino: a economia. Enquanto um novo relatório do Banco Central argentino já projeta uma inflação de 185% para 2023, com variações mensais batendo os maiores números em mais de 30 anos, Milei diz que mandaria o mesmo Banco “pelos ares”, enxergando-o como o principal culpado pelo persistente descalabro econômico argentino. E ao passo que o peso argentino segue em queda livre e perde valor frente ao dólar, exigindo que a população use maços enormes de dinheiro no dia a dia, o político prometia dolarizar a economia local.

O aumento da pobreza também jogou a favor de Milei, que marcou bons números de votos e venceu em várias regiões mais desfavorecidas economicamente desde as primárias, em agosto. 

As ideias mais extremas de Milei são, evidentemente, difíceis de colocar em prática – e ele próprio chegou a recuar em várias promessas mais radicais durante o segundo turno, inclusive a tão falada dolarização. Além disso, o futuro presidente chegará à Casa Rosada sem ter maioria em nenhuma das duas casas legislativas, ainda que tenha conquistado cadeiras em ambas. 

Por todo esse contexto, costurar alianças regionais se mostra um elemento fundamental para que Milei possa ganhar força dentro e fora da Argentina. Para Talita São Thiago Tanscheit, professora no Departamento de Política e Governo da Universidade Alberto Hurtado em Santiago do Chile, isso é fruto não apenas de uma ascensão da ultradireita na região, mas da “consolidação de movimentos, partidos e lideranças que já conseguem competir com força na arena eleitoral”. 

“Há um projeto comum e compartilhado, fundamentalmente porque esses grupos compartilham da mesma ideologia. Claro que o peso de cada elemento ideológico vai depender de cada contexto, mas são sustentados por uma mesma espinha dorsal baseada em uma agenda neoliberal – agora no caso da Argentina, ultraliberal – conservadora e pautada na mano dura [agendas duras de segurança pública]. Esses pontos em comum articulam grupos de extrema direita latino-americanos não só regionalmente, mas internacionalmente”, disse a especialista à Agência Pública.

A aliança da extrema direita na América do Sul vai além desses dois nomes: quem também esteve presente no CPAC em 2022, e afirmou enxergar um pacto regional com bons olhos, é o radical chileno José Antonio Kast. Outrora apoiado por uma parcela pequena de eleitores, com menos de 8% dos votos conquistados nas eleições presidenciais de 2017, Kast chegou ao segundo turno na votação posterior, em 2021, quando conquistou mais de 7 milhões de votos. Mesmo sem virar presidente, Kast encabeçou o avanço da extrema direita nas votações envolvendo a elaboração de uma nova Constituição no Chile e deve disputar a presidência uma vez mais em 2025, como ele próprio prometeu na CPAC brasileira.

Última ‘fronteira’ para ultradireita, Uruguai vê risco por alta da violência 

Quando Jair Bolsonaro passou de um parlamentar desconhecido a uma opção nacional viável nas eleições de 2018, os clamores pela volta da ditadura civil-militar (1964-1985) tornaram-se cada vez mais comuns entre seus admiradores. Para contrapor a situação brasileira, análises usavam com frequência os vizinhos do Cone Sul – notadamente Argentina, Chile e Uruguai – para mostrar como o Brasil era o país que menos sabia lidar com seu passado político violento. Enquanto outros viravam notícia por punir seus repressores e por dar pouca vazão a militares e políticos extremistas, o Brasil parecia abraçar a causa de forma solitária. 

Com a ascensão política recente de nomes como Milei e Kast, porém, nem mesmo argentinos e chilenos se mostraram imunes a essa tendência. A própria reverência explícita a Jorge Rafael Videla —  o mais infame general do regime militar —, em protestos contra restrições da pandemia em Buenos Aires, mostrava esses sinais. Agora, a vice-presidenta eleita é uma viúva convicta do regime que matou e fez desaparecer 30 mil opositores e também almeja soltar repressores presos por esses crimes.

No Chile, que em 2023 recordou os 50 anos do golpe de Augusto Pinochet, a facção política encabeçada por Kast foi peça fundamental na engrenagem que barrou uma condenação mais convicta da classe política ao golpe. Diante de uma oposição de direita cada vez mais presente, o presidente Gabriel Boric, acuado por baixos índices de aprovação, cedeu às pressões de seus adversários e convidou todos os partidos a assinarem um documento que mencionava, de forma genérica, “um compromisso pela democracia”, frustrando quem desejada uma condenação enfática ao regime pinochetista – muitas vezes relativizado pelo próprio Kast. Ainda assim, a oposição se negou a participar dos eventos oficiais recordando o golpe e ressuscitou velhos argumentos justificando o fim da democracia e a repressão iniciada em 11 de setembro de 1973.

Assim como o Chile em anos recentes, o Uruguai testemunha uma escalada vertiginosa na insegurança para seus padrões, com um aumento de 25% nos homicídios em 2022 em relação ao ano anterior. A onda de violência, atribuída à expansão de grupos narcotraficantes e à disputa que travam por território, também tem gerado cenas mórbidas pouco comuns ao imaginário uruguaio: no ano passado, um corpo desmembrado foi encontrado pela polícia boiando na orla da capital. 

A possibilidade de que se abram brechas para a penetração de nomes mais radicais na política também passa pela crise vivida pelo governo atual. Em 2019, o Uruguai encerrou um ciclo de 15 anos de governos de centro-esquerda da coalizão Frente Ampla (FA) e elegeu o liberal de direita Luis Lacalle Pou. O Uruguai não permite a reeleição consecutiva, o que exigiria que Lacalle Pou indicasse sucessores para disputar as eleições em 2024, porém os nomes mais fortes do governo atual caíram em sucessivos escândalos de corrupção e tráfico de influência. Segundo pesquisas, metade dos uruguaios ainda vê com bons olhos a volta da centro-esquerda, hoje na oposição. Nessa incerteza, nomes mais radicais podem ganhar espaço. Entre eles está o militar Guido Manini Ríos. 

Senador e atual líder do partido radical e militarista Cabildo Abierto, Manini Ríos recentemente colocou em dúvida a manutenção da coalizão informal da qual seu partido compõe com Lacalle Pou após disputar as eleições presidenciais de 2019, quando impressionou ao alcançar mais de 11% dos votos.

Ríos preenche a cartilha da extrema direita que ganhou destaque no continente em anos recentes, sobretudo pelas polêmicas e pela relação que tem com os anos de repressão. Em 2018, quando ainda era comandante do Exército, foi punido pelo então presidente Tabaré Vázquez com 30 dias de detenção por criticar uma reforma de pensões militares, violando um princípio constitucional de não interferência de oficiais da ativa em assuntos políticos. Pouco adiantou: no ano seguinte, o chefe das Forças Armadas foi demitido por Vázquez por seguir se posicionado contra questões governamentais e por anunciar suas intenções de ingressar na política.

O general também já havia sido denunciado por organizações de direitos humanos em anos anteriores por dar informações falsas sobre o paradeiro dos restos mortais de uma pessoa desaparecida durante a ditadura. Ativo nas redes sociais, também gerou discussões no país ao homenagear familiares de ex-ditadores. 

“É importante lembrar que parte desse ressurgimento das direitas radicais latino-americanas está relacionado ao insucesso da direita tradicional, que tem se mostrado incapaz de se conectar com parcelas mais amplas do eleitorado, sobretudo porque a oferta programática dessas direitas ‘mainstream’ é muito limitada, centrando-se apenas numa divisão Estado-mercado, sem considerar outros tipos de agenda sociais e políticas que a ultradireita foi capaz de ativar e inserir no debate público”, explica Tanscheit.

“Diferentemente do que se viu em outros países da região, Luis Lacalle Pou teve a astúcia de se aliar à ultradireita, justamente para impedir que ela cresça e ganhe expressão”, completa a especialista. Mas essa contenção do extremismo no Uruguai também pode cair por terra se o cenário continuar delicado para o atual governo. Citando “erros” da atual administração, incluindo um escândalo que este mês levou à renúncia de pelo menos dois ministros por conta da emissão de uma passaporte para um narcotraficante procurado pela Interpol, Manini Ríos já indicou que pretende tentar novamente uma candidatura própria em 2024. E explica de forma didática: com a direita “moderada” em crise, ele cogita se lançar justamente pelo risco de uma derrota conservadora no próximo ano.

Edição: Bruno Fonseca

Javier Milei também seguiu o manual de Steve Bannon

Natalia Viana, Pública

Assim como Trump e Bolsonaro, novo presidente da Argentina é um populista digital

Com uma larga vitória sobre o rival Sergio Massa, de 55% a 44% dos votos – quase a exata porcentagem da eleição de Jair Bolsonaro em 2018 – Javier Milei torna-se mais um expoente da extrema direita radical a assumir um país no continente através do voto popular. Assim como nos agora longínquos anos da eleição de Bolsonaro, houve, sim, campanhas de desinformação impulsionadas pela sua equipe, mas isso não significa que elas tenham tido impacto decisivo.

Como me explicou a pioneira do fact-checking na América Latina, a jornalista Laura Zommer, diretora-geral do site Chequeado, fatores como o desastre da economia e a crescente pobreza foram muito mais importantes. “Sim, vimos e detectamos desinformação durante a campanha – que afetou ambos os candidatos. No entanto, não temos nenhuma evidência que isso tenha influenciado na definição das eleições”, diz ela.

Isso não significa, claro, que o mais novo fenômeno da ultradireita global tenha fugido à regra do movimento de “populismo conservador” preconizado por Steve Bannon, estrategista de Donald Trump e aliado de Eduardo Bolsonaro. Pelo contrário: muitos dos fatores-chaves que geraram o bolsonarismo e o trumpismo estão presentes nesta onda.

A primeira delas, como já apontei muitas vezes por aqui, é: Milei também é um populista digital.

“Assim como aconteceu na primeira campanha de Bolsonaro, Milei é um candidato digital, com uma massa de gente que o apoiava nas redes, no TikTok, com apelo principalmente a homens jovens. E o peronismo era mais analógico”, diz Laura Zommer.

Sabendo usar os fatores que impulsionam mensagens nas redes sociais – o ódio, o escândalo, a repulsa – Milei cresceu ao se tornar figura carimbada em programas de TV argentinos propondo não apenas teses econômicas radicais, mas xingando todo mundo. Seu maior trunfo talvez tenha justamente dessacralizar (quase) todos os grandes símbolos do imaginário argentino, do papa Francisco (“é o representante do maligno na Terra”) até Maradona (“Mardedroga”), além de ter abandonado o seu time Boca Juniors para torcer para o Riverplate. Literalmente um “vira-casacas”: talvez não haja maior anti-herói para o público argentino.

Ao mesmo tempo, assim como todos os ascendentes autocratas que navegam nas paixões digitais, Milei tem um apelo específico para o público masculino, e jovem. Sabemos que nos últimos anos uma das poucas coisas que avançou na Argentina foram os direitos das mulheres, depois de uma luta heroica das feministas que do movimento Ni Una a Menos, que conseguiram, depois de muitos protestos e mobilização, legalizar o aborto no país. As demonstrações de machismo e misoginia de Milei são muitas, e talvez muito bem calculadas, uma vez que sua principal mentora política é sua irmã, a quem chama de “meu chefe”. Também não é a toa que Milei prometeu, de um lado, tentar voltar a proibir o aborto, e por outro, eliminar o ministério das Mulheres.

Cada país tem o Bolsonaro que merece, eu poderia dizer, como maneira de explicar que, em cada contexto, florescem as características locais do “macho” que sente ter perdido seu lugar social para os recentes avanços do movimento feminista.

Bolsonaro é o macho que se vale da dualidade “virilidade e impotência” como apontou a socióloga Silvia Viana em conversa para essa coluna, aquele tiozão do churrasco que chama para a briga e sai correndo por covarde; Trump é o self-made-man, o empresário narcisista que cresce na vida usando todas as trapaças que o capitalismo lhe permite. Milei, segundo descreve o marqueteiro Fernando Cerimedo no Podcast “Sem Controle”, do El País, “Milei um pouco é como o amigo que diz ‘são todos ladrões’, ‘têm que ir todos a merda’”, diz. “E as pessoas também pensam assim”.

É uma figura de apelo popular, com quem os argentinos se identificam, e que opera, também, em dar voz a uma minoria que se sente reprimida em sua liberdade de dizer o que pensa. Destruir consensus, ser iconoclasta, ajuda não apenas a ganhar atenção nas redes – o ódio é o que mais gera clicks, views e ratings seja a cada aparição dele na TV, seja a cada postagem ou história absurda sobre clonar cães ou coisas que o valha. O uso das redes sociais o ajuda, portanto, a criar um “movimento” sem massa, movimento que dá identidade àqueles que o seguem, criando a ilusão de que são maioria. Cria-se uma “identidade”, pertencimento. Alguns meios já começam a falar sobre um “mileísmo”.

Para a ascensão de Milei, foi fundamental a aliança com influenciadores que cresceram durante a pandemia questionando o duríssimo regime de quarentena imposto pelo governo de Alberto Fernandes – e que não impediu, diga-se, mais de 120 mil mortos, levando a Argentina a ser um dos países com a maior taxa de mortes pela covid, proporcionalmente. São nomes como Iñaki Gutiérrez, de 22 anos, que tem mais de 5 milhões de seguidores no TikTok e que hoje administra a conta de Milei na rede.

O negacionismo científico, portanto, também está no DNA do populismo de Milei, assim como a denúncia do “marxismo cultural” e do “avanço do comunismo” – todos esses são “talking points” retirados do manual de Steve Bannon.

Mas talvez não haja ponto mais revelador do alinhamento com o movimento de Bannon do que os sussurros de “fraude eleitoral” que foram espalhados pelo anarcocapitalista e seus apoiadores do primeiro turno das eleições argentinas, e que se desenhavam, já, como talvez a maior ameaça pós-eleição, se Milei não tivesse ganhado.

Como já relatamos aqui na Agência Pública, Fernando Cerimedo, o marqueteiro da campanha, é o mesmo argentino que mentiu sobre fraude nas urnas brasileiras em um live que fez no seu canal Derecha Diario no começo de novembro do ano passado – o que levou à 1ª suspensão do seu canal no Brasil. O mesmo Cerimedo, semanas antes, havia pago uma viagem de Eduardo Bolsonaro a Buenos Aires, onde o apresentou para Milei e outras figuras da extrema direita argentina.

Pois, pouco depois do primeiro turno das eleições argentinas, Milei disse que “houve irregularidades de tal magnitude que colocaram o resultado em dúvida”. O site Chequeado elencou e desmentiu diversas alegações de fraude que estariam correndo naquele primeiro turno, de cédulas rasuradas a boatos sobre urnas com faixas vermelhas.

A caminho do segundo turno, a coligação de Milei, La Liberdad Avanza, subiu o tom. A coligação afirmou que a Gendarmaria Nacional, principal força de segurança do país, teria alterado “o conteúdo das urnas e a documentação” para favorecer Massa no 1º turno. A irmã de Milei, Karina, chegou a enviar uma carta a respeito para um tribunal eleitoral, mas a coligação afirmou que a fonte preferia “permanecer anônima”. A Justiça eleitoral pediu explicações, e o advogado da coligação voltou atrás.

Mesmo assim, os comentários sobre fraude passaram a ser mais frequentes, a ponto da Câmara Nacional Eleitoral, o TSE argentino, ter que convocar uma reunião para a véspera do pleito, no sábado, 18 de novembro, com os representantes das campanhas de Massa e de Milei – no seu caso, a sua própria irmã – onde se pediu “preservar a convivência democrática”.

Não foi preciso pagar pra ver. O povo argentino deu uma ampla vitória a Milei, que encara agora o mesmo desafio de Trump e Bolsonaro – manter-se radical e ser um péssimo presidente para garantir que seu movimento siga vivo, ou tornar-se um político de verdade e governar o seu país.

Seja o caminho que escolher, se há uma coisa que aprendemos nos últimos anos é que haverá, sem dúvida, uma ampla gama de oportunistas que vão aderir ao seu governo e o apoiar, não importa o quão maluco e prejudicial ele seja para a democracia argentina.

Javier Milei e a força dos radicais

Wilson Gomes, Folha

E se candidatos com ele forem o novo normal na política?


Um raio nunca cai duas vezes no mesmo lugar", diz um velho ditado que se repete em boa parte do mundo. A convicção por trás disso é que uma situação improvável e desastrosa não se dará novamente no mesmo contexto e para as mesmas pessoas. O pior ficou para trás. Quando, em 2016, Trump ganhou a eleição americana, foi um "valhei-me, Deus!" geral para a esquerda e o centro liberais no mundo inteiro. Mesmo pesquisadores americanos da comunicação e da ciência política se entreolhavam perplexos ante o inverno que acabava de chegar.

Na noite do domingo em que Bolsonaro ganhou a eleição no Brasil, em 2018, me ocupei de consolar amigos que, apesar de todo o conhecimento profissional sobre política e democracia, eram jovens e ainda não tinham experimentado o sabor amargo de viver sob um governo autoritário no Brasil.

Constatado o inevitável —isto é, que a maioria dos eleitores havia topado dar um cheque em branco a um maluco de extrema direita para evitar que o PT voltasse ao governo—, tudo era só desalento.

A esquerda se consolou com a ideia de que ninguém largaria a mão de ninguém. Os que taparam o nariz e votaram em Bolsonaro apaziguaram a consciência repetindo que as instituições acabariam domando o bruto ou que toda aquela virulência antidemocrática era só da boca para fora.

Ilustração de Ariel Severino para coluna de Wilson Gomes de 21 de novembro de 2023 - Ariel Severino/Folhapress

Estavam todos errados: todo mundo largou a mão de todo mundo, já que a esquerda não se une sequer por interesses. E Bolsonaro dobrou a aposta na brutalidade verbal e na barbaridade institucional e levou o seu voraz apetite pelo poder a todo custo até o limite quase trágico do 8 de Janeiro.

Quando, enfim, a lucidez prevaleceu novamente, todos respiraram aliviados. Foi trágico, foi por pouco, deixou um estrago imenso e uma ferida aberta, mas quem sabe a sociedade aprende com os seus erros. Erramos, aprendemos, melhoramos —acreditava-se.

Talvez não seja bem assim. A volta de Trump nos Estados Unidos parece muito plausível se depender apenas dos eleitores. E por aqui o bolsonarismo demonstra ter volume parlamentar, tração eleitoral e força no debate público inclusive para sobreviver politicamente a Bolsonaro.

Talvez Trumps, Bolsonaros e tantos outros mundo afora não tenham sido frutos do acaso ou resultado de uma conjunção astral rara, singular e que dificilmente se repetirá.

A vitória de Milei na Argentina deveria fazer-nos considerar que talvez a principal novidade política do século 21 seja realmente a força eleitoral de candidatos radicais, de fora do sistema, extravagantes, com retórica ferozmente antipolítica e antiesquerda, politicamente incorretos e agressivos.

Acrescentaria a esta lista alguns elementos que retiro de um post de Fabio Wajngarten, um dos estrategistas do bolsonarismo: "Vence quem fala o que a grande massa popular quer ouvir; vence quem é autêntico, quem tem paixão, quem vai para cima".

Diria, além disso, que vence quem cria e motiva os insatisfeitos, os zangados, os que não sairiam de casa para ir às urnas se não acreditassem que estão indo mudar tudo.

Não é mero populismo. Pelo menos se populismo ainda quer dizer antielitismo e uma forma de vínculo entre o líder carismático e a massa a ele vinculada organicamente.

Pois isso explica mais o peronismo derrotado que o mileísmo vencedor. A nova extrema direita criou uma nova "base da sociedade", autêntica e oprimida, claro, e uma nova elite —"a casta"—, frequentemente invertendo a dicotomia de classe da tradição da esquerda.

Milei é o raio que cai de novo sobre a cabeça da esquerda e do centro políticos. Talvez não seja propriamente um raio, mas represente uma inovação política que está se normalizando.

Massa, claro, era o Lula/Haddad de 2018, o adversário ideal para ser batido, não o Lula de 2022, a única "kriptonita" no caminho da nova força.

Mas se nem o registro recente do pesadelo dos americanos e brasileiros foi capaz de evitar que os argentinos —tão cultos, tão politizados— também dessem um cheque em branco ao seu próprio maluco, quem sabe não estejamos diante de uma nova normalidade política? De um fenômeno de que ouviremos falar com frequência cada vez maior e em mais lugares?

E se o precário e singular não forem as vitórias desestabilizadoras e perturbadoras de pessoas como Milei, Bolsonaro e Trump, mas frentes amplas democráticas que, eventualmente, se juntam para enfrentá-los?

E se a política baseada em radicalização, crises, ódio tribal, retóricas extremas e desprezo ao convencional, à mediação e à moderação for o novo modelo vencedor de disputas eleitorais? Pensem nisso.


Javier Milei, Argentina e a construção de um novo "antiprogressismo"

Fernando de Barros e Silva, piauí

Ascensão de Milei é mais um caso na América Latina de definhamento da direita tradicional e a ascensão das direitas puros-sangues

(O texto abaixo foi publicado na piauí_206, no início de novembro, com o título “Coringa nas ruas”. No domingo, dia 19, Javier Milei venceu o segundo turno da eleição presidencial argentina. Ele tomará posse em 10 de dezembro)


Tão logo vieram a público os resultados do primeiro turno da eleição presidencial na Argentina, analistas correram para destacar a grande surpresa: Sergio Massa, representante do peronismo e candidato da situação, havia alcançado 36,68% dos votos. Javier Milei, o candidato da extrema direita, havia ficado supreendentemente atrás do ministro da Economia argentino, com quase 30%.

Até o dia da votação, havia alguma expectativa de que Milei pudesse liquidar a fatura no primeiro turno – pela legislação argentina, para que isso ocorra, o candidato deve ter 45% dos votos ou, então, 40% dos votos, desde que o segundo colocado não alcance a marca dos 30%. Massa e Milei voltarão a se enfrentar no dia 19 deste mês de novembro.

Apesar da sensação de revés, à luz da consagração que as pesquisas sugeriam ser possível, o outsider da direita radical superou com boa margem a terceira colocada, Patricia Bullrich, representante da direita convencional. Bullrich, ex-­ministra da Segurança de Mauricio Macri, o liberal que antecedeu Alberto Fernández na Casa Rosada, teve um desempenho frustrante.

Com a economia do país em frangalhos – inflação anual batendo em 140%, dólar na estratosfera, retração do PIB, desalento generalizado –, os argentinos decidiram que a disputa final será entre os responsáveis pela crise e o candidato que promete apagar o incêndio com um lança-chamas na mão. O famoso bordão “É a economia, estúpido”, sempre usado para explicar o comportamento do eleitorado, desta vez não ilumina o caminho.

Se a nota surpreendente do primeiro turno ficou com a demonstração de resistência do peronismo, a novidade histórica da eleição se encontra na força social da extrema direita, que já se viabilizou como opção de poder, seja qual for o resultado do segundo turno entre los hermanos. As chances de Milei sair vitorioso aumentaram depois que Bullrich e Macri declararam seu apoio ao candidato ultraliberal.

Ocorre com o nosso vizinho mais importante o que vimos em anos recentes em vários países da América Latina (e para além dela) – o definhamento da direita tradicional, adaptada ao rame-rame democrático, e a ascensão das direitas puros-sangues, ou alternativas, empenhadas em tripudiar em todas as frentes sobre a sensibilidade progressista e convictas de seu radicalismo, o que pode incluir a defesa de ditadores, o elogio da tortura ou a apologia do fascismo.

No Chile de 2021, por exemplo, o advogado ultraconservador José Antonio Kast foi ao segundo turno da eleição presidencial contra Gabriel Boric defendendo sem meias palavras o legado sanguinário de Augusto Pinochet (“fez o que tinha de fazer”). Na Colômbia, no ano passado, o empresário Rodolfo Hernández, apelidado de Trump Tropical, desbancou a direita convencional e foi ao segundo turno contra o esquerdista Gustavo Petro. Hernández tinha já então no currículo uma frase definitiva: “Sou seguidor de um grande pensador alemão. Seu nome é Adolf Hitler.”

No país de Mario Vargas Llosa, o milionário Rafael López Aliaga, conhecido como “Bolsonaro peruano”, ficou em terceiro lugar na eleição presidencial de 2021. Quem disputou o segundo turno pelo campo conservador foi Keiko Fujimori, apoiada pelo autor de A guerra do fim do mundo. Perdeu por uma diferença mínima para Pedro Castillo e demorou mais de quarenta dias para reconhecer a derrota, como manda o script da nova direita. Aliaga, o Bolsonaro peruano, foi eleito no ano passado prefeito de Lima.

Todos esses exemplos, entre tantos outros, mesmo onde a extrema direita não ganhou, mostram como “se construiu um antiprogressismo de novo tipo” mundo afora. A formulação é do historiador argentino Pablo Stefanoni, doutor em história pela Universidade de Buenos Aires. Stefanoni publicou no ano passado um excelente livro que tem como título a seguinte pergunta: A rebeldia tornou-se de direita? O subtítulo indica o que encontraremos nas 170 páginas seguintes da edição brasileira, pela Unicamp: Como o antiprogressismo e a anticorreção política estão construindo um novo sentido comum (e por que a esquerda deveria levá-los a sério).

O terceiro capítulo – O que querem os libertários e por que eles se aproximaram da extrema direita? – começa justamente com Javier Milei, descrito como um economista excêntrico que no verão de 2019 levava ao teatro em Buenos Aires um bom público – jovens, na maioria – para ver seu espetáculo El consultorio de Milei. No palco, ele fazia gestos obscenos na direção do retrato de John Maynard Keynes, cuja obra seria “pura merda”, e se vendia à plateia como o “único que pode nos salvar do socialismo apocalítico”.

O cenário, meticulosamente mambembe, era composto ainda por retratos de heróis do liberalismo raiz – Friedman, Mises, Hayek –, entre os quais um menos célebre, Murray Rothbard, que mais do que ninguém fez a cabeça de Milei. Discípulo tardio da escola austríaca, onde o ultraliberalismo foi forjado, Rothbard dizia que “o Estado é uma organização criminosa coercitiva”. Em 2020, numa entrevista, Milei disse: “Entre a máfia e o Estado, fico com a máfia. A máfia tem códigos, a máfia cumpre, a máfia não mente e, acima de tudo, a máfia concorre.” Em outra ocasião, num programa de tevê, Milei propôs privatizar as ruas, ecoando uma ideia que Rothbard havia defendido nos anos 1980. “Os libertários não suportam a propriedade pública de nada, nem mesmo das ruas”, escreve Stefanoni.

Dias antes do primeiro turno, Milei reuniu cerca de 12 mil pessoas no comício de encerramento de sua campanha. A maioria do público era de homens e 70% dos participantes tinham até 35 anos. Uma pesquisa coordenada pelo Monitor do Debate Político no Meio Digital da USP revelou alguns traços desse eleitorado: 97% acreditam que “a internet permite descobrir verdades que os jornais e a tevê querem esconder”; 87% dizem que “os programas sociais desestimulam as pessoas a trabalhar”; 72% acreditam que “o sistema eleitoral não é confiável”; 70% acham que “os direitos humanos atrapalham o combate ao crime”; 50% dizem que “os artistas não respeitam os valores morais da nação”.

O anarcocapitalismo de Milei é primo-­irmão do “anarcomilicianismo” que experimentamos há pouco. Enquanto a esquerda, cada vez mais indistinta de um “progressismo descafeinado”, se incorpora ao status quo e joga na defensiva para salvar o que dá (o SUS, a floresta, o estado laico, o casamento homoafetivo), a direita radical avança empilhando vitórias sobre os escombros da civilização. Quando o horizonte histórico se fecha e o futuro só pode ser pensado em termos distópicos, a destruição passa a ter um apelo irresistível.

Não é à toa que o livro de Stefanoni comece falando de Coringa, o filme de Todd Phillips. Refém de uma doença que o faz rir de forma maníaca, vítima de bullying e desprezado, o palhaço envereda pelo labirinto da loucura e acaba no crime, até se transformar, no final, em “líder inesperado [e involuntário] de uma rebelião dos marginalizados de Gotham City contra os ricos e poderosos”.

Stefanoni lembra que na época em que foi lançado, 2019, o filme suscitou leituras polares: crítica progressista às iniquidades do capitalismo? Ou levante do white trash ressentido a engrossar o caldo da extrema direita? Ele se abstém de tomar partido por uma ou outra interpretação, identificando nas análises divergentes um sinal da riqueza do filme. No mundo real, porém, parece que o Coringa já escolheu seu lado. Os ventos que sopram do Sul nos dizem que o palhaço está bem próximo da Casa Rosada.

O que definirá o futuro da Argentina?

Eduardo Giordano, Outras Palavras

Na reta final da campanha, cresce a mobilização contra a ameaça da ultradireita. Mas a persistência do apoio a Milei revela como é grave a crise da democracia. Será possível o pior? Como superar, depois do pleito, a reprimarização do país?


Depois de terem falhado nas previsões para as eleições primárias, as sondagens de votos voltaram a errar nas previsões para o primeiro turno das eleições de 22 de outubro. Nenhuma das dez pesquisas de opinião foram capazes de prever a vitória por 6,7 pontos de diferença do candidato peronista sobre a força de oposição de extrema direita que parecia imbatível após a vitória nas eleições primárias (PASO) de 13 de agosto. Aqueles que anunciaram que o peronismo estava liquidado – incluindo os candidatos da oposição e o seu coro nos meios de comunicação social – tiveram de engolir as suas palavras uma por uma.

Os três candidatos mais bem cotados para vencer o primeiro turno localizavam-se em um espectro político que vai desde a centro-direita representada pelo peronista Sergio Massa dentro da Unión por la Patria (36,7%), a direita pura e simples do macrismo (Juntos pela Mudança) representada por Patricia Bullrich (23%) e a extrema direita ultraliberal de Javier Milei, La Libertad Avanza (LLA), com 30%. À esquerda, e com muito menos votos (2,7%), estava a candidata da Frente de Esquerda, Myriam Bregman, que ganhou destaque pelas suas respostas bem fundamentadas nos debates presidenciais, mas não capitalizou isso em número de votos.

Os candidatos que obtiveram mais de 90% dos votos apoiam uma matriz econômica tradicional de cunho agroexportador e extrativista, embora com ênfase diferenciada quanto à intervenção estatal com finalidade social, mais evidente no caso do peronista Sergio Massa. Os candidatos da oposição, de uma forma ou de outra, tem em comum o afã de privatizar e reduzir o Estado a uma estrutura funcional com os interesses do capital, desmantelando todas as formas de proteção social características do peronismo.

A primarização da economia com foco no agronegócio controlado por grandes multinacionais, a produção de energia utilizando técnicas de fracking para a obtenção de combustíveis fósseis (Vaca Muerta), e o impacto ambiental da extração de minerais como o ouro e o lítio, não foram temas de campanha, embora as questões ambientais preocupem profundamente a sociedade argentina, especialmente nas regiões mais afetadas pelo uso predatório dos recursos naturais.

A obra emblemática do governo Alberto Fernández é o gasoduto Néstor Kirchner, idealizados para transportar gás de Vaca Muerta ao norte do país, com o objetivo de prescindir a importação de gás da Bolívia. O governo alude à poupança de divisas que a sua implementação representa, cálculo que não tem em conta o custo humano e ecológico desta obra nos territórios sujeitos à poluição das águas causada pela fraturação hidráulica.

Massa afirmou em sua campanha que graças à conclusão do gasoduto Néstor Kirchner, a Argentina deixará de importar gás e petróleo no valor de 7 bilhões de dólares e passará a exportar a mesma quantidade em 2024, agregando valor à segunda maior reserva mundial de gás de xisto e à quarta reserva mundial de óleo de xisto de Vaca Muerta.

A exploração destes recursos é a principal forma de obter a desejada moeda estrangeira que o governo requer para sustentar o preço do peso e limitar a sua contínua desvalorização no mercado informal (aumento do preço do chamado dólar azul), um comportamento econômico intimamente ligado à espiral inflacionária. A subordinação da política econômica nacional às exigências do FMI não deixa muita margem de manobra para este impulso às exportações de hidrocarbonetos.

A grande diferença entre as propostas dos presidenciáveis é que Javier Milei propõe privatizar a petrolífera estatal YPF, empresa superavitária, e também vender o gigantesco campo de Vaca Muerta (30 mil quilômetros quadrados), sobre o qual as quatro províncias atravessa por este campo têm soberania: Neuquén, Rio Negro, La Pampa e Mendoza. O candidato a vice-presidente da União pela Pátria (UP), Agustín Rossi, rechaçou claramente ambas as possibilidades, denunciando essas intenções do LLA (de Milei) num debate com a candidata a vice-presidente desse partido, Victoria Villarruel.

Villarruel destaca-se pela sua firme defesa dos soldados genocidas da ditadura militar dos anos 1976-1983. Negacionista dos crimes contra a humanidade perpetrados pela ditadura, declarou num evento de campanha que os desaparecidos “não eram 30 mil”, cifra que não é questionada na Argentina há 40 anos. Se a sua candidatura prevalecer junto com a de Milei, este tendencioso revisionismo histórico levaria os argentinos de volta a velhas disputas de épocas já superadas após os julgamentos dos ditadores e o Relatório Nunca Mais.

O flanco mais fraco do peronismo é a política econômica do atual governo. Antes das eleições primárias, o ministro da Economia e candidato presidencial Sergio Massa foi forçado a desvalorizar o peso a pedido do FMI. Após uma desvalorização de 22%, o dólar paralelo atingiu 685 pesos no dia 15 de agosto. A vitória de Milei nas primárias e suas declarações incendiárias contra o peso fizeram com que o dólar paralelo subisse quase 50% em menos de dois meses, atingindo 1.000 pesos em 10 de outubro. A inflação atingiu 12,4% mensalmente em agosto e 12,7% em setembro, com taxa acumulada anual de 140%.

Apesar destes dados tão difíceis de digerir, Massa saiu vitorioso no primeiro turno eleitoral, subindo nove pontos percentuais em relação à sua posição nas primárias, enquanto Milei manteve inalterada sua percentagem de votos.

Sergio Massa recebeu apoio vital de campanha do governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, reeleito para o mesmo cargo com 45% dos votos. O ex-ministro da Economia kirchnerista representa um perfil de eleitores claramente situado na centro-esquerda e contribui com o voto popular de uma província que representa 37% da participação eleitoral nacional. Massa obteve sete pontos a mais na província de Buenos Aires que a média nacional.

A surpreendente ascensão de Milei

O resultado das eleições primárias conhecidas como PASO, em agosto deste ano, representou um terremoto político sem precedentes. Contra todas as probabilidades, o extremista ultraliberal Javier Milei foi o candidato com mais votos. Alguns anos antes, Milei sequer havia entrado oficialmente na política, era apenas um economista extravagante chamado para para programas televisivos por apresentadores que viam nele uma oportunidade de aumentar a audiência. A sua emergência política tem grandes semelhanças com a de Donald Trump nos Estados Unidos, tanto nas formas populistas características do extremismo de extrema direita, como no conteúdo ideológico conservador relativamente à família, à segurança e à liberdade individual.

Excêntrico, megalomaníaco, sua principal receita econômica é substituir o peso como moeda nacional pelo dólar estadunidense. Ao longo do caminho ele acabaria com o Banco Central, delegando o poder de fabricar moeda a outros atores financeiros do mercado: “O Banco Central não deveria existir, o próprio setor privado pode criar o seu dinheiro”, disse ele na apresentação de seu livro O Fim da Inflação (Planeta) na feira do livro deste ano. Neste mesmo evento, o seu conselheiro econômico de primeira linha, o não menos ultraliberal Alberto Benegas Lynch, vomitou perante o público que achava ridículo ouvir falar de soberania monetária, na sua opinião “uma gigantesca sandice”, equivalente à soberania da cenoura e do alface. A partir destas intervenções falaciosas, constrói-se um discurso tecnocrático onde o candidato “contra as casta políticas” e os seus principais assessores possuem um talismã messiânico que cativa os seus seguidores e confunde os menos informados.

Na política externa, os seus principais aliados seriam os Estados Unidos e Israel, ao mesmo tempo que dificultaria o comércio com os países “comunistas”, incluindo a China, o principal parceiro comercial do país. Ele também é a favor de dissolver o Mercosul, o ainda precário mercado comum sul-americano criado para promover o comércio regional.

Milei pretende desmantelar peça a peça os alicerces do Estado. E, em primeiro lugar, acabar com a igualdade de direitos à saúde e à educação, entre outros serviços públicos historicamente intocáveis. Que cada um pague por aquilo que consuma. Na sua opinião, tudo deveria passar para o setor privado, considerado o único gestor eficiente de recursos, cortando até mesmo o orçamento do Estado para as pesquisas científica. A sua intenção é “encolher” o Estado em 15% da sua dimensão total, aliviando assim a pressão da arrecadação de impostos sobre os setores de rendimento mais elevado. “Se há alguém que odeia impostos, sou eu”, declarou numa entrevista recente.

O ultraliberal Milei declarou-se admirador do governo de Carlos Menem, o presidente peronista que, nos anos 1990, impôs um modelo econômico neoliberal extremo, estabeleceu “relações carnais” com os Estados Unidos, privatizou as principais empresas públicas e pareou o preço do peso ao dólar – a conversibilidade de um por um de seu ministro Domingo Cavallo –, deixando como consequência dessa política uma profunda crise econômica que eclodiu em 2001, superada apenas anos depois, durante o governo de Néstor Kirchner (2003-2007).

Um estudo do CELAG indica que 70% das medidas do Plano Econômico de Milei são uma cópia fiel das que foram promovidas por Domingo Cavallo na década de 1990, que, segundo o próprio Javier Milei, foi “o melhor ministro da Economia da História”. Da mesma forma, o seu plano coincide 68% com o neoliberalismo de José Martínez de Hoz, o ministro da Economia da ditadura de Rafael Videla, célebre por ter endividado o país além de qualquer limite razoável.

Nas eleições primárias de agosto, Milei ganhou grande parte dos votos nas áreas urbanas de baixa renda. La Libertad Avanza obteve seus melhores resultados na zona sul da cidade de Buenos Aires, nos bairros populares de La Boca, Barracas, Parque Avellaneda, Villa Lugano e Villa 21, todos de tradição peronista, em grande parte devido à abstenção de muitos eleitores insatisfeitos com a situação do país. Também nos municípios suburbanos mais empobrecidos e em outras grandes cidades como Córdoba e Rosário. Além disso, o partido de extrema direita La Libertad Avanza venceu em 17 das 24 províncias argentinas.

Este desconcertante apoio dos setores populares a Javier Milei é uma clara expressão de rejeição às políticas econômicas ineficientes do governo peronista de Alberto Fernández. A verborragia incendiária do candidato ultraliberal levou-o a declarar na televisão o seu desejo de “que a economia exploda”, desejo partilhado com a candidata de direita da casta, Patricia Bullrich (“espero que a Argentina exploda antes do dia 19”, data das eleições), com quem Milei acabaria se aliando para disputar o segundo turno. Diante desses discursos ameaçadores sobre o futuro do país, Massa se propôs a manter a calma da população, proporcionando uma imagem de equilíbrio e moderação diante dos contínuos arroubos de seus adversários.

O último episódio de crise monetária ocorreu nos dias 9 e 10 de outubro, quando Milei fez declarações explosivas que desencadearam uma nova corrida aos bancos, levando o dólar paralelo a 1.000 pesos, quase o triplo do seu valor ao câmbio oficial (367 pesos). O candidato de extrema direita disse: “O peso é a moeda emitida pelo político argentino, portanto, não pode valer nada, porque esse lixo não serve nem para fertilizante”, ao mesmo tempo que desencorajava a renovação de prazos fixos na moeda nacional.

Neste contexto econômico louco, Massa tem-se dividido diariamente entre o exercício do seu cargo de ministro da Economia e o seu papel como candidato presidencial, o que não o deixa numa posição vantajosa na competição eleitoral. Tanto o presidente Alberto Fernández como a vice-presidente Cristina Kirchner mantêm-se à margem da campanha, com poucas intervenções públicas durante os últimos meses do seu governo, amplamente caracterizado por uma gestão errática e deficiente, com poucos resultados tangíveis.

Retorno peronista e o segundo turno

As eleições realizadas no primeiro turno em 22 de outubro de 2023 dissiparam em grande parte os receios que surgiram após as primárias. Sergio Massa superou todas as expectativas e ficou em primeiro lugar para disputar o segundo turno, no dia 19 de novembro. O receio de que a extrema direita varresse os outros candidatos no primeiro turno foi, então, dissipado. Mais de dois milhões de pessoas que não o tinham feito antes votaram, depois de uma intensa campanha nos subúrbios de Buenos Aires e outras áreas tradicionalmente peronistas, e a coligação governamental recuperou várias províncias que tinham ido para Milei nas primárias.

Ao mesmo tempo, a direita conservadora do Juntos Pela Mudança ficou de fora do cenário eleitoral, com a sua candidata Patricia Bullrich que ficou em terceiro lugar, a uma distância considerável do candidato da ultradireita. Os votos anti-kirchneristas que o macrismo capitalizou nas eleições anteriores foram repartidos entre os dois. Os dois candidatos da direita antiperonista, Milei e Bullrich, concentraram os seus esforços de propaganda no ataque ao governo e apenas ocasionalmente adotaram posições críticas um em relação ao outro.

Dias depois de perder no primeiro turno, a candidata do JxC, Patricia Bullrich, assim como o chefe de seu partido, o ex-presidente Mauricio Macri, anunciaram seu apoio ao candidato de direita mais votado, Javier Milei, destacando que adotaram esta decisão devido ao seu anti-kirchnerismo, para além das suas coincidências ou discrepâncias programáticas.

No entanto, tanto no LLA como no JxC, surgiram divergências com as respectivas lideranças partidárias sobre o acordo assinado entre os líderes de ambas as forças. Por um lado, figuras-chave do partido de Milei desertaram abertamente para o lado de Massa devido a submissão a Macri; e, por outro lado, os líderes históricos do Partido Radical opuseram-se abertamente ao perigo para a democracia que o ultradireitista representa.

Uma ampla frente contra Milei surgiu de vários setores sociais que temem uma redução dos direitos individuais e coletivos num possível governo de extrema direita. Nos últimos dias de outubro e primeiros dias de novembro foram divulgados diversos manifestos de escritores, intelectuais e artistas contra o voto em Milei. Por exemplo, numa declaração intitulada “40 anos após a recuperação da democracia e em defesa das instituições”, mais de 3.000 escritores, intelectuais e artistas argentinos e estrangeiros expressaram a sua “preocupação com o futuro da democracia argentina” e apelaram ao voto em Sergio Massa “neste momento crucial para o país ”. E quase simultaneamente, outro grande grupo de pesquisadores, pensadores e escritores também se manifestou no mesmo sentido. Num comunicado admitem o seu desacordo com “a trajetória de Massa, os erros da sua gestão econômica e a ambiguidade das suas propostas podem gerar sérias dúvidas e receios”, embora considerem necessário “estabelecer um cordão democrático contra os perigos de uma deriva autoritária encarnada por Milei”.

Da mesma forma, em 5 de novembro, foi publicado um manifesto intitulado “Não vote em Milei: vamos barrar a extrema direita ”, assinado por intelectuais e economistas de esquerda extremamente críticos da política econômica de Massa: “Aqueles de nós que subscreveram esta declaração têm denunciado e enfrentado todas e cada uma das medidas antipopulares deste governo, bem como o pagamento da dívida e o acordo com o FMI, e temos lutado nas ruas contra estas políticas”. No entanto, os signatários rejeitam a ideia do voto em branco porque se tornou um refúgio para a direita insatisfeita com os pactos entre ambas as forças, e concluem que a prioridade atual não é outra senão deter a extrema direita.

Outros amplos setores sociais, desde o movimento feminista até setores da Igreja, fizeram campanha contra os cortes de direitos anunciados pelo candidato da extrema direita.

Desta forma, mais do que a alternância de governo entre dois partidos, o que se decide neste segundo turno eleitoral é a aceitação ou rejeição de um modelo de país democrático, baseado na base social do conhecimento e dos direitos humanos, ou muito autoritário, apoiado por a imposição de ideias mágicas e a repressão da dissidência. Este é o grande desafio que a Argentina enfrenta nestas cruciais eleições.

Razões profundas: A vitória de Milei e o desafio de decifrá-la

Gláuco Faria, Outras Palavras

O desencanto com a democracia e o crescimento dos valores individualistas estão na base do desastre argentino. Mas atenção: novo presidente já aprofunda acordos com a “casta” que jurou combater – o que abre enorme brecha para desmascará-lo


Javier Milei é o presidente eleito da Argentina. Na noite do domingo (19), muitos brasileiros nas redes sociais identificavam um “gatilho”, lembrando das eleições brasileiras de 2018. Aliás, ainda que em contextos e momentos diferentes, a vitória do candidato do La Libertad Avanza guarda números bastante similares aos de Bolsonaro. Com 99,3% das urnas apuradas, ele tem 55,7% contra 44,3% de Massa, enquanto o então candidato do PSL havia derrotado Fernando Haddad por 55,13% a 44,87%.

O clima semelhante também pode ser visto entre os apoiadores de um e de outro. Em entrevistas com pessoas presentes na festa de Milei falavam sobre a crise econômica, corrupção, a necessidade de “mudança”, a “casta política” e outros termos para justificar seu voto que também remetiam ao Brasil de cinco anos atrás.

E assim como Bolsonaro teve junto dele parte da elite política e econômica brasileira no segundo turno das eleições presidenciais, o presidente eleito argentino também se juntou à parte da mesma “casta” que tanto atacou no primeiro turno ao se aliar ao ex-presidente Mauricio Macri. Este, após ver sua candidata Patricia Bullrich ficar fora do turno final, viu no ultradireitista uma tábua de salvação para manter seu protagonismo político e representar na Casa Rosada os interesses econômico-financeiros que nortearam seu mandato.

“A Argentina tem que se comprometer, e é parte central da plataforma de Milei, assim como da nossa, com a redução estrita e urgente dos gastos públicos para equilibrar as contas. A partir daí, abrir o país, como fez a Colômbia”, disse Macri em uma entrevista recente. Como dito aqui, é nesse ponto de contato que os neoliberais deixam pudores de lado para namorar o fascismo e essa aliança ocasional pode acabar freando os ímpetos mais extremos de Milei em um primeiro momento.

No Congresso Nacional, Milei tem 12% dos deputados e 11% dos senadores, além de não ter nenhum governador eleito pelo seu partido. Por conta, Macri pode ser tornar o grande fiador de seu governo, mas o novo presidente teria que renunciar a suas promessas da campanha. Seguiria um receituário clássico neoliberal no continente, com austeridade fiscal e cortes de gastos públicos, sem a dolarização, mas com uma liberalização ainda maior do uso da moeda estrangeira na Argentina. Nada de acabar com o Banco Central, por exemplo.

Na área econômica, é difícil não ver a concretização de qualquer proposta defendida por Milei como um passo adiante em direção à ruína, como em seus ataques ao Brasil e à China. Hoje, estima-se que metade das reservas do país venha de operações de swap cambial com o país asiático, o que tem permitido ao país honrar os serviços da dívida com o FMI. E trata-se de uma evidente concessão chinesa ao país sul-americano, já que esse tipo de operação serve apenas para viabilizar acordos comerciais, o que não é o caso.

Ainda não se sabe qual Milei assumirá o governo, se em sua versão radical ou a moderada do segundo turno, já sob as amarras do que convencionou chamar de “casta”. É muito provável que adote o figurino de outros, que contempla manobras diversionistas para chamar a atenção e mobilizar parte da sociedade, enquanto promove medidas econômicas que não têm apelo popular. O problema é que a economia foi central no resultado das eleições argentinas. Pode ser que não haja diversionismo suficiente.

O mapa da eleição

Os resultados do segundo turno mostram uma vitória de Javier Mile em quase todo o país. Ele foi derrotado por Sergio Massa em apenas três províncias: Buenos Aires, Santiago del Estero e Formosa.

É na província de Buenos Aires, maior reduto do peronismo e onde o Juntos pela Patria esperava reduzir a diferença a favor de Milei no interior do país, que reside a grande decepção da campanha do ministro da Economia. Com 13.110.768 eleitores, a província tem 37,04% do total de votantes da Argentina. O triunfo foi apertado, 50,73% a 49,27%, e Massa subiu apenas oito pontos em relação ao primeiro turno, enquanto seu rival conquistou 23,4 pontos a mais.

E não foi por falta de empenho do governador reeleito Axel Kicillof, que tomou para si a responsabilidade de comandar a campanha que aumentasse a vantagem para Massa. Contudo, a transferência massiva de votos de Patricia Bullrich para Milei acabou anulando o esforço peronista.

Na segunda província mais populosa, Córdoba, a derrota foi expressiva: Milei chegou a 74,05%, subindo mais de 40 pontos em relação ao resultado do primeiro turno.

O voto pela “mudança”

A eleição de Milei remete a dados divulgados pelo cientista político e professor de ciência política e relações internacionais na Universidade do Sul da Califórnia Gerardo Munck. Em 18 eleições realizadas na América Latina desde 2019, em apenas um país, o Paraguai, o governo de turno saiu vitorioso. Em todos os outros a oposição venceu.

Ainda que necessite de maior aprofundamento para analisar os diversos fatores que explicam isso, a economia e o bem-estar das pessoas têm papel central na derrota de muitos desses governos, mas não só. A expansão de uma visão de mundo mais individualista e imediatista, onde a insatisfação brota de forma rápida, também pode explicar o porquê de a “mudança” ser uma palavra-chave nas eleições da região. E o que representaria mais a expressão do que aqueles que se dizem antissistema?

O desencanto com a política e esse caldo cultural, juntos, levam não só extremistas ao poder como os consolidam como personagens importantes mesmo estando fora de governos. São diversos personagens que emergiram e influem no cenário, levando muitas vezes políticos ditos moderados a posições extremistas. É o seu triunfo, mesmo quando derrotados nas urnas.

É um desafio enorme para a esquerda, mas também para qualquer segmento político fora desse espectro que se importe minimamente com arranjos democráticos. A disputa política não é mais a mesma, e não voltará a ser.   

Glauco Faria

Glauco Faria é jornalista, ex-editor-executivo de Brasil de Fato e Revista

Fórum, ex-âncora na Rádio Brasil Atual/TVT e ex-editor na Rede Brasil Atual.

Co-autor do livro Bernie Sanders: A Revolução Política Além do Voto (Editora

Letramento). Leia outros artigos no Substack (https://glaucofaria.substack.com/)


Javier Milei cresceu porque o peronismo explica uma sociedade que não existe mais

Giovana Guedes, Intercept

As eleições na Argentina chegam ao fim neste domingo, quando a população enfim decidirá entre os candidatos à presidência Javier Milei e Sergio Massa – ambos economistas em um país cuja principal pauta é, justamente, econômica. O anarcocapitalista Milei não passa da versão argentinizada do populismo de extrema direita que varre o mundo. Mas há algo particular nesta guinada ultraconservadora no país: a superação (ou não) do peronismo.

Ideologia que remonta aos anos 1940, o peronismo é tido como um sistema político em si e se aproxima de um estado de bem-estar social. Prioriza a soberania política, a independência econômica, o trabalhismo e a justiça social. Seus maiores representantes no século 21, Néstor e Cristina Kirchner, governaram a Argentina entre 2003 e 2015, após a reação em massa contra as condições em que os governos liberais haviam deixado o país

A indústria nacional enfraquecida, o desemprego massivo, a pobreza acima de 30% e o surgimento das “cuasimonedas” em circulação no país, que funcionavam como moedas alternativas ao peso, são alguns exemplos da deterioração argentina à época.

Os Kirchner voltaram às premissas dogmáticas do peronismo. Retomaram a ideia do estado forte e presente, estatizaram empresas e garantiram ajuda econômica e social aos mais fragilizados. Sua gestão acabou rendendo um movimento em si, expansão do peronismo. 

O kirchnerismo aprendeu a captar novas agendas e dialogar com outras identidades da sociedade que antes eram escanteadas: juventudes, mulheres, LGBTQIA+, mães, etc. O peronismo, apesar de reconhecer esses setores, se baseava na dicotomia trabalhadores versus empresas – e na garantia de direitos para os trabalhadores.

Muito comparado ao lulismo, o kirchnerismo cria uma polarização na Argentina há anos. Os kirchneristas acreditam na interferência do estado para garantir uma distribuição equitativa, enquanto outro setor vê como um atraso o número de impostos e regulações. De qualquer forma, o kirchnerismo foi escanteado nestas eleições.

O peronismo se consolidou, na prática, como a única via progressista viável na Argentina e voltou aos holofotes. Mas não podemos esquecer da roupagem à direita que o partido criado por Juan Domingo Perón já vestiu.

Carlos Menem, que ao ser eleito em 1989 também comandava o Partido Justicialista, foi um dos presidentes mais liberais do país. Tido como referência por Milei, Menem foi responsável por medidas como a venda das maiores estatais argentinas. “Nada que deve ser estatal permanecerá nas mãos do estado”, disse seu ministro de Obras e Serviços Públicos, Roberto Dromi, em 1989. 

Em um primeiro momento, essas manobras pareciam levar a Argentina a um boom econômico, com a queda da inflação para 2% ao ano. A bonança deu tração à reeleição de Menem em 1995, mas logo as condições sociais do país cobraram a conta. Uma consequência do fechamento massivo de fábricas (a produção industrial passou de 32% a 17% do PIB argentino) e da flexibilização das leis trabalhistas.

Já Javier Milei, antiperonista e antikirchnerista, vai além ao propor a extinção do peso argentino e a adoção do dólar americano. O candidato  considera Domingo Cavallo, que liderou a economia sob Menem e alguns meses sob Fernando De la Rúa, um dos melhores ministros que o país já teve.

Cavallo foi uma das cabeças principais nas privatizações do governo Menem e no aprofundamento da dívida externa. Também foi o idealizador do “corralito”, manobra do governo De la Rúa que previa a intervenção do estado para salvar os bancos privados de uma quebra.

A medida foi tomada após uma contínua queda da economia argentina. Em 2001, a dívida externa do país já somava 144 bilhões de dólares, contra os 60 bilhões de 1991. O país começou a sofrer com sanções vindas do Fundo Monetário Internacional, que temia que a Argentina não pagasse suas dívidas.

Em flerte com Milei, Argentina encara o mito da moderação

Bruno Boghossian, Folha 

Após o primeiro turno, Javier Milei se reuniu em segredo com Mauricio Macri. O ultradireitista pediu (e levou) o apoio do ex-presidente argentino, que indicou economistas para a campanha do aliado. No jantar, falou-se de um governo de cooperação em caso de vitória, mas Milei se esquivou desse plano em público.

O candidato populista passou a última etapa da campanha na Argentina encenando o conhecido espetáculo de equilibrismo dos histriões da política. Buscou o abraço do establishment de direita e tentou envernizar um programa de governo explosivo, mas teve o cuidado de não afastar o eleitorado que se deixou seduzir pelo barulho original.

Houve quem comprasse o mito da moderação. Terceira colocada na votação de outubro, Patricia Bullrich explicou seu apoio a Milei como se apostasse que ele é apenas um exibicionista que não fará o que diz.

A ex-ministra argumentou que as propostas de Milei para liberar armas e a venda de órgãos haviam sido distorcidas. Em entrevista ao jornal O Globo, ela ainda tratou como fantasia a ideia da dolarização, ponto-chave da agenda econômica do político ultraliberal. "Temos um olhar mais real sobre o tema", declarou.

Javier Milei, candidato à presidência da Argentina, ao lado da ex-ministra Patricia Bullrich - Matias Baglietto/REUTERS

A direita tradicional passa um pano para Milei com o objetivo de ocupar espaços no poder caso ele seja eleito. O candidato e sua turma, no entanto, não escondem quem vai se sentar à mesa nessa coalizão.

A próxima vice-presidente poderá ser uma apologista da ditadura militar argentina. Um dos principais deputados eleitos no grupo de Milei já defendeu o uso das Forças Armadas para conter eventuais protestos contra o ajuste econômico feito por um futuro governo. O próprio candidato chegou à reta final da campanha espalhando suspeitas de fraude nas urnas, sem apresentar provas.

Muitos eleitores de Milei estão dispostos a comprar seus delírios pelo valor de face. Mas o ultradireitista só terá a maioria dos votos neste domingo se conseguir o apoio daqueles que estiverem dispostos a endossá-lo como um cheque em branco.

Argentina enfrenta piora na economia, mas mantém índices sociais melhores que o Brasil

Laís Carregosa, Nathalia Sarmento, G1

Os argentinos vão às urnas neste domingo (19) para escolher o novo presidente do país, numa disputa entre o ultraliberal Javier Milei e o atual ministro da Economia, Sergio Massa.

Qualquer que seja o candidato eleito, ele deve encontrar uma economia deteriorada que pode afetar os bons indicadores sociais do país, segundo o professor de economia da Universidade de São Paulo (USP) Márcio Bobik.

Hoje, a Argentina apresenta uma inflação acumulada no ano de cerca de 120%, com pouco mais de 40% da população dentro da linha da pobreza, segundo os dados mais recentes do governo.

“O Brasil está até relativamente bem por conta da sua relativa estabilidade macroeconômica. Estamos com a inflação sob controle, ainda que o governo tenha problemas de déficit, tem aí uma pauta de reforma caminhando. Mas a Argentina não tem, então realmente é bem complicado, a questão social tende a piorar lá, sem dúvida”, afirmou Bobik.

Economia

A inflação acumulada neste ano na Argentina é de 120%, segundo o último boletim divulgado pelo Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec), do Ministério da Economia argentino. Já no Brasil, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumula alta de 3,75% em 2023, segundo os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A inflação está relacionada ao poder de compra das pessoas. Se ela aumenta, o poder de compra diminui. Esse impacto é maior para quem recebe salários menores, já que os preços dos produtos e serviços aumentam sem que o salário acompanhe o crescimento.

O risco-país é um indicador que mede a confiança do investidor, que tende a buscar países com maior credibilidade.

Na Argentina, esse risco hoje é de 4.177,5 pontos. Em 2022, a média foi de 2.061,8 pontos. Já o Brasil apresenta um risco de 157,7 pontos atualmente, contra 254,42 em 2022. Os dados são do economista Victor Beyruti, da Guide Investimentos, a pedido do g1.

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O Produto Interno Bruto (PIB) argentino foi de US$ 632,7 bilhões em 2022, segundo dados do Banco Mundial. O resulta apresenta uma recuperação da atividade econômica que retornou a um patamar semelhante a 2017, quando foi de US$ 643,63 bilhões.

O PIB é a soma de todos os bens e serviços produzidos no país e serve para medir a evolução da economia. Na Argentina, o indicador apresentou quedas sucessivas em 2018, 2019 e 2020, recuperando-se em 2021 e 2022.

Já o PIB brasileiro foi de US$ 1,92 trilhão em 2022. O indicador teve pico em 2011, quando somou US$ 2,62 trilhões. A crise econômica de 2015 e a pandemia de 2020 derrubaram o PIB a US$ 1,8 trilhão e US$ 1,48 trilhão, nessa ordem.

Javier Milei, candidato da extrema direita à presidência da Argentina, defende dolarizar a economia — Foto: Agustin Marcarian/Reuters

A Argentina tem várias cotações de dólar, como o dólar turista para viajantes argentinos que compram no exterior ou o dólar vaca muerta para o setor de petróleo e gás natural.

Há também um dólar paralelo ao oficial, conhecido como “dólar blue”, cujas transações acontecem sem fiscalização ou acompanhamento do Banco Central argentino.

O governo do país congelou a cotação do dólar oficial em agosto deste ano e na última quarta-feira (15) anunciou uma depreciação para 353,05 pesos.

Segundo levantamento do economista Victor Beyruti, a cotação média do dólar em 2022 foi de 130,65 pesos para US$ 1, contra 261,94 pesos para US$ 1 na média em 2023. Já a cotação no Brasil foi de R$ 5,01 em 2023 e de R$ 5,17 em 2022, em média.

Desenvolvimento social

O Brasil é uma das maiores economias do mundo, mas o PIB per capita é 34% menor que o da Argentina. De acordo com dados do Banco Mundial, o Brasil registrou PIB per capita de US$ 8.917,7 em 2022, contra US$ 13.686 da Argentina.

“Na verdade, é até uma contradição. Olhamos a economia argentina em crise, mas quando olhamos os indicadores sociais em relação a Brasil particularmente a gente percebe que a Argentina está na frente em vários indicadores. [...] O PIB per capita fica abaixo da Argentina, a Argentina acumulou um crescimento ao longo da sua história, com problemas talvez distributivos e sociais menores que os do Brasil”, explicou Bobik.

Contudo, a crise econômica argentina tem elevado o número de pessoas abaixo da linha da pobreza. Em setembro, o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos da Argentina (Indec) apontou aumento de 0,9% entre o segundo semestre de 2022 e o primeiro de 2023.

Ao todo, aproximadamente 11,8 milhões pessoas estão abaixo da linha da pobreza, o que representa 40,1% da população do país. No Brasil, esse percentual é de 29,4%, segundo dados de 2021 do IBGE.

“Se a economia não cresce e você tem problemas fiscais, o Estado perde a capacidade de tentar minimizar esses problemas sociais”, afirma Bobik.

O Brasil ocupa a 87° posição no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), calculado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2022.

O país tem um IDH de 0,754, enquanto a Argentina permanece trinta posições acima, em 47° lugar com IDH de 0,842. O relatório de desenvolvimento é baseado em critérios de saúde, educação e renda.

O país vizinho tem indicadores melhores de expectativa de vida, mortalidade de recém-nascidos e analfabetismo, por exemplo.

Lá, as pessoas vivem em média 75 anos, enquanto no Brasil a expectativa é de 73 anos, segundo informações de 2021 do Banco Mundial. A taxa de mortalidade é de 6% a cada 1.000 recém-nascidos na Argentina, contra 13% no Brasil.

Embora esteja desatualizado, o percentual de analfabetismo é baixo, de 1,9% da população, segundo dados do censo de 2010. No Brasil, em 2022, 5,6% da população era considerada analfabeta de acordo com o IBGE.

Para o professor da USP, o processo de formação econômico e social dos dois países explicam a diferença nos indicadores sociais.

“Também ao longo de sua história, houve uma preocupação do estado em prover educação e isso melhora os indicadores sociais. Então, isso explica essa aparente contradição. Mas também tem outra questão: os indicadores do Brasil são muito ruins”, explicou Bobik.

Por que o governo brasileiro acompanha de perto as eleições na Argentina

Felipe Matoso, Ana Paula de Castro, Globo

O governo brasileiro se interessa e acompanha de perto a eleição presidencial da Argentina, marcada para este domingo (19). Alguns dos motivos para essa atenção são o comércio bilateral entre os dois países, a entrada da Argentina no Brics e a importância do país vizinho na estrutura do Mercosul.

Os candidatos que disputam o segundo turno são o peronista Sergio Massa, atual ministro da Economia, e o economista Javier Milei, ultraliberal que se define como um anarcocapitalista.

O governo brasileiro não diz publicamente com todas as letras, mas prefere que Massa ganhe. As posições ideológicas dele são mais aproximadas com as do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e um governo do atual ministro da Economia manteria as boas relações entre Brasília e Buenos Aires, retomadas com a volta de Lula ao poder.

Mas o presidente brasileiro não quer se comprometer abertamente, para não derrubar pontes no caso de vitória de Milei.

"O Brasil precisa da Argentina e a Argentina precisa do Brasil. Dos empregos que o Brasil gera na Argentina e dos empregos que a Argentina gera no Brasil, do fluxo comercial entre os dois países e de quanto nós podemos crescer juntos", afirmou Lula na última semana.

"Para isso é preciso ter um presidente que goste de democracia, que respeita as instituições, que goste do Mercosul, que goste da América do Sul e que pensa na criação de um bloco importante", completou Lula.

Para o embaixador Marcos Azambuja, ex-secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores e conselheiro emérito do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI), Brasil e Argentina têm uma relação "virtuosa" que precisa ser mantida, independente do resultado das eleições.

“O Brasil tem que reconhecer quem quer que seja o candidato [vencedor das eleições na Argentina], tem que respeitar a escolha e agir de maneira prudente, para que a política seja de aproximação, não de confronto”, disse o embaixador.

Veja abaixo os motivos que tornam a eleição na Argentina importante também para o Brasil.

Parceria comercial

De janeiro a outubro deste ano, as exportações brasileiras para a Argentina somaram US$ 14,9 bilhões. Isso corresponde a 5,3% do valor total exportado pelo Brasil no período.

Para comparação, esse valor é superior às exportações brasileiras no período para o Oriente Médio (US$ 12,2 bilhões) e para a África (US$ 10,8 bilhões).

Além disso, a Argentina responde por 40% das exportações brasileiras para a América do Sul (US$ 37 bilhões) e quase 73% das remessas para o bloco do Mercosul (US$ 20,5 bilhões).

Principais produtos exportados para os argentinos entre janeiro e outubro:

“O Brasil tem interesse permanente em uma Argentina próspera e Argentina em um Brasil forte. Os dois têm interesse porque a vantagem é recíproca. Quando o Brasil enriquece, compra mais, viaja mais, nós temos uma relação virtuosa", explicou.

No caso das importações, a Argentina fica em quarto lugar no ranking de países que mais vendem para o Brasil.

Entre janeiro e outubro, o Brasil importou US$ 10,2 bilhões da Argentina - 5% do valor total importado pelo Brasil no período.

Entre os itens mais importados do país vizinho, estão:

Mercosul

Lula defende o fortalecimento do Mercosul, grupo que reúne Brasil, Uruguai, Argentina e Paraguai. Em sua concepção original, o Mercosul previa uma progressiva derrubada de barreiras para circulação de produtos, dinheiro e pessoas, em prol da integração e do desenvolvimento regional. O grupo, no entanto, vem enfrentando dificuldades nos últimos anos, em razão de crises econômicas e divergências de seus membros.

No entendimento do governo brasileiro, o avanço do Mercosul ainda é uma alternativa valiosa para o crescimento das economias do continente.

Não é o que pensa Milei. Após as primárias de agosto, o candidato afirmou que o Mercosul "deve ser eliminado" e que vai priorizar relações com Estados Unidos e Israel.

Fontes da diplomacia brasileira afirmam que o governo quer ver concluído, no início de dezembro, o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia. As negociações se arrastam há anos. Para o governo, o ideal seria anunciar o acordo na cúpula do Mercosul, que ocorrerá nos dias 6 e 7 de dezembro. A posse do novo presidente da Argentina vai ser no dia 10.

A pressa tem a ver com uma eventual vitória de Milei. Diplomatas temem que, nesse caso, o acordo fique estagnado.

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Brics

A Argentina é um dos países que passarão a integrar o grupo dos Brics a partir de janeiro de 2024.

O grupo foi fundado em 2006, com Brasil, China, Rússia e Índia, consideradas algumas das principais economias emergentes do mundo. O presidente Lula estava então em seu primeiro mandato e participou ativamente da criação do grupo.

Depois, em 2011, o Brics passou a contar com a África do Sul. Em agosto de 2023, foram convidados outros 5 países, além da Argentina, que entrarão no Brics no ano que vem:

Para Lula, que busca investir em estreitar laços com as economias em desenvolvimento, e não só com os países mais ricos do mundo, é importante que os integrantes dos Brics tenham pensamento parecido com relação aos objetivos do grupo. Se Milei passar a fazer parte dos líderes dos Brics, o bloco pode perder força.

Cinema argentino repudia Milei

A campanha de Javier Milei prometeu, em meados de agosto, fechar o INCAA, provavelmente a instituição mais bem sucedida na história da Argentina. Pois ontem (2), na abertura do Festival de Mar del Plata, veio a resposta do cinema argentino ao Bolsonaro 2.0. Uma linda resposta! Assista...

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# Leia o artigo de Valério Arcary em A Terra é Redonda

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